10.2.05

A DESINIBIDA DO GRAJAÚ


Doces figuras, na foto, um flagrante da Sorriso Via-Láctea, a Lelê, que foi assim batizada pelo Szegeri, rodeada por três uruguaios que ela, doce e gentilmente, recebeu em sua casa para o Carnaval. Nada demais, certo?

Errado.

Lelê mora no Grajaú.

Sozinha.

Num prédio pequeno.

E o Grajaú, pra quem não sabe, perde por pouco da Tijuca em matéria de preconceito, de vizinhos chatos, de vizinhas fofoqueiras, de viúvas embalsamadas em rascantes comentários.

Os uruguaios chegaram na sexta-feira, véspera da festa momesca.

Uma senhora de bobs azuis e cor-de-rosa e lenço estampado em bege e verde na cabeça assistia a vida passar no sofá surrado da portaria. Acompanhou atenta a chegada dos caras. Entrou com eles no elevador e saltou junto no segundo andar.

De soslaio, os viu serem recebidos pela efusiva Lelê, copo de cerveja na mão, shortinho e camiseta de malha surrada.

Tocou a campainha da vizinha na hora.

E só se ouvia isso durante todo o Carnaval: "Já soube da morena do segundo andar?", "Viu que absurdo aquela solteira que mora sozinha no segundo andar? Está com três homens em casa!", e tome de samba-enredo no mais alto volume na casa da Sorriso Via-Láctea, e tome de entregador de gelo, de engradados e mais engradados de cerveja, e o entregador da farmácia portando Engov e Sal de Fruta Eno e as cobras venenosas nos corredores, "Meu Deus... não pára de chegar camisinha naquele antro", e o síndico em pânico, e os porteiros da rua com inveja dos uruguaios, e Lelê saindo de casa na hora do almoço e voltando na hora do café da manhã no dia seguinte, e as víboras de orelhas encostadas na porta pra ouvir alguma coisa, e tome o samba do Salgueiro, e tome de Lelê urrando o refrão da Imperatriz, "a turma do Sítio apronta!", e as vizinhas a chamando de Emília Devassa, e apelidando os caras de Rabicó, Visconde e Malasarte, e as crianças proibidas pelas mães de verem Lelê passar, e as meninas ouvindo conselhos, "veja que vergonha, minha filha!, veja que barbaridade!", e os maridos sonhando com Lelê durante à noite, e, vida que segue, o Grajaú, na esteira da Tijuca, nunca mais será o mesmo.

Até.

Posted by Hello

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