27.3.04

DOIS CRACAÇOS, DISTANTES POR ENQUANTO

Doces figuras, estive em São Paulo no final de semana passada, entre 19 e 21 de março, como já lhes contei, com o exclusivo objetivo de conhecer de perto a performance do Szegeri que, jogando fora de casa, sempre bateu um bolão.

Mais à frente, dia desses, escrevo o libreto da ópera que montamos na terra da garoa. Nem Berlioz, quando compôs "A Danação de Fausto", inspirada no primeiro "Fausto" de Goethe, com seus ensurdecedores corais de vozes masculinas durante um bacanal de bebedores na taberna de Auerbach, conseguiria imaginar que em pleno 2004 repetiríamos, com brilho infinitamente superior, seu delírio. Mas isso é papo pra outro dia.

Lá, conheci o pai de Szegeri. "Seu" Zé. Atentem para a descrição do malandro, passível de mínimos erros eis que "convivi" com o cara durante apenas 48h.

Alto, postura elegante, cabelos grisalhos permanentemente alinhados pra trás, calça social bem passada, camisa listrada de mangas curtas sempre sobre uma branca de malha, rugas de sabedoria, uma gargalhada entre o contido e o escancaro, cigarros permanentemente entre os dedos, voz rouca, sotaque pesado da paulicéia. "Seu" Zé passa praticamente todo o dia sentado na mesa da cozinha da simpática casa na Vila Romana, onde mora com o filho, fruto que atesta a qualidade da frondosa árvore. Lendo? Cozinhando? Não, doces figuras. O rádio ligado na Jovem Pan. "Seu" Zé, fumando um cigarro atrás do outro, a performance atinge quatro maços por dia, sorve, sem a pressa que não lhe incomoda mais, um litrinho de vodka por dia. Pura? Não, doces figuras. Com suco de laranja, que tem vitamina C. A garrafa da criança fica dentro do armário sob a pia. O ritual é tão bonito... A garrafa nunca fica sobre a mesa. "Seu" Zé a retira do esconderijo, enche o copo pela metade, vai à geladeira, completa o copo com suco de laranja, guarda a garrafa do suco e devolve a vodka pro armário. O dia inteiro. Aquela cozinha parece um mosteiro. O rádio naquela ladainha, notícias, resenhas esportivas, panorama policial, índices de economia, e "seu" Zé em silêncio contemplativo bebendo devagar até a noite, o filho e o sono chegarem.

No domingo, após mais de uma hora de negociações, eu e Fernando conseguimos convencer o sábio a nos acompanhar. E que performance a de "seu" Zé na rua! Caipirinhas, cervejas, muito cigarro, muitas histórias incríveis, dentre as quais destaco uma.

"Seu" Zé e amigos bebiam no centro de São Paulo desde às 18h, depois do expediente, numa sexta-feira. Foram expulsos do bar às 22h. Partiram pra outro, de onde foram enxotados meia-noite em ponto. Um dos caras pergunta:

- Ôrra, meu, e a saideira... aonde?

Cigarro tirado do canto da boca lentamente, o último gole no copo de cerveja, e "seu" Zé decreta:

- Co-pa-ca-ba-na.

Quatro e meia da manhã estavam os caras enchendo a cara à beira-mar.

O brevíssimo convívio com "seu" Zé lembrou-me outro cara (chamá-los de coroa pode gerar uma reprimenda), craque também. O pai da Dani, Wlader, vulgo Comandante, epíteto que eu cunhei. Mineiro de São Lourenço, Comandante mora, desde a década de 50, em Volta Redonda, exatamente entre o Rio e São Paulo. "Comando" bebe industrialmente. Dizem seu amigos que ele tinha um fígado. Não há na literatura médica nada que explique a resistência hercúlea do mesmo. Outra lenda da Cidade do Aço conta que quando do último exame de urina, coisa de rotina, Comandante obedeceu as regras, jejuou por 12 horas, encheu o potinho pela manhã, primeiro jato, levou-o ao laboratório e exibe até hoje, dentro da carteira, o resultado: "Líquido inapto para o exame proposto. Urina não detectada. Alto índice de cevada, lúpulo e outros cereais não reconhecidos. Provavelmente cerveja."

Outra forte característica do Comandante é o poder que exerce sobre os que o cercam.

Autoridade que só os cabelos brancos dão. Um exemplo, que eu vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos.

Eu estava com Comandante fazendo sauna no Clube Laranjal, do qual é sócio remido número 1.

No campo, rolava uma pelada. Lance polêmico. Foi pênalti, não foi pênalti. O pau quase quebrando. Um dos jogadores propõe que uma comissão vá à sauna. E entre os rolos de fumaça que saíam do cano da sauna a vapor, perguntam:

- Wlader, foi pênalti?

E ele, nu, fazendo a barba diante do espelho:

- Foi.

Autoridade, doces figuras, é isso.

Pois bem. São dois craques, dois membros da Velha-Guarda, que até o momento não se conhecem, embora estejam intimamente ligados à minha história.

Em breve, doces figuras, muito em breve, tratarei de apresentá-los um ao outro.

E não restará pedra sobre pedra, casco sobre casco, abridores de garrafa envergarão, e os botequins mais vagabundos, aos quais não resisto, parecerão catedrais puríssimas depois da pororoca das almas vadias que os dois carregam.

Até.

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