9.6.05

LEMBRANÇAS DE VIAGEM - PARTE I


Vejam vocês se isso é possível (eu proponho isso a vocês, porque pra mim, sinceramente, isso não é possível, mas acontece).

A foto acima foi tirada pela Maria Paula em Roatan, Honduras, onde ela foi mergulhar com o Miguel. E na foto, um tubarão. Eu, um fóbico incorrigível, não consigo ver a menor, a mínima, nenhuma, rigorosamente nenhuma graça nesse troço de mergulho. Mergulho, pra mim, só em Ipanema e quando faz piscininha em dia de mar tranqüilo. E muito menos, mas muito menos graça vejo quando o objetivo do mergulho é encontrar, assim, cara a cara, uns tubarões (sim, pois se na foto há apenas um tubarão, há mais, há muitas outras fotos onde ambos aparecem cercados por um cardume de tubarões).

Mas vejam bem, isso não é o que mais me assombra, e vou explicar. Ontem à noite, assistindo Brasil x Argentina no Estephanio´s, duas coisas me assombraram, e muito. O primeiro assombro: Luís Filipe de Lima, glória 7 cordas, esteve no bar e o vi magro como um faquir bebendo Coca-Cola Light. O segundo assombro, mote de hoje: enquanto Maria Paula e Miguel flanavam a centenas de metros de profundidade, a milhares de quilômetros do Rio de Janeiro, e cercados por tubarões, pensaram em mim. Vejam isso! Não pensaram no Dedeco, não pensaram no desempenho das filiais da WiseUp, não pensaram na crise do governo, não pensaram no Roberto Jefferson espalhando bosta no ventilador do Planalto Central, não. Pensaram em mim. E me trouxeram, ambos, lembrancinhas da viagem.

Eu, que estou a dias de uma outra viagem, quero declarar, desde já, que tal gentileza, tal demonstração de carinho e de afeto, é improvavél. Não. É impossível! Penso apenas na sobrevivência, segundo após segundo, e na volta, na gloriosa e doce volta que há de me trazer as pernas para o solo brasileiro. Em todo lugar, que não aqui, sou estrangeiro. E um estrangeiro poltrão (eu disse poltrão e vi minha bisavó sorrindo no 17 polegadas que comprei ontem). Comoveu-me sobremaneira receber a garrafinha de rum, presente de Maria Paula, e a camisa, presente do Miguel, mas retribuir a gentileza, na mesma moeda, neca de catibiriba (como estou antigo hoje...).

Falei em viagem e quero lhes contar sobre o Flavinho, nosso Xerife, marido da Betinha. Ontem, tecendo comentários aqui no Buteco, Flavinho fez pouco de meu jantar, sexta-feira passada, pro Szegeri e pra Stefânia. Desdenhou dos pães que comprei numa boulangerie, debochou do petit gâteau, zombou do queijo italiano, riu do funghi. E o que têm a ver viagem e Flavinho? Explico.

O Flavinho viajou, definitivamente, do Cachambi para o Flamengo. Quando morava no Cachambi, e corria diariamente nos calçadões do glorioso bairro, comia pão com manteiga no café da manhã, Bonzo no almoço e Miojo no jantar. O máximo de luxo que se permitia, o bom Flavinho, era uma caneca de Sangue de Boi ou de Chateau Duvalier quando sobrava algum no final do mês. E goiabada com queijo de sobremesa, mas só nos meses fartos.

Mas como eu disse, Flavinho mudou-se para o Flamengo a fim de dividir casa com a Betinha, esta sim, uma elegante desde o berçário. E os dois estavam ontem no Estephanio´s também. E Betinha me fez confissões acachapantes. Flavinho come, hoje, no café da manhã, queijo quente. Mas rejeita, dando tiros pro alto, o bom, velho, saboroso e amarelo queijo prato. Exige queijo gruyére. Café, só italiano moído na hora na máquina de café expresso. Geléia, de todos os sabores, somente a St. Dalfourt. Um troço afetadíssimo.

E eu e a Dani já fomos convidados algumas vezes para uma cervejinha no apê do casal. Brahma? Skol? Original? Nunca. Somente a Erdinger Weissbräu. E naqueles copos de meio metro de altura, de puro cristal. Vejam então vocês. O cara viaja, sobe na vida, experimenta um upgrade olímpico, e fica a desdenhar de um tijucano que faz força pra fazer bonito diante de dois queridos amigos. É a anti-viagem. O sujeito faz que não foi, mas foi. Inapelavelmente foi.

E quero fechar transcrevendo, apenas para que eu lance diante de vocês a ponta do novelo que volto a desfiar amanhã, o email que recebi, ontem à tarde, da Dirce. Vejam:

"----- Original Message -----
From:
dirceribeiro
To:
edugoldenberg
Sent: Wednesday, June 08, 2005 4:57 PM
Subject: dedeco
Edu, obrigada pelo email e pelo telefone do Dedeco. O celular esteve fora de área por toda a manhã, mas ele respondeu meu email. Que coisa doce é o Dedeco, Edu! Que injusto chamá-lo de embusteiro! Ele me mandou umas fotos dele, e o achei foférrimo, charmosinho... ai, tudo de bom! Carinha de safado... Marcamos um chope pro final de semana. Te dou notícias. Beijocas, Dirce."

O Dedeco, meu Deus, onde o Dedeco vai parar?

Até.

Posted by Hello

5 comentários:

Marcão disse...

Edu,

Entrei no seu blogue de manhã, para novidades frescas sobre a saga do Batista, que agora envolve o Dedeco, e eis que me deparo com a foto de um tubarão, sem texto algum.

Me senti o mais burro dos burros por não entender a mensagem subliminar da foto do tubarão, ali estampada, sem texto.

Imaginava eu ue era alguma referência ao Delúbio, ou ao Roberto Jeferson. Agora, entrei de novo, decidido a melhor observar o tubarão e decifrar o enigma, quando veio sua explicação tranquilizadora.

Ufa!!

Augusto Diniz disse...

Preclaro Edu, a farra de domingo parece que foi boa. Foi o Zé Gueri, o Zé Sérgio ... Faltou o Zé Augusto aqui. O fígado estava em frangalhos. O estomazil não fazia mais efeito. Uma coisa: estive tentando me recordar se algum dia eu fui ao Esthephanio's sóbrio. A resposta, por enquanto, é não. Talvez seja por isso que eu não consiga chegar lá sem antes olhar o guia de ruas. O tubarão da foto do texto "Lembranças de viagem" tá procurando o "mensalão". Percebe a importância do registro fotográfico. Pois é, o Flavinho passou de pano de chão pra rodo. É o que a gente sempre deseja pros amigos. Comer sempre um queijinho de primeira. A Lu e a Débora estão tomando a Erdinger como se fosse cerveja local. Você e a Dani também poderão fazer isso. Nós aqui em São Paulo continuamos tentando colocar nossa foto em alguns bares. Dizem que isso traz sorte. Quando você vai ao bar que tem a sua foto, a cerveja cai do céu. Você nem mexe na carteira. Mas dizem que foto na parede de bar é só pra gente famosa. Não é — de maneira alguma - o nosso caso. Abraços do amigo.

Eduardo Goldenberg disse...

Marcão, veja você... Enquanto você via apenas o tubarão, estava eu a escrever a história de hoje. Como um bom boçal cibernético, não sei fazer as duas coisas ao mesmo tempo!

Augusto, faltou você, sim, como faltou o Marcão também. E o Flavinho, nosso Xerife, que depois de trocar o Cachambi pelo Flamengo deu pra viajar pra serra nos finais de semana em busca de cabalas pra sua coleção particular.

Abração pro dois!

Zé Sergio disse...

Edu, Augusto e demais integrantes desta mesa de bate-papo virtual: peço licença para passar ao largo do tubarão (que, por mim, ficaria bem melhor assado, grelhado ou fritinho) e perguntar se vocês viram a foto do Lula chorando no lançamento da plataforma da Petrobras. Uma imagem que me comoveu porque ainda suspeito que o cara foi enganado pela História e pelos amigos e colaboradores diretos (os que ficaram depois que um monte de gente boa, como o Kotscho, o Eduardo Jorge etc., se afastou). Lula esqueceu aquela bela frase: antes só do que mal acompanhado. Ele não percebeu que dezenas de milhões de pessoas legais estavam ao lado dele para o que desse e viesse. No entanto, apesar de triste, acho que podemos perder um amigo e até um presidente, mas jamais a piada. A legenda que eu gostaria de colocar naquela foto seria uma belíssima e comovente frase suburbana que ouvi pela primeira vez nas ruas do querido bairro da Abolição, um dos lugares onde passei a infância. O sentido da frase, neste caso, é o seguinte: nunca fique amigo ou próximo de alguém em quem não confia. Mas a frase suburbana é muito melhor e sei que todos a conhecem. Quem tem cu não faz trato com pica! E tenho dito, pombas!

Flávio disse...

Estou embevecido, nunca imaginei que você imortalizaria minha trajetória de vida em espaço tão nobre. Só faltou me chamar de biltre, aproveitador, arrivista, etc.
Insulto para com minha longa - e orgulhosa - trajetória suburbana, bem como meu lugar no seio da escumalha. Não retiro nenhuma palavra do meu desagravo ao Szegeri na sua noite de Bocuse da Tijuca ( ou Ferran Adria do Estácio, se preferir). É como diz o Dedeco: rancorosa e vingativa.