16.5.04

SHOW DE BOLA DE DOIS ANFITRIÕES

Doces figuras, já disse, repito e direi sempre que puder: uma das melhores coisas é ser recebido por gente com talento para receber, gente diametralmente oposta ao Marco de Oswaldo Cruz no quesito em extinção da educação, simpatia, generosidade e gratidão.

Atendendo a comovente e dramático convite do Comandante, alcunha de Wlader Dutra Miranda, encarei, na tarde de sexta-feira, 120km de estrada em direção à minha mui amada cidade de Volta Redonda.

O mote, uma pequena reunião de amigos na casa do Walter Motta e de sua companheira Cléo.

Walter Motta é amigo do Comandante desde quando a CSN era apenas um sonho do Getúlio. E, sendo amigo do Comandante, é meu chapa. Topei o convite e lá cheguei às 16h.

Mantendo uma tradição de há séculos, Comandante me aguardava num buteco.

Efusivos abraços e um estaladíssimo beijo de meu velho sogro anunciavam um final de semana de surpresas. Partimos pra sauna. Vocês hão de se recordar, já contei isso aqui mesmo na OPINIÃO ("Dois cracaços distantes, por enquanto") (OPINIÃO é o antigo nome do BUTECO) que o Comandante exerce um poder sobre a cidade que impressiona.

Ele fez questão de me dizer que a sauna do Clube Laranjal, do qual é Sócio Remido Número Um, não funciona na sexta-feira. Mas que naquela sexta, funcionaria. Um pedido bastou, se vocês me entendem.

Saindo da sauna, perfeita como nem na Turquia ou na Finlândia, sentamos no bar do Clube.

Conta de R$16,00 paga pelo Comandante que nãoi admitiu um centavo meu. De lá partimos pra casa do Walter, latas de cerveja, garrafas de vinho e de novo não me foi permitido contribuir com uma latinha sequer.

A casa do Walter é magnífica. Churrasqueira, fogão e forno à lenha, centenas de bromélias, um pé de laranjeira, um freezer horizontal lotado de cerveja, garrafões de cachaça de alambique, e nossa chegada foi triunfal.

O Comandante é exageradíssimo, não tenho dúvidas. Não desconfio o que fala de mim, o Comandante, mas devem ser de tal magnitude suas histórias, que sou tratado, para meu espanto, como uma celebridade.

Walter, um sujeito boa-praça, enorme, sorriso franco, me recebeu de pé e aos gritos: "Meu guru! Meu guru!", e disso isso branindo um calhamaço de papel com todos os textos publicados aqui.

Comandante rindo muito, senti o cheiro da pólvora.

Sentei-me, depois de cumprimentar a todos, e em segundos me foram servidos canapés, porções de costelinha, doses de cachaça, os presentes todos olhando pra mim como se eu fosse a Juliana Paes. E Comandante rindo muito.

Um dos presentes, Luizão, logo depois, sacou o violão e começou o rosário de sambas das décadas de 20, 30, 40, muito Noel Rosa, e comecei a sacar tudo sobre o que o "Comando" conta.

Um gritava: "Edu, você que é um dos bambas de Vila Isabel, canta aquela...". Comandante rindo muito.

Pouco depois outro manda: "Eduardo, meu compadre, você que manda no Salgueiro...".

Comandante rolando atrás de uma pilastra. Depois da quarta dose de cachaça, quinta garrafa de cerveja, peguei do violão e desfiei meu repertório curtíssimo. Senti-me como o João Gilberto.

Um silêncio no quintal, até o carvão da churrasqueira deixou de queimar pra me ouvir.

Eu, constrangidíssimo, devolvi o violão ao Luizão e lá ficamos até o Walter dizer-me no ouvido: "Não levanto mais daqui. Vou cair.".

Os destaques absolutos da noite: o carinho do Walter e da Cléo, o pintado na brasa que foi preparado por um delegado, o tamborim do Eduardo, um cabra porreta na percussão, e o amplo e vasto conhecimento de sambas-enredo do Santiago.

De lá partimos, eu e o Comandante, pra outro buteco.

A conta de R$48,00 foi paga novamente por ele que ameaçou-me com uma faca quando eu disse que pagaria aquela despesa.

Frase lapidar dele: "Eu pagaria dez vezes o valor dessa conta só para tê-lo aqui comigo esta noite.".

Um craque, um craque.

No sábado pela manhã, às 11h, já estávamos de volta ao Laranjal, mesa de quatro, eu, Comandante, Décio e Bitencourt.

Muita cerveja, salaminho, provolone, azeitonas, palmito fatiado, conta paga pelo "Comando" que serviu-me, ainda, antes de minha partida, uma dobradinha de responsa em sua casa.

É preciso dizer que no sábado pela manhã o Szegeri me telefonou. Passei o telefone pro Comandante que o convidou, formalmente, para uma ida à Volta Redonda na companhia de seu pai, o Zé Szegeri, deixando muito próxima a concretização desse meu desejo de vê-los juntos, jogando no mesmo time, no mesmo campo, eu na arquibancada acompanhando os lances que só os cabeça-branca podem e sabem construir.

Até.

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