3.5.05

A ANTI-HOMENAGEM

Preciso lhes contar, eis que é através da imolação pública que expio meus dramas, sobre minha ignorância. Vejam vocês que o bom Szegeri - e não adiantam de nada os muxôxos, os tsc, os balanços das cabeças, falarei sempre dessa impoluta figura - homenageou-me ontem, no fundamental Sódói, com um texto do Otto Lara Resende publicado no livro "Pompas do Mundo". E que coerência, que coerência! Ele, Fernando José Szegeri, é uma pompa! E digo sempre que ele é meu Otto! Que coerência, que beleza como as coisas se encaixam! Isso foi o que eu pensei antes de ler o texto.

Pequena pausa para lhes contar o que acontece quando bato o telefone pro Szegeri e ele não me atende, o que ocorreu ontem à tarde.

Eu não vislumbro a possibilidade dele estar fazendo cocô. Tomando um banho, que seja. Copulando. Trabalhando. Não, não e não. Eu, fóbico incorrigível, carente de bem-querer, sou tomado por um pânico, por um abatimento sem precedentes, e faço 4, 5, 6 ligações seguidas e dou de ouvidos com a secretária eletrônica anunciando que minha chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, mas a bem da verdade eu é que vou sendo encaminhado para uma depressão irrecuperável diante da solene ignorância à minha ligação. A cena é deprimente. Sento-me, soturno, as mãos em forma de cuia agasalhando o aparelho celular, as lágrimas correndo pela face cavada de medo, e uma pergunta incessante "por que você não me atendeu, Otto?". Eu nunca refiro-me a ele como Fernando, como Fernando José, como Szegeri, nessas horas. Otto é mais musical, daí fico a repetir-lhe o nome, "Otto, Otto, Otto, por que não me atendes?".

Assim como a Iara, minha afilhada, Szegeri apura o massacre sobre minha pobre pessoa e nunca retornou-me uma ligação. Nunca. Vamos voltar ao assunto.

Vai que eu li e reli umas 30 vezes o texto "O Elo Perdido", postado ali em minha homenagem. E eu não me enxergava naquelas linhas. E fiquei pensando nas mensagens subliminares escondidas. E tive vergonha de dizer-lhe isso. E fui sendo cada vez mais perfeito um deprimido. Seriam os nós da minha gravata um verdadeiro lixo? Minhas vertigens nas filas dos elevadores são visíveis? Eu já saí sem meias para o trabalho? Já fui tomado de pavor ao deitar-me sem saber como fazer para dormir? O que tem de mim naquelas linhas, Deus? Aquilo era uma anti-homenagem, um deboche, um escárnio. Um atestado pericial da minha burrice virulenta.

E percebi, subitamente, o que quis dizer-me o bom Szegeri, samaritano, bondoso e doce como sempre: sou um pequeno diante dele. Não deveria, jamais, ter-lhe atribuído a pecha de Otto se eu mesmo jamais mereceria um "boa tarde" do Lara Resende se fôssemos apresentado um dia. E do texto em diante, depois da trigésima releitura, percebi minha verdadeira dimensão. Salva-me a observação da Betinha sobre as coisas pequenas.

Até.

Um comentário:

Szegeri disse...

Você não se vê ali, irmão???