15.4.05

MAIS UMA PEÇA PREGADA PELA MEMÓRIA

Ontem contei dois casos pessoais envolvendo falta absoluta de memória que me causaram, e me causam, diuturnamente, constrangimentos horripilantes. Daí a memória - há uma memória em mim que causa oooohs e aaaahs em mamãe e em vovó, sempre muito impressionadas com minha performance nesse item - me trouxe outro episódio recente que quero lhes contar.

Dani, a mulher que me ensinou a sorrir, tem uma família tão numerosa quanto encantadora. E quase toda plantada em Volta Redonda, onde reina meu Comandante, e para onde, volta e meia, vamos. Pois bem. Uma de suas primas é a Marcela, casada com o Jason. Tinham uma filha linda, a Júlia, que virou anjo depois de, com pouco mais de 2 aninhos, não resistir a um maldito câncer raríssimo.

A história condoeu-me sobremaneira. Não consegui visitar Julinha mais do que duas vezes. Chorava cântaros e, para evitar maior sofrimento a todos, deixei de ir vê-la. Mas mesmo diante da minha incredulidade teimosa, sofria e rezava à distância por ela e por seus pais.

Meses depois da conversão da Julinha, que como disse, virou anjo, encontrar Marcela e Jason ainda me era cortante. Meus olhos enchiam d´água e eu fazia muita força para não desabar diante deles. Até que chegou agosto de 2004, e com ele, o aniversário de 70 anos do glorioso Comandante. Haveria uma festa em Volta Redonda que prometia abalar as estruturas da Companhia Siderúrgica Nacional. Engradados e mais engradados de cerveja, incontáveis bois abatidos, pomares inteiros para as saladas, todo o arroz da China, Comandante estava gastando um Rio Paraíba do Sul de dinheiro para não deixar as 7 décadas passarem em brancas nuvens.

Estávamos na festa eu, Dani, Fefê, Brinco, Manguaça, Dalton, Zé Colméia e toda a população de Volta Redonda, nos domínios do Clube Laranjal, cujo sócio remido número 01 é, justamente, o Comandante. Eu bebia industrialmente. Até que em determinado momento avistei a Marcela chegando com o Jason. Calibradíssimo, meus olhos encheram d´água imediatamente. Encondi o rosto atrás do copo e repetia para mim mesmo, "não posso chorar, não posso chorar...".

Enchi meu copo de novo e seguia com os olhos Marcela pelo salão, ora seguia Jason pelo salão, ambos separados, falando com todos, cumprimentando todos, e eu repetindo, "não vou chorar, não vou chorar".

Marcela veio a mim. Respirei fundo, dei-lhe um abraço, beijos, e sentei-me orgulhoso de minha força. Não chorei.

Mas e o pai, meu Deus!, ainda faltava o pai. Jason chegou perto da mesa e eu então perdi o controle. Saltei da cadeira e abracei o Jason, um abraço profundo, hermético, quase que a vácuo. Enchendo-lhe o ombro de lágrimas, disse soluçando... "cara... que bom ver vocês... tenho pensado tanto em vocês... eu prometi que não iria chorar... mas ver você agora me derrubou... como eu penso em você, como eu penso em você!", e quando afastei-me reparei nos olhos esbugalhados do Jason, a expressão de incredulidade diante da minha confissão, de medo, sei lá.

E veio a mim a Moniquinha, outra prima da Dani, consequentemente prima da Marcela. "Que cara é essa, Edu?".

"Ah, Mônica... (e eu chorava de novo)... eu não resisti... quando abracei o Jason eu chorei tanto...".

"Eduardo... o Jason não está aqui.".

"Meu Deus... é quem aquele, Mônica?", perguntei apontando o alvo de minhas confissões, que ainda olhava-me com uma expressão estranhíssima.

"Cunhado da Marcela.".

Minha memória, tsc.

Até.

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