25.5.05

A AVENTURA DO BATISTA

É preciso que vocês se recordem que o Batista namorava a Linda, que morava com sua irmã, Dirce e com sua mãe Emilinha, uma viúva de hábitos conservadores que namorava o Cauby, Juiz de Direito (mais tarde, para desabamento moral da família, descobriu-se que Cauby não era sequer formado em Direito). Moravam na Tijuca. E é preciso ter em mente que graças aos bons modos de Batista, Emilinha permitia que os namorados dormissem juntos, sob seu teto, e que o quarto de Linda ficava ao lado do quarto de Dirce, que, mais nova, não tinha o privilégio de ter o namorado em sua companhia durante as noites. E que Batista e Linda arrulhavam à noite para desespero de Dirce, que valia-se das mãos, dos cabos de escova, dos vidros de Neutrox, para satisfazer seus voluptuosos desejos. Até que um dia, já lhes contei a história, muitos anos depois, Dirce, que guardava em si um ódio insano da irmã, fomentado por inveja em estado bruto, foi até o edifício onde Batista morava para engoli-lo por inteiro e arrefecer o desejo tremendo que guardara por longos e áridos anos.

Linda era baixíssima e loura, mãos e pés à forma de biscuits de porcelana, nariz mínimo, olhos verdes como esmeralda, e Dirce uma morena quase-potra. Quadris fartos, e Cauby sempre dizia ao vê-la sair do banho enrolada numa toalha, "vai dar uma boa parideira", seios mais-que-protuberantes, bocas sempre em posição de dê-me-um-beijo, as duas não guardavam semelhança alguma, e agora, anos depois, Batista era a única coisa de comum que havia entre elas. E o jogo que Dirce impunha ao Batista deixava meu doce amigo numa sinuca de bico (outra antiqüíssima expressão).

Depois de nosso encontro no Chamego do Papai, Batista fez-me tormentosa pergunta que resolvi num estalo, e tenho que lhes confessar que o que eu pretendia, apenas, era enredo. O Batista era um folhetim e eu não pretendia deixar escapar a possibilidade de assistir aos capítulos que se desenhavam em minha mente. Batista bateu o telefone pra Dirce e recebeu instruções depois modificadas à noite, quando tornou a esperá-lo no sofazinho de couro na portaria de seu edifício. E deu-se o pânico em meu amigo.

Na véspera do aniversário de Dirce, às oito da manhã, meu telefone gritou. Era um Batista atônito na linha. E convocou-me, sem chance alguma de recusa, para um chopinho no Roquinha. O Roquinha fica próximo à Praça Saens Pena, numa esquina, serve um honesto chope e uns sanduíches cortados à francesa que são uma das obsessões gastronômicas do Batista. Quando apontei na esquina, perto das dez horas, repetiu-se a cena e o gesto do Chamego do Papai: Batista deu um salto à mesa, derrubou seu chope e gritou-me o nome como se eu não estivesse a poucos metros dele, fazendo gestos com as mãos num "venha cá, venha cá" de náufrago em mar bravio.

Contou-me tudo. Havia marcado com Linda para aquela tarde, às quatro horas, no Palácio do Rei, um motel abjeto na Rua Hadock Lobo. E Dirce chegaria às quatro e meia, quando, segundo instruções da perversa, Linda estaria sendo espancada de maneira covarde. Batista não compreendia por que obedecia cegamente as instruções de Dirce, mas estava numa excitação de pré-adolescente.

Impressionante como eu era, apenas, o macaco de auditório. Só o Batista falava. E por dentro eu aplaudia, tomava obsessivas notas de tudo, e o Batista bebia industrialmente, e os pãezinhos eram pedidos e repostos de forma velocíssima, e já passava das duas quando eu lhe pedi que parasse. Aquilo não iria dar certo. Batista estava enrolando a língua, paguei a conta - caríssima, mas eu me sentia comprando um roteiro por pouco dinheiro - e eu decidi ficar bebendo no Columbia, um bar pé-sujo bem diante do Palácio do Rei. Tomamos um táxi, saltamos diante do Columbia, despedi-me de um ansioso Batista que só atravessou a rua depois de virar, num só gole, um Fogo Paulista e de dizer-me um sem-sentido "reze por mim".

Vi quando Linda chegou. Vi quando Dirce chegou. E preciso dizer que cometi uma inconfidência espetacular. De pé no balcão do Columbia, fui contando a um, a outro, o que se passava dentro do Palácio do Rei. Não sei se vocês compreendem como se passam as relações num buteco. Mas em coisa de meia-hora não havia outro assunto na esquina de Afonso Pena com Hadock Lobo que não aquele. Eu contava os detalhes sórdidos, a turba se dividia em pró-Linda, em pró-Dirce, e havia os fanáticos pela bravura do Batista, os que invejavam o Batista, os que pensavam num movimento insurgente a invadir o motel para acompanhar tudo de muito perto, no que fomos contidos pelo gerente do Palácio do Rei que tomava uma batida de limão no horário do lanche.

Nove da noite saem de mãos dadas, Linda e Dirce.

E nada do Batista.

Antes de entrarem no táxi, Dirce jogou-me um beijinho e os mais afoitos nem conseguiram alcançá-las. Batista apareceu mais de quarenta minutos depois.

Foi tratado como herói de guerra pelos frequentadores. Foi um tal de um querer pagar a cerveja dele, outro oferecendo moela, e Batista apenas sorria, dava autógrafos, posava para fotografias com os mais incovenientes, quando ele pediu silêncio e começou (antes eu fui obrigado a lhe contar sobre minhas inconfidências agudas):

"Gente... broxei. E assisti as duas irmãs num amor lésbico feérico. O dantesco, Edu, o dantesco, minha gente, é que as duas se chamaram de Batista, uma a outra, o tempo inteiro. Não me foi dada a chance sequer da recuperação. Me amarraram à cama. Fui solto por uma camareira a quem comi, a contragosto. E o bilhete, Edu... o bilhete que me deixaram no bolso da camisa... vou ler, vou ler...".

Havia um silêncio no Columbia assombroso. Fila tripla de carros na Hadock Lobo. Guardas municipais, policiais militares, a assistência estava tensa.

"Batista: durante anos amei seus gemidos e tive ódio dos gritos secos de minha irmã, mas era esse o fundo musical de meu gôzo solitário naquele quarto que cheirava a mim. Quando o engoli, recentemente, pude sentir o gosto acre da minha solidão estúpida, daquelas noites que ainda doem em mim. Hoje, vê-lo ali, inerte, diante da nossa explosão de prazer, retrocedi no tempo. E enquanto mordia minha irmã e a via gemer de dor e de prazer, pedindo mais, senti-me poderosa, inteira, dona da situação, forte e verdadeira como jamais fui. Quero lhe dizer que odeio Linda com todas as minhas forças. Mas tê-la feito minha, hoje, tê-lo feito um passivo, hoje, ah, Batista, isso foi indizível. Com carinho, Dirce."

Não se entendia nada. Mas os aplausos foram ensurdecedores e contínuos.

Entrei num táxi com um Batista triste. Confessou-me estar amando as irmãs. Mais Dirce que Linda, disse-me ainda.

Não a julgava mais uma louca. Compreendia sua sanidade, amava aquela sanidade, queria mais.

Batista, pobre Batista.

Pediu-me guarida em minha casa. Temia ver uma das duas sentadinhas com aqueles olhos de desejo no sofá de couro do hall dos elevadores.

Até.

3 comentários:

Szegeri disse...

Que beleza, que beleza! Esse é o Eduardo, pena afiada demais, na crônica, no conto, na poesia. No auge! Homenageando com competência absoluta o mesmo Nelson que há dias apunhalara no Conexão Irajá! Se elogiei em particular um seu parágrafo, dos melhores de sua lavra, o bilhete da Dirce, minha gente, o que que é o bilhete da Dirce? Pérola! Parabéns, mais uma vez, compadre. E agora, finda a saga do Batista, queremos mais e mais!

Flávio disse...

Cada vez mais parece o ensaio do romance ( rodriguiano que só ele ). Continue com esse exercício de belas situações insólitas, está ótimo, quando você se tocar já estará quase pronto.

Rodrigo disse...

Maravilha! Gostei muito e ontem qdo falamos sobre um final nada convencional, não pensei em um assim. Mas essa é a função do poeta! abs, Rodrigo