30.9.05

DESABAFO DE UM EX-AMIGO


Excepcionalmente eu não cumprirei com a palavra empenhada. Fiquei de prosseguir contando sobre a aventura amorosa passageira entre Dedeco e Valéria Cristina mas não farei isso, ao menos hoje.

Recebi pungente email de um homem que se declarou "um ex-amigo do Dedeco". Felipe Millem é seu nome. Tudo toma corpo e cores de verdade maiores justamente porque não sei quem é. Não o conheço. Mas é de um tom tão pungente, é de uma minúcia tão capaz de comover o leitor, que entendi por bem reproduzir o email na íntegra. O título do email era justamente o título de hoje, "Desabafo de um ex-amigo". Vejam que tristes as sendas que o Dedeco percorre.

"A cada história do Dedeco que vou tomando conhecimento, minha repulsa por este ser abjeto vai atingindo patamares estratosféricos.

É triste constatar o nível de torpeza que alcançou sua alma distorcida.

Mais triste ainda é lembrar que este sujeito já foi, um dia, uma pessoa de bem, temente a Deus e que sabia de cor a cartilha da saudosa “Tradição, Família e Propriedade”.

Lembro-me de nosso tempo no glorioso Colégio Militar. Dedeco (ainda atendendo pelo seu nome André Menezes), era um aluno brilhante, arrancava os mais sinceros elogios dos professores e oficiais, o que, contudo, despertava a ira de seus colegas de turma. Esses, incapazes de alcançá-lo no seu intelecto (à época, voltado para o Bem), passaram a achincalhá-lo constantemente na hora do recreio, fazendo comentários jocosos sobre sua obesidade e de seu já iniciante processo de erosão capilar. Com isso, aquele André Menezes foi se retraindo, cheio de mágoas, tornando-se uma pessoa reclusa e rancorosa, mas ainda com alguma bondade restante em seu coração ferido.

Certa vez, em um ano que especificamente não me recordo, eu não estava indo muito bem em matemática, pra falar a verdade, minhas notas em exatas sempre foram de um monocromático vermelho capaz de irritar os olhos de quem abria meu boletim, pois nunca fui bem com números. André Menezes, com uma compaixão franciscana, talvez também por eu ser o único da sala a não zombar de sua forma roliça, ofereceu-se para a árdua tarefa de tentar me ensinar porque raios eu tinha que aprender a fazer operações matemáticas com letras e não com números.

Em um sábado de manhã, André Menezes aceitou o desafio hercúleo de tentar mostrar o caminho da sabedoria para um intelecto rudimentar (o meu). Também foi um desafio para o André desbravar seu pequeno universo, consistente na Tijuca e Vila Isabel, para tomar o rumo da radial oeste em direção ao bairro pobre da Piedade, no qual eu residia.

Depois de algumas horas de ensinamento, finalmente consegui entender que o “x” em uma equação era somente um número comum, usando uma fantasia de letra e o objetivo daquela maldita matéria era descobrir a “identidade secreta do número” (termo encontrado pelo André para me fazer entender, eis que tinha consciência de minha curta sabedoria, assim como minha predileção por gibis de super-heróis).

Chegada a hora do almoço, minha santa mãe perguntou-nos se o André Menezes iria almoçar conosco, eu prontamente disse que sim, pois a única forma que a minha mente tosca encontrou de agradecer ao sábio gordinho era, lógico, oferecer-lhe uma lauta refeição.

Para tanto, o André Menezes pediu para ligar para a santa mãe dele, para avisar que “iria almoçar na casa dos outros”, tendo ela aceitado com velada alegria, pois, naquele sábado, o maior bife servido em um almoço, finalmente, seria o dela.

Sentamo-nos à mesa então. Meu pai sempre à cabeceira, de onde comandava a família com mão de ferro, sob a rígida moral de família mineira, de um lado eu e o André e do outro minha santa mãe e minha irmã.

Súbito, meu pai proferiu um brado retumbante: “Hoje, temos à mesa um novo coleguinha para cear conosco, quem fará as preces?” Meu pai disse esta frase já olhando para mim, esperando que eu tomasse a iniciativa e me oferecesse para fazer as orações, no que permaneci em um silêncio de velório, pois jamais tinha conduzido uma prece na família, uma vez que, assim como com números, nunca fui muito bem com palavras.

André Menezes, do alto de sua percepção Sherlockiana, conseguiu entender aquela situação constrangedora e, imediatamente, começou a entoar, de improviso, uma prece em louvor a Nossa Senhora.

As palavras proferidas por André Menezes foram de uma fé tão contundente que conseguiram extrair pesarosas lágrimas até dos olhos de meu pai, secos como o sertão, eis que criado com a máxima mineira de que “homem não chora”.

Após aquela prece maravilhosa, ceamos cheios de alegria em nossos corações suburbanos, elevados em nossa fé no Senhor.

Taí Edu, um relato de quem conheceu o André Menezes, ser humano íntegro, antes de assumir o alter ego deste vilão Dedeco, tão retratado em suas colunas.

Rogo a Deus todos os dias, para novamente tocar sua alma perdida, para que ele volte a ser aquele gorducho, de moral ilibada, que se confessava e comungava como todo bom Cristão deve fazer, espalhando a palavra do Senhor por onde passava e não a luxúria e a vilania, o que certamente o conduzirá para o açoite inclemente da espada de fogo do Todo-Poderoso.

Felipe Millem é um Valente da Fé."

Até.

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6 comentários:

Anônimo disse...

Será que a consciência moral e a fé do Dedeco se encontravam acondicionadas em suas abundantes células adiposas e, com o fim de sua obesidade humilhada, veio também, consequentemente, o fim de sua humanidade? Será? Será?

Eduardo Goldenberg disse...

Quero apostar que a mudança do comportamento desse personagem recorrente do Buteco deu-se por causa da vaidade. Gordo, um humilde. Macérrimo, um biltre, sujo, baixo, sem luz.

E pela primeira vez deixo de escrever um texto meu para reproduzir outro na íntegra porque de fato me tocou e me comoveu a imagem do bom André de mãos postas, orando, contrito, coisa inimaginável hoje em dia.

Marcão disse...

Edu,

Quero saber se a irmã do Felipe, a que sentou em frente ao Dedeco, saiu ilesa dessa história. E o fim da saga tijucana do bom Aloísio e Vanda Lúcia? Tenho lido bastante o buteco, como vê.


Marcão

felipe_millem disse...

Totalmente ilesa Marcão. Hoje ela é freira, vivendo exclusivamente para louvar o Senhor, em regime de clausura e semi-jejum, em um convento no sul da Itália.

Eduardo Goldenberg disse...

Pô, Marcão, a historinha do Aloysio e da Vanda Lúcia parou por ali mesmo, com a descoberta do romance entre o Alô e a Dalila, filha da Dona Bizantina.

Mas vai ter mais.

Aviso a você.

Abração, e apareça sempre!

Flávio disse...

Me solidarizo com você, meu amigo Felipe. Uma lástima a trajétória daquele que foi, outrora, nosso bom amigo.
Só mesmo a ilibada Renata Millen para escapar do André, fico feliz em saber que ela seguiu sua vocação religiosa.