10.6.05

LEMBRANÇAS DE VIAGEM - PARTE II


Ontem lhes contei sobre a capacidade que alguns têm de, mesmo viajando, lembrar dos amigos que deixam quando partem, e, mais, de comprar-lhes presentes, lembrancinhas, souvenirs e mais que tais. Foi assim com o Miguel e a Maria Paula, que, em Honduras, ao lado de tubarões, durante o mergulho, não pensaram no preço do dólar, na variação do risco Brasil, na mãe, no pai. Pensaram em mim e me trouxeram presentes que, nunca é demais registrar, serei incapaz de retribuir, já que estou partindo para uma viagem na próxima quarta-feira.

"Que meia é essa?, que meia é essa?", estou ouvindo as indagações de vocês, principalmente a do Marcão, que, se ontem assombrou-se com o tubarão solitário antes do texto escrito (leiam nos comentários de ontem, leiam), hoje deve estar se julgando o mais boçal dos boçais, o mais sorvetão dos idiotas diante dessa meia. Vou explicar (e junto com a explicação segue meu pedido de desculpas antecipadas à mamãe que, tadinha, dirá "Onde foi que eu errei?" quando souber o que eu fiz).

Fomos, como lhes contei aqui, eu e Dani, no sábado passado, pra Volta Redonda a fim de encontrar a Raquel, amiga de infância da mulher que me ensinou a sorrir, há mais de seis anos fora do Brasil, morando em Bosta. Boston, aliás. A mesma coisa.

E a Raquel ainda não me conhecia. Quando partiu, Dani era carente de mim, e eu dela. Mas a Raquel foi de uma doçura comovente quando a recebemos no aeroporto, há umas semanas. Tateou meu rosto como se fosse uma das ceguinhas de Laranjeiras. Beijou-me, abraçou-me, disse-me coisas lindas, e as disse à Dani e a todos que lá estavam. Lembrei que lhes contei rapidamente sobre sua chegada aqui.

Eis que quando chegamos em Volta Redonda para o churrasco oferecido por seu pai, Roberto Parreira, que mora numa mansão no bairro Laranjal, o mais grã-fino e requintado da cidade do aço, Raquel gritou "T-e-n-h-o u-m p-r-e-s-e-n-t-i-n-h-o p-r-a v-o-c-ê-s!", dito assim mesmo, pausada e lentamente, em tom de suspense (ali eu fui um intrigado: o que teria me comprado a doce Raquel, que mal me conhece?).

Entrou pra dentro da casa - o churrasco acontecia, por óbvio, na parte externa - e voltou com dois embrulhinhos na mão. Estendeu o primeiro pra Dani. Um livro lindo, capa dura, vermelha, com a esfinge do Shakespeare, edição de 1927 com sua obra completa. "Ohs" e "ahs" tomaram conta da casa, da rua, do bairro, da cidade. "Tô feito. Belo gosto tem a Raquel", pensei por dentro, já com um Black Label duplo servido pelo Parreira, um anfitrião de dar gosto.

Daí a Raquel virou-se pra mim e disse... "E i-s-s-o é p-r-a v-o-c-ê!", do mesmo jeitinho. Abri o embrulho azul, destruindo o papel, quebrando a primeira regra que mamãe incutiu em mim nesse quesito. E deparei-me com seis pares de meia idênticos à meia da foto, com um "USA" cravado na parte superior, desse jeito mesmo. E agora é que mamãe vai chorar.

Minha primeira reação diante de uma Raquel incrédula: "Raquel, tu acha que eu vou usar essa merda?".

Dani de cabeça baixa, ao meu lado, fez que não pros próprios pés, antevendo o que viria pela frente.

"Porra, Raquel... Eu sou comunista, brizolista, socialista, cubano, chavista, afegão, iraquiano, sou contra essa bosta desse símbolo, eu nunca! (gritando muito alto), nunca! vou pôr meus pés dentro dessas meias de merda!". Levantei-me e depois de cantar a Internacional (em português e em russo) gritei pro Comandante, "Comando, tá precisando de meia?", e ele rindo, "Tô", e o Parreira de voleio, "Eu também tô!", e os dois dividiram, como cubanos, o meu presente.

Para que eu não corra risco semelhante, também por isso, é que não trarei nada pra ninguém da minha viagem, entenderam?

Bem, fiquei de lhes contar, hoje, mais sobre esse novelão que envolve Dedeco, Dirce, Batista e Linda. Como não consegui contato com o ex-gordo e ex-careca do Dedeco, fica pra segunda-feira.

Até.

Posted by Hello

5 comentários:

Zé Sergio disse...

Meia que veterano gosta. Pelo menos não é soquete, coisa de veado.

Betinha disse...

Só se for veterano da guerra do Vietnã! A meia é horrorosa!

Eduardo Goldenberg disse...

Caro Zé, devagar com o andor se vc for responder à Betinha: além de mulher do Flavinho, nosso Xerife, que saca da pistola com uma facilidade absurda, é a musa do nosso bom Szegeri.

Zé Sergio disse...

Pois então, Betinha e Edu, foi isso mesmo que eu falei. Além de horrorosas (os veteranos do Vietnã são péssimos para escolher meias, adoram as patrióticas), as meias são meio curtas, quase soquete, ou seja, isso é coisa de ex-combatente do Vietnã meio veado, né não?

Eduardo Goldenberg disse...

Olha, Zé, não fossem meu Comandante e o Parreira espadas olímpicos, e eu concordaria com você. Mas ambos ficaram tão eufóricos com a bosta das meias, que... não, não é coisa de viado (e esse veado com "e"... é obediência à cartilha naufragada?)