6.5.05

6 DE MAIO


Hoje é dia 6 de maio, dia em que sou sempre, ano após ano, arremessado pelo Tempo, uma de minhas paixões, em direção ao Passado, uma de minhas obsessões, para o colo dela.

As doces figuras hão de me perdoar, mas é bem capaz de que, do monitor diante de cada um de vocês, jorrem as lágrimas que, merda! (e peço desculpas), escapam dos meus olhos.

Foi por isso, foi por isso que hoje de manhã não tolerei a pergunta de uma saltitante Dani, "vamos pra Londres esse ano?", já que a viagem que estou fazendo desde que bati os olhos, ainda secos, na foto amarelada, é para 1971.

Para bem longe de Londres, para bem perto daqui, na Tijuca mesmo.

Hoje é dia 6 de maio e minha Bia, minha bisavó (à direita, na foto), faz anos. Não me corrijam o tempo do verbo. Ela está em mim. Com o mesmo sorriso, com os mesmos cabelos brancos, com o mesmo "papo" que lhe pende do pescoço e que beijo quando estou em seu colo, sentada na poltrona que está hoje aqui em casa, ora fazendo crochê, ora rezando a Bíblia inchada por santinhos que colorem suas páginas.

Falei de sua Bíblia e lembrei-me que nunca mais ouvi o nome de São Curadar, amigo predileto dela.

Estivesse entre nós, não tivesse sido levada em dezembro de 1982, merda de novo, (perdão mais uma vez) e hoje haveria uma festa de casa cheia, com discursos, com Tio Hique, que hoje lhe faz companhia, empostando a voz e começando... "Mamãe...", e nem Fidel Castro faz discursos tão longos quanto os que ele fazia. Com bolo, com velas, com parabéns nas duas versões (e nunca mais ouvi o "hoje é dia do seu aniversário, parabéns, parabéns, fazem votos que chegue ao centenário, os amigos sinceros que tem..."), com coxinhas, risoles, brigadeiros, casadinhos, e os meus olhos, os da foto, que ainda são os mesmos em mim, arregaladíssimos, minhas mãos pequenas segurando a mão mais macia e mais cheirosa que jamais toquei novamente.

Mas diante do arremesso, sinto-lhe as mãos nos meus cabelos, sinto o cheiro de lavanda, vejo as pastilhas Garoto (e nunca mais ouvi falar em pastilhas, bala é tão menos bonito...) sobre sua cabeceira, e somente sua presença intensa, avassaladora e carinhosa dentro de mim, viva, mais-que-viva, sempre-viva, é capaz de explicar o chôro incessante que mistura saudade, felicidade e intenso banzo.

A foto é, pra mim, mais sagrada que a imagem da Santa Ceia. Estou, com 2 anos de idade, junto ao que chamo de "Santíssima Trindade". Minha mãe, que ainda hoje me olha com os mesmos olhos de lambe-cria, minha avó, hoje com 81 anos e pose de rainha, como bem diz meu Comandante, cada vez mais à imagem e semelhança de sua mãe, e ela, dona Mathilde, Pidoca (lê-se Pidôca), minha Bia.

Chamava-me, minha Bia, e assim foi quando falamo-nos pela última vez, minutos antes de sua partida, de "meu poeta".

Ela não sabia - ou sabia?, e se não sabia sabe hoje - que serei pra todo o sempre o seu poeta.

É preciso lhes contar curiosíssimo episódio. É no 6 de maio e no Natal que os arremessos se dão de forma mais pungente. E no Natal de 2004, sem que ela soubesse que eu jamais escrevera um único e escasso verso, Mamaia, tia da Dani, durante a ceia, transida num olhar diferente, chamou-me num canto, abraçou-me, chorou e disse-me baixinho: "Feliz Natal, meu poeta". Façam idéia do que fui ali, naquela hora.

Hoje estou precisando, a fim de ter conforto, repetir o gesto da foto.

Dar a mão direita à mamãe, ter a esquerda entre as mãos de minha avó, para que, com a Bia junto de mim, dentro de mim, eu veja refeita a "Santíssima Trindade".

Até.

Posted by Hello

3 comentários:

Anônimo disse...

Olha... que beleza de texto! Se você acredita realmente que sua bisavó esteja em você, você chorou por ela!

Betinha disse...

Eduardo, vá tomar no cu! Me fazer chorar no trabalho é sacanagem! O texto é muito doce, poético e emocionante; sem pieguice ou sentimentalismo. Lindo. Apenas lindo.
Beijo enorme!

Szegeri disse...

Subscrevo ipsis literis o comentário de minha musa, inclusive quanto a chorar no trabalho e o senhor ir tomar no centríolo da meiúca.