19.7.05

A VIAGEM DO BATISTA E O TERNO DO DEDECO

Conforme o combinado, Batista ligou-me por volta das quatro da tarde de ontem e foi o mesmo monocórdio quando disse "Te vejo às sete no Roquinha". E o Batista, que é de uma previsibilidade implacável, já estava à mesa quando apontei na esquina da General Roca e gritou meu nome como se não me visse há meses, os dois braços ao alto balançando qual um boneco inflável desses de posto de gasolina. Abraçou-me como se não me visse há anos e num ímpeto de gentileza, que denotou um nervosismo extremado, afastou a cadeira pra que eu me sentasse. "Marcou?", perguntei. "Não. Vou viajar amanhã, às nove da manhã, e você vai me levar ao aeroporto, direto daqui.", disse o Batista cravando a mão em meu bolso, pegando o maço de Carlton e o isqueiro. "Viajar?", e eu não conseguia esconder o desapontamento. "Buenos Aires.".

E o Batista contou-me seus planos. Estressado, triste com a separação e pressionado por Dirce, a viagem pra Buenos Aires lhe pareceu uma saída e tanto. Um amigo seu, de infância, estava morando na Argentina há uns cinco anos, separado também há coisa de um mês, e bastou um telefonema na noite anterior para que o convite fosse feito e imediatamente aceito.

O Batista pediu uma porção de lingüiça e dois chopes. E outro cigarro. E me disse que estava com as malas prontas, os clientes do consultório desmarcados pelos próximos três meses, e que contava comigo para a carona até o Galeão. E disse mais, que Dirce sabia de tudo e concordara com tudo. Disse-me que deixara com sua secretária uma procuração me nomeando seu advogado para que tratasse dos papéis da separação. Eu ouvia tudo, atônito, sabendo que meu papel, naquele momento, era apenas o de ouvinte. E fiquei ali, até às oito da noite, quando partimos em direção à pensão na Rua do Matoso a fim de pegarmos suas malas do couro, duas apenas, forradas com pano forte e brim cáqui. Batista acertou as diárias na recepção, fétida como o quarto, e partimos pro Capela por volta das dez da noite.

No trajeto até o Capela, Batista pediu-me o celular emprestado e fez uma ligação. "Dirce? Oi... você pode vir de carro até o Capela? (...) Estou com o Edu. (...) Tá bom... espero... você me leva cedo ao Galeão? (...) Beijo. (...) Eu também.".

Lá chegando, atendeu-nos o Cícero. Dois chopes, uma porção de salaminho, e eu me despedi antes mesmo da chegada da Dirce. Desejei-lhe sorte e lhe pedi que mantivesse contato por email. E parti rumo ao Estephanio´s.

No Estephanio´s, mesa de cinco na varanda, já quase onze da noite: Fefê, Márcio Branco, Barroca (lê-se Barróca), um Juiz Federal e o Dedeco. Vou lhes descrever o Dedeco para depois explicar o por quê desse "Juiz Federal" sem nome.

O Dedeco vestia um sapato preto luminoso, "da Motex", disse-me o Dedeco de pé. Terno preto, gravata cinza com listras diagonais pretas, uma camisa branca, "da Casa Alberto", e um pulôver de lã, cinza, com gigantescos botões de madrepérola. Vejam que pompa.

E dando mais pompa à mesa, um Juiz Federal. Ou melhor, quase-um-Juiz-Federal, já que o amigo acaba de passar no concurso mas ainda não tomou posse. E ver o Dedeco diante de um Juiz Federal foi espetacular. Primeiro é preciso dizer que basta alguém passar num concurso para Juiz Federal (para Juiz, apenas, o Federal é meramente apêndice nesse caso) para que tudo mude. O chope vira uísque. As porções de salaminho, antes devastadas pelo candidato, viram porções de vieiras. Os "obas" e "olás" efusivos com que nos cumprimentavam o candidato, transformam-se num cerimonioso "como vais?" com a mão estendida. E o Dedeco, ali, esculhambava a liturgia do cargo.

"Vai trabalhar em que vara?", e coçava o saco e guinchava de rir, o Dedeco.

Eu, sentado ali diante daqueles cinco, com a cabeça ainda voltada pro drama do Batista, divertia-me com a conversa non sense deles. Pedi chope ao Erasmo e um maço de Carlton, que o meu ficou com o Batista no Capela. E o Dedeco, tirando sarro com a cara do Juiz Federal, fez a proposição.

"Excelência... (e ria de cuspir o chope)... Ajude-me nessa tormentosa questão... A Polu, desde ontem, não mora mais lá em casa. Estou a precisar, urgentemente, de uma empregada. Mas penso que, depois de anos de luxúria, preciso mesmo é de uma mulher, e quando eu penso em mulher, penso imediatamente na mãe ideal para meus filhos. Penso que deve ser uma mulher culta, dessas que vão à FLIP ano após ano. Uma mulher que seja sommelier, que entenda de vinhos, de uvas, de safras, de bagos (e coçava acintosamente o saco de novo), que seja organizada, austera com as contas da casa... Vossa Excelência pode me ajudar?".

O Fefê tinha a cabeça entre os joelhos de tanto rir. O Márcio Branco, aquela beleza humilhante, só dizia "você não presta, André", o Barroca chorava de tanto que gargalhava, e o Juiz Federal bateu o martelinho imaginário e pediu silêncio.

"A Duda, meu caro, a Duda.".

Fiquei ali, por uns cinco minutos tentando dizer alguma coisa. Como os cinco eram uma só gargalhada, e até mesmo o Erasmo e o Léo rolavam na calçada molhada de tanto que riam, fui embora.

Até.

2 comentários:

Betinha disse...

Gostaria de ser uma mosca para assistir ao pedido de casamento...

Curiosa disse...

Fala o nome do Juiz Federal!