8.7.05

CHEGA O FRIO, E COM ELE, O DEDECO

Vejam vocês que, aqui no Rio, basta a temperatura romper, pra baixo, a barreira dos 20 graus, e as ruas são uma festa de casacas, ponchos, gorros, luvas, mantas, cachecóis, coletes e sobretudos. Foi assim ontem. Fui ao Estephanio´s, por volta das 20h, encontrar o Fefê. E lá estava o meu irmão, sentado numa das mesas da varanda, com um agasalho, capuz, calças de veludo e botas. Pedimos vinho tinto. E com as mãos em torno da caneca de louça branca sorvíamos a veludosa bebida lembrando da qualidade dos vinhos da Duda, que está em Paraty, na FLIP, que a Duda é, por mais que seu comportamento contradiga isso de forma contundente, uma intelectual cool (eu disse isso porque, segundo a Duda, quem vai à Bienal do Livro, no RioCentro, é um bobo atrás de novidades editoriais, mas quem vai à Paraty, aí sim, é um intelectual na íntegra).

Mas prosseguindo. Sorvíamos o vinho quando estacou-se diante de nós o Dedeco.

Fomos um susto em uníssono.

De terno chumbo (da Dartigny), gravata vinho (da Hermès), colete marrom (da Pierre Cardin), sapatos pretos (italianos) e com um guarda-chuva de causar inveja ao Pinguim, inimigo do Batman, enorme ("para que eu não o perca", disse ele), Dedeco abriu os braços e, como que justificando a indumentária (eis que veste, diuturnamente, a mesma calça jeans, a mesma camiseta de malha preta e a mesma sandália de dedo), falou, "Estou chegando de Petrópolis".

Quando o Dedeco disse "estou chegando de Petrópolis" eu golfei o vinho, que bailava em meu palato, sobre o Fefê. Imaginei nosso bom Dedeco de pantufas deslizando pelos salões portentosos do Museu Imperial, encantando as turistas que o apontavam, não como um careca (lembrem-se que o Dedeco, depois que emagreceu mais de 20 quilos, deixou de ser o gordo e também o careca), mas como o fenômeno que abala as estruturas por onde passa.

E sentou-se à mesa conosco o pomposo Dedeco. Os garçons, o Léo e o Erasmo, boquiabertos, elogiavam a elegância do nosso André Menezes. O Bruno, cozinheiro do Estephanio´s, ou Bruna, como queiram, desmaiou diante de seu porte. As vizinhas desciam, sem pretexto, para uma voltinha no quarteirão, e daquela massa de cachecóis, luvinhas, toucas, gorros, brotavam "ohs" e "ahs" denotando paixão.

Perguntou-me sobre a Fumaça, o bom Dedeco, um atencioso olímpico. Quando lhe disse "está na África", Dedeco derramou uma lágrima não sem antes dizer, "tadinha, o sorvete na África é uma merda". Perguntou-me sobre a Duda, e quando lhe disse "está em Paraty, na FLIP", do outro olho brotou outra gota de sal acompanhada de "como lê, como lê, como lê, essa menina!".

E ficamos ali, bebendo vinho, comendo pão, numa espécie de Santa Ceia pagã.

Falei em Santa Ceia e, não sei por quê, lembrei-me da Itália. E lembrei-me que recebi, há pouco, email da Cecilia que fecha o email com "un grosso beijo". Comentei com o Dedeco sobre a expressão "grosso beijo" e o Dedeco apenas riu, cuspindo o vinho sobre o Fefê, de novo, puto a essa altura, com aquela festa de saliva e tanino sobre seu casaco novo.

"Tá rindo de quê, criatura?", perguntei.

"Nada", disse o Dedeco, um cínico.

Tive a certeza, naquele momento, de que foi o Zé Colméia quem deu a meia pra Cecilia. O grosso beijo, sei não, foi o Dedeco. Pela cara do pomposo André Menezes, posso apostar.

Até.

Um comentário:

Flávio disse...

Mais uma prova de como o André é um espírito sem luz, um flagelo do mundo feminino. Essa estória de Petrópolis tem algum plano maquiavélico, nem que seja para exibir o principesco guarda-roupa comprado - a peso de ouro - com o nababesco salário do Tribunal de Contas. As desavisadas tijucanas que se cuidem.