21.7.05

PAPAI ARREMESSADO AO PASSADO


No sábado passado, depois de meses de recesso, Fefê e Zé Colméia resolveram abrir a cobertura do duplex na Rua Dona Maria, mais conhecido como StefiHouse, para um churrasco daqueles, de dia inteiro. Os presentes, além de mim e da Dani, Fefê e Brinco, Zé Colméia, Márcio Branco, Duda, Betinha e Flavinho, Índio, Rogerinho, Mestre Tubarão, Marquinho, Mestre e Marlene, Isaac e Mariazinha, respectivamente papai e mamãe.

Vejam vocês que isso já é espetacular. Um bando de garotos e dois sessentões enxutos no meio da turba. Isso poderá lhes soar bobo, mas me é extremamente prazeroso ter meus velhos comigo, e num churrasco, e na StefiHouse, e num sábado de sol, isso é ainda mais espetacular, vou tentar explicar o por quê. Os pais são, no mais das vezes, personae non gratta quando a filharada se reúne. Por inúmeras razões, nem vou decliná-las. Isso vai desde a tenra idade até todo o sempre. Eu disse no mais das vezes porque há exceções. E os filhos que são as exceções têm, desde sempre eu declarei isso, minha admiração. Um filho que não tem o pai, a mãe, como quase-ídolos, como companheiros imprescindíveis, é um bastardo. Mas lá estavam os dois, eis que papai e mamãe são personagens que, quando não estão comigo em carne e osso, tenho sempre no bolso imaginário. Aliás, a título de ilustração, assim também são a Dani com o Comandante e o Szegeri, meu Otto na íntegra, com o Zé, de quem tenho tido saudades intensas.

Churrasqueira acesa, carnes nobres assando, cerveja no gelo, Índio na percussão, Fefê na voz e no violão, Rogerinho no violão solo, e as horas passando, e as pessoas, obviamente, se embriagando sem compromisso com o porvir. Pausa para um parênteses. A Betinha e o Flavinho tinham, sim, um compromisso às seis da tarde. Mas às quatro o bom Xerife sacou da pistola, deu três tiros pro alto e decretou, democrata que é, diante de uma Betinha atônita, com salão marcado e manicure agendada, "cancela a porra toda, vamos ficar aqui". Restou à Betinha beber mais, o que, seguramente, não foi de todo ruim.

Outro parênteses para descrever o Márcio Branco. Sabedor de sua beleza acachapante, o Branco faz (e fez, naquele dia) de propósito: estava virado da noite anterior, com uma calça jeans azul escura encardida, uma camisa, de botões e manga comprida, cor-de-rosa e azul-bebê, amarrotadíssima, uma jaquetinha também jeans, mas azul clara, meias brancas à mostra (a calça pescava siris à mancheia) e um Vulcabrás que não via graxa há anos, como quem diz "Visto-me mal para que minha beleza sobressaia. Quem precisa de roupinha bonita são os feios". E humilhados, todos, verificávamos a verdade estética do Branco. A Duda, que esperou pacientemente o Dedeco até às cinco, que não apareceu, oferecia-se para "dar uma ajambrada" no Branco em sua própria casa. As vizinhas da frente, acintosamente, apontavam binóculos em direção ao bonito, e as mulheres presentes, dentre as quais a minha se inclui, soltavam frases como "como é cool, o Branco", "que charme, mesmo vestido de espantalho", "lindo, lindo, lindo" e mais e mais e mais. Apenas a Brinco, a certa altura, disse "Prefiro meu Nando. O Branco é apenas um par de olhos lindos cercado de mau gosto por todos os lados". Fina, a Brinco.

Mas vamos ao arremesso de papai.

Já lhes contei que o Isaac, no início da década de 60, deu de cara com a mamãe numa festa em que ele era o penetra (uma rotina pra ele. Papai, Mauro, Pato e Babolina não passavam um único final de semana sem uma festa, sem uma penetrada clássica). Numa casa suntuosa na Rua Mariz e Barros, copo de Cuba Libre na mão, cigarro no canto da boca, papai não suportou ver o par de coxas morenas de mamãe deslizando degraus abaixo numa escada de mogno em caracol. Estacou ali, diante dela, os olhos dando voltas como um carrinho de montanha-russa, e ao som de "Georgia On My Mind", na voz do Ray Charles, disse-lhe ao pé do ouvido, "caso com você um dia!". E assim foi feito.

Pois em determinado momento da noite, já era noite, papai, carregado na cerveja, pediu silêncio ao Fefê e a todos. Cambaleando, foi até o minisystem e catou um CD. E pôs pra tocar, justamente, Ray Charles cantando "Georgia On My Mind". E a cena foi de uma beleza tocante.

Sem que nenhum de nós entendesse nada, papai foi até os fundos do terraço e voltou com uma escada de carpinteiro, de madeira mesmo, e a escorou na caixa d´água. Com as mãos, fez um gesto pra que mamãe subisse os degraus (e mamãe o obedeceu, com certa dificuldade, carregadíssima na cerveja também). Daí fez outro sinal pra que ela descesse a escada. E quando mamãe pousou no chão, um papai com olhos marejados disse-lhe algo ao pé do ouvido e ficaram ali, os dois, dançando como se estivessem naquela casa da Mariz e Barros.

As vizinhas aplaudiram, a Duda gritou chorando "o Dedeco não vem mesmo?", Flavinho dava tiros pro alto comemorando a cena, o Branco chorava enxugando as lágrimas nas mangas de sua jaquetinha surrada, e depois da dança papai e mamãe partiram, de táxi, não sem antes lançarem beijos em direção à vizinhança e em cada um de nós, que a tudo assistíamos embevecidos.

Era o papai lançado ao Passado. Um romântico.

No dia seguinte, ele foi ao nosso encontro, no Estephanio´s, sozinho, assistir a derrota do Vasco para o Flamengo, no pior Vasco e Flamengo que já assisti na vida. Fim do jogo, papai se levanta, xinga o Eurico, amaldiçoa o Romário, joga o resto de chope de seu copo na tela da 29 polegadas e me diz, baixinho, "vou à sua mãe que lá sou mais feliz".

Até.

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12 comentários:

Renata Maiolino disse...

Muito maneiros seus corôas! Parabéns pelos pais e pelos relatos. Já pus no meu "favoritos"!

Betinha disse...

Você é muito sortudo, sabia, Edu? Pais, irmãos, mulher e amigos maravilhosos!
Beijos grande!

Rogerinho disse...

Eu comecei a ler achando que seria apenas mais uma crônica deliciosa e acabei me emocionando. Parabéns, Edu.

Luciano Diniz disse...

Pôxa vida! A Betinha e o Rogério (personagens seus) se manifestando! A Betinha dizendo que seus pais, sua mulher (com todo o respeito, risos), irmãos e amigos são maravilhosos. Um dia desses vou aparecer no Estephanios já que eu quero conhecer todo mundo e fazer parte de suas crônicas, Edu! Parabéns pelo Buteco e pela vida que você leva cercado de gente finíssima pelo visto!

Sandra Terzzi disse...

Caro Edu, o Babolina citado vem a ser o nosso Jorge Benjor? Meu pai também bebia com ele na Tijuca com a moçada da Jovem Guarda.

Saudações a seu pai.

O nome do pai é Alberto Terzzi.

Um abraço.

PS: seu blog é uma emoção só.

clarice sardas disse...

Que paizão heim :-)

Sua mãe também tem sorte (complementando o que a Betinha disse)... com uma declaração de amor dessas tantos anos depois.

Um abraço, sou sua fã embora não tenha o prazer de conhecer-lhe

Zé Sergio disse...

Rapá, que sucesso essa crônica! Dá-lhe Edu, parabéns!

A. Terzzi disse...

Prezado Zé Sérgio, "que sucesso" e merecido, concordas?

Escrevo através de minha filha, Eduardo, para parabenizar-te pelo pai figurão que tens e pela beleza de tuas palavras.

Fique com meu abraço,

A. Terzzi

Zé Sergio disse...

Mas é evidente que é merecido!!!

Anônimo disse...

Eduardo, desde a crônica sobre sua bisavó que você não me fazia chorar de emoção, só de rir. Hoje eu chorei comovidíssima com essa história tão bonita envolvendo seus pais. Quanta doçura, Eduardo. Receba o carinho de uma avó moderna :-) encantada com suas palavras.

Margarida Maria

Szegeri disse...

Lindo, Edu. Chorei, pra variar. Pensei em mim olhando a Stê esticar-se pra pegar sei lá que coisas que ficavam no alto da geladeira do Ó, quando a blusa levantava um pouquinho e dava pra ver aquele pedacinho de costas (o Dalton foi testemunha, o Dalton foi tetemunha!). Pensando bem, acho que nem tinha nada em cima da geladeira...

Szegeri disse...
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