20.5.05

E EU ENCONTREI O BATISTA

A vida é a arte do encontro. É mesmo. Saibam que poucos dias depois de lhes ter contado a história verídica envolvendo um amigo, o Batista, e sua ex-cunhada, a Dirce, irmã de Linda, estava eu saindo do Tribunal de Justiça e deparei-me com ele, o Batista, bebendo um chope numa churrascaria pré-histórica diante do Fórum, chamada "Chamego do Papai". Vejam a antigüidade do Batista. O "Chamego do Papai" é daqueles restaurantes que vivem "à mosca". Não me corrijam. Não quis dizer "às moscas". Como explica o Baiano, o troço é tão vazio, tão vazio, que apenas uma mísera mosca dá os ares da graça. Os garçons são tristes, suas roupas são puídas, suas gravatas-borboleta há muito perderam o dom do vôo, e um estalar de dedos faz com que os seis garçons arranquem em cavalgadas vigorosas em direção ao cliente, invariavelmente o único do dia. E há, no "Chamego", um balcão horroroso que dá pra rua, onde o Batista bebia seu chope sozinho.

Mal saí do prédio do Tribunal, e os olhos do Batista me capturaram enquanto uma mão nervosa me acenava um "vem cá" desesperado.

Não nos víamos há uns bons meses. Depois das perguntas de praxe, contei a Batista sobre minha inconfidência. E o Batista foi, dali em diante, um ser eletrizante. De olhos fechados, repetiu-me ponto a ponto a história, interrompendo apenas para pedir mais chope, apenas pra ele. Eu estava trabalhando, fui de água mineral sem gás.

Rimos muito, contei-lhe do acerto do meu relato, foi quando ele disse, "há mais, há mais, há mais, ainda não lhe contei tudo!".

Dei-lhe uns tapinhas nos ombros, pedi mais chope por minha conta e disse-lhe olhando dentro dos olhos: "Conte-me tudo, Batista. Timtim por timtim." (quando falei "tintim por tintim" estava pronto o quadro velho que representávamos. As novas gerações nunca disseram o "timtim por tintim", e aquilo dito no balcão do "Chamego" era um gesto todo jurássico)

Dias depois do ousado gesto, Batista recebe em seu consultório uma carta, aparentemente anônima, já que apenas o destinatário vinha preenchido. Batista foi à recepção no horário do almoço, pegou da espátula de platina que havia comprado em Paris, abriu cuidadosamente o envelope e deu de cara com a carta:

"Batista:

Foi bom demais. Esperei longos anos por aquele momento. Vinguei-me de minha irmã, a quem odeio insanamente.

Mas preciso saber uma coisa e peço-te que não me negues a resposta como peço-te, mais, que sejas franco como jamais em toda tua vida.

Quem faz melhor, Batista? Qual de nós duas? Responda-me para a Caixa Postal abaixo discriminada, em no máximo 24h. Não posso suportar tal ansiedade.

Tua, sempre tua,

Dirce"


Batista desmarcou todos os compromissos da tarde. Tirou o jaleco, trocou os sapatos brancos por outros, também de couro, mas pretos, lavou o rosto vigorosamente diante da pia do banheiro com água gelada, penteou-se, pôs perfume e desceu. Foi aos Correios, passando antes por uma papelaria onde comprou um envelope e um cartão. No próprio balcão da papelaria escreveu sua resposta, preencheu os dados, e postou sua carta, registrada e com aviso de recebimento.

A essa altura, Batista estava no décimo chope, eu na terceira garrafinha d´água.

Instalara-se, no balcão do "Chamego" um clima de comício. Todos os garçons, os cozinheiros, o gerente (com um aspecto de empalhado), acompanhavam o enredo com tensão de final de Copa de Mundo.

Contou-me ele, Batista, que sua resposta fora política, algo assim:

"Dirce,

muitos anos separam a performance de tua irmã da tua, aquela noite, em minha garagem. Temo não ter os elementos necessários para satisfazer tua curiosidade. Mas foi bom, creia. Foi muito bom.

B."


Batista pediu o décimo-terceiro chope e foi ao banheiro, não sem antes dizer, "há mais, há mais, esperem, esperem!".

O bate-boca estava efervescente quando Batista voltou. Apostas sendo feitas sobre o final da história, discussões sobre a veracidade do relato, um troço.

Batista deu um vigoroso gole na caldeireta, deixando um bigodinho branco de espuma sob o nariz.

Deu-se que, três dias depois de sua resposta, Batista chega em casa de uma festa, já bem tarde. O porteiro o recebe sorrindo e faz um espichar de nariz em direção ao hall dos elvadores.

E Batista dá com as duas, Linda e Dirce, sentadas no sofá. As duas o arrastam para a garagem, e para a mesma pilastra, "que perversão, que perversão!", ele gritava.

Vendaram seus olhos. Abriram-lhe a calça. E as duas puseram-se a revezar, imaginava ele, enquanto apenas Dirce perguntava..."essa agora, quem foi?"... "fala, Batista... agora... qual de nós duas?".

Batista fartou-se. Uma, apenas, bebeu-lhe por inteiro. Logo depois, ainda vendado, Batista disse..."Foi Linda... quem engoliu foi Linda!... Mas a melhor mesmo - Batista chegara bêbado da festa - foi Dirce...".

Não havia sido.

Dirce retirou-lhe a venda dos olhos e deu com a cena. Linda filmando tudo, a uns 3 metros de distância, e Dirce ajoelhada, ligeiramente suja, ainda, limpando a boquinha com as costas da mão, virando-se pra irmã, dizendo... "Viu, vaca? Não te disse que foi verdade?"

Até.

Um comentário:

Sérgio Teixeira disse...

Edu: estou esperando no mínimo a trilogia dos cunhados ou mesmo uma longa jornada com esses lances aí, está tudo muito bom. Abç.