12.5.05

EU NÃO RESISTO AOS BOTEQUINS MAIS VAGABUNDOS...


O jornal O Globo de hoje dá conta do fechamento de mais um pé-sujo na cidade, em Ipanema, atribuindo isso, a tal nota, à proliferação de butecos-elegantes como o Devassa, o Belmonte, o Informal e outros do mesmo gênero. E a nota está certíssima.

Vejam bem. Eu, Fernando Szegeri e Fernando Toledo estamos, modéstia à parte, batendo um bolão no Conexão Irajá sobre o assunto.

Ontem mesmo reuniu-se a Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos, a S.E.M.P.R.E., Confraria da qual faço parte, num pé-sujo e cascudo na Tijuca, bairro por enquanto livre das pragas já citadas. Um encontro, quero dizer, glorioso. Notem que peça!, que peça!, o letreiro que anuncia as bebidas do buteco. Nada mais carioca, nada mais a nossa cara, nada mais a nossa tradição. Eu, que faço côro com Moacyr Luz e Aldir Blanc para gritar que não resisto aos botequins mais vagundos, vivi uma noite de delícias butiquinescas, impossíveis nos salões arquitetados pelos investidores - não são donos de buteco! - que derramam matrizes e filiais pela cidade afora de suas criações nojentas.

Estavam lá, no tal buteco, na Rua Barão de Mesquita, os aposentados trôpegos com cigarros no canto da boca, escarrando e tossindo a plenos pulmões, os taxistas jogando porrinha e apostando garrafas de casco-escuro, policiais na reserva contando suas histórias mentirosas, uma senhora que tem cadeira cativa no buteco puxando assunto conosco, cartazes anunciando rifas de salaminho, de queijo-bola, de cestas básicas, resultados do jogo do bicho pregados a cuspe nos azulejos, e nada disso, rigorosamente nada disso é factível dentro de um Belmonte, de um Devassa, de um Informal, bares onde todos são pose, apenas pose.

Como bem disse o Toledão, nós, que cariocas somos, intransitivamente (que craque! que craque!), precisamos, como postura mesmo, negar uma visita que seja a esses pseudo-templos da carioquice. Quero dizer que isso é plausível, sim, em São Paulo, por exemplo, onde parece ter nascido, com o Pirajá, essa idéia monstruosa de higienizar o buteco. Não que não haja em São Paulo - há, porque o Otto levou-me a catedrais vagabundas na matéria - bons butecos; mas vá lá, haver em São Paulo um buteco temático é compreensível. Aqui, nunca.

E vêm os investidores do Belmonte, do Devassa, do Informal (repetirei seus nomes como ladainha para destilar minha repulsa), dizer em matérias pagas na imprensa, que está mudando o conceito de botequim no Rio de Janeiro.

Uma vírgula!

É preciso que haja resistência - se a palavra lhes soa antiga, nada posso fazer - para manter vivos os botequins mais vagabundos. Eu mesmo, que ando devagar em matéria de cerveja, não deixo de fazer meus pedidos de engradados no Rio-Brasília, buteco vagabundo ao lado de casa. Não deixo de comprar meu cigarro e beber meu destilado, vez por outra, noutro pé-sujo cujo nome nem sei, na outra esquina.

Nesse ponto, brilha a Tijuca. Dizem os investidores que não abrem filiais por aqui em razão da violência.

Uma vírgula, de novo.

Não abrem por que o tijucano bebedor prefere o cotovelo no balcão, o banheiro apertado, os tira-gostos expostos, os erros de português nos avisos de parede, os personagens permanentes, e rejeitam mesinhas enfeitadas, banheiros com sabonete líquido e papel absorvente de primeira linha, preços nas alturas e mauricinhos e patricinhas fazendo, quero repetir, pose, apenas pose.

Que seja assim, por todo o Rio. Amém.

Até.

Posted by Hello

5 comentários:

Rodrigo de Sousa disse...

Resistência sim! Resistência já!
Nada melhor que um sanduiche de carne assada e uma antarctica estupidamente, ou então um pedaço de aipim cozido e aquela carne-seca cheia de farofa. i, foi mal esqueci da sua dieta! Abraços

Szegeri disse...

Lembrei de uma frase do Martinho da Vila que diz algo assim como que tendinha de morro tem que ser suja, de preferência de terra, com aquela vala na frente, que é pra gente poder escarrar sem remorso e oferecer aquela "do santo". Isso porque, tenho lido, impera nas favelas uma tendência semelhante - vejam vocês! - de "melhorar" os estabelecimentos. Eis, então, que não se vêem mais tendinhas de madeira com chão de terra batida. É tudo alvenaria, com lajota, essas merdas...

Flávio disse...

Faltou mencionar o velho magrinho e desgrenhado dizendo "eu sou matador!", que a velhinha só parou de puxar assunto quando a ignoramos solenemente e que as porções pedidas exigiram uma coragem inédita dos presentes. Impressionate mesmo foi sair as 4 da manhã com o bar cheio, pois quase sempre somos últimos a sair ( enxotados ou após horas de caras fechadas ), o que não aconteceu.

Fernando Toledo disse...

Edu, nos últimos dias tenho visto, nos jornais alguns artigos criticando os bares-MacDonald's. Se não estou muito amnésico, creio que fomos nós os primeiros a levantar essa lebre, né? E nem nos dão créditos...

Eduardo Goldenberg disse...

Fomos, fomos nós sim, Toledão! Desde que eu assisti, por exemplo, na eleição do último GuiaRioBotequim, o Moacyr e o Baiano cabalando votos pro Belmonte (cujo dono é compadre do Moacyr e onde desconfio ele tem privilégios de causar inveja a um bebedor), que encasquetei de vez com esse falsos butecos cujos donos são investidores, apenas.