18.4.05

VENCE O FLUMINENSE

dedicado ao Vidal, ao Márcio Branco, à Guerreira e a um torcedor anônimo

E o Rio de Janeiro já tem seu campeão estadual em 2005. E pela trigésima vez, o Fluminense. Com justiça? Se tomarmos o jogo de ontem como parâmetro, não. E justiça importa em futebol? Também não. Logo, loas aos tricolores.

Mas é preciso fazer a ressalva: aos tricolores que prestam. E quero explicar.

Sou Flamengo há mais de trinta encarnações. E o Flamengo estando fora de qualquer final de campeonato - o que tem sido triste rotina - me eximo de qualquer passionalidade diante do jogo. Quando é o Vasco, vá lá, torcer eu não torço, mas fico feliz por Isaac e Fefê, meu pai e meu irmão, pelo Aldir, pela Mariana, pela Milena. Mas ontem não tinha nem o Vasco na final. Quem disputava com o Fluminense era o Volta Redonda, cidade que aprendi a amar e onde fiz mais amigos do que a CSN faz de aço. Onde moram meu Comandante, Walter Motta, Tom, Bitencourt, Petrônio, Mozart, gente que vale a viagem. Onde têm raízes a Mamaia, a Luana, o Alfredo GM, o Niltinho, a Bia, prêmios que a Dani entregou-me de bandeja. Logo, estava ontem, literalmente, vestido com a camisa amarela e preta do Volta Redonda sem que, com isso, ferisse meus brios vermelhos e negros, hoje vermelhos de vergonha e negros de perspectiva. E torci. E embora o gol de empate do tricolor tenha sido irregular, embora a expulsão do jogador do Volta Redonda tenha sido vergonhosa, não importa, o Sobrenatural de Almeida se fez presente e aos 47min do segundo tempo o Fluminense pôs por terra a ambição do corajoso time do Voltaço. Fiquei triste? Não. Aliás, nem um pouco. Fiquei onde estava, no mesmo bar, e segui bebendo aguardando a chegada dos campeões.

E eles foram chegando. Mas ali, no meio da turba, um me incomodava. Um, não. Dois. Aliás, nem dois. Três. O terceiro eu nem sequer conhecia, mas ele babava, rosnava, vociferava palavras que eu nem entendia em minha direção. Um desprezível, pensava. O segundo, que atende pela alcunha de Velho (uma tremenda injustiça com o Nelsinho Rodrigues, que atende pelo mesmo apelido), agredia, vejam a insanidade, o Flamengo, que já havia sido escorraçado dentro do campo pelo próprio Fluminense há 15 dias. Um insano, eu pensava. A velha mania de não-comemorar, mas de pisotear no derrotado. O primeiro, Lennon. Não, não se tratava de um médium incorporado pelo ex-Beatle. Ele mesmo, que presentou-me com sua ausência prolongada por muitos meses, tornando respirável a atmosfera naquela esquina, estacionou o carro bem à minha frente, abriu as portas, a mala, estendeu a bandeira do Fluminense, que não merece aquelas mãos pelo que tem de História, e ficou ali, quicando e sorrindo em minha direção.

E eis que, em segundos, uma chuva torrencial, de derrubar árvores, de encher ruas, de entupir bueiros, de transbordar rios, pôs pra correr aquela corja, arrefecendo, digamos, os instintos animais. Era o Sobrenatural de Almeida chorando cântaros pela plebe ignara que ele mesmo ajudara há pouco.

E já que falei no Sobrenatural, falo de um amigo morto. Não meu. Mas do Vidal. Eis o lance genial da noite que me comoveu sobremaneira e me fez ficar, se não feliz, satisfeito pela vitória que deu tintas épicas a seu gesto.

Vidal, a Lenda, chegou ao Estephanio´s. Sorrindo o sorriso que só os campeões têm e que não conseguem repetir ao longo do ano - é um sorriso plástico, moldado pela satisfação da glória da conquista, abraçou-me e sentou-se à minha mesa, chope na mão. Beijou o escudo de sua camisa e disse: "Era do Fabiano.". E os olhos verdes embaçaram. "Gritei muito o nome dele no final do jogo.". Um amigo morto tem uma dimensão absurda dentro daquele que fica. É na saudade do amigo que fica que o amigo que partiu sobrevive. Ali, naquele instante, após brindar com um emocionadíssimo Vidal, rezei por dentro pelos três que não souberam, nem de longe, nem jamais saberão, saborear uma vitória, "perdoai, eles não têm culpa por ter nascido".

Dedico, pois, a vitória, e rendo daqui minha homenagens, ao Vidal, ao Fabiano, ao Márcio Branco, à Guerreira, e a um tricolor, cujo nome não sei, mas que foi de uma elegância digna dos vitrais da Álvaro Chaves, dentro do Estephanio´s, quando abraçou-me, como diria o tricolor Nélson Rodrigues, vazado de luz, cheio de um humor que, não é demais repetir, falta em abundânica - isso foi de propósito - naqueles coitados

2 comentários:

Marcelo disse...

Parabéns pelo texto bem escrito e, acima de tudo, equilibrado... Quem vos escreve é um tricolor

Szegeri disse...

Na pessoa de meu querido Tio Osias, que do alto das suas quase oitenta e seis primaveras viu praticamente todos os títulos do seu Flu e do meu amigo Didu Nogueira, mando dessas plagas um afetuoso abraço à Nação Tricolor, lembrando, como não poderia deixar de ser, do maior de todos eles: Nelson Rodrigues.