7.4.04

FERIADO DE PÁSCOA

Doces figuras: em 26 de outubro de 2003 vivi uma experiência rigorosamente inesquecível.

Quase-morri afogado. Para agradecer ao Pierre, que foi quem me salvou, literalmente, republico aqui o inteiro teor do email que enviei aos amigos como forma de agradecer o salvamento. Ei-lo:

"Doces figuras: dentre as lições de educação que recebi de Isaac & Mariazinha, das poucas que absorvi - desculpe papai, desculpe mamãe - uma delas me obriga a cultivar, sempre que necessário, a gratidão. E para mim, quase sempre é necessário que a gratidão esteja e seja permanentemente divulgada como maneira de homenagear o alvo de meus obrigados comovidos, sempre que o caso pede.

Foi assim com o Maurinho, que sob minha ótica, salvou o Fefê do sufoco na Copa da França, foi assim com a Mariana Blanc, que me manteve bem durante nebuloso período da minha vida em 1999, quando vacas tentaram, sem sucesso, destruir meu pasto, e agora é o caso de um bom sujeito, papa-goyaba, a quem devo - há testemunhas!, há testemunhas, antes que me acusem de hiperbolismo - estar escrevendo agora e não numa das capelinhas do Caju.

Ontem, domingão de sol escaldante, atendendo convite de há meses de Pierre, fomos, eu e Dani, à Niterói, praia de Itacoatiara, que com 34 anos, vergonhosamente não conhecia. Um paraíso. Tudo encaixando, Fernando Szegeri, paulista da melhor cepa, estava na terra de Araribóia, nos braços de sua amada, ambos igualmente escalados para a aventura. Buscamos o Pierre em casa às 10h. Rumamos para a praia. Muito mato, muito verde, pequeno engarrafamento incapaz de nos aborrecer diante do esplendor daquele mar encravado entre duas pedras constantes.

Fernandão chegou com a Cris, já estávamos na latinha número 5 cada um de nós (foram 35 no total, amém Mestre André, vendedor campeão que nos disponibilizou isopor, gelo, e fiado).

Mônica e Luciano, amigos do Pierre, também nos escoltavam na praia. Pierre, anfitrião de mão cheia, propôs uma pequena escalada numa das pedra, à nossa direira, para um mergulho ao mar de uma altura de uns 5 metros.

Eu e Fernando, protuberantes barrigas à frente, rimos amarelo. Luciano disse não. Mônica torceu o nariz. Dani e Cris fizeram o sinal da cruz. À insistência do Pierre, fomos.

Subimos a pedra escaldante, Pierre e Fernando gemendo com as bolhas que nasciam de seus pés. Eu, cascudo, feliz da vida, mantinha-me incólume diante da brasa sob o solado de pele.

Chegamos ao ponto.

Diante da altura assombrosa, eu e Fernando rimos, agradecemos penhoradamente, e quando iniciávamos a marcha da volta ouvimos o grito de Pierre, já no mar.

Diante de nosso patente medo, Pierre subiu de volta, um Tarzã niteroiense, e nos encorajou.

Saltou de novo. Uma horda de bárbaros batia palmas e gitava "pula, pula, pula", imaginando o espetáculo daquelas duas orcas saltando ao mar.

Pulei eu primeiro. Fernandão em seguida. "Tá, e agora?", perguntamos já sem fôlego. "Vamos nadando pra praia", disse Pierre animadíssimo.

De um lado, mar. Do outro, mais mar. À frente, o horizonte completando o quadro de naufrágio. Era necessário muito nado, em alto-mar, contornando a pedra monstruosa daquele ângulo, para que chegássemos à praia.

"Vamos, vamos, vamos", urrava o Namor de Niterói. "Nada, nada, nada!", urrava a patuléia do alto da rocha. Inês era morta. Começamos.

E, meus amigos, eis o drama. Esse que vos escreve deu vigorosas braçadas em direção ao Pierre, que comandava a estranhíssima excursão. É preciso dizer que um dos argumentos usados pelo Pierre foi o de que aquela travessia era muuuuuuito comum, o que gerou o comentário do Fernando: "Se é muito comum por que o mar não está engarrafado e apenas nós estamos aqui?"

Em menos de um minuto, já não mais conseguia superar a marola, fortíssima, e a correnteza que me empurrava em direção à pedra. Bebia muita água. Percebi, em pânico, que a horda se movimentava na pedra acompanhando nosso nado, e via braços abanando, urros de "cuidado", "nada mais pra lá", uns sádicos rindo, outros tanto rolando de rir apontando para mim como se eu fosse - talvez eu fosse - uma baleia encalhada perto da costa.

A vida passou-me em filme, em segundos, o Estephanio´s, minha Tomtom eu te amo, a Pimentinha, mamãe, papai, Fefê, meu deus e a feijoada dos meus 35 anos, vi o corpo de Cláudia Lessin na Avenida Niemeyer, minha Bia amada, não me falte logo agora!, porra, tô na terra de Araribóia, cadê o índio amigo de papai?, Cris, quero ir ao aeroporto dizer-lhe adeus, Comandante, cadê você?, Mariana, eu não ia te fazer um strudel de maçã?, eu quero ver Maria Rita no Canecão de novo!, Ana Clara, minha afilhada amada, Milena, querida, eu quero levá-las ao circo um dia desses, Dona Sá, tu não disse que reza pra mim todos os dias?, dia 07 eu quero ir à Marechal!, Sônia, por que eu não estou na sua casa comendo coisinhas em potinhos na cozinha?, Santa Bárbara, pára com a caceta do vento, ô Iara Mãe d´Água, cadê tu criatura?, Nazaré, eu não fui na tua procissão, mulher?, me ajuda, porra!, Dalton, eu canto o quê numa hora dessas?, e ouvia apenas a voz do Pierre... " tô aqui, tô aqui...", e, queridos, quando eu conseguia pôr a cabeça pra fora d´água, meus cabelos imensos cobriam meus olhos, parecia Xangô à deriva.

Olhando os babacas na pedra rindo muito, cantava pra dentro os versos do Aldir, "quem sacanear, encaro e não fujo, eu sou marujo da Praça Mauá!"... Aí vinha mais onda e nem sinal da praia, e Pierre estendendo a mão, "tô aqui, tô aqui, dá a mão, dá a mão...". Pierre era Santa Bárbara, Iemanjá, era a sereia que me tentava me salvar - o cara é espada, amigos, tudo é uma questão de momento e desespero - e nada de praia, até que avistei a faixa de areia.

Vi nossa barraca, Estephanio´s reluzindo contra o sol, minha amada estendia os braços feliz com minha conquista nem de longe imaginando que estava sucumbindo, mas lá estava a mão do cara, "calma, descansa, respira, tô aqui, calma, tô aqui...", e eu já havia bebido o equivalente a 20 latas de água salgada, e nada do pé tocar a areia, até que encostei no fundo.

As pernas me faltavam, não havia braços, não havia nada além de uma estúpida alegria por ter sobrevivido.

Aí pedi arrego, aceitei apoiar-me nos ombros do bom marujo, e cheguei à areia, verde como a mata que circunda a praia, azul como o biquini da Dani, vermelho com a marca da Brahma na barraca, a cabeça zunindo, tremendo, e caí na cadeira de onde só levantei quando o sol e pôs.

Obrigado, Pierre. Jamais esquecerei disso. Como jamais farei isso de novo. Beijo, Edu."

Pois bem. Estamos indo amanhã pra Araçatiba, uma praia encravada na Ilha Grande. Eu, Dani, Maria Paula, Pierre, Simone, Betinha, Débora, Guerreira, Sérgio e Cícero.

Ontem à noite encontrei-me com Pierre que, sádico, sorriu, estendeu a mão que me salvou e disse, "pronto pra nadar, Edu?".

Eu vou.

Até.

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