11.5.05

CUNHADOS, CUNHADAS, E UM CASO REAL

Vou interromper, por ora, os arremessos ao Passado. E vou falar do Presente. Se bem que, para dar sentido ao que vou lançar por aqui, terei de falar de fatos ocorridos, sem, com isso, arremessar-me para lá. Eu lhes contei, recentemente, que estou devorando novamente a obra completa do Nelson Rodrigues. E o último livro que li foi "A Cabra Vadia", onde Palhares, o canalha, vira e mexe aparece.

Já que falei no último livro que li, quero falar-lhes sobre o livro que estou lendo, "Na Toca dos Leões", do Fernando Morais, pela editora Planeta, que antes mesmo do fim quero recomendar. O livro acaba de ser cassado por uma liminar judicial requerida por Ronaldo Caiado, canalha também. Aliás, por uma liminar inédita, que não se limitou a determinar o recolhimento dos livros das prateleiras, mas também calou, expressamente, o autor e os editores, que estão proibidos de qualquer manifestação sobre a censura que sofreram. Ainda não cheguei no ponto em que Ronaldo Caiado é citado, mas como sou passionalíssimo (razão pela qual jamais poderia ser, como queria mamãe, Juiz de Direito), sei que a censura é absurda e que Caiado não merecia acolhida no Judiciário. Corram, pois, antes que os tentáculos judiciais suguem a obra das livrarias.

Volto ao Palhares. Vamos à definição do Nelson: "Portanto, convém descrever aqui, em rápidas pinceladas, a sua torva figura. Imaginem vocês que, certo dia, o Palhares cruza com a cunhada no corredor. Era uma menina de dezessete anos, quase noiva. Um homem de bem passa por uma cunhada e nada acontece. Há, de parte a parte, um ´oba´ imaculado e nada mais. E que fez o Palhares? (o novo leitor deve estar numa dessas curiosidades mortais). Eis o fato: - o Palhares atraca a menina e atira-lhe um beijo ao pescoço. Era o canalha. E aí está, num simples lance, toda a sua biografia."

E por que, perguntarão vocês, estou a falar do Palhares? Simplesmente porque o assunto, cunhados e cunhadas, sempre me fascinou. Sempre. Já fui, inclusive, sem qualquer fundamento, e não convém entrar em maiores detalhes, eis que sempre limitei-me aos "obas" imaculados com minhas cunhadas e cunhados ao longo da vida (e estou a falar dos namoros, dos casamentos etc etc etc), vítima de acusações torpes de ser um canalha. Mas jamais o fui, ao menos nesse quesito, como diria o Jorge Perlingeiro.

Mas quero lhes contar de uma Palhares. Isso, isso. Tomemos Palhares como uma definição, como um adjetivo, como um carimbo a atestar a condição de outrem. Não darei nomes a fim de evitar confusões hediondas. Mas vamos aos fatos.

Estava eu no colégio, ainda, com 15, 16 anos. Um colega de turma, um bonitão olímpico, namorava. Vou chamá-lo de Batista. E namorava Linda, que tinha uma irmã chamada Dirce. Ah, os nomes, não se esqueçam, são todos fictícios.

E Batista e Linda estudavam juntos. E moravam perto. E Batista não saía da casa de Linda. E dormia, vários dias na semana, na casa de Linda. Linda e Dirce moravam com a mãe, a quem chamarei de Emilinha, viúva, que por sua vez tinha um namorado, Juiz de Direito, a quem chamarei Cauby. E os jantares na casa de Emilinha, aos quais freqüentemente eu ia como convidado de Linda, eram uma delícia visual e auditiva (a comida era horrível). Cauby jantava sempre de chapéu, e aquilo chocava-me pelo que tinha de antigo e de grosseiro. Cauby numa cabeceira, Emilinha na outra, a mesa retangular austera, Batista e Linda à direita de Cauby, eu e Dirce à direita de Emilinha (construam a cena, construam a cena!). Batista conquistara a confiança absoluta de Emilinha e passara a dormir no mesmo quarto com Linda, como já contei. Um detalhe fundamental para que se compreenda tudo, é que o quarto de Dirce ficava colado ao da irmã.

Como éramos bem garotos ainda, fazia parte da conversa no dia seguinte o relato do dia anterior, em datalhes. E o Batista sempre foi um ourives com as palavras. Descrevia a noite anterior com riqueza de detalhes, as posições, os gritos que ele tentava sem sucesso abafar enterrando o travesseiro na boquinha de Linda, e eu, desde aquele tempo um obcecado pela relações de cunhados e cunhadas, ficava a imaginar as insônias de Dirce, 3 anos mais nova que Linda, sem o passaporte concedido para ter o namorado durante as noites em seu quarto. E Batista revelou-me, algumas vezes, que ouvira gemidos e grunhidos vindos do quarto ao lado, sem dar importância ao fato e eu o inquiria sempre, e a resposta era a mesma. Eles, Batista e Dirce, não passavam de "obas" imaculados.

Vai daí que o romance durou 4 longos anos. E ingressamos na faculdade, e Linda casou-se (ficamos sabendo), e Batista já estava de namorada nova, e nunca mais vimos Dirce.

Uns bons anos depois, diria eu que uns 5 ou 6 anos depois do término da relação de Batista e Linda, saímos, eu e Batista, para um chope na Barra da Tijuca, quando a Barra da Tijuca ainda tinha bares e ainda não era essa Miami odiosa que é hoje. E bebíamos, bebíamos, e jogávamos conversa fora (acabo de me lembrar que saímos aquela noite para afogar a fossa de Batista, que terminara um namoro na véspera), quando Dirce surgiu à mesa. Cumprimentou-nos, de pé (nem a convidamos para sentar), disse um "oba" imaculado para cada um de nós e confesso que não me recordo se falamos sobre ela ou mesmo sobre aquele tempo.

Mas o bom mesmo foi o telefonema de Batista no dia seguinte. Anotem a cena.

Saímos da Barra por volta das 2h da manhã. Subimos e descemos o Alto da Boa Vista em direção à Tijuca. Deixei o Batista em casa e esperei ele entrar no prédio, acenos, e fui pra casa.

Bem, o Batista entra em seu suntuoso prédio. O porteiro lhe avisa que uma moça o espera no hall. E Batista estaca diante da imagem de Dirce estirada no sofá, trôpega e com a fala arrastada. Antes de dar o primeiro pio, Dirce toma-lhe as mãos e o arrasta para a garagem. Posiciona-o atrás de uma pilastra. Abaixa-lhe as calças. E Dirce tem Batista dentro de si, pela boca, por longos minutos. Encerra-se o ato. É Dirce quem suspende as calças de Batista, quem fecha os botões da calça, quem aperta o cinto. Diante dele, boca a boca quase, enxuga os lábios com as costas da mão e manda: "Batista... sofri por 4 anos ouvindo gritos, gemidos, declarações de amor... esperei mais 6 anos, sem que com isso esquecesse de você, a quem sempre desejei com fúria doentia. Eu precisava, entendeu?, eu precisava disso para me vingar daquela vaca a quem sempre invejei."

Mais não disse.

Era a Palhares que floria ali. Batista ainda tentou convencer-me de que ela era louca, que ele havia permitido aquilo por que, sabe né?, Edu..., não dava pra dispensar.

E eu a defendi com unhas e dentes, já que sempre percebera em seu olhar o desejo, a volúpia, a inveja. Não tinha nada de louca, a pobre Dirce. Nada. Era sã, tadinha.

Até.

2 comentários:

Otto disse...

Iiihhh, pronto: incorporou de vez!!! Não vá virar tricolor, hein?

Flávio disse...

O melhor de todos! É puro Nelson Rodrigues. Belíssima citação do cafajeste clássico Jorge Perlingeiro ( faltou a saudosa Selminha Sorriso ). Se for assim escreve um romance.