31.8.05

CHICO EM PARATY


Eu não sei se alguns de vocês já tiveram a capacidade de amar a alguém sem ao menos conhecê-lo. Vou explicar melhor, até mesmo porque eu acho que sim, acho que isso é razoavelmente comum. Você ouve uma história. Se apaixona pelo personagem central. E não sabe ao menos a cor da pele, dos cabelos, não sabe nada sobre ele a não ser o enredo. E conta a tal história aos outros, e conta, e conta mais, e sua admiração vai crescendo, sabem do que estou falando, né? Pois bem. Vou ser mais claro. Antes, quero dizer que na foto está o Chico. Chico Maracanã. Vamos em frente.

Já contei essa história - a história a que me referi - em Volta Redonda. Em São Paulo. Em Natal. Em Cajaíba. Em Amsterdam. Em Roma. Em Ibitipoca. E vou contar aqui, agora. Mas notem bem que contei muito a história. Muito.

O Estephanio´s promoveu, determinada época, um concurso de litragem. Controlávamos o que cada cliente bebia, atribuíamos pontos ao chope, à capirinha, à cachaça, ao uísque, e no final do mês o campeão ganhava o prêmio: bebia no dia cinco do mês seguinte por conta da casa. Eis que o Chico, o da foto, no último dia do mês, passa pelo Estephanio´s e descobre que está a poucos pontos do primeiro colocado. Entra. Senta. E bebe 32 chopes. Vou escrever por extenso. Trinta e dois chopes. Alcança a liderança e se sagra o campeão do mês. Mal consegue falar pra pedir a conta. Erasmo tenta demovê-lo da idéia de ir pra casa de carro. De certa forma o Erasmo tem êxito, já que o Chico não foi pra casa. Chico está com o diabo no corpo e sai. E cai no Rio Maracanã (vejam que obedeceu ao Erasmo). O carro, capotado, com as rodinhas pra cima. E o Chico abre a janela, vê o carro se transformar num aquário - tem o cuidado de desligar o rádio "pra não dar curto" - e fica de pé à espera de socorro. E chegam os Bombeiros. "Tudo bem, amigo?".

"Tudo ótimo, vermelhão! Me traz um chope, por favor! Sou o campeão do mês, porra!".

E foi resgatado, o Chico, levado ao Estephanio´s de volta, bebeu mais uns por conta da casa, pegou uma camisa emprestada com o Erasmo e voltou a pé pra casa.

Vejam bem. Contei muito essa história. Confirmem, Szegeri, Betinha, Zé Sérgio, Guerreira. Jamais disse o nome do santo pois não me lembrava nunca. E agora dá-me um orgulho absurdo e tijucano de poder dizer "eu conheço o malandro!". Vejam. Eu nunca lhe disse o nome porque sou preciso do início ao fim, e não mentiria num detalhe tão pequeno.

E no ônibus, a caminho de Paraty, chega o Branco com o Chico ao lado e me apresenta o cara. Caí em prantos (já estava na décima nona latinha, é verdade). Pedi autógrafo, pedi pra tirar foto, um vexame. Mas eu estava diante do mito.

E o sujeito é, é mesmo, uma piada bípede. Praia no sábado. Marquinhos tira a camisa e fica ali, com aquele shortão gigantesco, aquela pela alva que jamais viu sol. E grita o Chico: "Puta merda, Marquinhos... lindo esse teu bronzeado-palmito!". Até a dona da barraca de cerveja guinchou do balcão. Noutro lance de gênio - vou omitir seu nome - uma menina se queixa, na praia, de que seus pés são feios. Chico vem de quatro, engatinhando, do outro lado da mesa com guardanapos na mão. Estaca diante da moça e passa a limpar seus pés, cheios de areia, com os guardanapos diante dos olhares incrédulos. Limpos, os pés, Chico os enterrou na boca, até quase a altura do tornozelo e depois disse: "Lindos. Seus pés são lindos. E deliciosos.". E foi ao mar, de quatro, pra de lá gritar: "Foi mal aí... precisei entrar na água fria pra não ficar com vergonha diante de vocês...", e disse isso coçando, acintosamente, o saco.

Um gênio da raça.

Até.

PS: quero erguer, do Buteco, o copo imaginário, pra agradecer à assistência, que fez com que estejamos, já, com mais de 15.000 visitas, como muito bem lembrado pelo Zé Sérgio, um louco, seguramente, uma espécie de, vamos dizer assim por enquanto, corretor de imóveis.

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30.8.05

FUMAÇA EM PARATY


Acho que lhes contei, quando dos relatos sobre a viagem à Europa, que a Fumaça, dono desse sorriso que é permanente - poucas vezes estive diante de alguém que sorri como quem respira - diante do Coliseu, em Roma, chorou de fome.

Vejam bem. Eu, que sou preciso do início ao fim, não estou exagerando. A Fumaça, advogada, bem sucedida, bem alimentada, comportou-se diante do Coliseu como um cristão prestes a ser entregue aos leões. Ajoelhou-se diante da imponente construção, pôs as mãos nas orelhas, o queijo no meio das coxas e guinchou de fazer parar a assistência dos turistas que, imediatamente, desviaram as objetivas que buscavam os melhores ângulos da obra de Vespasiano e Tito em direção à Fumaça, que gritava, em português, em italiano e em inglês, "Gente, desculpa, mas eu estou com fome". Estou contando isso porque fato similar ocorreu em Paraty.

Estávamos eu, Dani, Guerreira, Marcy e Fumaça passeando pelo centro histórico em busca de um bom restaurante. E a busca começou justamente quando a Fumaça, sem chorar, é verdade, disse, "Gente, estou com fome". Como eu, Dani e Guerreira estávamos em Roma naquela oportunidade, temendo o pior em Paraty, iniciamos a procura de um restaurante. E estacamos diante do Bartholomeu. E entramos.

É preciso dizer que no instante em que pisamos no restaurante o sorriso da Fumaça quase rasgou seus lábios, tamanha sua satisfação. E fomos ao cardápio.

Eu de tapa de cuadril, que o restaurante era de argentinos. Dani, Guerreira e Marcy optaram por dividir uma moqueca. E a Fumaça foi de ravioli.

Pequena pausa. A Fumaça é uma farofeira na melhor acepção da palavra. Não estou a falar dos hábitos tijucanos, que os tijucanos são farofeiros olímpicos no que a palavra tem de pejorativo. A Fumaça, não. A Fumaça adora mesmo é uma farofa, e uma farofa crocante, como pontua sempre.

E eis que os pratos vieram à mesa. E a Fumaça, tadinha, repetindo o gesto de Roma, cai no chão do restaurante, fica de joelhos, tapa os ouvidos com as mãos em concha, leva o queixo às coxas e urra de dor. "O que foi agora, Fumaça?", disse a Guerreira gargalhando. E a frase lapidar dita entre soluços: "Se eu soubesse que na moqueca vinha farofa não teria pedido esse ravioli". E houve mais, houve mais! As meninas, com peninha da Fumacinha, lhe passaram a cumbuquinha de farofa. E eis a cena antológica que transformou seu pranto em sorriso: a Fumaça, rasgando as regras de etiqueta e as normas básicas da boa gastronomia, salpicou a farofa sobre o ravioli como se fosse queijo ralado e quando o garçom, percebendo sua eufórica performance, perguntou "Está bom o ravioli, senhora?", a Fumaça de voleio mandou "Não sei. A farofa está ótima".

Houve mais, houve ainda mais. Vejam isso. A Fumaça, na volta ao Rio, veio com uma garrafa de "Lua Cheia" entre as mãos. Exatamente como um bebê com sua mamadeira. Era alguém pedir um golinho e ela muxoxando... "Devolve, por favor... tô com sede...", e de fato bebeu, a Fumaça, quase que a garrafa inteira.

Notem que a Fumaça exerce suas necessidades - fome e sede - com uma fúria da Etiópia. O que, somado ao permanente sorriso, faz dela uma companhia indizível.

Até.

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29.8.05

GUERREIRA EM PARATY


Na foto, a elegância suprema da Guerreira, de quem papai é fã número um. "Uma elegante, eu gosto da Guerreira", repete papai sem cansar. E de fato é, a Guerreira, uma européia, uma elegante, e falando sobre Paraty durante toda essa semana que começa hoje, quero tentar, ainda que minimamente, derrubar esse mito que transforma a Guerreira numa incapaz de qualquer gesto, digamos, mais baixo. Vamos aos fatos.

Partiu o ônibus do Rio na sexta-feira às oito da noite. Eu, Dani, Fefê, Brinco, Dedeco, a namorada (cujo nome jamais vou dizer), Branco, João, Chico Maracanã, Aranha, Manguaça, Fernanda, Fumaça, Guerreira, Marquinho, Cicinho, e éramos quase quarenta seres humanos com sede de cana, que o festival é de pinga e é por ela que fomos todos. O ônibus, politicamente incorreto, era um fog de fumaça de cigarro e tinha, num par de poltronas, um isopor cheio de cerveja e gelo. Bebemos olimpicamente no trajeto a Paraty.

E lá chegando, tomamos cada um o rumo de seu quarto.

Nesse instante é preciso dizer que a Guerreira já chegou a um passo de galopar. "Estou bebinha", é o que repetia a Guerreira, e notem que nessa frase reside um pouco de sua elegância. E fomos à cidade.

E sentamos num buteco e prosseguimos os trabalhos. Coisa de duas da manhã, decidimos, eu, Dani, Guerreira e Fumaça, voltar à pousada.

E a Guerreira disse: "Gente, vamos ficar bebendo aqui fora... quero esperar a Marcy...".

A Marcy, amiga de SP, partira em direção a Paraty, onde chegaria às três da manhã.

E chega a Marcy. E a Guerreira, trôpega, mas cavalgando com aqueles pernões longos, pendura-se na Marcy e grita "Ôba, que bom que você chegou...", mas esse "ôba, que bom que você chegou" foi dito de forma ininteligível, lentamente, ela babando no ombro da Marcy, que, assustada, disse... "Nossa, Lu... você está bem bêbada, heim...".

E a Guerreira - notem a frase!, notem a frase!: "Pô... intimidade é uma merda... a gente não consegue esconder o porre de uma amiga íntima...".

E teve mais: voltando ontem, o ônibus, em côro, começou, inexplicavelmente, a cantar os hinos brasileiros. O Nacional, o da Bandeira, o da Indendência. E eis que ecoou no coletivo: "Salve lindo pendão da esperança / Salve símbolo augusto da paz...".

E a Guerreira, na poltrona de número 1, guinchava, chorava, gritava uns "ai, ai, ai", e eu fui a ela.

"Ai, Edu... vocês falaram no Augusto... me deu uma saudade dele...", e seguiu chorando, alagando o ônibus, até o desembarque.

Até.

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26.8.05

SZEGERI E SEU PÉRIPLO

Como já lhes contei, o Szegeri, meu irmão paulista, meu Otto na íntegra, esteve no Rio na segunda-feira passada para participar de mais um Encontro Ordinário da Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos, a S.E.M.P.R.E., a fim de homenagear nosso irmão em comum que partiu mais cedo, o Toledão. E a vinda e a volta do Szegeri foram uma delícia só, vejam vocês.

Antes uma observação. O Szegeri tomou o avião na segunda, em SP, às oito da noite. E embarcou de volta às cinco e meia da manhã. Congonhas-Galeão-Congonhas. Fui buscá-lo no aeroporto. Ver o Szegeri desembarcar já é um espetáculo, e explico. Desembarcam homens e mulheres com bolsas a tiracolo, mochilas, pastas, malas, pochetes. E o Szegeri sem rigorosamente nada. Só a carteira no bolso traseiro da calça jeans que não vestia há mais de quinze anos, que o Szegeri perdeu quinze quilos.

Daí deixamos o carro em casa e partimos de táxi pra CADEG. Onde o Szegeri - também lhes contei - bebeu por ele e pelo Toledo. Durante o encontro, me fez confissões lindíssimas, que torno públicas, e ele há de me perdoar.

Uma: "Não consigo passar mais uma noite longe da Stê". Disse isso, chorou, e bateu o telefone pra Stê. Enquanto soluçava ao telefone dizendo coisas como "fala que também não consegue mais dormir sem seu ursão" eu guinchava diante dele e fazia sinais com a mão pedindo o telefone, que me foi passado. A Stê, vejam bem, àquela altura, duas da manhã, também com saudades colossais do meu irmão, respondeu-me que bebia em São Paulo na companhia do Daniel (vim a saber, depois, que é seu sócio no meu bar preferido de Sampa, o Ó do Borogodó). Mantendo minhas tradições de defender meus amigos de forma intensa, disparei um corolário de palavrões de fazer tremer a CADEG. E o meu irmão, à frente, chorando e fazendo que não com o dedo indicador.

Outra: "Depois que emagreci, meu cocô não afunda mais, mas bóia". Disse isso, chorou de novo e bateu o telefone pra doce Stê. E disse: "Amor, fala pro Edu que o cocôzinho do seu ursão agora bóia", e passou-me o fone. A Stê, tadinha, apenas ria e dizia, "É verdade, Edu, mas cuida aí do Fernando, ele não me parece bem...".

E não estava bem, o meu irmão. Aproximando-se a hora de sua partida rumo ao Galeão, abriu o chafariz lacrimal e chorou de empoçar a mesa. E estava, digamos, sem condições sequer de se levantar. O Dalton, um de nossos Confrades, um homem que - é ele quem diz - deixa o Nei Lopes no chinelo quando o assunto é "africanismo", levou-o até um táxi. E voltou o Dalton, solene e preocupado como o Palocci na recente entrevista coletiva: "Gente, vamos ficar ligando pro Szegeri, ele está péssimo". E instalou-se o desespero na mesa. O celular do Szegeri urrava, urrava, urrava e nada dele atender. Restou-nos a espera.

E somente na terça-feira, às seis da tarde, ligou-me o Szgeri.

Contou-me que fora acordado, dentro da aeronave, por uma aeromoça: "Senhor... o senhor já perdeu o microônibus que levou os passageiros da pista até a área do desembarque... agora o senhor terá de deixar o avião... o senhor se importa de acompanhar a tripulação?". E disse ele: "Não. Mas antes me traga uma cerveja, por favor.". A moça, com pena daquele trapo, serviu-lhe uma latinha de Brahma e foi com ele, de mãos dadas, até o saguão do desembarque.

Szegeri havia deixado seu carro no estacionamento.

Sabendo-se sem condições de dirigir, ainda, sentou-se numa das cadeiras de Congonhas e dormiu por três horas seguidas. Não foi trabalhar. E dormiu, em casa, como que hibernando.

Ainda me fez três perguntas:

"Como eu fui da CADEG pro Galeão?"

"De táxi."

"Meu Deus... não lembro.... Mas... eu paguei algum vexame durante o Encontro?"

"Nem vexame e nem a conta..."

"Meu Deus... não lembro disso também..."

"Aliás, nem vexame, nem a conta e nem a corrida de táxi, Szegeri. O motorista voltou à CADEG e nos cobrou a corrida..."

"Meu Deus... não lembro..."

Vejam se não é, o Szegeri, como o Vidal, uma lenda.

Bem mais feio, é verdade, mas uma lenda.

Até.

25.8.05

ESTEPHANIO´S EM PARATY


Depois de ter deixado de lado, ontem, o humor, pra dizer umas verdades que tornaram-se inapeláveis depois do que foi atestado pelo Jota nos comentários - obrigado, amigo! - deixo o humor de lado, outra vez, dessa vez pra fazer propaganda, sem precisar recorrer aos serviços do Marcos Valério, o papa do negócio no Brasil.

E propaganda que eu faço, eu que sou preciso do início ao fim, é garantida. Vamos a ela.

Na sexta-feira, amanhã, dia 26 de agosto, parte do Estephanio´s, mais um ônibus em direção a Paraty, onde acontece, de sexta a domingo, o XXIII Festival da Pinga. Vejam vocês se não é uma pechinca de fazer até a Duda, uma pão-dura olímpica, urrar de felicidade. Pagando apenas R$300,00 você vai do Rio a Paraty, e volta (se conseguir, é óbvio), hospeda-se numa suntuosa pousada e ainda faz um passeio de saveiro pelas águas verdes de lá. Mas vejam bem, há mais, há mais, e quando eu terminar de dizer o que de mais há (que construção rica...), verei o Zé Sérgio dando guinchos em casa gritando "eu vou, eu vou, eu vou".

O Dedeco vai.

Isso mereceu um parágrafo pois é um acontecimento. Não é sempre que o embusteiro dá-se assim, tão fácil. E há mais, ainda há mais.

Vai com a namorada.

Vejam bem. O Dedeco, nas excursões dos anos anteriores, voltava estragado, e não era de bebida. Era pelo rodízio que havia em seu quarto, já que valia-se, o mentiroso, dos mais baixos expedientes pra levar as moças pra um delivery em seu apartamento. Com a namorada, a presença do Dedeco é mais-que-um-destaque.

O Marquinho vai. E as chances de vocês verem o Marquinho agindo, vale o ingresso. Beberá como o cossaco que é, levando meia hora pra beber uma latinha, já que bebe e cospe dentro do copo, bebe e cospe dentro do copo, e o troço leva uma eternidade, num espetáculo de asco e pilhéria.

O Branco vai. Imaginem, moças, desfrutar da beleza acachapante na ida e na volta. Aos espadas, vale dizer que o Branco é companhia das melhores, o que faz dos R$300,00 esmola de dar na rua. E há mais, há mais!

Fefê estará lá. Com Brinco. Eu. Com Dani, Sorriso Maracanã.

Restam apenas 10 lugares.

Eu garanto a vocês que o Buteco estará inteiro lá. Indo e vindo. Com todos os relatos devidamente feitos na segunda-feira.

Até.

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24.8.05

AGENDA DO SAMBA & CHORO

Deixo de lado o humor, apenas por hoje, diante de um troço que, como se diz, está atravessado na garganta. Como sou um obsessivo olímpico, como sou um ardoroso defensor da verdade, como sou um brigador em defesa dos amigos, peço licença a vocês que vêm sempre ao Buteco em busca do riso, pra lhes contar um episódio que, repetindo, ainda está atravessado na garganta, mas que vai, aos poucos, enquanto escrevo, descendo aos trancos e barrancos. E está descendo mesmo, e posso garantir, já neste ponto, que quando eu escrever "até", no final, como faço sempre, nada mais me importará.

Há um site que se chama Agenda do Samba & Choro. E quero dizer que foi - ainda é, mas bem menos, e por razões que não interessam por ora - um dos maiores responsáveis, ou o maior responsável, pela verdadeira explosão de casas de samba e choro Brasil afora. Quando foi criado, Paulo Neves, seu idealizador, corria algumas casas aqui no Rio de Janeiro com uma filipeta amarela contendo o endereço do site, buscando sua divulgação. E a coisa foi dando certo, e os leitores passaram das dezenas, chegaram a centenas e hoje são milhares os que buscam ali as informações sobre tudo o que acontece no país, em todas as cidades, envolvendo, como diz o nome, o samba e o choro.

Há, no site, uma seção chamada Tribuna Livre. Eu escrevo "livre" e morro de rir. Vou explicar. A Tribuna Livre nada mais é do que uma lista de discussão onde as pessoas trocam informações sobre o assunto. Eu fiz parte da tal lista, e dela fui expulso. Três vezes. Por mau comportamento. E com razão, quero dizer. O Paulo Neves até que suportou demais meu humor ferino. Mas houve outro expulso. O Fernando Toledo. Gênio da raça, o "Girassol" destilava conhecimento e genialidade por ali, e por não suportar o nível rasteiro de algumas discussões, vez por outra descia o pau quando escrevia. Mas sem minhas maldades, preciso confessar de novo. E o que fez o Paulo Neves? Destruindo o adjetivo "livre" da Tribuna, expulsou de lá o bom Toledão. Estou escrevendo isso e sem querer me lembrei do Paulo Francis e da Petrobras.

O Toledão ficou, a princípio, sentido e magoado. Depois, como lhe era peculiar, deixou de dar importância ao fato, embora, vez por outra, Szegeri é testemunha, assacasse o verbo contra o episódio.

Daí veio a morte do Toledão.

E o que houve na Agenda?

Uma homenagem ao Toledo. Com direito a fotografia do Toledo na capa do site. E um texto pondo o Toledão nas alturas. O que fiz eu, brigão por excelência como bem atestou o próprio Fernando no Conexão Irajá? Escrevi uma mensagem lá, assim: "Pena que o Toledo não pode prosseguir com seu humor por aqui, de onde foi covarde e sumariamente expulso". E o que houve então? Pisando no adjetivo "livre" da Tribuna, já destruído, Paulo Neves varreu de lá meu comentário. E veio o João, assinante também da tal lista, e escreveu um pequeno texto intitulado "Homenagem tardia". E o que houve então? Pondo fogo no adjetivo "livre" da Tribuna, o Paulo Neves também varreu de lá a coisa.

Eis que foi à Agenda o meu irmão Szegeri, meu Otto full time, e cravou um protesto pela sumária retirada dos textos que atestavam a hipocrisia da homenagem. Como o Szgeri impõe respeito, a coisa está lá até o momento. Reside, ali, então, o meu protesto.

Vejam como eu me conheço. Estou acabando de escrever e já sinto deglutida minha revolta.

Até.

23.8.05

S.E.M.P.R.E. NA CADEG


Reuniu-se ontem, com pompa, a Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos, a S.E.M.P.R.E., no buteco Poleiro do Galeto, na CADEG, em Encontro organizado pelo Flavinho, o Xerife, em homenagem ao grande ser humano que foi - e é, eis que ainda em mim - Fernando Toledo, o "Girassol", como o chamou o também grande, lato sensu, Fausto Wolff, em artigo comovente no JB por ocasião de sua morte. E eu digo "com pompa" de boca cheia, eis que estava em peso a Confraria: eu, Fefê, Dalton, Vidal, Zé Colméia, Flavinho e Szegeri, na companhia dos convidados Branco e Lara. Vejam que na foto, onde se vê o Branco e o Szegeri, meu Otto full time, o dono de beleza acachapante faz careta na tentativa, vã, de ficar feio.

O Encontrou durou das 21h até 5h30min, quando ainda ficaram por lá Dalton, Flavinho e Branco, que o Branco bebe como um cossaco, e o que é pior, sem dormir dias seguidos. Brindamos à memória do Toledão, que foi saudado quando cantamos "Saindo à Francesa", "Valsa do Maracanã", "Três por Acaso", quando erguemos o copo, dezenas de vezes, ao humor, à graça do convívio e à imortalidade de sua alma que, como eu já disse, permanece dentro daqueles que o amaram em vida.

O Szegeri, vejam vocês, veio de São Paulo exclusivamente para o Encontro. Desembarcou no Galeão às 21h e partiu, de volta, às 5h30min, debaixo de um chôro convulsivo que desabou minutos antes dele se despedir.

E arquitetamos, ali, o Encontro do mês de outubro, que será organizado pelo meu irmão Szegeri, em São Paulo, e quero desde já lhes dizer que a paulicéia há de tremer diante de nossa performance olímpica à mesa.

E pra fechar, percebam como estou cansado e ainda derrubado depois de três dias seguidos de trabalhos etílicos, vejam o que o Branco fez na tentativa, compreensível, de sensibilizar os Confrades, visando sua inscrição no rol da Confraria. Levou uma mala - isso mesmo, uma mala! - de onde saíram garrafas de Quilmes Imperial, uma de Limoncello, latinhas de Stella Artois e uma garrafa de vinho tinto.

O Toledão seguramente ficou orgulhoso. A S.E.M.P.R.E. fez ontem, e graças à escolha do Flavinho, e graças à presença maciça do quadro de Confrades, o melhor e maior Encontro de sua história, já não tão curta.

Até.

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22.8.05

FUMAÇA, BICAMPEÃ


Eu lhes contei, na sexta-feira passada, que a Fumaça faria, no domingo, ontem, uma festa em Pendotiba para comemorar seu aniversário. E lhes contei mais: que no ano passado a Fumaça conquistou o título de melhor festa de 2004 e tentaria, em 2005, o bicampeonato. E, de fato, o título é dela e quando eu digo "é dela" quero dizer "é dela, da Incêndio (sua mãe) e do Osvaldo (o figuraça do namorado da Incêndio, a quem eu chamei, por dentro, de Bombeiro, pra que tudo fizesse sentido nesse leque de apelidos)".

E por que ilustro o dia de hoje com essa foto, minha e do Branco? Apenas para que faça sentido, para quem não o conhece, o aposto que vem sempre a reboque quando lanço aqui o nome dele. Assim: Branco, esse sim de uma beleza acachapante. Vejam se não estou com a cara nítida de um humilhado conformado. Vamos em frente. Não sem antes dizer que ninguém é perfeito. Quando o Branco tirou o tênis, ontem, a festa foi uma vaia coletiva diante da feiúra, também acachapante, de seus pés e de suas unhas, que não vêem uma tesoura, um alicate, há décadas.

É preciso que eu seja detalhista para que se compreenda o que foi a festa.

Saímos de van, da Tijuca, eu, Dani, Betinha, Flavinho, Jeremy, Armando, Manguaça, Fernanda, Branco e Maria Paula. Quando eu digo que saímos da Tijuca é preciso que fique claro que levamos, conosco, a Tijuca para a festa. Quando chegamos em Pendotiba, no condomínio onde a festa se realizaria, a primeira tijucanice clássica. Não havia uma alma no ambiente. Nem a Fumaça. Nem a Incêndio. Nem o Osvaldo. Nem os garçons, o que denunciou, de forma evidente, que a Tijuca tem sempre fome e sede de festa. Mesmo quando a festa é longe, o que torna tudo ainda mais tijucano. A van, o farnel comprado na padaria, uma excitação que foi capaz de irritar o motorista. Mas vamos prosseguir.

Vamos, agora, às presenças. Não me tenham como um chato detalhista, mas é importante colocar os personagens à vista de todos. Evidentemente, Fumaça, Paulo, Incêndio, Osvaldo, Fefê, Brinco, Shayane, Zé Colméia, Vinagre, Augusto (ele mesmo, o pulha paulista), Duda, Ângela, Cacau (cheirosíssima, como sempre, aquele odor de Listerine, aquela alvura de sabão em pó), Hilton e Hilda, do Candongueiro, Wanderley Monteiro e Iracema, vozes gloriosas que deram mais alma à festança, Ruivinha, Guerreira, Zé Sérgio (ele mesmo, que ontem fumava desbragadamente), Dôra, e a família, óbvio.

Quando eu digo "a família" volta, a mim, o sentimento profundo de piedade que me assaltou ontem. Vou explicar.

Diante da horda bárbara da Tijuca, diante da escumalha que dava cores suburbanas ao ambiente chique naquele condomínio de luxo, a família (avós, tios, tias, primos e primas da Fumaça) parecia refém do medo, do choque, da vergonha. Entendam uma coisa. Havia uma grande área coberta, onde aconteceu a roda de samba. E havia um jardim imenso do lado de fora. Pois a Tijuca ocupou todas as mesas da área interna e a família - essa foi a visão que me deu vontade de chorar de pena - ficou, o tempo todo, do lado de fora com aqueles olhares de vergonha e medo, como que dizendo em côro, "tadinha da Débora, como pode ela se misturar com essa gentalha?".

Disse gentalha e vou contar alguns rápidos episódios.

Vejam o Zé Colméia. O Zé tem quase 2 metros de altura, calça 50, e estava lá, sem camisa, descalço, e num determinado momento disse à Betinha com a boca suja de feijão: "Pô... esse caldinho me deu o maior bode... tô com sono...", e ela retrucando, "Pôxa, Zé... eu também comi e estou ótima...", e o Zé, de voleio, "É, mas eu já comi 12".

Outra do Zé. Veio à mesa um panelão com carne assada e molho, que uma senhora, pacientemente, fatiava montando sanduíches no pão francês. Pois o Zé tomou-lhe o garfo trinchante das mãos e espetou de uma só vez o bloco inteiro do lagarto redondo. E saiu atropelando os convidados mordendo, como um bárbaro, a carne assada reclamando que estava muito seca. Fino, o Zé, como se vê.

Falei do caldinho de feijão e da carne assada. Vejam vocês o esmero da Fumaça e da Incêndio. Eu trouxe, como souvenir, a lista que estava afixada nos azulejos diante da pia da cozinha. Vamos a ela: (01) queijo minas com orégano e azeite, (02) bolinho de bacalhau, (03) sanduíche de carne assada, (04) caldinho de feijoada, (05) trilha com cebola, tomate, azeitona e batata corada, (06) pastel de presunto e queijo, (07) carne com cebola e farofa, (08) coxinha de galinha, (09) sardinha com ovo de codorna e pão, (10) pastel de carne, (11) aipim frito, (12) lingüiça com farofa, (13) pastel de banana, (14) bolinho de aipim com carne seca e (15) queijo coalho. Vejam vocês a fartura, e os tonéis de Brahma, estupidamente gelada, eram 5.

Chegamos lá às 13h e partimos às 21h. Para casa? Não.

Paramos diante de um buteco sujíssimo na Tijuca, esquina da Rua Caruso com Hadock Lobo, e bebemos mais, os 10 passageiros da van. O Jeremy, americano que graças à falta de habilidade, compreensível da Maria Paula, que é uma elegante, chorava dentro do buteco vociferando contra o Leblon, o Jobi, o Bracarense, urrando num português quase-perfeito, "isso sim é um buteco, isso sim é o Rio de Janeiro..." e ficou tascando beijos em mim como se fosse, eu, o responsável por aquilo tudo (era eu mesmo, mas sou um modesto).

Erguemos, todos, o copo à saúde da Fumaça, craque na arte de receber.

Até.

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19.8.05

19 DE AGOSTO É DIA DE LELÊ


Na foto, de autoria do Cachorro, da esquerda pra direita, Lelê, eu, Dani Sorriso Maracanã (vejam se não foi feliz o meu irmão Szegeri ao carimbar-lhe o apelido!), Maria Paula lá atrás e Guerreira. Aliás, a foto é um atestado da feiúra olímpica do meu sorriso, se é que eu posso chamar de sorriso esse troço que tenho na cara. Vejam a luminosidade do sorriso das moças (embora a luz da Dani seja de cegar) e vejam se eu não destôo na fotografia.

E hoje, 19 de agosto, faz anos a Lelê. Vou lhes contar um pouco sobre a Lelê, a quem eu chamo de "uma das minhas favoritas", e vou explicar. Antes, quero dizer que o Szegeri, meu Otto full time, ao dar de cara com a Lelê pela primeira vez disse: "Sorriso Via-Láctea", e cravou-se ali o apelido.

A Lelê é companhia capaz de garantir a festa. E vou exagerar um pouco, o que não é do meu feitio, para que vocês sejam capazes de dimensionar o que é a Lelê. A Lelê tem a capacidade de fazer um velório ter a aparência de uma festa. Um "oi" vindo da Lelê, um "oba, como vai?" já faz com que você guinche de tanto rir, e isso é rigorosamente inexplicável. Sempre com um cigarrinho na mão, sempre com um copo de cerveja na outra, com aquele andar cambaleante que lhe é característico, a Lelê chega no ambiente e a assistência gargalha em uníssono e ninguém sabe dizer o por quê. Carisma, dirão uns. Presença de espírito, dirão outros. Mas ninguém sabe ao certo a razão verdadeira.

Rubro-negra de carteirinha, fanática de chorar pelo Flamengo, a Lelê, fiel às suas paixões, comemora a data hoje no Estephanio´s e amanhã com um churrasco em seu portentoso terraço no Grajaú, onde abala a vizinhança pacata e conservadora com seus hábitos, como o de receber no Carnaval, como fez esse ano, meia dúzia de uruguaios amigos seus, o que gerou protestos no condomínio, na rua, no bairro inteiro.

Ergo daqui, do Buteco, e ergue também a Dani, ao meu lado, o copo imaginário, ao humor e à saúde dessa grande figura que nos concede a graça do convívio.

E já que falei em festa, domingo a Fumaça comemora o seu aniversário em Niterói, que já foi devidamente comemorado no Bar Getúlio, na terça-feira, com uma roda de samba - saquem o timaço - formada por João de Aquino, Wilson das Neves, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Zé Luiz do Império e Wanderley Monteiro.

A festa da Fumaça, ano passado, foi eleita pela assistência do Estephanio´s a melhor de 2004. Tentará o bicampeonato a doce Fumaça. Na segunda-feira, lhes conto.

Até.

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18.8.05

ZÉ SÉRGIO GOLFANDO EM NITERÓI

Tive o prazer, ontem, de almoçar na companhia da Guerreira e do Zé Sérgio, em Niterói. O prazer adveio, muito mais, da companhia da Guerreira do que da companhia do Zé Sérgio que, já lhes contei isso, não vale rigorosamente nada. Parou de fumar, o Zé, vocês hão de se lembrar. Pois durante o almoço ele fumou, disse eu a certa altura, uns 15 cigarros, ao que ele me interrompeu, "não estou fumando, Edu, agora eu sopro cigarros", e nessa frase reside a distorção que cada fala sua esconde. E a companhia da Guerreira serviu, como se não bastasse o prazer puro que me proporcionou sua presença, para que ela pudesse testemunhar a veracidade do que vou lhes contar agora. Será ela, a Guerreira, tenho certeza, uma vez inquirida pelos curiosos a respeito da verdade do que vou dizer, a primeira a subir no banquinho imaginário e gritar, "O Edu foi preciso do início ao fim". Vamos em frente.

Estávamos já de pé, depois de termos comido uma generosa porção de carne assada com batatas coradas acompanhada de algumas tulipas de chope - horroroso, por sinal - diante do balcão, pagando a conta, quando entra no buteco um personagem recorrente nesses ambientes: uma louca. Sozinha. Uma mulher, talvez com uns 50 anos, muitíssimo mal vestida, nitidamente uma solitária, e ela bate no balcão e diz, "Gente, gente!, liguem a TV... Brasília está sendo invadida... acabei de falar com minha filha pelo celular e ela me disse que a coisa tá pegando fogo no Planalto...". O dono do bar, prontamente, tomou o controle remoto nas mãos e sintonizou na GloboNews. E passava uma matéria sobre a Faixa de Gaza. A mulher, dando um chilique, continuou, "Mas não é possível que esteja havendo censura! Minha filha me disse que a passeata está varrendo a Asa Norte, a Asa Sul, tudo pacífico, mas uma multidão barulhenta que vou te contar...".

Com o troco que recebemos, pedimos mais dois chopes e eu disse pro Zé, "Porra, que saco... Que mulher chata...", e tive uma idéia. Uma idéia, aliás, da qual me valho com freqüência, qualquer dia desses lhes conto mais episódios similares.

A tal senhora, como uma galinha com fome, andava em círculos diante de nós, querendo puxar conversa e recebendo desprezo à dorê em retribuição.

Peguei o celular no bolso. E forjei a ligação, falando aos berros:

"Alô? (...) E aí, como é que tá? (...) - fazendo cara de intensa preocupação - O quê? Você tá em Brasília? (...) Tiroteio? (...)".

Interrompo rapidamente o relato de minhas falas pra dizer que nesse momento a Guerreira estava andando de gatinha pelo bar, tentando esconder o riso que lhe escapava fácil, e o Zé, copinho de chope na mão, lançando um jato contínuo da bebida sobre uma das mesas, gargalhando e fingindo ouvir uma piada contada pela Guerreira, pra não estragar meu número, dizendo apenas, "Muito boa essa, Guerreira...".

Pelo espelho diante de mim, eu podia ver a mulher com os olhos esbugalhadíssimos, quase que pra fora do globo, com o celular na mão.

E eu continuei: "Rapaz... faz isso não... Tente se proteger dentro de algum edifício... Sei lá... (...) O quê? Quantos feridos? (...) Subindo a rampa do Palácio?".

E a louca falava ao telefone.

Dirigiu-se ao dono do bar: "Acabei de falar com a minha filha... Tem tiro porra nenhuma...". Deu um socão no balcão e saiu.

Missão cumprida, pedimos mais chope e o dono, gratíssimo, nem cobrou essa rodada.

Até.

17.8.05

O DEDECO E A DELAÇÃO PREMIADA

Não é demais repetir quem é o Dedeco, um espírito sem luz, na definição de uns, um embusteiro, na de outros, um sujeito que se vale dos mais baixos expedientes para obter vantagens, ainda mais quando o assunto é mulher.

Na segunda-feira ligou-me o bom Dedeco - eu digo "bom Dedeco" por força do hábito, apenas - para esclarecer o que ela chamou de "pequena dúvida". Empolgadíssimo com o espetáculo das CPI´s que fervem em Brasília, queria saber do que se trata a tão ventilada delação premiada. Como estava sem tempo, fui rápido. "Querido, é o seguinte... Um sujeito sujeito ativo de qualquer crime, envolvido até a raiz dos cabelos, se oferece para contribuir com as investigações denunciando tudo o que sabe, pretendendo, em troca, obter redução de sua própria pena, entendeu?". Riu, o Dedeco, tossiu como um cachorro tísico, agradeceu-me e disse, entre guinchos, "Claro que entendi, depois te conto". A princípio não entendi esse "depois te conto", mas hoje tudo se esclareceu.

Toca meu celular e pisca o nome do Dedeco no meu combalido Nokia. Eu sempre disse que o BINA trouxe uma novidade às relações pelo telefone. Como ficamos sabendo quem está do outro lado da linha, nossa voz tem a cor do humor que emprestamos a quem nos liga. E eu atendi, excitadíssimo, pois sabia que vinha merda. "Fala, Dedeco!".

E ele, como sempre, parece o Dedeco ler a partitura imaginária de sempre quando fala ao telefone, "Faaaaaala, Edu!". E eu só fiquei repetindo, "fala, fala, fala... me conta...", que eu, na hora, associei seu telefonema de hoje ao "depois de conto" de anteontem.

Vejam do que foi capaz esse biltre.

Torceu, como uma lavadeira de beira de rio, o instituto da delação premiada.

Contou-me que ontem à noitinha bateu o telefone pra uma moça. Moça essa que é namorada, vejam a que ponto chega a vilania do André Menezes, de um amigo seu. Inventou uma desculpa qualquer e convocou a incauta pra uma cerveja no SAARA, pertinho do Tribunal de Contas, onde trabalha o embusteiro. E lá, na hora marcada, aponta a moça na calçada já encontrando o Dedeco com o umbigo encostado no balcão. Dá dois beijinhos na menina, solta um "como vai, querida?" mais falso que Marcos Valério, e começa o papo.

O Dedeco perguntou à moça se ela sabia o que era delação premiada.

A menina ficou ruborizadíssima, contou-me ele, já que entendera, ela lhe contou logo em seguida, "felação premiada", o que a fez baixar os olhos e dizer "o que é isso, Dedequinho...?".

"Delação", disse o Dedeco, gargalhando de fazer tremer o bar, tossindo gravíssimo.

A moça não sabia.

Daí ele: "Querida... sua vida é uma mentira e você sabe por que estou falando isso...". E a moça arregalou os olhos, esbugalhadíssimos, e o Dedeco pôs-se a narrar, com riqueza de detalhes, suas aventuras, digamos, extraconjugais. Eu digo suas e refiro-me às aventuras dela, quero me fazer entender. Lê-se muito mal. Mas vamos seguir.

A moça, assustada, depois de dividir com o André uma meia-dúzia de garrafas, ficou ali, estacada diante dele, esperando o fim daquela tragédia anunciada. Daí a moça pousa uma das mãos sobre a peluda mão do Dedeco e diz, lânguida... "Mas e daí, Dedequinho... você não pretende contar isso a ele, pretende?", e o Dedeco gargalhando ainda mais alto, soltando uma babinha de cerveja pelo canto da boca, fumando desbragadamente, disse, "Eis aí o ponto nodal da questão...", e riu ainda mais. "Para não delatá-la quero um prêmio... entende?", e beliscou, vejam que nojo, o bico do seio esquerdo da menina, protuberante sob a blusinha de helanca verde que ela vestia.

A moça ainda tentou negociar com o André, mas ele dizia a ela, com base nas informações que eu havia lhe prestado, "Querida... isso é delação premiada, compreende? A gente tem que negociar mesmo...", e ficou ali, torcendo e distorcendo a lição que aprendera comigo, aplicando vantagens a si mesmo. "E já que tu entendeu felação... tu não acha que é uma boa idéia?", e beliscou de novo o mamilo da menina, a essa altura falando arrastado.

Partiram em direção ao apartamento do Dedeco, na Conde de Bonfim, e deitadinhos no piso de mármore da varandinha, fizeram, contou-me ele, "um delivery muito bom".

Até.

16.8.05

SOU MAIS O LIMÃO QUE O ABACAXI

Vejam vocês que o Buteco é moldado pelos seus leitores mais-que-fiéis. Pemito-me ser pautado, como um estagiário pelo chefe da redação imaginária com o indicador cravado em meu nariz. Ontem, nos comentários, Flavinho e Zé Sérgio fizeram observações que merecem ser mencionadas. O Flavinho pede que eu escreva histórias sobre os personagens presentes à festa, em especial um de nome Abacaxi. Mas não falarei dele. Fruta por fruta, sou muito mais o limão preparado durante toda a noite pelo atencioso Mozart do que o Abacaxi, que não merece mais nenhuma citação (farei apenas mais uma, no final).

Não, não. Vou lhes contar só uma sobre o Abacaxi (duas, com a do final). Quando foi cantar, foi vaiado de maneira canina pela unanimidade da festa. Mas a vaia era canina, e era dos cães que têm fome nos quintais da SUIPA. Vaia de cães magros, raquíticos, esqueléticos, e aquilo foi de uma coerência diante do espetáculo que foi por terra a tese de que a unanimidade é burra. Éramos, ali, cães com doutorado no exercício da vaia.

Já o Zé Sérgio, num raro momento de doçura, que o Zé Sérgio troca agressões por email comigo que é uma beleza, me lança a pecha de antítese do binômio frio e calculista. Antes, porém, me acusa de ter mandado checar a vida pregressa do Comandante para só depois fazer a côrte à Dani. Em seguida, provando que a absitinência tabágica continua lhe fazendo muito mal, me absolve com essa declaração doce, de que sou o único calculista de pavio curto que ele conhece.

Eu disse "pavio" e me lembrei do saudoso Fernando Toledo, que na Conexão Irajá começou me descrevendo assim: "Conheci o Edu brigando, para variar...". Vai daí que quando estivemos no Capela logo depois do velório, eu, Dani e Szegeri, eu disse a eles... "Vou encurtar ainda mais o meu pavio pra que meu irmão fique ainda mais orgulhoso de mim...", e a Dani soltou um "ai, meu Deus..." condoído.

Bem, eu falei do Flavinho, falei do Zé Sérgio, falei do pavio, falei do Toledão e preciso lhes contar da homenagem que prestamos a ele, eu e Fefê, durante a festa (essa é a pauta do Flavinho). A certa altura fomos ao microfone, já quase no final da noite, e cantamos - veja que beleza, Szegeri! - "Saindo à Francesa", o que gerou um chôro de soluços horripilantes na mamãe, e a visão dela aos prantos me fez chorar todo o volume do Rio Paraíba do Sul, que corta a cidade de Volta Redonda. Mas fomos muito mais aplaudidos quando tiramos o microfone do crooner, demonstrando o desacerto do repertório do cara. Acabei de lembrar que a Guerreira, numa grossura que não lhe é peculiar, mas justificável, chegou pra ele a certa altura e disse apontando pro livrinho com as letras das canções, "joga essa bosta no lixo, por favor". Mas vamos em frente.

Vamos seguir na pauta do Flavinho, que relata, no seu comentário de ontem, uma reprimenda que passei no crooner, que eles descreveu como um "imitador de Roberto Carlos, vestido com sapato branco e calça verde, chamando o Comandante de Wlado e sendo corrigido - rapidamente - pelo Edu, com um lindo "é Wlader, porra".

Quando eu digo que sou preciso do início ao fim, isso fica ainda mais evidente diante da imprecisão do Flavinho. Não foi nada disso. Primeiro eu quero completar o figurino do crooner: sapato branco, calça verde, cinto branco, camisa verde no mesmo tom da calça e blazer cinza Príncipe de Gales. Percebam o horror visual. E vamos aos fatos.

Antes tenho que dizer que na festa do ano passado, quando o Comandante comemorou suas 7 décadas, lá estava ele, o mesmo crooner, e eu tenho certeza de que com a mesma roupa. E o que é pior, com o mesmo repertório. E lá estava ele cometendo o mesmo erro que cometeu esse ano. Cometeu uma, duas, três vezes. Antes que cometesse o erro pela quarta vez, eu me mexi. Dizia ele a cada 10 minutos: "Agora, Vládi... agora, meu amigo Sigman...", e ele dizia isso mancando como manca o Rei, levando a imitação às raias do defeito físico. Daí eu parti em linha reta da mesa ao microfone, ouvindo a Dani soltar outro "ai, meu Deus...". E também fui até lá porque percebia que, sob a toalha da mesa, o Flavinho checava a munição da pistola. Pedi o microfone e mandei: "Gente, boa noite... meu nobre - dirigindo-me ao crooner - não é possível ouvir mais isso... Os aniversariantes são o Wlader e o Sig, sem o Sigman, que é apenas afetação da sua parte. Já não nos basta ter de aturar os erros olímpicos do repertório?".

Fui mais aplaudido que o Frank Sinatra no longínquo 25 de janeiro de 1980. E lembrei-me do Frank Sinatra porque tivemos o desprazer de ouvir o Abacaxi cantando "New York, New York" num dialeto incompreensível do qual apenas ele ria.

Até.

15.8.05

71 ANOS NO COMANDO


No sábado passado, Wlader Dutra Miranda, o legendário Comandante, na foto, comemorou, à mancheia, a passagem de seus 71 anos. Partimos pra Volta Redonda eu e Dani, e mais Isaac e Mariazinha, Fefê e Brinco, Flavinho e Betinha, Guerreira, e gente de todos os cantos. De São Paulo, do Rio, de Niterói, de São Lourenço, sua terra natal, e o que se viu foram mais de 200 pessoas erguendo o copo ao humor e à graça do convívio com tão impoluta figura. Eu escrevo "impoluta" e ouço sua voz repetindo "impoluta" com centenas de acentos agudos no "u", que o Comandante fala num ritmo inconfundível, o que faz dele não um homem, mas uma caricatura viva.

Vejam uma coisa. Foram mais de 200 pessoas e eu me arrisco a dizer 200 amigos, mesmo que o exagero numérico aliado à palavra "amigo", coisa rara, pareça invenção da minha cabeça. Beltrão, Roberto Parreira, Roberto Severo, Petrônio, Mozart, Lula, Zé Maria, Cabeça, Tom, Amarildo, Alonso, Luizão, Sig, Bittencourt, Alfredo GM, Walter Motta, Jair, eis aí alguns dos nomes que desfilavam pelo Clube Laranjal, cujo único sócio remido, de número 001 é justamente o Comandante, bebendo de forma industrial sem esconder o prazer pelo momento vivido.

Mas o Buteco é e deve ser uma festa de humor. Vamos, então, a uma história das boas, que o Comandante é um repositório delas. Quem não estava na festa? O Arroz. E quero lhes contar a razão pela qual o Fernando, amigo de há décadas do Comandante, é conhecido pela alcunha de Arroz.

Corria um ano da década de 60.

O então Fernando, em Volta Redonda, era conhecido pelas artimanhas que arquitetava para não perder uma única festa que fosse. Sempre de penetra.

E numa determinada noite, bebiam, num buteco na cidade, o Comandante e mais uma dúzia de amigos. E eis que chega, altas horas, o Fernando, nitidamente embriagado.

É preciso reforçar, antes, que todo e qualquer penetra guarda um orgulho exibidíssimo, na vitrine imaginária, de seus feitos. Não basta, nunca, ir à festa. É preciso, depois, espalhar a conquista, contar as histórias da festa, numa espécie de autopromoção aguda.

E o Fernando chegou, trôpego, espetando os amigos, dentre eles o Comandante: "Minha gente... que festa, que festa, que festa! Nunca vi um troço desses. Só champagne e camarão. Não havia uma coxinha, um risole, uma empada, nada. Só camarões, camarões VG, imensos, com barbas imensas, rabos de sereia...", e fazia gestos com as mãos tentando dimensionar os camarões devorados por ele... "Tô lotado de camarão, Wlader... comi camarão a noite inteira...", e os amigos, entre a incredulidade e a inveja, tratavam de pedir mais cerveja a fim de acabar de derrubar o Fernando (acabo de lembrar que eles bebiam no buteco do Alonso, na Vila Santa Cecília).

E depois de um engradado inteiro o Fernando se ajoelha diante dos amigos. Vermelhíssimo, tossindo horrores, só conseguiu dizer "acho que vou passar mal..." e veio a golfada olímpica, em jatos ininterruptos, transformando aquele pedaço de calçada numa poça repugnante. Ergue-se com dificuldade, o Fernando, e os amigos, em especial o Comandante, passam a examinar, com cuidado, a massa ejetada pelo cara.

O Comandante riu de fazer tremer o bar. Os amigos guinchando diante do Fernando, limpando a boquinha com as costas da mão.

Comandante pede silêncio, pigarreia e decreta: "Francamente... só tem arroz aí no chão, Fernando... Nenhum sinal de casca de camarão, nenhum fiapo de barba, nenhuma crosta de rabinho...".

Cravou-se, ali, o apelido que já dura mais de 40 anos: Arroz.

Até.

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12.8.05

PIEDADE

Há aqueles ditos populares que dizem que o Sargento Garcia jamais prenderá o Zorro, que uma vaca jamais tossirá etc etc etc. E há, no Estephanio´s, aquela inapelável verdade: o Dedeco jamais namorará. E eu, ouvindo esse vaticínio, trepo no banquinho imaginário e urro "jamais mesmo! jamais mesmo! jamais mesmo!". Pois bem.

Estava eu, ontem, justamente no Estephanio´s, na companhia da Guerreira, do Flavinho, da Betinha e do Marquinho, assistindo ao jogo do Flamengo.

E eis que entra o Dedeco no bar.

A tiracolo, vejam vocês, uma moça. Quando eu digo "a tiracolo", quero dizer de mãos dadas. E os nossos dez olhos deixaram a TV órfã. O Flavinho, cuspindo o chope que tinha no palato sobre a mesa, pôs as duas mãos sobre meus ombros e disse, "meu Deus... essa é a namorada do Dedeco...". Eu, solidário no susto, cuspi sobre a mesma poça de chope o chope que tinha na boca. E eu só fui capaz de dizer um "o quê?!" que foi ouvido de muito longe.

Vejam que eu estou tentando ser fidelíssimo ao baque coletivo. Minha cabeça, que deu voltas e voltas diante da visão do improvável, gerou uma visão ainda mais absurda. O Juiz que apitava o jogo interrompeu a partida. O narrador emudeceu. A torcida vaiava o Dedeco. E eu fiquei ali, olhos cravados no André Menezes, esperando sua reação. Percebam que tudo isso, a entrada do André Menezes no recinto, as golfadas de chope, o susto coletivo, tudo isso se deu em poucos segundos. E veio a mim o André. Sozinho.

Abraçou-me e percebeu, sei que percebeu, a temperatura siberiana do meu corpo. Disse-me apenas um "faaala, Edu!", como sempre, e mais nada. Depois fez um gestinho com o indicador chamando a moça. E disse-lhe apenas o nome, mais nada (não direi seu nome aqui).

E foram, os dois, a uma outra mesa.

E eu pro Flavinho: "Tem certeza?"

"Absoluta."

"Mas ele não disse nada..."

"Vergonha. Ele é um tímido."

E quero dividir com vocês as cenas de náusea.

O Flamengo perdia de um a zero e eu não vi, nem quando passou o replay, o gol de empate do Flamengo. Só tinha olhos para aquela mesa.

Dedeco, como um autômato, alisava as costas da moça com a mão direita, que ostentava um anel de prata no dedo médio. E ela, tadinha, daí o título "PIEDADE", sorria revirando os olhinhos atrás das lentes dos óculos embaçados, já que o Dedeco lhe dizia coisas que eu não entendia enquanto punha seu nariz em atrito com o nariz da menina e o Flavinho, incrédulo, me dizendo, "putz... beijinho de esquimó é demais...".

E a mão esquerda do embusteiro entrelaçada com a mãozinha da menina sobre seu colo.

Os garçons, Erasmo, Léo, Maurício, guinchavam de rir no balcão do bar, apontando acintosamente pro casal. A Guerreira e a Betinha teciam comentários que eram, obviamente, sobre aquela cena deprimente. O Marquinho, que tem no André uma espécie de guru, o que faz dele um garoto de futuro sombrio, babava como um desdentado com fome quando fica com água na boca e, logicamente, deixa pender aquele visgo de saliva pelo queixo.

O André, biltre em último grau, sorria em direção a mim e fazia, com a mão que afagava a região dos pulmões da moça, aquele gesto que imita um ganso mergulhando a cabeça na lagoa, causando-me ainda mais repúdio.

Tive ímpetos de ir à mesa falar com ela. Impediu-me o Flavinho, com uma frase sábia: "Deixa, Edu. Vamos ver que direção toma esse trem. O que não vai faltar é história pra você contar depois.".

E não fui, então, à mesa.

E saí sem me despedir do casal.

Até.

11.8.05

O DEDECO NO BAILE DE MÁSCARAS


A Duda, festeira como só ela sabe ser, aliando permanentemente as festas ao lucro, já que sempre cobra, e cobra salgado o ingresso, fez, no sábado passado, em sua portentosa casa em Teresópolis, um baile de máscaras para comemorar seu aniversário. Eu disse comemorar seu aniversário mas é preciso dizer, em seguida, que além de comemorar seu aniversário a Duda embolsou uma bolada. Cobrou não os R$13,00 que costuma cobrar por cabeça, mas R$50,00 dessa vez. Para custear as comprinhas, foi o que ela disse, mas durante uns bons seis meses não precisará pôr os pés no supermercado. Bem, mas diante do que tenho para lhes contar isso é mero detalhe.

Umas oitenta pessoas subiram a serra. Oitenta, não. Vamos ser precisos. Oitenta e duas pessoas subiram a serra. E a festa foi um permanente desfile e um delírio plástico e visual de oitenta e uma máscaras. Dedeco, o embusteiro do André Menezes, era o único sem máscara.

E eis o primeiro e importante apontamento: o André é uma máscara e ele sabe disso. Razão pela qual adentrou o recinto com aquela cabeça lisa, lustrosa, com aqueles dentes entre o bege e o amarelo, com aqueles passos lentos, a coluna levemente curvada, com aquela tosse de 50 decibéis.

E houve um uivo coletivo de "ohs" e "ahs" a lamentar o estraga-prazeres. A Duda havia sido tão clara, tão decidida, tão impositiva quando condicionou a presença dos convidados à máscara, que foi ela a primeira a dizer ao André, "venha à cozinha comigo". E o Dedeco foi.

E lá chegando a Duda apontou para uma espécie de cabide na parede diante do fogão de onde pendiam máscaras venezianas, algumas de plástico da Casa Turuna, e disse, "escolha uma, André, alugo por R$20,00". E o Dedeco tossiu, lançando perdigotos sobre a Duda, acendeu um cigarro, e envolvendo o rosto da doce Duda numa nuvem de fumaça, disse apenas "não". E riu. E voltou à sala numa sinfonia de tosses.

Chegando à sala, uma mascarada fantasiada de Rainha de Sabá dirigiu-se ao Dedeco e disse, tentando fazer graça, "E aí, Dedequinho, veio fantasiado de Marcos Valério?", e o mentiroso, o biltre, o baixo Dedeco, agasalhando a genitália com a mão esquerda disse no ouvido da moça, "Vim, quer ver o mensalão do papai?". Bastou para que a Rainha de Sabá se retirasse aos prantos.

Vejam vocês que a moça, quando comparou o Dedeco ao Marcos Valério, fazia referências à calvície do André. E nunca é demais repetir que o André, um ex-gordo que deixou pra trás mais de vinte quilos, quando deixou de ser gordo deixou também de ser careca, o que prova que sua calvície era mero apêndice de sua obesidade. Quando gordo, o André era apontado na rua, "lá vai aquele gordo careca". Hoje, magro, elegante, nunca mais foi apontado como o gordo e muito menos como o careca. Tem hoje, no imaginário coletivo, o André, uma cabeleira capaz de fazer o Sansão parecer um estudante do Colégio Militar com máquina 1.

Mas voltemos à festa.

Fazia um frio polar em Teresópolis. E a mesa era uma festa de garrafas de vinhos nacionais e de cachaça. E os convidados bebiam em ritmo de indústria. E a libido foi num crescendo absurdo. E vejam vocês o ápice da noite, protagonizado, é claro, pelo André Menezes.

O Dedeco, rasteiro como uma víbora, estava de olho, desde que dera o chega-pra-lá na Rainha de Sabá, numa morena de parar o trânsito. E a morena de parar o trânsito estava acompanhada. Vamos à ação desonesta do Dedeco.

Aproveitando que a morena fora ao banheiro, o Dedeco se aproxima do cara. Põe a mão sobre seu ombro e estende o maço de Carlton dizendo, "prazer, André". O cara aceita depois de dizer "prazer o meu, Adolfo" e o Dedeco puxa do Zippo, sendo gentil. E é preciso dizer que, sempre, e sem exceção, as gentilezas do Dedeco encobrem uma vilania de fazer corar o mais repugnante dos homens. E o Dedeco puxa papo. "Legal a festa, não?", e sua vítima faz que sim com a cabeça e o Dedeco pergunta se ele aceita uma dose de cachaça. Novo sim com a cabeça. E volta o Dedeco, em segundos, com dois copos americanos até a boca de cachaça. A morena volta do banheiro, dá uma bitoquinha no camarada que a apresenta ao André. E diz o cara, "môzinho, vai dançar, vai, que você adora... vou ficar aqui bebendo um negocinho...". E vai a morena ao salão.

Bem, em questão de meia-hora, cinco ou seis doses depois, o Adolfo roncava como um tuberculoso em estado terminal no sofá de couro da sala. E o Dedeco foi à morena. "Querida, o Adolfo dormiu... ele me disse que você nunca tinha vindo a Teresópolis, é verdade?", e a coitada, também já calibradíssima, disse, "nunca...".

E o Dedeco, gentilíssimo, pega a morena pela mão e diz, "vem cá que eu quero te mostrar uma coisa...".

Vão ao jardim orvalhadíssimo.

E Dedeco aponta, pega o queixinho da menina e o vira pra direção de seu indicador. "Aquele é o Pico do Dedo de Deus...".

A moça foi um só suspiro. "Que liiiindo...", disse entre soluços de porre.

"Você gostaria de ir lá?"

"Agora? ... A essa hora?"

E o André, sujo como um senador, emenda, "posso trazê-lo aqui pra você...".

A morena, seios fartíssimos, batom já quase no fim, disse... "Jura?". Vejam vocês do que é capaz uma carraspana.

"Tenho cara de mentiroso?"

A menina riu sem jeito e disse, "Lógico que não...". Vejam vocês do que é capaz uma porranca.

E o Dedeco atracou-se com a morena, tascou-lhe um beijo a vácuo, e pôs a mão de menina sobre, vamos tentar ser gentis, o que lhe saía da calça.

"Apalpa, apalpa... fecha os olhos... tá vendo? Sente o pico..."

Até.

PS: A Pat, leitora freqüente do Buteco, acaba de deixar comentário comovente no texto de ontem. Vejam vocês que a ironia que cerca a partida do meu irmão Fernando Toledo atinge um grau quase que mágico.

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10.8.05

UMA SAGA TOLEDIANA

É preciso manter o humor vivo, eis que o humor vivo é capaz de amainar a torpeza que a saudade dos mortos gera. Vamos, portanto, a um quadro de humor, e tenham viva essa chama bruxuleando e escrevendo na parede "que ironia!".

Vejam vocês que o Fernando Toledo, que partiu ontem ao encontro dos bambas, detestava os advogados. Antes de lhes contar essa história, que envolve um advogado - eu, no caso - quero falar de outro bamba, meu Otto full time, meu irmão Szegeri, que partiu ontem à noite, de SP, de avião, para se despedir do nosso companheiro de Conexão Irajá, de vida, de crenças e de rituais. Encontramo-nos no Memorial do Carmo, no Caju, para um beijo na Áurea e uma regada de lágrimas diante do Totô. Papo vai, papo vem, decidimos, certos de agradar ao amigo, dar uma esticada no Capela, na Lapa, terreno mais-que-familiar a nós. E lá sentamos, eu, ele e Dani. Éramos 3, portanto. E atendeu-nos o bom Cícero, garçom de primeira linha. Cícero que, quero dizer, não entendia nada quando pedíamos 4 chopes à mesa a cada rodada. Ora, ora, éramos nós, ali, recriando a conexão. E pedimos doses de Magnífica, e assim se fez nossa primeira homenagem ao grande Toledo, como prometido.

Mas eis que acordei, hoje, com uma incumbência que me foi passada ontem mesmo pela Áurea, a doce companheira do Fernando. O Toledão manifestou em vida, inúmeras vezes, o desejo de ser cremado. Mas acontece que o malandro - e ele iria parar pra pensar nisso? - não deixou nada por escrito. Mas acontece que o malandro foi atropelado por um ônibus, vítima, portanto, de acidente grave. E aí é que a coisa pegou. A Lei brasileira não permite a cremação de nenhuma vítima de acidente grave que não tenha manifestado por escrito seu desejo, sem a devida autorização judicial.

E quem obtém autorizações judiciais? Somente um advogado.

Vai daí que pela manhã, em frente ao espelho, disse ao Toledão: "Hoje tu vai ver pra que serve um advogado, porra!". Chorei, lavei o rosto, pus o escafandro, dei o nó na gravata, tomei a pasta pela mão e lá fui eu pro Tribunal de Justiça.

Eu já lhes contei, diversas vezes, que sou um bobo trabalhando. Choro copiosamente quando obtenho resultados favoráveis na Justiça, choro quando faço defesas orais acaloradas diante de Desembargadores incrédulos com meus números, choro, choro e choro.

Não vou contar todo o trâmite, pois sei que vocês não teriam paciência pra sequer tentar entender o emaranhado que é o Judiciário. Mas depois de ver meu pedido indeferido ontem mesmo, altas horas da noite, por uma insensível Juíza que não entendeu como urgente o pedido, encarei uma Juíza que, calcada na Lei, declinou de sua competência para apreciar a questão. Mas foi tão doce diante dos meus guinchos diante dela, que perdeu uns bons 20 minutos tentando localizar o Juiz competente pelo telefone. E conseguiu. E lá fui eu, pasta na mão, petição redigida à mão, suando e chorando, falar com o Juiz. Juiz que mandou-me ao Ministério Público para seu parecer. Atravessei a rua e fui à representante do Ministério Público, que também foi dulcíssima, oferecendo água e cafezinho para aplacar meus guinchos e soluços, que foi de uma humildade rara pedindo-me indicações legais para que pudesse dar parecer favorável ao meu pleito, e por fim voltei eu ao Juiz com tudo em cima. E ele, ele sim um Magistrado maiúsculo, também ofereceu-me água e seu banheiro privativo a fim de que eu me recompusesse, e quando me vi no espelho, suado, amarfanhado, olhos inchados, disse, "Seu putão, olha o trabalho que tu tá me dando!". Voltei e ele estendeu-me o alvará de autorização, único meio possível para que o desejo do meu irmão fosse atendido. Daí liguei pro Szegeri, liguei pra Mariana, liguei pra Dani, liguei pra Áurea, com a sensação do dever cumprido.

Ainda pensei, "que bosta de presente que tive de dar a ele...". Liguei pra Áurea e combinamos que eu entregaria o documento à Mariana Blanc, incansável no oferecer do ombro e do conforto à doce Áurea, a "Aual do Totô".

Amanhã o fabuloso Toledo vira cinza, como queria.

Mas permanece, cigarro na boca, copo numa das mãos, os óculos embaçados sobre o nariz, aquela cultura e aquela sabedoria impressionantes escorrendo diante de nós.

Até.

9.8.05

NO OLHO DO FURACÃO


(pro Fernando Toledo)

Esse olho, captado no Bar da Maria, que o bar era, definitivamente, seu segundo lar, há de permanecer em mim, dentro de mim, no fundo do fundo de mim, em meus próprios olhos, embaçados que estão, agora, diante da notícia, veja que ironia, passada assim, por email: "Totô, seu danado... trocou a gente por uma grande roda no céu...".

Eu não agüento mais perder amigos. Não agüento mais. E dói, mais, saber que essa revolta, quase-infantil, é à toa. Afinal, o que fazer diante da fúria da Vida que atende aos chamados da Morte, assim, sem cerimônia e de uma hora pra outra?

Mas meus amigos não morrem, malandro. Eu, "Vossa Goldenblância", que é como você me chamava, na medida em que me acumulo de ausências, na medida em que me sobrecarrego de saudades - e é nela que tudo o que amei sobrevive, com a licença do Aldir - torno-me um capaz de manter os que partem dentro de mim.

Sabe, seu puto, liguei há pouco pro Szegeri, "O Impronunciável", e choramos juntos por sua causa. E saiba, malandro, que ele será capaz de fazer o mesmo. Mantê-lo vivo. Afinal, formamos ou não formamos uma conexão que há de permanecer?

Seu olho será o farol capaz de nos fazer erguer o copo, a cada encontro, à graça do nosso convívio. Curtíssimo, diga-se de passagem. Mas de uma intensidade, regada à cerveja, cachaça, indignação em nome do que é justo, capaz de nos fazer, olha a ironia de novo, olhar pra dentro e dizer, "foi do cacete".

Ontem mesmo o nosso irmão Szegeri pôs, lá no Sodói, a imagem de São Sebastião, padroeiro da cidade que você tanto ama, pra zelar por você, no compasso da espera da tua recuperação.

Mas o Tião, Toledo, nós temos intimidade pra chamá-lo assim, foi mais carioca que nunca, malandro de boa cepa, rápido como um punguista e roubou você de nós pra que você ajudasse na luta ao lado dele.

Olhe por nós, meu irmão.

Eu te prometo, e falo por mim e falo pelo teu xará, que a nossa conexão será mantida.

"Quando três por acaso amigos se encontram
Começam a cantar a paixão
São línguas de fogo, promessas e jogo
Vícios do coração

São horas perdidas
que o relógio não marca
Segue o seu curso a serpente,
segue o rio o seu caminho
Enquanto eu, de repente,
sigo somente o que sou
Quase sempre sozinho,
quase sempre sozinho

Diletos amigos consigo comigo
Consigo evitar o perigo falando de amor
Falando de um gol já quase perdido
São cores do mundo, perfumes e flores
Os gols mais bonitos pela linha de fundo

Quando três por acaso amigos se encontram
Ninguém sabe o destino que darão ao mundo"

Até.

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8.8.05

NA CABEÇA

Osório almoçou, lambeu os beiços, comeu chorando comovido, abriu uma garrafa de Chateau Duvalier tinto que guardava deitada no armário embaixo da pia. Voltou ao Estephanio´s por volta das quatro e meia da tarde.

Ainda no balcão, Dedeco e Branco. Bule já tinha chegado, Amorim também. Osório juntou-se a eles, já tinham bebido um engradado.

"Quem é?", perguntou baixinho Osório, enchendo seu copo, apontando pro sujeito sozinho do lado de fora.

"Um corno", respondeu Branco, arrancando risada de todos, "O balofo chegou aqui às onze, pediu uma garrafa fechada de Fogo Paulista e tá ali, ó, faltando uns quatro dedos, falando sozinho feito um maluco, a cara enterrada no copo. Volta e meia nos encara e diz que é corno".

"Ô, putão! Junte-se aos bons e serás um deles!", tentou agradar o velho Osório, pondo as mãos no ombro do infeliz.

"Putão, não. Corno. Falou comigo?", respondeu levantando a cabeça, os olhos inchados de tanto chorar.

"Não. Não fode então! Fica sozinho, porra!"

Um arroto, que seu Osório arrota como quem respira.

Waldomiro foi até o balcão, tropeçando, estava tortaço, o terno marrom todo amarfanhado, o sapato por engraxar, a gravata sebenta, o colarinho da camisa puído, as unhas imensas, anéis de prata sujos em quatro dedos, um bafo de anestesiar. Apoiou-se na geladeira: "Minha mulher, meus amigos, minha mulher... eu tava sentindo ela estranha, tá certo que o negócio lá em casa não andava nada bem, quase um ano sem furar Maria Rita, apesar de toda noite sentir aquele calcanhar roçando no meus pés, mas, porra, o ramo de seguros tá uma bela merda, eu sou corretor, tô devendo IPTU, taxa de incêndio, vendi o carro, o telefone vai ser cortado a qualquer momento, condomínio, minha gente, vai fazer seis meses que não pago, deixei de contribuir com o PT, cancelei nosso seguro-saúde, perdi o crédito na praça, tô devendo uns quatrocentos paus entre açougue, butiquim e jornaleiro, como é que ia conseguir, porra?... Até tentei vender umas apólices de seguro estranhíssimas pra uns bacanas vizinhos meus, uns famosos lá da área, salguei o preço pra ver se conseguia saldar as dívidas, peguei pesado mesmo, mas, porra..." – começou a chorar comovendo os companheiros do bar –, "... falando na lata, não tinha outra saída a não ser cagar pros escrúpulos, rasguei os códigos de ética do partido socialista que ajudei a fundar, desculpa aí porra, mas fuder duro desse jeito é foda..."

"Ah, mas isso passa, amizade, isso passa...", falou Amorim enchendo o copo de Waldomiro.

"Passa porra nenhuma... eu descobri hoje pela manhã que eu sou é CORNO, porra, isso não passa não, na próxima encarnação eu já nasço corno..."

"Que é isso, irmão? Como é teu nome?"

"Roberto Waldomiro. Aliás, podem me chamar de Waldomiro mesmo, aliás, Wal...domiro..." – soluçando de puro porre – "...é a puta que me pariu, meu nome é COR-NO..."

Neguinho não disfarçava mais que o lance estava ficando divertido.

"Conta aí pra gente, Wal, que história é essa?"

"Wal não, eu sou o CORNO! Porra, saí cedo hoje, antes das nove, dei uma passada no bar pra tomar o primeiro reforço do dia, o cara me disse logo, “ou a conta ou nada”. Fui meio de sorriso amarelo até a banca comprar o jornal e uma raspadinha e o viado do lado de fora, “nãnãninãnão”. Fui tentar mais fiado no açougue, Maria Rita queria porque queria fazer um ensopado de fígado pra janta e, mal cumprimentei o cara, ele berrou de dentro do frigorífico, “se manda daqui, boi gordo”. Tava atrasado pro serviço, moro no Grajaú, tinha que estar no banco antes das nove e meia na Praça Pio X, no Centro. Tentei sacar algum num caixa 24 horas pra pagar o táxi e a telinha piscou “cartão cancelado”, engolindo meu Visa, não consegui pagar as quatro últimas faturas. O que é que eu ia fazer, poxa?..." – chorinho de criança. "Fiquei ali pela área, meio zonzo, lembrei da conversa de Maria Rita na hora do café da manhã, tentei jogar um caô pra cima do apontador do bicho, disse a ele que jogasse cinco reais na borboleta e pedi que me desse quarenta e cinco adiantados, eu deixaria minha identidade com ele como prova da minha honestidade, se não desse borboleta – Maria Rita me disse pela manhã que sentia-se leve como uma borboleta –, eu devolveria a grana, dava um jeito lá no banco de tomar algum emprestado; se desse na cabeça, ele ficava com os quarenta e cinco que faltavam do prêmio, o sujeito me mandou à merda, o cara tá até certo, né?, mas disse “vai à merda, seu corno!”, sabe como é, o “corno” dito de boca cheia, com vontade..."

"Porra, mas também, que papo, heim, camarada...", disse o Branco pedindo um salaminho fatiado ao Erasmo. "Aliás, Erasmo, que bicho deu no sorteio das duas horas?"

"1515, borboleta!"

" Pôta!", disse arrotando Osório.

"Borboleta, tá vendo só que merda? Aí, porra, nem sei porque me deu esse troço de correr atrás, né?, liguei a cobrar do orelhão pro meu chefe pra avisar que ia chegar atrasado, tomei um esporraço, com razão, né?, mas é que o tal cara tinha me chamado de corno, não me caiu bem aquilo, fiquei com a pulga atrás da orelha..."

"Com a borboleta atrás da orelha...", Branco não perdia uma, "...mas e aí?"

"Onde fica o banheiro?"

"Ah, não, porra, conta primeiro..."

"Aí que voltei pra casa a pé, uns seis quarteirões. O porteiro estranhou, né?, me disse que Maria Rita estava em casa, que tinha subido há uma meia hora um bombeiro lá pra casa, provavelmente, pensei eu, a fim de consertar o aquecedor, quebrado desde fevereiro. Porra, minha gente, eu não tava nem podendo consertar aquela joça, como é que Maria Rita ia pagar o cara? Subi de escada, moro no nono andar, tão puto que estava."

"E aí? E aí?", quase que em côro uníssono.

"Daí que quando cheguei no corredor pus o ouvido na porta e escutei o maior esporro vindo lá de dentro. E era a voz da Maria Rita, gente..." – pediu mais uma dose de Fogo Paulista, Branco encheu o copo do coitado, Waldomiro entornou tudo de uma vez. "Ela gritava uns troços tipo “me bate, bombeiro, espanca a tua vaca, meu bombeiro”, um horror... Larguei a pasta no chão e joguei esse corpinho de corno que vocês estão vendo – Waldomiro não pesava menos de cem quilos – em cima da porta da cozinha e... o banheiro, onde fica?"

"Porra, corno, conta logo!", escancarou Branco.

"Bom, tava lá, o aquecedor montadinho no lugar e minha Maria Rita nuazinha com as costas no azulejo, um crioulo imenso, de cueca preta, sentado sobre ela, enchendo a vagabunda de porrada na cara..."

" Hum, e aí?"

"Aí nada, né, porra? O que é que ia fazer? Fiz papel de babaca, chorei, amontoou uma porrada de vizinhos no corredor, os dois se trancaram no quarto de empregada, uma cagada, devem ter ido acabar o serviço ou fugir de um linchamento, sabe como é o Grajaú, bairro conservador, eu peguei a pasta e saí gritando “eu sou um corno, eu sou um corno!”. Dona Nancy, nossa vizinha de porta ainda me disse antes de eu entrar no elevador, “Eu sempre soube que sua esposa era uma bela duma vaca, como ela bem estava anunciando”".

Sentou-se no chão aos pés do balcão. Não parava de chorar. Dedeco chamou o Erasmo: "Corre lá na esquina, Erasmo!. Gente, dez pratas de cada um, eu, Osório, Dedeco, Amorim, Bule, Erasmo, entra você também, Erasmo... Pega lá dez reais com o Juca da barbearia e com o Carne-Seca, inteira com mais vinte meus, aqui... Joga cem na vaca. Na cabeça. Corre que são vinte pras seis. Levanta aí, Waldomiro, larga de ser besta, bebe uma água, vai..."

E o Waldomiro, sem um dinheiro no bolso, puto com a possibilidade de perder outra vez a chance de ganhar um troco. Adormecera numa mesa para onde foi levado por Branco e Dedeco, “o corno desmaiou”, disse Bule.

Quando Erasmo voltou com o bilhete faltavam cinco minutos para as seis horas. Vidal chegou, inteirou-se da novidade, Quincas estacionou o táxi trazendo uma passageira.

Quando Venceslau, o apontador do bicho na área, apareceu na esquina pra pregar o resultado no poste em frente ao bar, Osório foi em sua direção discretamente, enquanto todos contavam a história do dia pro Vidal e pro Quincas, e pediu o resultado do jogo. Deu dois tapinhas em seu ombro e disse “deixa que hoje eu anuncio”. De volta, subiu numa cadeira e pediu silêncio. Arrotou. Mandou que acordassem o corno.

"Que foi?!", perguntou Waldomiro.

"Seus putos, atenção. Atenção novo puto, atenção corno pé-quente!", disse Osório pondo os óculos. "Quatro mil oitocentos e noventa e sete, porra! Deu vaca na cabeça!!!!!"

Mafuá. Osório desceu da cadeira, convocou uma assembléia em frente à delicatessen do Carne-Seca, Waldomiro desolado na mesa apenas com Vidal e Quincas.

" Não é possível, porra... além de corno sou um babaca. Deixei de cravar borboleta e vaca num mesmo dia..."

"Ô, Waldomiro...", disse seu Osório de volta, abraçando o gordo, "ô, meu querido..."

" Que foi agora, porra?...."

"Seguinte: amanhã de manhã Quincas vai de táxi levar Seis-com-Fome pra tua casa a fim de consertar a porta da tua cozinha. Quando acabar o serviço vocês voltam aqui pra tu pegar teu prêmio de mil e oitocentos reais, certo? Larga de ser bobo, rapaz, teu azar foi ter flagrado a patroa, nenhum homem, fora eu, que Idinha era uma santa, todo mundo sabe disso, tá livre de ser corno. E você foi corno espada, porra! Veio encher a cara, chorou... Isso é que é ser corno! Quincas vai te levar em casa agora, vai lá, faz as pazes com a tua Maria Rita, pede desculpas, fura – com todo respeito, amigo, foi você quem usou essa expressão – a tua mulher e avisa que amanhã você tá pintando na área com quase dois mil na mão..."

Waldomiro nem podia acreditar naquilo. Voltou com Quincas, entrou em casa, encontrou Maria Rita aos prantos na sala, que lhe disse: "Pô, mozinho, quase um ano sem... você tem que me entender..."

"Entender porra nenhuma, vem cá, sua vaca, que tu vai ver o que é bom!"

Treparam como nunca fizeram desde casados. Quando Waldomiro acabava de dar a terceira, Maria Rita disse ronronando, “viu como você sabe cuidar da sua cachorrinha?”.

Ele já tinha palpite para o dia seguinte.

Até.

PS: o Buteco, que não pode e não deve parar, torce, desbragadamente, pela recuperação do Fernando Toledo, vítima de um atropelamento na noite de sábado, que o fez estar, desde então, no CTI, em coma. E eu quero dizer, desde já, que ele, que me chama de "Vossa Goldemblância", que chama o meu irmão Szegeri de "O Impronunciável", tem que se recuperar, porque eu não agüento mais perder amigos. Força, Toledão! Eu acredito na força do pensamento, porra! E ontem, coisa que não é do meu feitio, bebi cachaça em quantidade industrial durante a festa do Augusto, sempre em tua homenagem, e por você, que do jeito que você está, imagino a tua dor por isso, beber não é ainda possível. Espero você, malandro!

5.8.05

MAIS UMA DO ABELHA

Um pedido feito pelo meu Otto 24h por dia, meu irmão Szegeri, é uma ordem. Mais que uma ordem, é uma pauta a ser cumprida. E como o bom pediu-me que lhes contasse sobre a história do Abelha envolvendo um outdoor de autoria do Ziraldo, vou fazê-lo.

Não sei se vocês vão se lembrar, vocês aqui do Rio, mas há uns anos a Prefeitura lançou uma campanha contra as drogas e chamou o Ziraldo pra bolar um slogan, um outdoor, e espalhou a coisa por toda a cidade. A mensagem era, apenas, a seguinte: "A DROGA É UMA MERDA". Eu, particularmente, que não faço uso delas, salvo o álcool, que é legal, achei a frase de uma infelicidade olímpica. Pelo simples fato de que, não fossem as drogas um troço bom, e ninguém faria uso delas, ainda que pela dependência. As descrições que conhecemos, todas, apontam pra um troço fabuloso, delirante etc etc etc Mas isso não importa pra história. Vamos a ela.

O Abelha, fã ardoroso do Cartas Idiotas, leu, determinado dia, uma carta num jornal cujo teor era mais ou menos o seguinte: "Venho, pela presente, manifestar minha indignação com a campanha lançada pela Prefeitura, de autoria do Sr. Ziraldo, onde o mesmo faz uso de uma palavra de baixo calão. Ontem à noite, eu e minha esposa estávamos indo ao cinema, aqui na Barra, mas quando nos deparamos com o dito outdoor contendo a nefasta palavra decidimos suspender o programa e voltamos, revoltados, para nosso lar.". E assinava a carta, o indignado.

Bem... o Abelha, gozador e sacana há 10 encarnações, discou pro 102 e tomou nota do telefone do sujeito. E eu tenho a fita!, eu tenho a fita! O Abelha, que faz sempre questão de divulgar seus feitos, gravou a conversa:

"Alô?"

"O Sr. Fulano está?"

"Ele falando."

"Sr. Fulano, bom dia!"

"Bom dia. Quem está falando?"

"É da Assesssoria de Comunicação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Cláudio falando. É sobre sua carta publicada hoje nos jornais, Sr. Fulano..."

(e o Sr. Fulano, arfando, prosseguiu) "Pois não! Pois não!"

"Gostaríamos de confirmar sua indignação, Sr., para que possamos, efetivamente, modificar o rumo de nossa campanha contra as drogas a fim de não mais causar esse tipo de sentimento na população..."

"Ah, pois não... Um segundo, por favor... Querida! Querida! Venha cá! É da Prefeitura... Pois não, Sr. Cláudio... Posso colocar o telefone no viva voz para que minha esposa possa participar de nosso colóquio?"

"Mas é claro, Sr. Fulano... Como se chama sua esposa? (eu, conhecendo o Abelha, percebia em sua voz a gargalhada abafada)... ... Ah, bom dia, dona Fulana!"

"Bom dia!"

"Mas então... Quer dizer que os senhores ficaram indignados e revoltados com o uso da palavra ´merda´ no outdoor?"

(os dois em uníssono) "Muito"

"Então, por favor... Estão me ouvindo bem?"

"Muito bem"

"Vão, os dois, pra puta que os pariu, pra casa do caralho, seus merdas... estão ouvindo... seus m-e-r-d-a-s, seus merdões, seus merdalhões, babacas..."

E desligaram, os dois, deixando os guinchos do Abelha fechando a gravação. Contou-me, o Abelha, que só cessou a série de telefonemas quando o Sr. Fulano mandou trocar o número de sua linha. Esse é o Abelha.

Fechando, então, a semana, depois de ter contado mais essa do meu bom amigo, quero daqui prestar uma homenagem ao meu irmão Szegeri.

Hoje, 5 de agosto, o Ó do Borogodó, meu buteco preferido em São Paulo, comemora 1 ano de roda de samba comandada pela rapaziada dos Inimigos do Batente, à frente dos sábados da casa desde agosto de 2004, quando rola uma feijoada parelha com as maiores feijoadas que já comi, e também às sextas-feiras, quando recebem, uma vez por mês, um convidado especial. E hoje o convidado especial, aliás, especialíssimo, é Moacyr Luz, há anos, muitos anos, desde quando éramos amigos, e isso faz tempo, o verdadeiro Embaixador da Cidade do Rio de Janeiro, compositor de mão cheia, violão moldado à moda de Hélio Delmiro, cozinheiro sem defeitos, anfitrião competente, sambista já capaz de figurar na galeria dos maiores.

Ergo daqui do Buteco, então, meu copo cheio, à Stefânia e ao Capitão Léo, que conduzem com coração apaixonado o Ó do Borogodó. Ao Szegeri e à Railídia, vozes dos Inimigos do Batente, ambos meus compadres, que deram de presente a mim e à Dani seu maior tesouro, a doce Iara, nossa afilhada número 6. À toda a rapaziado dos Inimigos do Batente, Cebolinha , Edu Batata, Cacá Sorriso, Paulinho Timor, Marcelo Justo, Dil e Mineiro.

E ao Môa - por que não se não guardo mágoas? - que vai abrilhantar a festa, com certeza, mas que também, com mais certeza, vai testemunhar, de novo, que a paulicéia não fica nada a dever ao Rio em matéria de samba.

Até.

4.8.05

RACLETE, UMA EXPERIÊNCIA TRAUMÁTICA

ESTE TEXTO AGORA PODE SER LIDO AQUI.

3.8.05

OS PIADISTAS DE ELEVADOR E O ARISTIDES

Lembrem-se de que aqui, em abril desse ano, lancei luzes sobre esse elemento nefasto da sociedade: o piadista de elevador. Um sujeito que não é apenas um sujeito, infelizmente, é um coletivo. São dezenas, centenas, milhares de elementos, subindo e descendo, descendo e subindo, fazendo as piadas mais estúpidas dentro daquele cubículo que neles gera uma sensação doentia de intimidade com o alheio. Agora, nesses dias em que Brasília ferve, você não pode entrar no elevador com sua mala de trabalho que tem sempre um idiota de plantão pra mandar, "olha o mensalão nessa pasta, heim!", e os demais ocupantes do elevador guincham de rir, que essa é outra detestável característica dessa gente que, não sei como pode, ganha adeptos, simpatizantes, fãs, e aí a piada imbecil circula elevadores afora, com variações, nesse mesmo exemplo, que vão desde "tá mala ou na cueca?" até "tá vindo do Banco Rural?", e dá-lhe guinchos, dá-lhe risadas, gargalhadas e tosses.

Estava eu a pensar nisso, justamente nisso, nessas variações das piadas dos piadistas, quando me veio à lembrança, e conseqüentemente à pauta de hoje, um episódio verídico deflagrado por um amigo meu, muito querido, que me pede a gentileza da omissão de seu nome, que agora vou lhes contar. E vou lhes contar o episódio e seu apelido, pelo menos, que eu não posso perder a credibilidade. Foi o Abelha. O Abelha foi o cara que me indicou o infelizmente desatualizado Cartas Idiotas. Desatualizado e genial. O Cartas Idiotas e o Abelha. Vejam se não são.

Um dia, contou-me o Abelha, lendo o site, ele deu de cara com uma carta assinada por um tal de Aristides. E o meu amigo, fã da Vera Fischer, alucinado pela Luma de Oliveira, capaz de entrar numa briga pra defender a Luana Piovani, tomou-se de uma ira santa, de um ódio insano, de um compromisso de vingança, que, quero ser franco, por mais pena do Aristides que me tenham gerado os fatos, merece a homenagem que agora lhe presto. Meu bom amigo checou os dados fornecidos. Consultou o 102 da Telemar. Comprou um gravador. E bateu o telefone pro Aristides na manhã do dia seguinte. Vou transcrever as fitas, já que tive acesso as mesmas.

telefonema 01

"Alô?"

"Por favor, eu poderia falar com o Aristides?"

"Ele falando."

"Bom dia, Aristides."

"Bom dia. Quem está falando?"

"É da redação do jornal O DIA. O Sr. já soube que sua carta foi publicada no jornal de ontem?"

(e um Aristides eufórico)

"Claro, claro, claro! (chama pela mulher) Benhê... é do jornal O DIA!!! (...) Pois não, senhor."

"Sua carta gerou tanta repercussão, seu Aristides, que queremos fazer uma pequena matéria sobre o tema... O Sr. pode me responder a umas perguntas?"

"Mas é claro! (ouve-se, baixinho, Aristides comentando com a mulher) Meu amor... eles querem fazer uma entrevista comigo... (...) Pois não."

"Posso fazer a primeira pergunta?"

"Claro."

"Aristides... você é viado?"

"O quê?"

"Fala, babaca. Pra que escrever uma carta daquelas pro jornal tu deve ser. Fala! Tu prefere ver as coxas do Junior Baiano, o peitoral do Viola e os dentes do Ronaldinho Gaúcho?"

E o Aristides desligou, e só se ouviam as gargalhadas industriais do Abelha.

telefonema 02

"Alô?"

"Pois não... quem está falando?"

"Quer falar com quem?"

"Com o Sr. Aristides, é do SERASA, sobre um apontamento contra o nome dele."

"Ah, senhor... Desculpa... é a esposa dele... Ele está no trabalho..."

"A senhora poderia, por gentileza, me dar o telefone de lá?"

"Pois não." (e ditou o telefone)

"Obrigado. Posso só lhe fazer uma pergunta?"

"Pois não?"

"O Aristides come a senhora?"

E a pobrezinha varou com o telefone no gancho. O Abelha foi incansável.

telefonema 03

"Editora (...) - omitirei o nome para não fazer propaganda gratuita - , Aristides, bom dia!"

(vejam vocês que nesse ponto, o Abelha travou uma gargalhada. O coitado era o telefonista da editora...)

"Corno. Babaca. Tu não tem vergonha na cara não, Aristides!"

(Aristides falando baixo de dentes nitidamente trincados de ódio) "Por favor. Aqui é o meu local de trabalho!"

"Só uma pergunta, Aristides..."

"Fala..."

"O pessoal do seu trabalho sabe que tu é baitôla?"

E desligou, o Aristides. O Abelha, engenhoso, ligou ao meio-dia e meia, hora do almoço, supondo que o Aristides estaria fora.

telefonema 04

"Editora (...), Angélica, boa tarde!"

"Boa tarde, Angélica. O Aristides está?"

"Está no almoço, senhor. Gostaria de deixar recado?"

"Gostaria. Você pode tomar nota?"

"Pois não, senhor. Qual seu nome?"

"Marcelo"

"Pois não, senhor..."

"Diga ao Aristides que a esposinha dele dá que é uma beleza..."

E a Angélica, como de se prever, desligou.

Vejam bem. Não vou ocupar o espaço para descrever o que se seguiu. Mas o Abelha, engenhoso que só ele, fez correr o telefone do Aristides - aliás, ô nominho bom pra uma piada como essa!, vejam se não... digam devagar... A-ris-ti-des, A-ris-ti-des... - pela cidade. O Dedeco, até o Dedeco, ligou pro Aristides. O Flavinho idem. O Marquinho idem. Até que, semanas depois, entra a gravação da TELEMAR, "este telefone não existe, por favor, verifique o número discado".

Pobre Aristides.

Até.

2.8.05

HAJA CORAÇÃO


No domingo estive com a Dani, Guerreira, Augusto, Dedeco e Dalton no Clube Renascença, na estréia da roda comandanda pelo Nésio. Comemorava-se, também, o aniversário de uma das filhas dessa figura que ilustra o texto, Wanderley Monteiro que, obviamente, estava lá com sua Iracema, cantora de primeira linha, que, aliás, amanhã, quarta-feira, inicia temporada no Ó do Borogodó, bar em SP que guardo no coração, capitaneado pela doce Stê e seu irmão, Capitão Leo. E como eu tenho como uma de minhas obsessões expôr as coincidências que soldam o amor que tenho pelos amigos, lá vai o caso de domingo.

Eu já estava pronto. Com a alma lavada pelo 2 a 0 do Flamengo sobre o Botafogo, bebia e jogava conversa fora com as figuras-personagens à mesa. E vi, de relance, o Wanderley partir da churrasqueira no fundo do quintal em direção à roda. E como um bobo, pois só um bobo fica fazendo pedidos durante uma roda de samba, virei pro Augusto e disse, "Pede pra ele cantar Pra Conquistar Seu Coração". O Augusto, amplo conhecedor da matéria, me acalmou com um "nem precisa, ele vai cantar".

E assim foi.

Segundos depois o Wanderley pôs-se a cantar essa obra-prima, de sua autoria em parceria com o Luiz Carlos, o da Vila:

"Se o limite for o infinito
Vou subir até o pico do Everest
Nadar o oceano sem um grito
E de joelhos atravessar o agreste
Faço isso tudo e muito mais
Pra te encontrar, te conquistar
E até provar que é minha paz
O inverso dos meus ais.

Preto no branco um poema, vou por sim,
E onde houver um mau começo, por fim
Fazer de tudo pra mudar
Um novo mundo instalar
E com o mundo em minhas mãos
Onde houver talvez ou não, eu vou sim!
Com as próprias mãos andar a pé ao Bonfim
E num xaxim eu vou plantar
Um baita de um jequitibá
Enraizar mesmo sem chão
São Tomé vai crer sem olhar
E todo mundo vai cantar
Que eu conquistei seu coração."

E eu me pus a chorar de maneira torpe. E uma pequena pausa. O Wanderley é, na minha modestíssima opinião, o maior. Simples, franco, sorriso largo como o seu abraço, é daqueles que dão vontade de gritar "componha um troço ruim, Wanderley, faça um samba mais ou menos!", já que de dentro dele só sai diamante.

E o Augusto, jogando mais amálgama nas nossas almas, a minha e a do Szegeri, disse, "O Fernando chora sempre que canta isso".

Daí eu me transportei pra São Paulo, onde houve, na casa do Capitao Leo, um churrasco regado a samba, onde estavam o Wanderley, eu, Dani, Stê, Szegeri, Roberta Valente etc etc etc

O Wanderley cantava o mesmo samba.

No dia eu não reparei.

Mas estava lá, num canto, meu irmão Szegeri, meu Otto 24h por dia, chorando como eu. Pude ver a cena com impressionante nitidez depois de fazer bainha no tempo, troço no qual cada vez mais me especializo, graças aos rompantes e às guinchadas em direção ao Passado, uma de minhas obsessões olímpicas.

Até.

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