2.4.04

OBSERVAÇÕES À LOMBROSO

Doces figuras, na quarta-feira, dia 31 de março, reuni-me com meus Confrades, da S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos), num buteco na Rua Almirante João Cândido Brasil, antigamente chamada de Rua Alegre, onde morou o Anjo Pornográfico, Nelson Rodrigues.

À mesa, os seis Confrades que hoje compõem a Confraria, eu, Fefê, Vidal, Zé Colméia, Malavota e Dalton. A ordem, como se vê, não é alfabética. Pra bom entendedor, meia palavra, bosta.

Antes de entrar no tema que pretendo lançar à mesa, preciso lhes dizer que um Encontro da Confraria equivale a uma usina hidrelétrica como a de Itaipu em matéria de idéias, que jorram aos borbotões, e que crescem à medida que a bebida vai sendo sorvida.

Ao final do Encontro, ou melhor, no dia seguinte, é comum fazermos um exercício joio/trigo daquilo que sobra na memória. E para que todos tenham uma idéia do que seja "a bebida que vai sendo sorvida", devo dizer que nesse específico Encontro derrubamos perto de quarenta garrafas de Original, uma garrafa inteira da cachaça Rochinha envelhecida 5 anos, algumas doses de Campari para brindarmos à memória de Elis Regina, a homenageada da noite (foi a bebida que assistiu Elis morrer), doses de Domeq e outras doses de uma cachaça que nos foi oferecida pelo atônito e eufórico dono do estabelecimento. Lancei, em determinado momento da noite, duas teorias discutíveis, mas que, sendo minhas, são definitivas.

A primeira: todo elemento que carrega seu celular penduradinho na cintura, sendo agravante se o aparelho vai guardado dentro de uma bolsinha ridícula de couro ou de plástico, é mau caráter.

A balbúrdia instalou-se na taberna. Um dos Confrades, cujo nome omitirei por enquanto, um autêntico coscorão, levantou a blusa de malha que vestia, apontou pro celular na cintura, dentro de uma bolsinha plástica, e disse:

- E agora?

O silêncio. E eu, de volta:

- Mantenho o que disse.

Tal teoria veio à tona porque um sujeito, numa mesa ao nosso lado, sozinho, de bermuda, camiseta sem mangas, um cordãozinho vulgar pendurado pra fora e chinelos Rider, telefonava aos berros pra alguns amigos, chamando-os para o tal buteco, sem êxito. E onde guardava seu celular depois? Na cintura, na indefectível cintura dentro de uma tosca bolsinha idêntica a de nosso Confrade. Um chato, o pobre-coitado. Nenhum amigo apareceu. Bebeu duas garrafas sozinho e partiu, triste como um paquiderme.

A segunda: não há nada mais odioso, repulsivo e irritante, do que ouvir um sujeito referir-se à mulher como "esposa". O próprio nome "esposa" já é nojento por si só. O som do "pô", no meio do trissílabo desgraçado, torna o nome ainda mais horroroso. É claro que isso vale para quem tem, digamos, menos de 40 anos. Os mais velhos, esses sim, ainda que pronunciando o abjeto vocábulo, têm perdão. Muitos se referem assim às suas mulheres... "minha esposa", "minha senhora"... Mas eles têm, repito, meu perdão.

Assim, se aqueles que usam o celular na cintura não têm caráter, os que chamam suas mulheres de "esposa" são verdadeiras bestas, prontas para receber a coroa de galhos faustos que não tardará.

É, dirão vocês, filosofia barata de botequim. E é mesmo.

Eu, pelo menos, aprendi muito mais dentro dos butecos do que nos bancos da faculdade.

Até.

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