25.11.09

A LOURA DO ELEVADOR

Cheguei há pouco da rua. Não sei a temperatura exata, mas posso dizer, sem medo do erro, que a sensação térmica é de 40 graus pra cima. O bafo que vem do asfalto, a visão de homens e mulheres com discos escuros debaixo dos braços, testas que pingam como lágrimas dos olhos das carpideiras - tudo piora a tal sensação térmica. Mas não é, meus poucos mas fiéis leitores, sobre o calor senegalês que sufoca o Rio de Janeiro que quero lhes falar. Não. É sobre uma loura com quem cruzei no elevador quando saía em direção ao Tribunal. Saí do elevador com o lenço na boca à moda de um dique impedindo a explosão da gargalhada que só me foi possível na Erasmo Braga. Chamei meu irmão Fernando Szegeri pelo rádio e fui efusivo:

- Acabei de ver nascer uma personagem!

Pausa.

Fernando José Szegeri, o homem da barba amazônica, para assombro de quem o conhece, está, desde a manhã de hoje, fazendo das suas no TWITTER. E se até o Moacyr Luz fez o patético apelo diante dos jornais (vejam aqui) para angariar seguidores (no momento a partida está MARIA RITA 68.164 X 527 MOACYR LUZ), por que não posso eu fazer o mesmo por aqui em prol do meu amigo? Sigam Fernando Szegeri pelo TWITTER! AQUI! AQUI! AQUI! Dito isso, vamos em frente.

Deu-se o seguinte.

Saí de minha sala de paletó, gravata, pasta na mão e chamei o elevador. Embarquei. Dois homens já estavam em seu interior. O bicho parou no sexto andar. Foi quando entrou a loura do elevador. De tailleur, uma pasta grifada nas mãos, foi efusiva:

- Boa tarde, gente!

O coro respondeu.

Foi quando a loura do elevador (como uma autêntica piadista de elevador, entendam isso aqui), mirando seus olhos nos meus (embora eu não pudesse ver seus olhos, ela usava uns óculos escuros imensos), disse abanando-se vigorosamente com sua pasta:

- Horrível ir pra rua com um calor desses, né?! - e deu de guinchar sozinha, batendo o saltinho do scarpin no piso de granito.

Eu, simpaticíssimo, disse:

- É.

E ela, agora mostrando os dentes, enormes como os dentes de uma coelha do Maurício de Souza, e fazendo movimentos, impossíveis de descrever, com o cabelo:

- Pra gente que sai do escritório fresquinho, né?! - deu saltitos.

Eu, já a um passo de saltarmos todos, tentando ser mais simpático ainda:

- É... minha sala está feito a Sibéria...

Foi quando nasceu a personagem. A loura do elevador, levando a mão à boca - numa máscara de espanto e dó absoluta - disse franzindo a testa:

- Seu ar-condicionado quebrou?! Que horror!

Saltamos.

E eu ouvi, já na portaria, o último guincho da gênia:

- Sibéria foi ó-ti-mo! Boa sorte, doutor! - e deu de gargalhar, como uma parva.

Até.

EGO DO BUTECO

O inconcebível, inacreditável e insuperável (pelo que guarda de imbecilidades) site EGO, excrescência cibernética hospedada nos domínios da GLOBO.COM (onde mais?, onde mais?) publicou hoje uma notícia (notícia?) envolvendo a ... (não sei o que ela faz...) Isis Valverde. O tal site conta que "Isis Valverde exibe tatuagem em evento de moda". É ou não é uma tremenda e bombástica notícia? (vejam aqui).

O EGO DO BUTECO, mantendo seu compromisso de lançar luzes sobre gente (e tatuagens) infinitamente mais interessantes que a gente exibida pelo tal site, também mostra, hoje, uma celebridade que, tal e qual Isis Valverde, também exibiu sua tatuagem em um evento foda (e não de moda).

26/04/09 - 12h46min

Flagrado conversando com convidados da festa de 40 anos de um de seus grandes amigos, em abril deste ano, Luiz Antonio Simas exibe a tatuagem que retrata um dos heróis da revolução cubana.


Luiz Antonio Simas entre amigos, 26 de abril de 2009, foto de paparazzo contratadoLuiz Antonio Simas entre amigos, 26 de abril de 2009, foto de paparazzo contratado

"Eu acho o Simas um charme, sabe? Carequinha linda, olhos claros, atarracadinho, e com esse gostoso tatuado na batata da perna, ai...", suspirou uma das garçonetes que trabalhava durante a festa, enquanto brincava com a esposa do professor.

DO DOSADOR

* O Fluminense enfrenta a LDU hoje à noite pela primeira partida da final da insignificante Copa Sul-Americana, em Quito. A Copa, diga-se, deixa de ser insignificante apenas para o Fluminense que tentará, na quarta-feira que vem, no jogo da volta, vingar-se de decepção aguda que sofreu no ano passado, quando perdeu o jogo final, da Libertadores, para a mesmíssima LDU no Maracanã (será uma vingança minúscula, eis que a Libertadores é a Libertadores). E já que falei em insignificância, posso apostar que a torcida tricolor, essa torcida historicamente dada a afetações, montará um patético mosaico para superar (sem êxito, digo desde já) a papagaiada armada pela torcida do Flamengo no domingo passado, no jogo contra o Goiás - vejam aqui;

* falei em insignificância e quero lhes contar sobre dois comentários extremamente significativos feitos no texto O BAR DO CHICO ACABOU, aqui. Um deles feito pelo Angelo, mais-que-freqüentador do bar e meu colega de colégio. Ele mora na Pardal Mallet e era daqueles que podia ser encontrado todos os dias bebendo sua mofada na calçada. O outro, feito pelo Cesar Tartaglia, que chegou a dar nome a um dos pratos do buteco e que também não esconde sua profunda decepção. Vamos a eles:

"NÃO EXISTE MAIS CERVEJA GELADA NO CHICO!!! EM DIA E EM HORÁRIO NENHUM!!!"

"Edu, logo que o Chico inaugurou o puxadinho, o Felipinho me mandou um e-mail, triste da vida. Tomo a liberdade de reproduzir aqui a minha resposta pra ele: "Havia um tempo não ia ao Chico, e resolvi ir almoçar lá dois dias depois de ele ter inaugurado o troço. Levei um susto, claro - mas de certa forma já esperava algo do gênero. Infelizmente, ele optou por alanchonetar o puxadinho. Mas mesmo nao tendo gostado do que vi, pensei lá com meus botões: "Bem, pelo menos a cerveja e a comida nao devem ter mudado". Ledo ivo engano, como diria o Jaguar: quando um daqueles borboletas veio me atender, de um jeito completamente diferente como o faziam o Antonio, o Chicão, o Cildo, aqueles nossos garçons, eu pedi uma mofada. Ele ficou me olhando com uma cara assustada - certamente jamais servira uma cerveja mofada, como aquelas que a gente só bebia no Chico. Expliquei o que era, e ele me volta com uma Brahma lisa. Só de olhar vi que cerveja mofada havia virado coisa do passado. Dei um crédito de confiança, pedi outra - com a ressalva de que o Cabeça, que estava no balcão, sabia como eu gosto da cerveja. Necas, veio do mesmo jeito, pouco gelada, nada que lembrasse nossas garrafas congeladas. Resolvi conferir a comida. Pedi o cardápio, e vi que já nao sou mais nome de prato. "Fazer o quê?", pensei. Pedi a minha carne de sol, meia porção - que antes vinha numa quantidade que dava pra três. Vieram umas tiras grossas, sem graça, um montinho de nada de carne. Desisti, comentei com quem estava comigo que eu estava desiludido e que havia acabado de perder meu buteco. Voltei lá uns dias depois, dando mais um crédito - "Eles estao enrolados com o serviço novo", concedi. Por via das dúvidas, me sentei na calçada da Afonso Pena, de frente apenas pros azulejos coloridos e pras fotos que fariam a alegria do Ego do Buteco do nosso Edu (será que elas ainda estão lá?), tirando o puxadinho da minha visão. Pedi novamente uma mofada e nada. Desisti. Acabei a Brahma e fui embora. Eu gosto do Chico, é um cara bacana, e torço pra que ele se dê bem na vida. Mas meu buteco, sinceramente, acho que nao existe mais. Felipe, isso é triste pra nós, que sabemos o quanto um buteco de responsa é importante pra temperar amizades, ou pra dar vida a uma esquina, um bairro. No caso do Chico, eu particularmente sinto uma pontada no coração porque era ali que, todo fim de semana, eu me sentava com meu irmao pra tomar nossa cerveja. Depois que ele morreu, eu passei a ir menos por lá, mas mesmo assim sempre que ia me sentava na mesma mesa onde nós dois, eventualmente com filhos, namoradas etc, costumávamos tomar nossa mofada e comer nossa carne de sol, nossa moela e botar o papo em dia. Agora nem essa lembrança do meu irmão eu posso mais guardar. Uma pena"."

Tristíssimo, como se vê;

* falei em insignificância e quero dividir um troço com vocês. Conheço alguns fundamentalistas do PSOL que deixaram de falar comigo (notem como são democratas) por conta de minhas críticas ao comportamento do partideco que é e à musa de todos eles, Heloísa Helena. Quando ainda me dirigiam a palavra, diziam depois das sessões de lobotomia na rua do Rosário: "A Heloísa Helena está muito na frente da Dilma nas pesquisas! Espere pra ver!". Eu apenas ria - como uma hiena. E não é que acabo de saber que começaram as conversas entre o PV (do Zequinha Sarney) e o PSOL? E não é que acabo de saber que o PSOL, e conseqüentemente HH, irá apoiar a candidatura da Marina Silva? Diante disso, o que disse a vereadora de Maceió? Tirem as crianças da sala: "Não vamos nos render à medíocre matemática eleitoralista". Ah, não?! Então por que não sai candidata sozinha e toma uma surra como merecem os histéricos que berram sozinhos no Buraco do Lume às sextas-feiras? Como eu não tenho o menor talento para análises políticas mais aprofundadas, alguém me explica esse circo?;

* antes que alguém me acuse por excesso de ingenuidade, quero dizer que não tenho a menor esperança de receber qualquer resposta dos editores do cada vez mais podre jornal O GLOBO (como lhes contei aqui). Arrogantes como sempre, jamais se dignaram a explicar o plágio escancarado cometido por uma de suas empregadas, também editora de um dos cadernos do jornal. Talvez, quem sabe, eu consiga contato com Roberto Marinho numa sessão de espiritismo, de mesa branca, como diria meu mano Luiz Antonio Simas. Ele, que sempre esteve do lado errado segundo minha visão de mundo, pelo menos respeitava, ainda que minimamente (por mais que os mais radicais teimem em dizer que não), o jornalismo e o jornalista - e conseqüentemente o leitor de seu jornal. Hoje, ainda nas mãos da família Marinho, O GLOBO é um manancial de mediocridade. A opção preferencial das ORGANIZAÇÕES GLOBO é pela mediocridade. É a maneira mais fácil de ganhar dinheiro, jogando com a acomodação cultural e com a falta de apetite dos leitores e dos telespectadores para contestar essa lixo todo que de lá emerge. Estimular, implicita ou explicitamente, o ódio social, a discriminação, as manifestações que vemos tanto em reportagens quanto nas novelas ou nos programas de TV, é - estou seguro disso - opção muito bem pensada. E disso decorrem os absurdos que vemos, disso decorre a lástima que são os comentários dos leitores sobre assuntos como política, violência, favelas, direitos humanos, disso decorre essa degeneração generalizada do que seja a vida em sociedade. O lance, muitíssimo bem pensado, não é demais repetir, extremamente pernicioso, é pisar no pobre, incensar o bairro Leblon, massacrar a zona norte (ou, o que é a mesma coisa, fazê-la aparecer na mídia apenas como uma região folclórica a ser eventualmente visitada), disso decorrem coisas que podem parecer menores mas que fazem parte da mesma lavagem cerebral, da mesma lobotomia, como o incentivo às grifes de supostos botequins, o oba-oba com supostos gênios da música e até mesmo os altos elogios a figuras medíocres do futebol e de outras áreas. Dentro da estrutura atual do jornal, não vejo a quem reclamar com mínima esperança de obter uma satisfação. Seria o mesmo, disse-me um amigo dia desses, que procurar Robespierre e reclamar com ele do Terror na Revolução Francesa. O alto escalão das ORGANIZAÇÕES GLOBO é um covil de oportunistas. Os editores, por conseqüência, são seus cordeiros, e todos, deles, endeusados, estão ganhando muito bem e ficando cada vez mais milionários com essa opção pela mediocridade. Razão pela qual não paro de bater (sem qualquer sinal de ingenuidade, reitero). Bater, talvez, surta algum efeito. Nem que seja apenas no meu público leitor.

Até.

O MODUS OPERANDI EM O GLOBO

"O Globo acolhe opiniões sobre todos os temas. Reserva-se, no entanto, o direito de rejeitar textos com acusações sem provas, preconceitos de qualquer ordem, que promovam a violência ou que estejam em desacordo com as leis brasileiras. Os conteúdos publicados não expressam a opinião dO Globo."

É ou não um nojo?

Até.

24.11.09

NORMAS DO GLOBO ON LINE

O GLOBO ON LINE publicou ainda há pouco, às 15h25min, texto do leitor Marcio Alves intitulado "FAVELA CRESCE SILENCIOSAMENTE NO LARGO DA USINA" (aqui). Manso, o leitor joga o jogo que meu mano Fernando Szegeri pescou há anos: a bandeira verde escamoteia, em inúmeras situações, uma verdadeira ojeriza aos sem-teto, aos sem-terra, ao sem-nada. Vamos ao texto do leitor:

"A favela Dr. Catrambi, no largo da Usina (Tijuca), na subida do Alto da Boa Vista, tem crescido a cada dia. Ali é uma área verde, ligada à Floresta da Tijuca e de proteção ambiental. Mesmo assim, a favela cresce silenciosamente. Por sorte, ainda não temos problemas de tráfico de drogas. São moradores humildes, honestos, como a maioria dos moradores de favela. Não sou contra esses moradores. Eles são as maiores vítimas disso tudo. Afinal, a culpa da pobreza não é dos pobres! Mas tenho medo que esta favela se torne alvo de traficantes, assim como o Morro da Formiga e o Borel, próximos ao local. Será que só aí que os governos estadual e municipal vão tomar providências, agindo com patrulhas de choque policial? Não seria melhor a prevenção, evitando o crescimento deste local e dando uma vida digna a essas pessoas? E meu IPTU vai continuar o mesmo também? Quantas contradições e omissões!"

Valendo-se do mesmo expediente covarde e sujo do qual se vale (com a leniência do jornal) o sujeito que assina Frank_Bullitt (e que é, obrigatoriamente, assinante do jornal), outro covarde, também contumaz comentador do GLOBO ON LINE (e sempre carregando nas tintas do ódio e do preconceito) que assina DSmith comentou às 17h56min (os grifos são meus, os insultos são dele):

"Apelido: DSmith - 24/11/2009 - 17:56
Pode até não ter tráfico (ainda) no catrambi; agora, dizer que só tem gente honesta já é exagero. O que mais tem no catrambi é ladrão! Vários assaltos e saidinhas de banco são realizados por motoqueiros do catrambi no alto da boa vista e conde de bonfim. O filho do lídio de toledo foi baleado por uma gangue do catrambi no início do alto da boa vista. Recentemente a polícia prendeu no catrambi um sujeito que fazia saidinha de banco do largo da segunda-feira e matou um senhor que reagiu à abordagem... E não se engane, pois estes bandidos interagem com o borel e formiga livremente! Enfim, se vc não tem nada contra e acha que os favelados são vítimas, leve-os para construir seus barracos no seu quintal, pq o destino dessa e de todas as outras favelas da tijuca deveria ser o CHÃO, e seus moradores tinham que ser removidos pra bem longe, já que invadiram ilegalmente uma área de proteção ambiental."


Pateticamente, lê-se no GLOBO ON LINE:

"Normas para publicação:
O Globo Online reserva-se o direito de não publicar acusações insultuosas, mensagens com palavrões e comentários por ele considerados em desacordo com os temas tratados nesta página."


Diante da enxurrada abjeta de comentários do mesmo nível, temos que o jornal não considera tais comentários insultosos. Ou considera e seria, a equipe responsável pela triagem dos comentários, extremamente inoperante e incompetente? Ou, pior, conivente com esta prática?

Mais. Vejam uma das normas para utilização do sistema GLOBO ON LINE (os grifos são meus, a violação das normas parte deles):

"3.4. O USUÁRIO não poderá utilizar o serviço para propagar conteúdos que:

(a) violem a lei, a moral, os bons costumes, a propriedade intelectual, os direitos à honra, à vida privada, à imagem, à intimidade pessoal e familiar;
(b) estimulem a prática de condutas ilícitas ou contrárias à moral e aos bons costumes;
(c) incitem a prática de atos discriminatórios, seja em razão de sexo, raça, religião, crenças, idade ou qualquer outra condição;
(d) coloquem à disposição ou possibilitem o acesso a mensagens, produtos ou serviços ilícitos, violentos, pornográficos, degradantes;
(e) induzam ou possam induzir a um estado inaceitável de ansiedade ou temor;
(f) induzam ou incitem práticas perigosas, de risco ou nocivas para a saúde e para o equilíbrio psíquico;
(g) sejam falsos, ambíguos, inexatos, exagerados ou extemporâneos, de forma que possam induzir a erro sobre seu objeto ou sobre as intenções ou propósitos dos USUÁRIOS;
(h) violem o sigilo das comunicações;
(i) constituam publicidade ilícita, enganosa ou desleal, em geral, que configurem concorrência desleal;
(j) veiculem, incitem ou estimulem a pedofilia;
(k) incorporem vírus, ou outros elementos físicos ou eletrônicos que possam danificar ou impedir o normal funcionamento da rede, do sistema ou dos equipamentos informáticos (hardware e software) de terceiros ou que possam danificar os documentos eletrônicos e arquivos armazenados nestes equipamentos informáticos."


Vão tomando nota do modus operandi da canalha.

Até.

P.S.: acabo de enviar e-mail pedindo explicação para os responsáveis (ainda que por omissão) pela publicação de comentários desse teor, todos indicados no EXPEDIENTE do jornal O GLOBO, a saber: para o diretor de redação e editor responsável, Rodolfo Fernandes; para a editora executiva, Sonia Soares; para a editora do caderno PAÍS, Andrea Machado; para a editora do caderno RIO, Cláudia Meneses; e para os editores do jornal na internet, Claudia Moretz-Sohn e Eduardo Diniz. Vamos ver se recebo alguma resposta.

O DESSERVIÇO QUE O GLOBO PRESTA

Sem querer tirar a razão da leitora Renata S. de Castro, mais uma que se vale do jornal O GLOBO ON LINE para fazer suas queixas - apenas no que diz respeito ao absurdo que é um carro estacionado diante da garagem de seu edifício -, prestem atenção a seu raciocínio (grifado):

Para a leitora BAR e CERVEJA são sinônimo de CONFUSÃO e DESRESPEITO, o que sequer merece qualquer comentário.

Comentário merece é a postura irresponsável do jornal (que publicando uma coisa dessas dá a entender que concorda com o raciocínio estrábico), que dá voz e vez aos delatores eletrônicos (fomentando, assim, mais e mais denúncias), manter publicados comentários do seguinte nível, feitos no blog BAIRROS.COM. Vamos a alguns deles:

"Apelido: mcm - 24/11/2009 - 11:23
Custaria muito arranhar e esvaziar os 4 penus do carro? Garanto que o prazer de ver o cara voltando compensaria o custo de uma noite de carro em estacionamento pago.

Nome: Jorge Antunes Ramalho - 23/11/2009 - 22:16
O certo seria você chamar a galera do seu prédio, quebrar o vidro do carro, abrir a porta, soltar o freio de mão e empurrar o carro pro MEIO DA RUA ou pra alguma porta de hospital, delegacia, algo do tipo, assim quem sabe apareceria alguma "otoridade" que rebocasse o trambolho. Ah, e no meio disso tudo, deviam ter furado algum pneu ou riscado todo o carro, pelo menos.

Apelido: Frank_Bullitt - 23/11/2009 - 20:30
Eu furaria os quatro pneus do carro do animal."


E mais irresponsável ainda - já descambando para o terreno da mais absoluta falta de ética - é permitir comentários anônimos, para o público leitor, eis que assinados por APELIDOS, fato que o sistema de comentários do O GLOBO ON LINE possibilita. Ou seja, o jornal sabe quem são os covardes que assinam comentários dessa estirpe.

Não é o próprio jornal que diz que "só serão levadas em conta cartas com nome completo, endereço e telefone para contato, mesmo quando enviadas por e-mail"?????

Esse Frank_Bullitt, por exemplo (um contumaz covarde capaz de dar sugestões como a que transcrevi, acima), assina, inclusive, com freqüência, não apenas comentários no O GLOBO ON LINE, mas também cartas no GLOBO TIJUCA, publicado às quintas-feiras.

Quem é o (ir)responsável editor do O GLOBO ON LINE? E do GLOBO TIJUCA?

Vão tomando nota - como tenho dito sistematicamente - do modus operandi dessa gente.

Até.

ZAMPONE, A RECEITA

O programa já virou, e há muito, tradição. Almoço no SOLAR DOS ZAMPRONHA, na Tijuca, mais precisamente na região da Usina, é fabuloso na certa. Capitaneado por minha queridíssima Sônia e por seus rebentos, meus igualmente queridos Manguaço e Manguaça - ou André e Marcela, como a mãe, compreensivelmente, prefere - o SOLAR é refúgio de momentos inesquecíveis, como foi o almoço deste último sábado, 21 de novembro.

O troço deu-se assim: estava eu São Paulo, na semana anterior, quando meu irmão Fernando Szegeri, o homem da barba amazônica, resolveu me levar a um açougue que ele qualificara como o melhor de seu bairro. E o açougue é, de fato, fantástico. Situado na rua Guaricanga, na Lapa, o açougue oferece, além de um quantidade e uma variedade inacreditáveis de carnes, chope para seus clientes.

Vai daí que eu fuçava as carnes com um copo de chope na mão quando dei de cara com um embutido da CERATTI que eu nunca havia visto aqui no Rio de Janeiro, zampone. Disse eu, na hora:

- Vou levar pra cozinhar com a Sônia!

E comprei.

O zampone é, pra quem não sabe, uma especialidade do norte da Itália e seu nome vem da palavra zampa, pé em italiano. Trata-se do pé do porco recheado com carnes de porco frescas e especiarias, com o invólucro feito do couro do pé de porco. Tentador.

O furdunço começou, como também tem se tornado praxe, na sexta-feira à noite, que o zampone requer tempo, paciência e zelo no preparo.

O cenário na cozinha da Sônia era o mesmo de sempre: queijos na bancada, frios de todo tipo, a imprescindível garrafa de Red Label para me acompanhar durante o preparo, o uísque com guaraná da anfitriã, as cervejas da Marcela e começamos a brincadeira às nove da noite em ponto.

Vejam que belezura o zampone fora da embalagem à espera da agulha que irá prepará-lo para a panela!

zampone CERATTI
zampone CERATTI

Você vai precisar de uma agulha de responsabilidade, grossa, taluda, a fim de perfurar o couro do pé do porco. Será necessário fazer muitos furos em toda a extensão do zampone antes de colocá-lo na panela. Dividi a tarefa com a Sônia, entre goles fundamentais numa noite de calor.

Feitos os furos - muitos, não é demais repetir -, é hora de pôr o zampone dentro de uma panela razoavelmente grande para fazer o bichinho inchar, hidratado, e perder um pouco da gordura, que decorará, de maneira comovente, a água que irá guardá-lo. É importante observar, desde já, que o cozimento se dará nessa mesma água, exatamente 12 horas depois do mergulho n´água (e essas precisões eu respeito com aguda pontualidade).

zampone CERATTI

Às nove e meia da manhã do dia seguinte lá estávamos nós, de novo, diante do fogão.

Hora de retirar o zampone da panela - reservando a água! - e de embrulhá-lo, com cuidado para não partir, dentro de um guardanapo de pano, valendo-se de um barbante grosso ou algo do gênero. A Sônia, moderníssima, usou um elástico.

Entre o fogo - médio - e a panela, uma chapa de ferro.

Quando começar a ferver, é batata!

O zampone deverá ficar fervendo por rigorosas 3 horas, tempo necessário para prepararmos os acompanhamentos (purê de batatas e lentilha).

zampone CERATTI

A Sônia, generosíssima, começou a estender o cardápio. E decidiu, no meio da manhã, sair pra comprar pernil:

- Vai que alguém não come zampone, Edu!

E tome de temperar o pernil! Sal, limão, muito alho, cebola, pimenta-do-reino, salsinha, e o aroma descia a Conde de Bonfim fazendo com que ouvíssimos "ohs" e "ahs" vindos da rua.

Enquanto isso eu descascava as batatas para o purê e colocava a lentilha de molho na água com muitas folhas de louro e dentes de alho.

pernil

Preparados o purê e a lentilha (creio serem dispensáveis as receitas, bastando dizer que no purê não faltou noz-moscada ralada na hora e que a lentilha ficou al dente, como vocês poderão ver), chegou o momento de montar o prato.

Retirado o guardanapo de pano com intenso cuidado, cortamos o zampone em fatias de não mais do que 2cm e cercamos as rodelas (ficou bonito pra burro!) com o purê de batata de um lado e com a lentilha do outro.

zampone com purê de batatas e lentilha

O pernil, que assou na panela mesmo (ficou também monumental!), serviu para aqueles (poucos) que não tiveram coragem de encarar o zampone, acompanhado de uma farofa que só a Sônia faz (é, indubitavelmente, a melhor farofa que já comi).

pernil de porco com farofa

Um vinho tinto italiano da região da Toscana fez um bonito.

E a tarde foi, franca e sinceramente, dessas de não se esquecer.

Até.

TIJUCA, MINHA ALDEIA

23.11.09

DO DOSADOR

* sei que pode lhes soar como rabugeira minha, mas eu não me conformo com a papagaiada de mosaico no Maracanã. Vejam como é ridículo o não menos ridículo – arremedo de Galvão BuenoLuiz Carlos Júnior anunciando a entrada do time do Flamengo, ontem, pela TV: “Vem aí o mosaico, chegou a hora do mosaico rubro-negro!”. E depois, como uma criança histérica diante do puzzle novo, o grito: “Mais de noventa mil peças!”. Ridículo, vejam aqui. Essa síndrome de ursinho Misha (relembrem aqui), francamente, nada tem a ver com a torcida do Flamengo (ou, devo estar mais velho do que suponho..., com a velha torcida do Flamengo). Preocupar-se mais com o mosaico do que com o jogo (ou com a função precípua de toda torcida, qual seja incentivar o time sem parar) me parece tão lamentável quanto a preocupação maior com o limão do mictório em detrimento do limão da casa. Ontem ouvi uma única vez o tradicionalíssimo “Oh, meu Mengão! Eu gosto de você!”. Em compensação, guiado pelo placar eletrônico, a patuléia cantava uma versão tétrica de uma canção do não menos tétrico conjunto Mamonas Assassinas. Coerente, de certa forma. Assassinaram a alma da torcida rubro-negra;

* o Botafogo fez a sua parte e venceu o São Paulo. O Fluminense fez a sua parte e goleou o Sport na Ilha do Retiro. O Flamengo, diante de 89.999 peças – eu não fui peça em momento algum! – não fez a sua. Ao invés de cumprir o seu papel, ficou festejando o levantar dos papelões nas arquibancadas e nas cadeiras por um bando de deslumbrados e vaidosos mais preocupados com o mosaico do que com o jogo e o campeonato. Fez, isso sim, um papelão no Maracanã. Agora é torcer por outro improvável tropeço do São Paulo;

* sobre a babaquice dos torcedores... Digo, sempre, que a gozação saudável entre torcedores de times adversários é aceitável (embora eu não participe desse troço, prefiro exaltar as minhas conquistas, apenas). Desrespeito e falta de educação (que se confunde, as mais das vezes, com falta de caráter) são intoleráveis. Luiz Antonio Simas deu, ontem, mais uma lição do quanto é carioca e fundamental. Fomos, eu, ele, Candinha, Henrique, Leo Boechat e Marcelo Vidal assistir ao jogo do Botafogo contra o São Paulo em um bar na Tijuca, às cinco da tarde, perto do Maracanã. É evidente que o bar estava lotado de rubro-negros e apenas de rubro-negros (com exceção do Simas, botafoguense, e do Vidal, tricolor). Um clima de tremendo bom humor. A assistência, toda vestida com a camisa do Flamengo, cantava “Ô, ô, ô, vai pra cima deles, Fogo!”. Comemorou o primeiro gol do Botafogo efusivamente. O São Paulo empatou e depois virou para 2 a 1 (perderia o jogo, no final, por 3 a 2, como sabemos). E um babaca, azedando o ambiente (foi quando partimos dali), gritou com cara de poucos amigos: “Ô, parceiro, não dá pra contar com teu time, né, porra?!”. Um babaca. Ou não? O Botafogo – repito – fez a sua parte. O Flamengo, não. Lembrei-me do babaca no instante final do jogo do Flamengo;

* mudando o rumo da prosa... Tentando cumprir com a parte que me cabe nesse latifúndio, começo a escrever hoje para o mais completo site que há sobre a Tijuca. Tenho algumas críticas à condução do que ali se publica mas o sujeito que comanda a coisa, Ricardo Caetano, é um apaixonado pela Tijuca e um incomodado com o que falam, por aí, sobre o melhor bairro da cidade. Resolvi ceder, mais de um ano depois, ao convite que me foi feito por ele. Meu primeiro texto, disse-me o Ricardo, deve ser publicado ainda hoje, aqui.

Até.

22.11.09

O BAR DO CHICO ACABOU

Há poucos dias eu anunciei o troço aqui. Hoje, voltando da feira, decidi beber a primeira do dia no balcão, com o Chicão, pra ver se o processo de destruição do fabuloso bar da esquina de Afonso Pena com Pardal Mallet havia sido estancado. Pois repirem fundo, tirem as crianças da sala e atentem para o brevíssimo diálogo, assim que saltei do carro.

- Fala, Chicão! Uma mofada daquelas, meu velho!

Silêncio. Olhar cabisbaixo. E ele levantou a tampa do primeiro, do segundo, do terceiro freezer.

- Não tem mais mofada aqui, Edu.

O que conversamos em seguida eu prefiro deixar de publicar.

Mas eu assino, ao menos no que compete à minha jurisdição e competência, triste da vida, o atestado de óbito do BAR DO CHICO.

Até.

21.11.09

G.R.E.S. UNIDOS DE VILA ISABEL 2010

É preciso ser muito frio pra não se emocionar com essa jóia composta pelo gigante Martinho da Vila, uma vez mais compositor do hino que sua G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel levará para a avenida, em 2010.

Exponho hoje, no balcão do BUTECO, a gravação oficial da escola, e a dedico à Lu e ao Buba, meus compadres queridos, pais da Dhaffinny, minha afilhada, eles que têm raízes no Morro dos Macacos, terra de gente da melhor qualidade, responsáveis diretos também pela energia da nossa Vila Isabel.

Vai ser difícil, muito difícil, segurar a azul-e-branco no ano que vem. Muito difícil!


"Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel?
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu

Seu sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele ao bordel
Mas sei que está presente
Com a gente nesse laurel

Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceito sociais

Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a dama do cabaré não dançou

Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presentes Cartola
Aracy e os Tangarás
Lamartine, Ismael e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel

Tem a energia da nossa Vila Isabel"


Até.

20.11.09

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Tenham todos um bom feriado, um significativo feriado do Dia da Consciência Negra, e que possamos nos livrar aos poucos - se for esse o jeito, já que tão arraigados são os preconceitos que nos rodeiam... - dos grilhões que nos impedem um estado maior e mais pleno de felicidade. E que Ogum, que me rege, não me falte jamais.


Até.

19.11.09

DECISÕES JUDICIAIS

Ontem lhes contei, aqui, que fora concedida liminar nos autos do processo número 2009.001.319246-9, derrubando os efeitos da Lei 5.517 de 2009, que proíbe o fumo no Rio de Janeiro.

Hoje, atendendo a pedido da Procuradoria Geral do Estado - que apontou conduta pouco católica, digamos assim, do SINDICATO DE HOTEIS RESTAURANTES BARES E SIMILARES DO MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO -, o mesmo Juiz voltou atrás e revogou a liminar através do despacho abaixo reproduzido:

"Em primeiro lugar, não se justifica o teor da certidão de fls. 196. Cuida-se de diligências visando o cumprimento de decisão de caráter urgente e, entre a data na qual a ordem judicial foi proferida e a data da apresentação da petição de fls. 168, transcorreu tempo mais que suficiente para a realização das ditas diligências, repita-se, de caráter urgente. Fica assim, pois, registrada a advertência ao servidor processante, no sentido de que, doravante, deverá prestar mais atenção e dispensar mais cuidado no exercício das suas tarefas, sobretudo em relação às medidas urgentes. Que fatos desta natureza não se repitam. Outrossim, na sequência, é de se estranhar a distribuição desta ação para este Juízo no caso em que outra demanda, ajuizada entre as mesmas partes, ligada a esta pelo vínculo da acessoriedade, foi distribuída previamente para Juízo de Direito diverso, cujo fato, pelo que me parece, exige rigorosa apuração no âmbito da Corregedoria Geral da Justiça. Quanto aos requerimentos formulados pelo réu, em primeiro lugar, vale registrar que inexiste qualquer causa de extinção deste processo, sem resolução do mérito. Muito embora o autor tenha afirmado na petição inicial que esta ação cautelar é preparatória, fazendo crer na inexistência de ação principal já pendente, os documentos acostados pelo réu revelam, diferentemente, o prévio ajuizamento da ação principal, distribuída para o Juízo de Direito da Quarta Vara da Fazenda Pública, hipótese na qual impõe-se o deslocamento da competência deste Juízo de Direito em favor do r. Juízo acima mencionado. A incompetência deste Juízo é absoluta, pois derivada da violação ao critério funcional, determinante da competência dos órgãos judiciários e, por esta razão, tem incidência o disposto no art. 113, § 3º, do Código de Processo Civil, segundo o qual declarada a incompetência absoluta, somente os atos decisórios serão nulos, remetendo-se os autos ao juiz competente. Isto posto, decreto a nulidade da decisão proferida a fls.166vº/167v° dos presentes autos e determino a baixa na distribuição da ação e simultânea distribuição para o r. Juízo de Direito da Quarta Vara da Fazenda Pública desta Comarca de Capital. Intime-se, cumpra-se. Cumpra-se."

Volta, pois, a valer a malfadada Lei.

Até.

RESSIGNIFICANDO O OLHAR: A FAVELA EM BUSCA DE SEU LUGAR

Recomendo a todos - inclusive e principalmente aos fascistas responsáveis por um dos mais abjetos blogs a que tive acesso - a leitura do trabalho "RESSIGNIFICANDO O OLHAR: A FAVELA EM BUSCA DE SEU LUGAR", de Vitor Monteiro de Castro, apresentado no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Curitiba, realizado entre os dias 4 e 7 de setembro de 2009. Dá-me uma tremenda esperança em meio a tanto lixo que emerge de nossa imprensa cada vez mais podre (o que sempre me pareceu impossível, quando eu era, digamos, mais inocente).

"As ideologias arbitrárias, para Gramsci, “não criam mais do que ‘movimentos’ individuais, polêmicas, etc.”, que podem ser representados hoje pelos dispositivos tecnológicos da mídia hegemônica, que influenciam de forma decisiva as dinâmicas e relações de poder do atual mundo globalizado. As instâncias modernas de mediações sócio-culturais, onde se dava a formação do sujeito (a escola, a igreja, a família, os partidos, os sindicatos), dividem cada vez mais esse espaço com os meios de comunicação. As mídias têm hoje um papel efetivo na educação, no jeito de cada um pensar e sentir a sociedade, de se perceber em sociedade. Porém, essa atuação dos meios de comunicação hegemônicos tende a se voltar para a manutenção da estrutura socioeconômica."

"No Brasil, contudo, e no caso específico da cidade do Rio de Janeiro, o saldo da atuação das mídias de ampla abrangência é danoso para as favelas e zonas de periferia, já que esses espaços são retratados pelo que não têm, pelos discursos da carência e da ausência, por um olhar de fora que, sem cerimônia, constrói uma representação estereotipada e simplificada, com ênfase quase total na violência e na criminalidade. Não há praticamente compromissos com a valorização do patrimônio cultural ou com fortalecimento de instâncias de identidade locais."

"Uma contraposição a essa visão de mundo empregada pelas mídias hegemônicas se coloca como fundamental para a difusão de idéias inovadoras que tenham condições de alterar o atual quadro de desigualdade social. Meios de comunicação que se identifiquem com o que Gramsci chamou de aparelhos privados de hegemonia, atuando na esfera da sociedade civil, com autonomia em relação ao Estado, são meios capazes de criar esses espaços de contraposição à lógica do capital, procurando ampliar sua ação de influência para toda a sociedade, mesmo sem serem dominantes. Vale ressaltar que esses novos meios devem se colocar claramente ao lado dos interesses das classes sociais subalternas."

"Os sistemas de informação atuais não foram organizados pensando na participação da sociedade em sua construção, mas voltados para o individualismo. O problema não está presente na falta de informações, mas justamente no oposto, na excessiva quantidade de informações jogadas diariamente sobre a violência nas grandes cidades. As soluções apresentadas se colocam sempre com a extinção do problema, encontrado por completo nas favelas e periferias, sem uma reflexão mais aprofundada do problema, que envolveria outras esferas e locais da cidade."

"Com um viés claramente voltado para a defesa dos interesses das classes e grupos de poder dominantes, a mídia influencia para que essa reinterpretação seja feita de acordo com os interesses dos grupos de poder. Essa ressignificação dos fatos pela mídia faz parte também de uma estratégia de coesão social. Um exemplo é a noção de periculosidade em relação às favelas do Rio de Janeiro. Na grande maioria das reportagens e matérias sobre as favelas, as chamadas sempre fazem questão de nomeá-las como “uma das favelas mais violentas do Rio”. Em uma pesquisa aleatória na ferramenta de buscas na internet Google, com a frase “uma das favelas mais perigosas do Rio”, encontramos 138 resultados. Para a frase de mesmo significado, “uma das favelas mais violentas do Rio”, foram encontrados 112 resultados. Essa introdução às notícias não significa necessariamente que a matéria ou reportagem que está sendo veiculada tenha o foco na violência. Mesmo quando a notícia é sobre algo positivo nas favelas, a noção de perigo – e de surpresa de algo positivo dentro de uma das favelas mais perigosas do Rio – é comum nas notícias. Essa delimitação geográfica do medo acarreta uma visão estereotipada dos espaços populares."

Lembrei-me muito de meu querido amigo e saudoso Fausto Wolff lendo a íntegra do trabalho, o que você pode fazer aqui.

Até.