19.4.05

CINCO ANOS NÃO SÃO CINCO DIAS

O que diria dona Mathilde, minha mais-que-saudosa bisavó, hoje, se estivesse viva? Cinco anos não são cinco dias. Pois é, não são. Razão pela qual toda festa será pouca para festejarmos cinco anos de Estephanio´s sob o comando de Fefê e Cachorro. Dirão os mais chegados que eu também sou dono (ô palavra desagradável...) e eu repelirei no ato que sou, sim, mas no papel. As cinco únicas vezes que estive à frente no balcão como anfitrião tratei de perder, um a um, os clientes que atendi. O sucesso deve-se, então, exclusivamente a eles, Fefê e Cachorro.

E aos funcionários, selecionados a dedo (ui) por eles. Toninho, o Piloto, o único que está lá desde o primeiro dia comandando a cozinha, ao lado do Bruno. Erasmo, Leôncio (o Léo), Gaúcho e Maurício, os garçons pacientes que atendem, incansavelmente, dia após dia, a horda de boêmios que invade o bar. Zezinho e Magrão, que atendem no balcão. Beth, à frente da gerência. Um timaço.

E a frase "cinco anos não são cinco dias" toma uma forma espetacular e dão ao feito um caráter épico se lembrarmos os percalços que enfrentam aqueles que tocam um bar nesse Rio de Janeiro que insiste em destruir suas mais arraigadas tradições. Os vizinhos que dedicam-se com afinco às denúnicas anônimas ao Poder Público, os clientes janotas que reclamam um banheiro mais limpo que centro cirúrgico, um exército que delira a cada Belmonte aberto, a cada Informal inaugurado, a cada Devassa que abre, bares que vêem em São Paulo, vejam vocês, o modelo ideal de buteco, como se não fôssemos doutores na matéria.

E a frase "cinco anos não são cinco dias" faz ainda mais sentido quando percebemos, e contabilizamos, as aquisições humanas que o Estephanio´s amealhou. Seria insano de minha parte dar nome a todos, mas é extremamente gratificante perceber que se das torneiras sai o chope, das mesas do bar saem os amigos. Não darei os nomes, mas citarei, a título ilustrativo, personagens e fatos que tiveram, e terão por muito mais tempo ainda, o Estephanio´s como palco. Muita gente boa, muita história pra contar, e não é um Lennon, vejam bem, um único, que embaçará o brilho da noite de hoje.

Casamentos feitos e desfeitos. Vários. Início e fim das relações acompanhados mesa a mesa. Casamentos que foram marcados e desmarcados quase na véspera. Não foram vários, foi um. É, foi um. Uma morena que faz da Brigitte Bardot uma pateta em matéria de defesa dos animais. Um sujeito que espetacularmente saiu do bar e foi com o carro, direto e reto, pra dentro do Rio Maracanã: resgatado pelo Corpo de Bombeiros, voltou a pé e bebeu mais. Uma vendedora de vinhos, os mais finos, que ajudou a apurar o paladar da escumalha que vibrava com Sangue de Boi e fez fortuna. Um biólogo que rodou o mundo, não para estudar, mas para posar com a camisa do Estephanio´s nos quatro cantos. Uma outra que, nas horas vagas, organiza excursões, grupinhos, grupelhos, e que também enricou com a atividade. Uma moça que foi encontrada atracada no banheiro com o dorso masculino de fibra que fica ao lado do vaso sanitário, gozando. Um assalto - tinha que haver um! - que não terminou em tragédia graças a habilidade de um que ficou bebendo com o chefe do bando enquanto os meliantes faziam a limpa. Várias moças que passaram a fazer bijouterias, peças em mosaico, e que também ganharam dinheiro movimentando a economia naquela esquina. Um atravessador de uísque que volta e meia aparece com caixas e caixas de escocês no bar fazendo a festa da plebe que vibrava com Old Eight. A reencarnação do Elvis Presley. Obesos que hoje são sílfides, marcos maciéis que hoje são imensos, bem dotados capilarmente que ficaram carecas e carecas que fizeram implante, tudo isso acompanhado mesa a mesa como se estivéssemos diante de uma final de Copa do Mundo. E houve uma Copa do Mundo vista no Estephanio´s, com os jogos pela manhã, quando todos os recordes de venda de chope foram batidos. E nasceu dali um bloco, o "Segura Pra Não Cair", sucesso absoluto no carnaval de rua da cidade. E uns figurões passaram por lá e deram mais graça à esquina: Aldir Blanc, Moacyr Luz, Beth Carvalho, João Bosco, Martinho da Vila, Darcy do Jongo, Tia Surica, Sombra, Walter Alfaiate, Nélson Sargento, Wilson Moreira, Fausto Wolff, Jaguar, Dorina, as meninas do "O Roda", que até hoje fazem a casa encher aos domingos durante a roda de samba.

Um brinde, daqui, ao Estephanio´s e a cada um dos clientes que por lá passaram e que hoje, muitos deles, estarão na área para erguer o copo ao humor. Todos. Sem exceção.

Aliás, não. Com uma exceção: ele, vocês sabem.

Até.

Um comentário:

Szegeri disse...

Seguinte: eu que - sempre é bom repetir - só entendo bem pouquinho de um monte de coisas, só me considero doutor em uma matéria: butiquim. E com a autoridade acadêmica reconhecida é que saco desde essas longínquas terras cinco VIVAS ao grande Estephanio's, um buteco que passou a integrar (na onda do momento) o colégio cardinalício dos bares do meu coração, merecendo ostentar em seu brasão principesco a inscrição indelével: "ubi omnia potent".
E para evitar cabotinismos, cumprimento toda a galera competentíssima com um abraço afetuoso ao Léo, integrante da minha seleção brasileira de grandes garçons de bar e um beijo à Beth, a mais bonita gerente de buteco da América Latina (vejam bem: gerente; porque conheço uma dona de buteco que é a mais bonita da Via Láctea...).