11.4.05

O SZEGERI É UM OTTO

Estou relendo a obra completa de Nelson Rodrigues, editada pela Cia. das Letras com supervisão de Ruy Castro. E relendo compulsivamente. No ônibus, no banheiro, no metrô, nas horas vagas, e sou, hoje e agora, um sujeito inundado pelo universo do dramaturgo. Flagro-me pelas ruas buscando a viúva machadiana, a vizinha gorda e patusca, a traída resignada, os asmáticos, percebo-me dentro da espiral de Proust de bermuda e sandália de dedo na vila número 84 da Rua São Francisco Xavier, no colo da minha bisavó, a espiar entre as frestas das portas a casa de dona Dallas e do seu Pereira, de dona Neves e do seu Camilo, do seu Benedito, dono de um Corcel verde caindo aos pedaços, e vou assim, vivendo sustos e situações febris.

E eis que noite dessas, há algumas semanas, sou tomado durante o sono por uma luminosa descoberta. E salto da cama num pulo só e estaco diante da cabeceira e grito, pra desespero da Dani: “O Szegeri é meu Otto! O Szegeri é meu Otto!”. Explico.

Nelson, em sonho, está sentado comigo na mesinha de mármore do meu buteco, eu bebendo cerveja e fumando um cigarro e ele comendo um mingau a fim de domar sua víbora, a úlcera viva que lhe corrói por dentro. E Nelson diz, de pé, pouco antes de partir – estávamos mudos há uns 15 minutos, eu fazendo a papel da assistência a acompanhar a refeição de sua úlcera – com as mãos crispadas em meu braço: “O Szegeri, meu filho, o Szegeri está para você como o Otto para mim”. E mais não disse. Foi quando acordei.

A grande obra do Szegeri é a conversa. Deviam pôr um taquígrafo atrás dele e vender suas anotações em uma loja de frases. Eu sei, eu sei que foi o Nelson quem disse isso sobre o Otto. Mas que impressionante capacidade a dessa frase de definir o bom Szegeri! O Szegeri, citado e homenageado aqui tantas vezes, é de fato um Otto. Vejam vocês! O Otto é, aqui, um adjetivo.

Ex-coroinha, cristão capaz de – confessou-me ontem – perder horas acompanhando pela grande rede virtual a sucessão papal como quem acompanha uma final de Copa do Mundo, ou um Fla x Flu, para que tudo seja mais coerente, o Szegeri é uma bola! Chora de inundar terraços, abraça os amigos como se estivesse diante do último encontro, comove e espanta quando fala, destilando genialidade, e eu mesmo fui, durante este último final de semana, quando atravessei mais de 400km de estrada para beber-lhe da fonte, um ser que andava de gatinho atrás dele catando a sabedoria que lhe escorre a cada passo.

Não foi à toa que o Márcio Branco, quando o conheceu na quadra da Portela em meados do ano passado, marejou os olhos, abriu os braços e balbuciou “Otto, Otto... que prazer”, e eu não entendi nada, tudo tão claro agora.

Membro da S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos), quando o Szegeri se faz presente nas reuniões aqui no Rio tudo é diferente. O bar silencia. Ninguém dá um pio. A gordura na frigideira sequer chia quando algo está sendo frito. Garçons viram mímicos para que nada atrapalhe o desempenho desse colosso.

Ao longo dessa semana relatarei episódios verídicos, a fim de que todos os que não têm o prazer de conhecê-lo possam repetir espantados diante do monitor: “É um Otto, esse Szegeri, é um Otto”. Absoluto. Irrepreensível. Único.

Até.

Um comentário:

Bonitinha, mas ordinária disse...

Meu irmão querido, que me presenteou nesse fim de semana à altura de sua generosidade que não conhece limites para com aqueles que ama. Mais a inseparável Dra. Tontom, minha advogada maior, o Sorriso-maior-do-mundo. E de quebra minha arqui-musa Betinha e meu novel confrade Flavinho, que me abandonaram, perderam um furdunço sem precedentes nos domínios da Vila Romana, mas nem por isso deixarei de amá-los.

Amo Nelson de chorar sentado na calçada com uma cuia de queijo Palmira. E o Otto, não cheguei a contar-te, irmão, era a primeira coisa que lia religiosamente todas as manhãs quando chegava à minha casa a Folha de São Paulo, que assinei durante anos só por sua causa, até sua morte. Uma espécie de líder espiritual da geração a que não pertenço de fato, mas de direito, bem o sei. A comparação - imerecida, por certo - honra-me à vera.

Obrigado, querido, pela visita, pelas palavras, por esse amor fraternal que nos une e que me dá, disse-te ontem, uma das únicas - e tão necessárias - certezas que eu tenho hoje na vida. Beijo, irmão.