24.5.05

MAIS SOBRE O BATISTA

Prosseguindo, a pedidos, a saga do Batista, quero lhes contar que quando terminou de contar sua história, uma festa de "ohs" e "ahs" tomou o balcão do Chamego de assalto. Batista fazia cruzes com os indicadores, frente e verso, dando beijinhos nos próprios dedos dizendo "juro, juro que é verdade", para meu delírio visual atestando a implacável antigüidade do Batista, eis que ninguém mais faz juramentos valendo-se desse gesto (e se você sabe do que estou falando, você também é um antigo).

Saímos do Chamego, eu e o Batista, às nove da noite, e é preciso lhes dizer que ninguém, rigorosamente ninguém entrou no salão do restaurante.

Agora que escrevi esse ninguém, ninguém... lembrei-me de uma coisa impressionante que quero dividir com vocês. Eu era bem menino e havia um anúncio na televisão onde um senhor, com um chapéu ridículo, gritava "ninguém, ninguém, ninguém segura o Khalil" (só muito tempo depois vim a saber que ele se referia aos preços da loja Khalil M. Gebara).

Mas eu assistia ao anúncio e tinha um pânico olímpico do velho. E uma dúvida impressionante me achatava e me tomava minutos após o reclame: quem, meu Deus, quem é o Khalil? Ou o quê, o quê é Khalil? E eu tentava me tomar de coragem e dizia pra mim mesmo que um dia eu haveria de segurar o Khalil para desmentir aquele idiota. Vejam que coisa.

Mas voltando. Saímos a pé do Chamego do Papai, atravessamos a Presidente Antônio Carlos, entramos pela Erasmo Braga e o Batista parou de repente, cravou as duas mãos sobre meus ombros e me disse com olhos de medo: "Edu, você acha que eu devo propôr um menàge às duas?".

E eu disse: "Mas é óbvio que sim, Batista, indubitavelmente!".

E o Batista dirigiu-se a um orelhão. Pediu-me um cartão emprestado e fez um sinal com mão como quem diz, "vá, vá, afaste-se um pouco, dê-me licença...".

Encostei num poste e fiquei obervando o Batista conversando ao telefone. Fino como o Zé Colméia, Batista coçava o saco ostensivamente enquanto falava, deixando claro o nível de excitação do papo. Contei uns bons 10 minutos. E veio o Batista com um sorriso translúcido: "A Dirce topou, a Dirce topou!, mas pediu-me que falasse eu mesmo com a Linda.".

Contou-me mais. Dirce, como se vê uma perversa de deixar Laplanche sem explicações, pretendia ver Batista espancando sua irmã de forma virulenta. E tinha idéias assombrosas, macabras mesmo, e Batista parecia um arrependido pelo convite.

Despedimo-nos no ponto do ônibus, tomei o 239 e ele o 415.

Bateu-me o telefone no dia seguinte cedíssimo.

Dirce o aguardava no mesmíssimo sofá na portaria de seu suntuoso edifício, e foi Batista, dessa vez, quem a tomou pelas mãos para levá-la até a garagem. Mas a moça cruzou os braços, encostou a boquinha em seu ouvido e disse-lhe baixinho: "Querido, tem de ser amanhã, véspera do meu aniversário. Ligue assim que chegar em casa pra vaca da minha irmã. Não diga que eu vou. Mudei de idéia. Eu apareço de surpresa no quarto do motel. Vamos combinar direitinho, você deixará a porta destrancada. Quando eu começar a ouvir os gritos de dor daquela estúpida eu entro.".

Batista contou-me que nem dormiu. Ligou pra Linda. E amanhã lhes conto como seguiu-se o enredo.

Até.

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