31.5.05

AEROPORTO INTERNACIONAL

Acabo de chegar do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o velho Galeão. Fui com Dani receber a Raquel, há mais de 5 anos fora do Brasil, mãe do Alfredinho, nosso afilhado número 03 (a Raquel e o Alfredo, pais do menino, nomearam a Dani como madrinha, mas não a mim como padrinho, cargo que exerço à força e não discuto sobre o assunto).

É preciso que eu lhes diga que ingressar num aeroporto, pra mim, é uma experiência semelhante ao ingresso numa câmara mortuária, experiência impossível para um vivo, mas é como sinto o troço. Embicar o carro diante da cancela do estacionamento já basta para que eu veja o funcionário que me estende o tíquete como um São Pedro na porta do céu. Dali em diante nada mais me é real.

E como estamos com viagem marcada para 16 de junho, rumo à Europa, a experiência de hoje foi sofrível, angustiante, nada motivadora. Eu tenho visões estranhíssimas, e todo mundo andando pelo aeroporto tem, eu juro que vejo, algodões nas narinas. Um cheiro de éter me inebria, embora não haja éter nos aeroportos, dizem os sãos. Motoristas de táxi, fazendo alvoroço à saída do desembarque, são coveiros nítidos.

E há uma implacável diferença que me distancia da Dani. Ela é uma excitada criança naquele ambiente. Sorri, dá pulinhos, e hoje ficou a me dizer no ouvido, "daqui a pouco somos nós, meu amor", e eu quase-desmaiva, sendo salvo pelo bravo Comandante, também presente.

Mas vamos aos fatos. A turba de umas vinte pessoas, pai, mãe, irmã, tios, tias, amigos e amigas, esperava a Raquel com bandeirolas amarelas, flores numa cesta imensa, uma expectativa de final de Copa do Mundo. Chegamos todos às 8h30min para a espera do vôo marcado para 8h35min. E Raquel só apareceu às 10h15min. As pessoas sorriam entre si, cantavam musiquinhas compostas na hora, choravam de uma alegria inexprimível, e eu, soturno como se fosse um condenado, num canto, pensando na nossa viagem de 13h de duração daqui a pouco mais de 15 dias.

Tenham certeza de que de hoje até a data fatídica eu serei um ninguém. Um autômato. Nada me animará. Dani, coitada, tenta me sacudir dizendo, "A Guerreira vai!, a Fumaça vai!, o Fefê vai!, o Mauro vai!", e nada converte o quadro trágico que vivo. Ainda no domingo, diante de um Mauro também excitado fazendo planos de viagem com a Dani (aliás, se viagem fosse uma quase boa seria espontânea, não requereria tantos planos, metas, discussões que se estendem por semanas inteiras etc etc etc), eu cravei-lhe os lábios nos lóbulos e disse, "Não fique feliz por mim, Mauro, depois dessa viagem tenha certeza de que você rejeitará minha companhia até mesmo para um passeio para Petrópolis".

Aos crentes, mesmo não tendo certeza da eficácia da coisa, peço que rezem por mim. Aos sacanas, imploro que evitem piadinhas de todo gênero. Aos fóbicos como eu, a solidariedade.

Até.

7 comentários:

Zé Sergio disse...

Edu, como filho de aeromoça (depois aerovelha, hoje falecida), sinto-me na obrigação de tranqüilizá-lo e oferecer ao meu mais novo amigo de infância uma simpatia infalível contra o mal que o aflige, o medo de voar, em latim "Encagasus Aeroplanorum". Na manhã do embarque, depois de cumprir algum tipo de ritual religioso (rezar um rosário inteiro, fazer um despacho, cantar um salmo ou cantar a versão em sânscrito do hino do Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas), beba um copo de café, coma umas bolachas e tome meia dúzia de latinhas da cerveja de sua preferência. A caminho do aeroporto, peça que alguém dirija por você e, em vez de se preocupar com trânsito, linha vermelha, o caralho a quatro, vá bebendo moderadamente, em pequenos goles, meio litro de gim. Chegando ao Tom Jobim, compre um monte de garrafinhas de uísque 8 anos que você vai levar em sua bagagem de mão (isso é vital!). Como ninguém é de ferro, enquanto a Dani fica no banquinho sonhando com as delícias de passeios, reencontros, visitas a monumentos etc., você vai até aquele guichezinho que vende birita e toma mais meia dúzia de cervejinhas (atenção, dessa vez é importante que sejam long necks). Estufe o peito, pense com seus botões que és macho pra cacilda e relembre discretamente aquela tarde em que, jogando futebol, levou uma canelada daquele armário duplex conhecido como Nelsão (ou ...) e reagiu prontamente, partindo pra cima do beque rústico a bordo de uma tesoura voadora. Lembre, sobretudo, dos momentos felizes no pronto-socorro, onde você estava todo quebrado, porém com a auto-estima no auge. Caminhe pelo túnel do tempo, dê bom dia aos comissários (vê se não cumprimenta nenhum deles dizendo "Aê baitola!", para não correr o risco de levar um processo) e, confortavelmente refestelado na poltrona, comece a bebericar. Nem pense em coisas fúteis como estatísticas de queda de aviões nem, muito menos, naquele papo que o Santos Dumont inventou que aquela merda é mais pesada do que o ar. Será uma viagem rápida e segura. Eu sei porque, apesar de filho de aeromoça, sofro do mesmo mal.

Zé Sergio disse...

Ia me esquecendo. Tem outra versão dessa simpatia que recomenda, a caminho do aeroporto, um litro de gim, em vez de meio. Dizem que os resultados são ainda melhores.

Lu Guerreira disse...

Edu Querido,
Também sou fóbica, não com avião mas sou. Te conhecendo há 5 anos, tenho certeza que você vai voltar esbravejando, dizendo que sofreu horrores no avião, que gastou os tubos com a viagem, tudo para não dar o braço a torcer, vai ser muito divertido e você vai adorar.
Bjs, Lu Guerreira

Eduardo Goldenberg disse...

Zé, obrigado pela receita. Mas como o vôo é às 23h, acho que vou mesmo dormir feito um paralelepípedo. Quando fui a NY tentei sua receita, que eu mesmo bolei (por que será que pensamos na mesma coisa nessa matéria?). Estou na lista negra da Varig até hoje.

Guerreira, antes mesmo da viagem eu já posso dizer que sofri com ela (13h no avião, quem agüenta?) e que gastei os tubos de dinheiro por 10 dias (o suficiente para conhecer umas 10 cidades no Brasil). Talvez eu me divirta mesmo, como me divirto aqui, semana após semana. Gastando muito menos.

Szegeri disse...

Ir a Belém é bem mais rápido e muito mais barato. Mas é para poucos, por sorte. "Não queremos nossos jacarés / tropeçando em vocês..."

Vicki disse...

Eu não tenho medo, mas não tenho o menor saco de viajar. Fazer mala, horas no aviao, desfazer mala, nao estar em casa, pensar que tem que aproveitar o tempo, mais horas de aviao... Minha ultima viagem de verdade foi por amor, e foi isso que me fez aturar horas de voo ate a California, com direito a 4 horas a toa no aeroporto de Houston feliz!!! Curiosamente, vivo disso: trabalho numa operadora de turismo internacional e oportunidades e facilidades para viajar e o que nao me falta. Mas deus nao da asas a cobra. :) Boa viagem!

Eduardo Goldenberg disse...

Ôpa, Vick! Manda pro meu email, edugoldenberg@terra.com.br o fone da sua operadora. Na próxima viagem, que vai haver, a Dani é uma turista crônica, vamos consultar você também na hora da licitação!