26.4.05

FATALIDADES

Às vésperas de completar 36 anos, dentre tantos questionamentos, um voltou-me, recorrente que é: por que escolhi o Direito como profissão? Mais: por que, com concursos e mais concursos oferecendo bons salários e estabilidade, abracei a advocacia, solitária e angustiante? Por paixão, ecoa a resposta dentro de mim. Uma paixão que já me fez protagonizar cenas de cinema nos corredores forenses. A gravata molhada pelas lágrimas que esguichavam diante de uma sentença favorável - mais de uma, mais de uma -, um Oficial de Justiça estendendo-me água com açucar ao me ver trêmulo diante de um despacho contra o interesse de meu cliente, Desembargadores atônitos assistindo-me imitar o Brizola durante uma sustentação oral - francamente pra lá, na verdade pra cá, eu que venho de longe uma hora, perdas internacionais n´outra (expressão, aliás, usada completamente fora de contexto), enfim, tudo motivado por uma paixão que não tem preço. Não me valeram os conselhos de mamãe que sempre achou que eu daria bom Juiz (erro crasso, eu que sou passionalíssimo e rigorosamente nada imparcial), as sugestões de papai que recortava anúncios de concursos sobre minha mesa, nada. Sou um advogado realizado.

Vem daí que, domingo, voltando de Paraty-Mirim, eu e Dani atrás no carro conduzido brilhantemente pela Guerreira com a Fumaça como carona imediata, perguntei à Fumaça, também advogada, o por quê de sua escolha.

Faço uma pequena pausa para tecer elogios olímpicos ao desempenho da Guerreira ao volante. Elegante, como brada papai, chique, como gritam em côro os bárbaros do Estephanio´s pouco acostumados às coisas, digamos, mais finas, Guerreira veio dirigindo por 250km numa segurança digna de um berço com mosquiteiro. Noite alta, lua cheia, Guerreira fazia o carro deslizar como leite condensado em colher de sopa, permitindo-me o sono durante grande parte do trajeto. Para mim, que sou um fóbico incorrigível, o sono em trânsito é sinal da mais alta e implacável segurança, não há outro nome que não esse. Feito o elogio e a homenagem, vamos à questão da Fumaça.

O relato é praticamente esse, na íntegra: "Sabe, Edu, eu passei pra Economia, Comunicação e Direito. Economia na UFF, Comunicação na UFRJ e Direito na UERJ. Cursei 8 períodos de Economia, mas achava muito difícil, muito hermético, pouco interessante. Daí fiquei cursando Direito, e Comunicação eu tranquei logo no primeiro período. Na metade do curso de Direito, mais ou menos, decidi que destrancaria minha matrícula na UFRJ, trancaria Direito e tentaria Comunicação, sempre tive paixão por Comunicação (e riu, a Fumaça, que a Fumaça ri até dos algodões nas narinas do morto em velório, de forma incontrolável e sistêmica, branindo braços, pernas, os olhos fechadinhos e a gargalhada soltíssima). Daí consegui destrancar a matrícula da Comunicação. Comprei cadernos novos, os livros, preparei-me para o início do curso, numa segunda-feira. A aula começaria às 20h. Às 19h30min, mais ou menos, estava parada no sinal pertinho da UFRJ, com os vidros abertos, ali na altura da Urca, perto daquele hospital municipal em frente ao Pinel. Um pivete veio e me roubou, com um caco de vidro. Fiquei tão nervosa, tão nervosa, que chorando arranquei com o carro em direção ao Aterro do Flamengo e nunca mais voltei pra lá, daí terminei Direito. Foi isso. (e rolou de rir novamente no banco da frente).

Vejam como as fatalidades agem a nosso favor, no mais das vezes, sem que nos demos conta disso. Perdemos uma jornalista e temos hoje uma advogada muitíssimo bem sucedida.

Até.

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