18.5.04

O PRESENTE

Doces figuras, na foto, de autoria de Miguel Salgado, da esquerda pra direita, o bom Szegeri, Buba, eu e Fefê, na 28 de Setembro, na terça-feira de Carnaval, em 2004 (a foto estava no antigo BUTECO).

Buba, como vocês poderão perceber, está trajando um uniforme verde de enfermeiro. Buba é componente da bateria da G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel, a escola que, como uma posseira, invadiu meu latifúndio à esquerda do peito, outrora ocupado pela vermelho e branco da Tijuca, mas que, há anos, comandada por um truculento fazendeiro (pra ser gentil), perdeu espaço pra azul e branco. Te amo, Isabel.

E eis que o Salgueiro e a Vila dividem, hoje, minha alma carnavalesca.

É preciso dizer, para que faça mais sentido o que vou contar, que Buba não estava exatamente fantasiado. Na tarde daquele dia nascia Dhaffiny, sua quarta filha, e Buba fugira do hospital logo após o parto para não deixar órfã a bateria de outra de suas paixões, a escola do bairro mais cantado do Brasil, que desfilaria naquela noite. Buba é parceiro caído de pára-quedas em minha vida. O conheci há exatos quatro anos durante os ensaios do bloco "Segura Pra Não Cair".

Ano após ano, lá estava Buba na bateria do bloco, sempre com um sorriso e um coração que, como disse o Szegeri, não cabem no pouco mais de metro e meio de altura do moleque. Uma semana após esse dia da foto, Buba apareceu no Estephanio´s e, entre tímido e sem jeito, deu-me a notícia: seríamos, eu e Dani, padrinhos da pequena Dhaffiny. Pra quê?

Chorando como um recém-nascido, liguei pra Dani e pro Szegeri a fim de dar a notícia.

Armamos, semanas depois, um "chá de beber" no quintal da casa da sogra do Buba, entre o Morro dos Macacos e o Pau da Bandeira, em Vila Isabel, quando preparei 10 quilos de lentilha carneada pra que os amigos comparecessem munidos de fraldas pra pequena.

A festa foi linda, muita gente no pedaço, e eu chorei tanto naquele dia, emocionadíssimo, e as fotos da Betinha atestam meu estado deplorável, olhos vermelhos e nariz fungando, e no fim tudo valeu a pena porque mais de 500 fraldas foram nosso primeiro presente. Mas não é a esse presente que me refiro no título.

O primeiro presente foi conhecer o cara. O bom Szegeri não há de permitir que eu exagere. É um dos maiores corações que já conheci. Não houve, de lá pra cá, um único encontro com Buba sem que eu tivesse sido presenteado pelo malandro. Várias camisas da azul e branco, duas de malha e uma de gala, um CD que é um primor com mais de 15 sambas-enredo da Vila gravado ao vivo (o Szegeri também ganhou), uma feijoada completa oferecida em sua casa a mim e ao Szegeri, a quem o Buba ama deslavadamente, e o último que, seguramente, está entre os grandes presentes que já recebi na vida. Estivemos, eu e Dani, no último domingo, em sua casa, também entre os Macacos e o Pau da Bandeira, com mais um casal. É preciso dizer a principal razão pela qual os levamos. O cara não é do Rio. É de Campinas. Estava, há uma semana, hospedado na casa da amiga. Na véspera perguntei: "O que você já conhece do Rio?". E ele: "O Leblon.". Eu: "Mais o quê?". "Nada, só o Leblon. O Jobi, o Bracarense, tudo lá.". "Pois amanhã, então, levando-se em conta que é seu último dia na cidade, você vai conhecer uma de minhas afilhadas, em Vila Isabel, na subida do Morro dos Macacos, pra você sair daqui, pelo menos, conhecendo dois extremos.".

Convite aceito, partimos pra lá, depois de anunciados na véspera e convidados pra um almoço.

Presentes o Buba, a Lu, sua mulher, Stephanny, a filha mais velha, Dhaffiny, a caçula (as outras duas não moram com ele), dona Gil, a sogra e a Shirley, uma vizinha. Cerveja, frango a passarinho rolando e Buba me chama num canto: "Finalmente fui chamado pra trabalhar na COMLURB!". Buba aguardava a convocação desde janeiro. "Porra, vamos brindar!", disse eu já sendo contido. "Não, não... Não fala nada não... quero fazer surpresa, quero chegar vestido de gari na sexta-feira".

Como o cara já está acostumado comigo, chorei sem pudor e liguei imediatamente pro Szegeri que fungava do outro lado da linha depois de saber da beleza do lance.

E pouco antes de irmos embora, depois do strogonoff de frango, Buba me diz: "Toma aqui, Edu, presente pra você. Eu fui campeão na Sapucaí com tudo isso.".

E me entregou uma caixa, as duas baquetas e a correia que prende o instrumento ao corpo, onde escreveu: "De Buba para meu compadre Eduardo, Vila Campeã 2004".

Alaguei a casa do cara e partimos.

Eu acho que o Roberto gostou mais de Vila Isabel do que do Leblon.

Música de fundo, de Moacyr Luz e Martinho da Vila: "No meio da quadra tão familiar, bebi, fiz amigos e cantei...".

Até.

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