3.8.05

OS PIADISTAS DE ELEVADOR E O ARISTIDES

Lembrem-se de que aqui, em abril desse ano, lancei luzes sobre esse elemento nefasto da sociedade: o piadista de elevador. Um sujeito que não é apenas um sujeito, infelizmente, é um coletivo. São dezenas, centenas, milhares de elementos, subindo e descendo, descendo e subindo, fazendo as piadas mais estúpidas dentro daquele cubículo que neles gera uma sensação doentia de intimidade com o alheio. Agora, nesses dias em que Brasília ferve, você não pode entrar no elevador com sua mala de trabalho que tem sempre um idiota de plantão pra mandar, "olha o mensalão nessa pasta, heim!", e os demais ocupantes do elevador guincham de rir, que essa é outra detestável característica dessa gente que, não sei como pode, ganha adeptos, simpatizantes, fãs, e aí a piada imbecil circula elevadores afora, com variações, nesse mesmo exemplo, que vão desde "tá mala ou na cueca?" até "tá vindo do Banco Rural?", e dá-lhe guinchos, dá-lhe risadas, gargalhadas e tosses.

Estava eu a pensar nisso, justamente nisso, nessas variações das piadas dos piadistas, quando me veio à lembrança, e conseqüentemente à pauta de hoje, um episódio verídico deflagrado por um amigo meu, muito querido, que me pede a gentileza da omissão de seu nome, que agora vou lhes contar. E vou lhes contar o episódio e seu apelido, pelo menos, que eu não posso perder a credibilidade. Foi o Abelha. O Abelha foi o cara que me indicou o infelizmente desatualizado Cartas Idiotas. Desatualizado e genial. O Cartas Idiotas e o Abelha. Vejam se não são.

Um dia, contou-me o Abelha, lendo o site, ele deu de cara com uma carta assinada por um tal de Aristides. E o meu amigo, fã da Vera Fischer, alucinado pela Luma de Oliveira, capaz de entrar numa briga pra defender a Luana Piovani, tomou-se de uma ira santa, de um ódio insano, de um compromisso de vingança, que, quero ser franco, por mais pena do Aristides que me tenham gerado os fatos, merece a homenagem que agora lhe presto. Meu bom amigo checou os dados fornecidos. Consultou o 102 da Telemar. Comprou um gravador. E bateu o telefone pro Aristides na manhã do dia seguinte. Vou transcrever as fitas, já que tive acesso as mesmas.

telefonema 01

"Alô?"

"Por favor, eu poderia falar com o Aristides?"

"Ele falando."

"Bom dia, Aristides."

"Bom dia. Quem está falando?"

"É da redação do jornal O DIA. O Sr. já soube que sua carta foi publicada no jornal de ontem?"

(e um Aristides eufórico)

"Claro, claro, claro! (chama pela mulher) Benhê... é do jornal O DIA!!! (...) Pois não, senhor."

"Sua carta gerou tanta repercussão, seu Aristides, que queremos fazer uma pequena matéria sobre o tema... O Sr. pode me responder a umas perguntas?"

"Mas é claro! (ouve-se, baixinho, Aristides comentando com a mulher) Meu amor... eles querem fazer uma entrevista comigo... (...) Pois não."

"Posso fazer a primeira pergunta?"

"Claro."

"Aristides... você é viado?"

"O quê?"

"Fala, babaca. Pra que escrever uma carta daquelas pro jornal tu deve ser. Fala! Tu prefere ver as coxas do Junior Baiano, o peitoral do Viola e os dentes do Ronaldinho Gaúcho?"

E o Aristides desligou, e só se ouviam as gargalhadas industriais do Abelha.

telefonema 02

"Alô?"

"Pois não... quem está falando?"

"Quer falar com quem?"

"Com o Sr. Aristides, é do SERASA, sobre um apontamento contra o nome dele."

"Ah, senhor... Desculpa... é a esposa dele... Ele está no trabalho..."

"A senhora poderia, por gentileza, me dar o telefone de lá?"

"Pois não." (e ditou o telefone)

"Obrigado. Posso só lhe fazer uma pergunta?"

"Pois não?"

"O Aristides come a senhora?"

E a pobrezinha varou com o telefone no gancho. O Abelha foi incansável.

telefonema 03

"Editora (...) - omitirei o nome para não fazer propaganda gratuita - , Aristides, bom dia!"

(vejam vocês que nesse ponto, o Abelha travou uma gargalhada. O coitado era o telefonista da editora...)

"Corno. Babaca. Tu não tem vergonha na cara não, Aristides!"

(Aristides falando baixo de dentes nitidamente trincados de ódio) "Por favor. Aqui é o meu local de trabalho!"

"Só uma pergunta, Aristides..."

"Fala..."

"O pessoal do seu trabalho sabe que tu é baitôla?"

E desligou, o Aristides. O Abelha, engenhoso, ligou ao meio-dia e meia, hora do almoço, supondo que o Aristides estaria fora.

telefonema 04

"Editora (...), Angélica, boa tarde!"

"Boa tarde, Angélica. O Aristides está?"

"Está no almoço, senhor. Gostaria de deixar recado?"

"Gostaria. Você pode tomar nota?"

"Pois não, senhor. Qual seu nome?"

"Marcelo"

"Pois não, senhor..."

"Diga ao Aristides que a esposinha dele dá que é uma beleza..."

E a Angélica, como de se prever, desligou.

Vejam bem. Não vou ocupar o espaço para descrever o que se seguiu. Mas o Abelha, engenhoso que só ele, fez correr o telefone do Aristides - aliás, ô nominho bom pra uma piada como essa!, vejam se não... digam devagar... A-ris-ti-des, A-ris-ti-des... - pela cidade. O Dedeco, até o Dedeco, ligou pro Aristides. O Flavinho idem. O Marquinho idem. Até que, semanas depois, entra a gravação da TELEMAR, "este telefone não existe, por favor, verifique o número discado".

Pobre Aristides.

Até.

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