13.9.04

UMA FESTA UNIBANCO

Doces figuras, quem foi, foi, quem não foi pode, desde já, arrepender-se de forma torpe. Maria Paula, doce figura conhecida nessas plagas do Buteco, freqüentadora também do Buteco do Edu real, faz anos depois de amanhã, 15 de setembro, mas resolveu comemorar a data com uma festa no dia 11 de setembro em sua mui modesta cobertura no Leblon.

O dia era, como já disse, 11 de setembro, data na qual foram derrubadas as torres gêmeas por terroristas fanáticos. Não sei se foi mera coincidência ou se foi proposital, mas nesse mesmo dia torres de engradados de cerveja foram violentamente derrubadas por uma horda de hunos bárbaros que invadiram seu apartamento. Pobre, Maria Paula.

Eu tenho como certo que foi a última festa que ela promoveu em sua casa. Vamos aos detalhes para que fique tudo claro.

A festa estava marcada para começar às 17h. Betinha, uma moça, digamos, um tanto quanto hiperbólica, resolveu marcar uma pequena concentração em sua casa às 13h, para a qual fui convocado com o desafio de preparar camarão frito no azeite com alho, coentro e colorau português. Para lá rumamos eu, Dani Sorriso Maracanã, Fefê, Brinco, Flavinho, Guerreira, Marcy, Lelê Sorriso Via-Láctea, Mauro e Ruivinha.

É preciso fazer pequena pausa para descrever uma cena patética. Eu, mantendo minhas tradições tijucanas mais-que-arraigadas, saí de casa com a Dani de táxi (jurei nunca mais dirigir quando for beber) portando uma mochila com roupas, escovas de dente e afins, e uma bolsa de palha (a indefectível marca da Tijuca) contendo pequenos apetrechos de cozinha.

Fomos convidados para dormir na casa da Maria Paula, o que aceitamos de pronto. A cena era bizarra. Partimos da Tijuca como se estivéssemos indo para a Região dos Lagos. Na casa da Betinha, o que era para ser uma simples concentração com camarãozinho e uma cervejinha, transformou-se numa festa. A anfitriã, que dormira na véspera às 6h da manhã, nos recebeu com largo sorriso, abraço confortável e - pasmem - uísque, ginjinha (bebida portuguesa feita com ginja, uma fruta), cerveja em toda a extensão da geladeira e vinho branco. Preparei sete frigideiradas (numa frigideira linda que mais parece o Maracanã visto de cima, enorme, que acabei ganhando de presente no final do furdunço) até que soou o gongo às 17h para que rumássemos para o Leblon. Ruivinha e eu tomamos banho (separados, diga-se), em mais um momento tijucano clássico, e partimos todos calibradíssimos para a festa da Maria Paula.

Lá chegando, Pierre comandava o som num bate-estacas insuportável. Maria Paula contratou um staff de primeira que preparava crepes em velocidade e quantidade industriais. Talvez me esqueça de alguns nomes, mas zanzavam pela cobertura de incontáveis metros quadrados, além de todos os que estavam na Betinha, Pierre, Simone, Giulia, Sérgio Barreto, Cícero, Fumaça, Paulo Henrique, Manguaça, Mauro, Zé Colméia, Vinagre, Duda, Deyse, Tom, Garrett, Fernanda, muita gente. E o Dedeco, que merecerá, mais à frente, um capítulo à parte.

Havia um contraste nítido na festa. De um lado, os convidados bem nascidos, chiques, discretos, elegantes e sóbrios da Maria Paula. De outro, bem mais populoso, a escumalha da Tijuca (há os que não moram na Tijuca, mas que têm a alma vagabunda desse adorável bairro da zona norte da cidade), a choldra, a plebe ignara que não escondia a satisfação de estar naquele local fausto.

Fiquei descalço nos primeiros quinze minutos. Guerreira galopava entre os convidados, Fefê dava chope para um bebê de meses de idade, afilhado da Maria Paula, para absoluto choque de seus pais, Dedeco (mais detalhes à frente) checava cada aposento do apartamento em nítido deslumbramento, Brinco comia crepes de todos os sabores sabendo que a creperia funcionaria até às 21h, Pierre voltou a fazer declarações de amor pra mim e pra Dani (prontamente retribuídas), Lelê Sorriso Via-Láctea dançava de braços abertos lembrando um helicóptero e quebrando os copos dos incautos mais sóbrios.

Às 22h ela gritou, uhuuuuu, dez da noite ainda e já estou bebaça!, e os mais educados começaram a ir embora.

Decidi, não sei ainda a razão, acompanhar cada convidado do elevador até a portaria. Numa das levas partiram Pierre, Fernanda e uma moças em direção a uma boate no Centro da cidade.

Pierre me anunciou, tô a fim de pegar a fulana (não lembro mesmo seu nome). Pus a garota dentro do elevador e comecei, você vai com eles, dance com o Pierre, ele dança muito e outras besteiras do gênero. A coitada mandou, Pierre, eu só vou dançar se você abrir uma roda no meio da pista pra mim, e eu de voleio, ele só vai abrir um buraco no meio da pista se você liberar sua roda pra ele. Finíssimo.

Números clássicos se repetiram ao longo da noite. Mauro dançou semi-nu no terraço, Marcy traçou mais um gringo, cantei árias em altíssimo volume, e às 3h30min, com a casa já vazia, eu e Dani fomos para o quarto de hóspedes e Maria Paula e Dedeco para o aposento principal do palacete.

Tínhamos que acordar relativamente cedo porque a Maria Paula decidira continuar a festa no domingo com um churrasco.

Às 11h eu estava de pé. Eu, Dani e Maria Paula tomamos cerveja da manhã, enquanto escutávamos Dedeco, o novo namorado da Maria Paula, roncando de forma torpe no quarto.

Eis a cena bizarra daquela manhã. Dedeco abre a porta enfiado num robe de seda e avistando a faxineira disse em tom solene, ovos mexidos e Proseco, por favor. Deslumbrado, o Dedeco.

A faxineira mandou-o à merda e ele voltou para o quarto.

Maria Paula foi ao quarto para acordá-lo.

Eu e Dani escutamos gritos e grunhidos enquanto Dedeco cantava ô ô ô kiss me quick fora do tom. A campainha tocou e Dani abriu a porta. Era Fefê com Brinco, Guerreira, Marcy, Yayá e João Vitor, para suprema felicidade da Maria Paula que a-d-o-r-a criança.

Os dois saíram do quarto. Fefê invadiu o ninho de amor e de quatro farejou o colchão de forma torpe. Não vou repetir o que ele disse, mas foi algo impagável. Flavinho recebeu dezenas de telefonemas e chegou depois com picanha, lingüiça, farofa, salada de batatas, asa de frango, coxinhas, maços de cigarro, carvão e afins.

Fumaça chegou depois com um pote imenso de vidro com batata a calabresa preparada pela Incêndio, sua mãe, e era um presente para mim. Liguei comovido para Incêndio para agradecer o mimo.

Logo depois chegou a maluca da Betinha com mais camarões, alho e colorau. Fefê comandou a churrasqueira, eu mandei ver na frigideira com os camarões, e derrubamos 3 engrados de cerveja.

Na véspera, durante a festa, fora as caipirinhas e as cachaças, foram detonados 7 engradados.

Como no domingo éramos apenas 10 (eu, Dani, Guerreira, Marcy, Maria Paula, Dedeco, Fefê, Brinco, Flavinho e Betinha), ultrapassamos a média.

Ligamos para o Szegeri, depois o malandro ligou de volta para que falássemos com a Iara, eu chorei de forma torpe, ligamos para o Comandante, Marco ligou da Itália e eu cantei durante 10 minutos em italiano, houve um momento de catarse coletiva quando Fefê, Yayá, Brinco, Dani, Guerreira e Betinha choraram sem qualquer razão aparente, Dani fazia acrobacias com fitas coloridas, a vizinhança em choque a tudo assistia usando binóculos, lunetas e outros instrumentos ópticos, e a festa atingiu a marca de 30h ininterruptas, quando Marcy cunhou a frase: isso é uma festa Unibanco.

Saímos de lá a meia-noite.

Creio, francamente, que a Maria Paula jamais cometerá tamanho descalabro novamente.

Dedeco dormiu lá novamente. Que l-i-n-d-o.

Até.

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