30.11.05

BREVÍSSIMO RECESSO


Interrompo, um pouco a contragosto, as narrativas sobre o mais portentoso casamento de que se tem notícia. E foi mesmo. Reuniu-se ontem a Confraria S.E.M.P.R.E. para a cerimônia de posse do Branco, dono de beleza acachapante. E não falou-se noutro assunto que não o casamento da Stê com o Szegeri.

Ocorre que vou, hoje, a Volta Redonda, ao encontro da Sorriso Maracanã, trabalhando por lá essa semana. E aproveito pra tratar de alguns detalhes sobre o lançamento do livro no dia 19 de dezembro, no Galeto Carioca, na Rua 33, na cidade onde reina o Comandante.

Deixo aqui, até segunda-feira, o convite para o lançamento no Rio, no Estephanio´s.

Até.

29.11.05

S&S - PARTE II

Vamos prosseguir hoje com o relato do casamento da Stê com o Szegeri. Confesso que assustei-me um pouco ao verificar, ao vivo, o poder do humilde Buteco. O Marcão, vejam vocês, o Marcão foi um poltrão olímpico ao se deparar comigo. Vou explicar.

Antes preciso dizer que o Fefê era um excitado à espera do Marcão. Disse-me ele logo cedo:

- O Marcão vem?

- Vem. Por que?

E rolou de rir, o Fefê.

- O que foi, Fefê?

- Ele é igualzinho à imitação do Szegeri?

- Idêntico.

E continou como uma piorra, no chão, o Fefê, relinchando de rir.

Chega o Marcão.

E eu o apresento ao Fefê.

O Marcão faz pequenas mesuras e o Fefê tem crises de apnéia enquanto gargalha.

O Marcão, preciso dizer, já chegou ao casamento levemente bêbado (quer dizer... chegou bastante bêbado, mas como ficou muito mais bêbado ao longo da festa, chegou levemente embriagado, já que valho-me de critérios coerentes).

Mal chegou o Marcão e a Marcela, ajudante do Szegeri e da Stê, serviu-lhe um chope. Mas derrubou o chope na camisa listrada do Marcão.

- Desculpa... - disse uma tímida Marcela.

- Não tem nada, não... - soluçou - Pode derrubar chope, o que não pode é o Edu escrever isso no blog.

E ficou assim, nesse medo, nessa mania de perseguição, o Marcão, durante todo o tempo.

À certa altura eu vi o Marcão engatinhando em direção à chopeira. Tinha na cabeça um cesto de palha como disfarce. Eu, discreto, arranquei-lhe o adereço do pescoço e ele, coitado:

- Pô, Edu... Você não vai pôr isso no blog, vai? Eu prometi à minha mulher que não iria beber...

E eu dando conselhos:

- Deixa disso, Marcão! Cadê ela?

- Trabalhando... - uma lágrima correu de seu olho esquerdo.

- Então beba. Exigir de você a abstinência é egoísmo. Diga que eu o embriaguei.

E ele então foi um homem com o sorriso diante da absolvição. Tomou do balde de gelo e pediu ao Ceará, o tirador de chope, que o enchesse.

- Mas você não vai escrever no blog não, né? - disse derramando espuma na barba.

- Imagina, Marcão! Pode confiar!

Vejam como sou honesto.

Amanhã continuo a falar sobre a festa que, não é demais repetir, foi a maior e melhor festa de casamento em 36 anos de vida. E isso sem as frescuras de um buffet, sem cerimonial, sem frescura nenhuma.

Só samba. Muitos amigos, muita bebida, muita comida e um casal campeão como amálgama de tudo.

Até.

28.11.05

S&S - PARTE I

Dedicarei a semana inteira ao evento do ano, que chamarei de S&S (Stefânia e Szegeri), o casamento de minha irmãzinha Stefânia e do meu irmão Szegeri, ocorrido neste último sábado, 26 de novembro, em São Paulo. E a semana inteira, sabe-se lá, não será capaz de dar conta de tudo o que houve. Foi, creiam os que lá não estiveram, a maior efeméride da paróquia (começo antigo...).

Furdunço marcado para as 13h, e a Tijuca, sempre ela, deu as caras às oito da manhã na casa vermelha da Rua Camilo, na Vila Romana. Chegamos de mala e cuia eu, Dani, Flavinho, Betinha, Vidal, Gláucia, Fefê, Dalton e Zé Colméia. E houve o prometido café da manhã. E a Stê, dulcíssima, pressionada pelos hunos bárbaros da zona norte carioca, não ofereceu uma garrafa de champagne, mas cinco. Pão com lingüiça, pão com gorgonzola, pães franceses, mortadela, presunto, patês, frios variadíssimos, café expresso italiano, e a escumalha da Tijuca já arrotava, de fazer tremer os alicerces da casa, antes mesmo das nove da matina.

O dia de hoje será dedicado às linhas gerais, digamos assim. Vejam bem quem estava lá.

Além de nós, da escumalha tijucana, Zé Sergio Rocha (egresso da Abolição), Augusto Diniz, Juliana Amaral, Marcão (um dos destaques imbatíveis da festa), Railídia, Robson, Roberta Valente, Fó (irmã do Szegeri, e minha também), Zé Szegeri (pai do noivo) e sua irmã (figuraça sobre quem lançarei luzes durante a semana), Cecília (mãe de meu irmão Szegeri), Capitão Leo Gola, Marina, os Inimigos do Batente, Dani, Erick, Luli, Ana, Iara (a daminha de honra mais linda do mundo) e mais umas 150 pessoas. Isso mesmo. Mais de 150 pessoas compareçeram ao evento e é preciso dizer que, num determinado momento, quando a Dani Sorriso Maracanã e a Luli sorriram ao mesmo tempo, eu tive a impressão de que não caberia mais uma mosca naquele quintal, tamanha a dimensão dos sorrisos. Em frente.

Eu havia lhes contado que o Szegeri comprara 250 litros de chope. Isso foi pra saída. Durante a festa houve um reforço, e foram devastados 400 litros da bebida. A fatada - chamada de flatada no dia seguinte em razão da quantidade olímpica de peidos durante a cerimônia - foi devorada. Farofa de dendê e arroz à vera, tudo sob o comando da Graça, pequena mas gigantesca no quesito "dou conta do recado". Litros e mais litros de Black & White, que eu e Vidal, praticamente sozinhos, bebemos.

Fez que ia chover e não choveu.

Eu, que aos 36 anos não tenho mais o preparo de outrora, dormi duas vezes durante a festa, e foi isso que me fez acordar às nove da manhã de domingo com disposição pra ir à chopeira.

Amanhã começo a contar os detalhes.

Um, apenas um, vai agora.

Marcão por volta das dez da noite está segurando a haste de um dos toldos.

Eu:

- Marcão... isso não é um poste, malandro... Você vai cair.

- Não é um poste? - e suspendeu o toldo pra desespero dos convidados.

- Não. Você está bêbado, Marcão?

Ele respira fundo, fecha os olhos, arrota e diz:

- Tecnicamente sim.

Amanhã continuo.

Até.

25.11.05

APERITIVO



Eis, então, a capa do livro que será lançado no dia 12 de dezembro, a partir das 20h, no Estephanio´s, na Rua dos Artistas 130, em Vila Isabel, palco de grande parte das 46 histórias que o compõem. E que, no dia 17 de dezembro, a partir das 13h30min, será lançado no Ó do Borogodó, em São Paulo, na Rua Horácio Lane 21, em Pinheiros. Em Volta Redonda, terra do Comandante, marcante personagem do livro, será no Galeto Carioca, comandado pelo Nando, na Rua 33, no dia 19 de dezembro, a partir das 20h.

A responsável pela beleza da capa é Adriana Moreno, mais uma que foi de uma paciência olímpica comigo, que fez um trabalho belíssimo sobre o desenho do Lan, um mito carioca, e não sou eu que digo isso, são Aldir Blanc e Moacyr Luz.

E isso pra não falar da Marcia Silveira, da Casa Jorge Editorial, que não poupou esforços e esfor$$o$ pra coisa sair bonita do que jeito que está, a maior (eu que sou preciso do início ao fim) editora de que se tem notícia. Junta doçura, arrojo, paciência, coragem e talento, de sobra.

Hoje foi um dia chave, mais um dia D dentre tantos dias D desde que a Marcia me fez o convite pra escrever "Meu Lar é o Botequim". A Adriana mandou as sugestões de capa, e foi um tal de palpita daqui, palpita de lá, palpita assim, palpita assado, e ela, Adriana, pacientemente, ouvindo o que prestava e o que não prestava, bateu o martelo juntamente com a Marcia e ficou assim, ó, linda, linda, linda (clicando sobre a imagem é possível vê-la ainda maior e com maior definição).

Eu poderia, é verdade, ter posto aqui a capa completa. Orelhas, contracapa (ou quarta capa) etc etc mas é melhor que eu faça isso mesmo. Lance o aperitivo, mate a curiosidade dos maiores ansiosos do planeta (oi, Betinha, tudo bem, querida?) e reforce, o que farei dia após dia, o convite para o lançamento, quando aí sim!, aí sim!, de pé, não no banco imaginário, mas no banco real, eu erga o copo com cada um de vocês, que torceu junto, sofreu junto, e possamos tomar uma porranca olímpica naquela esquina abençoada de Vila Isabel.

Até.

24.11.05

CAFÉ DA MANHÃ, UMA SOLUÇÃO

Casam-se no sábado, depois de amanhã, 26 de novembro, meu irmão Szegeri e minha irmãzinha, a doce Stê. O furdunço, marcado para as 13h, promete ser imbatível e entrar pro Guiness. Fernando anuncia 25o litros de chope, caldeirões de fatada, comida pra batalhões, bebida pra cossacos com sede, e é claro, a fartura prometida, somada ao carinho, fez com que decidíssemos, aqui no Rio, partir em bando pra São Paulo. O que gerou pequeno problema que vou explicar.

Partimos às cinco e meia da manhã de sábado, num vôo da Gol, baratíssimo, eu, Dani, Vidal, Gláucia, Flavinho, Betinha, Dalton e Fefê (o Fefê vai de ônibus, mas isso é mero detalhe). Ou seja, chegamos à São Paulo às seis e vinte da manhã.

O que fazer chegando tão cedo?

Vamos a algumas propostas apresentadas pelos oito (eu me incluo):

- Podemos ir direto pra Mercearia São Pedro beber cerveja - eu disse.

- Abre às oito. - disse o Dalton - Acho melhor bebermos no aeroporto mesmo e de lá seguirmos, só às oito, pra esse lugar.

- Vamos chegar meia-noite no Galeão, então... bebemos por lá mesmo... - foi idéia do Vidal.

- Eu voto pelo seguinte: - emendou o Fefê - Vamos direto pra casa do Szegeri. O chope já vai estar no gelo e começamos ali mesmo os trabalhos...

E fui comunicando tudo ao meu irmão paulista (cada vez menos meu irmão, eu devo dizer. O Szegeri, tomado por uma fúria de ciúmes do Zé Sergio, sem qualquer explicação cabível, maltrata-me de forma solene nas últimas semanas).

E eis o que o Szegeri me confessa...

A doce Stê está sem dormir de preocupação. Temendo pela performance dos oito desde às sete da manhã, conseqüentemente temendo pela integridade da casa e dos móveis, temendo pelo tumulto que aventa-se inevitável com oito cariocas de porre já de manhã, queimou a mufa (velho!, velho!, estou cada vez mais velho!) e arrumou uma solução. Bateu o telefone pra mim ontem à tarde e disse, dulcíssima, com aquela voz tão sweet como diria a Dani:

- Oi, Edu... é a Stê...

- Oi, querida!

- Edu... (vozinha de choro)

- O que foi?

- Vocês não vão beber desde cedo no sábado, né?

Eu apenas ri.

- Acho que não - e ri de novo.

- Eu e o Fê pensamos numa coisa muito legal, meu...

(fiquei mudo)

- Vamos servir um baita café da manhã pra vocês... Pães italianos, suíços, broas, bolinhos, patês franceses, queijos de todo o mundo, frutas variadas, sucos, e uma garrafa de champagne.

- Uma? - eu disse sendo tijucano dos pés à cabeça.

Ela desligou.

Comuniquei aos sete a decisão da Stê.

E a minha reprodução fiel do telefonema ("uma garrafa de champagne") gerou protestos dignos do movimento estudantil em 68.

- Pão-dura! - urrou a Betinha.

- Depois eu é que sou do Cachambi! - protestou o Flavinho, dando tiros pro alto.

- Nem fudendo! - disse o fino Fefê.

- Ai iê iê mamãe Oxum, assim não dá! - cantou o Pai Dalton.

- Ela é italiana ou é judia? - foi o Vidal o autor da pérola.

E eu temo, francamente, pela integridade da cozinha do queridíssimo casal.

Até.

23.11.05

O PAI DO ILUSTRADOR

Vejam vocês que ontem mesmo, quando escrevi sobre o lançamento do livro, disse em determinado momento "notem o quanto de carinho envolve a coisa". E é mesmo. Como eu faço questão de sempre postar-me diante do monitor como um cumpridor da precisão do início ao fim, vou lhes contar uma história que envolve carinho, coincidência e uma beleza de enredo.

Antes, porém, uma resposta assim, geral, para os (até então) 22 leitores que tiveram a pachorra de escrever comentários ontem.

Sucesso é um troço mais-que-relativo. E eu não tô atrás dele. Até porque não creio (ou não quero crer) nele. A sensação de ser publicado já é indizível, ainda mais ao lado de craques que me fazem o peixe mais miúdo do aquário. Ter os amigos comigo, nos dias 12 (no RJ) e 17 (em SP) me fará estupidamente feliz. E ponto. Em frente.

Em 1991, tinha eu 22 anos de idade, fui convidado pelo Luiz Vieira pra lançar um livro de poesias que a mamãe - vejam que mãe orgulhosa e tremenda tijucana no gesto! - mostrou ao radialista na Rádio Nacional no final dos anos 80. Daí o Luiz passou a ler as poesias durante seu programa e convenceu um primo, dono de uma gráfica, a editar um livro. E assim foi feito. Dizia ele, "mas olha que menino tão novo escrevendo tão bonito" e por aí. E quem? - eis a pergunta - quem ilustrou a coisa?

Pedro Toledo.

Naquele momento, irmão da minha namorada, um moleque de 17, 18 anos. Desenhava bem - hoje é um estupendo artista - e fez os desenhos, fez a capa etc etc etc

Daí, vida que segue, o namoro terminou, eu casei-me, vacas tentaram destruir meu pasto, separei-me, (re)encontrei a Dani, casei-me com ela e veio o Zé Sergio, lançou a idéia pra Marcia Silveira, que por sua vez comprou o que lhe foi lançado, e quem? - eis a pergunta - quem ilustra o livro que lanço agora em dezembro?

Pedro Toledo.

Notem a beleza da coisa.

O Pepê, como o chamo desde priscas eras (vejam a velhice transbordando pelos vãos do mouse), não é mais um moleque e nem desenha apenas bem. O Pepê é pai de duas meninas e é um artista reconhecido, talentoso, brilhante. Parte de seu trabalho pode ser visto aqui. E contou-me ontem, seu orgulhoso pai, Pepê venceu recentemente um concurso mundial de ilustrações em 3D. Vejam! Vejam! Vejam!

Era o Pepê um imberbe - hoje tem uma barba de Noé, de um viking, de um bárbaro - e eu apontei-lhe o dedo farejando ali o talento inato. A falta de modéstia é, aqui, um exercício, apenas.

Pepê foi contratado pela Editora, fez um trabalho brilhante, vocês verão, e eu fiquei realmente comovido com a percepção da volta que a vida dá.

E por que - tenho certeza de que é o Marcão quem pergunta, um permanente curioso com isso - o título de hoje é "O Pai do Ilustrador"?????

Porque ontem fui beber, no Bar Getúlio, com o Toledo, pai do Pepê.

Pausa brevíssima para contar quem é a mãe do Pepê. É minha mui amada, salve, salve, Glória, hoje morando em Natal, por quem tenho visceral carinho e de quem tenho dito - lendo isso, dona Glória, não me corrija, por favor, eis que a mentira quando é linda deve ser mantida - "tirando mamãe, vovó e Dani, é a mulher que mais me quer bem".

Bem. O Toledo é um sujeito raríssimo. Bom de papo, bom de copo, um baú de histórias inacreditáveis, praticamente todas impublicáveis (Szegeri, me cobre uma apenas, conto pessoalmente!), e bebíamos ontem no buteco do Catete quando, empolgadíssimo com todo o lance que envolve o livro, que envolve o filho, o Toledo sugere sentar-se comigo, no dia 12, à mesa, pra autografar os livros.

Somente minhas sobrancelhas levantam.

Antes de retrucar, ele emenda:

- Orgulhoso, quero assinar "Toledo, pai do ilustrador".

Figuraça.

Até.

22.11.05

MEU LAR É O BOTEQUIM




Freqüentadores do Buteco, fiéis leitores, recém-chegados, eis que vem se aproximando o grande dia (ao menos pra mim!). Antes, pausa pros créditos: a foto acima, um instantâneo de um delírio que só o Rio de Janeiro permite, eu batendo um tremendo papo com Noel Rosa, no Boulevard 28 de Setembro, é de Pedro Toledo, meu queridíssimo Pepê.

Vai ser lançado no dia 12 de dezembro de 2005, uma segunda-feira, a partir das 20h, no Estephanio´s Bar, que fica na Rua dos Artistas número 130, em Vila Isabel, na esquina com a Rua Ribeiro Guimarães, meu livro "Meu Lar é o Botequim: histórias, palpites e feitiço sem fim", pela Casa Jorge Editorial.

Depois de meses de muita ralação, a coisa vai tomando forma e está praticamente pronto o caprichado livro que a Marcia Silveira, editora da Casa Jorge, preparou com imenso carinho. Digo sem medo ou vergonha que o autor é o peixe mais miúdo da coisa. A capa é de autoria do Lan, um mito carioca, um "portelense, bom de samba e coração circense". O prefácio vem assinado por outro mito, outro monstro das letras cariocas, Aldir Blanc, autor do verso que define o Lan. A apresentação, é feita por aquele que considero o maior escritor brasileiro, autor de meu romance preferido, Fausto Wolff. As ilustrações e as fotos feitas por Pedro Toledo, o Pepê. O projeto gráfico, pela também querida Adriana Moreno. O texto da orelha é de ninguém mais ninguém menos que Fernando Szegeri, meu irmão paulista.

São 46 histórias, contos e crônicas. Dez ilustrações caprichadíssimas. E há o desfile dos personagens que deram e dão cor ao Buteco, e eu espero, sinceramente, que todos gostem do livro como eu gosto.

Pausa pro comercial: será um excelente presente de Natal. Pigarros e vamos em frente.

No dia 17 de dezembro o lançamento será em São Paulo, no meu buteco preferido de SP, o Ó do Borogodó, comandado pela doce Stê e pelo Capitão Leo, durante roda de samba dos Inimigos do Batente, grupo arretado comandado pelo Szegeri e pela minha comadre Railídia. Notem o quanto de carinho envolve a coisa.

Meu muitíssimo obrigado a quem torceu junto - e foi muita gente! - e especialmente ao Zé Sergio Rocha, mentor da maluquice que a Marcia Silveira comprou. E que vocês, eu espero com todas as minhas forças, comprem também!

Depois de São Paulo, vou à Volta Redonda, terra do Comandante, pra lançar por lá o livro.

E vocês que me perdoem, também, mas daqui pra lá vai ser muito difícil, eu diria quase que impossível, eu falar noutra coisa.

A cabeça a mil, a expectativa na lua, enfim, tudo o que um obsessivo precisa pra piorar a olhos vistos.

Até.

21.11.05

O RIO AMANHECEU CANTANDO

Hão de me perdoar os vascaínos (Aldir, Fefê, papai), os tricolores (Léo Huguenin, Vidal), os botafoguenses (Zé Colméia, Zé Sérgio), os americanos (Antônio Bulhões, mamãe, seu Osório). O Rio amanheceu cantando nessa segunda-feira. O Flamengo venceu a partida de ontem espetacularmente, com um gol aos 47 minutos do segundo tempo, e livrou-se, definitivamente, do fantasma da segunda divisão. "Grande coisa", dirão os detratores de plantão. E eu gritarei "grande coisa mesmo" de pé no banquinho imaginário. Em tom solene, de missa pagã, eu, Betinha, Flavinho, Dalton, Lelê, Marquinho, Cabreira, tendo à frente um São Jorge montado no cavalo e um santinho de São Judas Tadeu, vibramos e gritamos, gritamos e choramos, choramos e comemoramos a alegria de ser rubro-negro.

E eu comecei dizendo "hão de me perdoar" justamente por isso.

A cidade nunca é tão encantada quando no dia seguinte de uma vitória do Flamengo. Nunca. Tem mais sorriso na cara do povo, tem mais "bom dia" e "boa tarde" ecoando pelas esquinas. E tem mais orgulho nos olhos de cada um.

Novamente os detratores dirão que o time é uma porcaria. E eu grito de volta "é mesmo!", mas há um diferencial. Houve um diferencial e eu nem quero discutir se seu nome é Joel Santana. De uns jogos pra cá, precisamente nos últimos sete jogos, cinco vitórias e dois empates, o Flamengo teve a seu favor a famosa e decantada mística do manto rubro-negro.

Gols espíritas, bola esbarrando num jogador e indo pro gol, trombadas que viraram lances de perigo, e eis que ontem, no final do jogo, o limitadíssimo Obina acerta uma bomba e dá a vitória ao Flamengo, e o Estephanio´s veio abaixo. Era o que sempre pedíamos, os torcedores contritos diante da TV: a vitória da raça rubro-negra.

E uma conclusão: não havendo condição de disputar o título, e não tínhamos mesmo, com aquele elenco que nem na minha mesa de botão eu escalaria, é bom demais esse fugir desesperadamente do rebaixamento. O campeonato ganha emoção, tintas de tragédia, cores de drama épico, e a gente aproveita tudo, da primeira à última rodada.

E ontem, de pé, depois do jogo, rezando a oração a São Judas Tadeu, fui um homem de fé.

Dei, inclusive - há testemunhas! - de beber ao Jorge, o santo, que há de me perdoar a intimidade (com a licença do Aldir).

Deus me perdoe
essa intimidade
Jorge me guarde
no coração...

Até.

18.11.05

ARREMESSADO, DE NOVO, AO PASSADO

Na foto ao lado, de pé, no meio, trajando camiseta branca, meu pai. A foto foi entregue ao meu velho na semana retrasada, no Estephanio´s, quando os colegas do Instituto La-Fayette reuniram-se para beber (o papo de reencontro era pura balela). Beber do passado, obviamente. E papai mandou-me a relíquia por email ontem à noite. Bastou.

Foi cravar os olhos na foto e pronto. Lá estava eu de bermuda, camiseta listrada de mangas curtas e sandália marrom, de couro (Ortopé, salvo engano), arrastado pelas gigantescas mãos de meu pai em direção à Avenida Presidente Vargas, no carnaval, pra ver de perto os carros alegóricos do Bafo da Onça, do Cacique de Ramos e, eventualmente (duvido que fosse mero acaso), aquelas mulatas de biquini, suas coxas e seus seios, moldando meu caráter, construindo meu edifício e me deixando ansioso pelo porvir.

Vejam bem. Eu ando, como dizer?, um tanto quanto emotivo. É o livro que vem nascendo, é a Dani de trabalho novo viajando horrores e me deixando sozinho e com medo (tenho medos horripilantes de fantasmas), é o casamento do meu irmão Szegeri com minha irmãzinha Stê chegando, e eu fui um sujeito de visão embaçada diante do instantâneo em branco e preto. E eu, que ainda não conheço os passos dessa estrada, que penso que talvez tudo dê em nada, e sem saber de cor os segredos, fiquei diante da fotografia cravando os olhos nos olhos pouco nítidos (na fotografia) de meu pai.

Eu grifei entre parênteses o "na fotografia" porque estou pra ver um sujeito com olhos mais nítidos que os de meu pai.

Há - ou não há? - esse papo de que o pai é sempre o herói do menino. Mas nem sempre é assim. Ouço, demais, queixumes de gente à beça contra o próprio pai. Blasfêmia pura.

Eu, que como todo homem, quando menino, sonhava em ser grande o quanto antes, sou cada vez mais o menino. E arde em mim a chama heróica de meu pai. E aí, enquanto mantinha cravados os olhos na fotografia, eu saía da Presidente Vargas e ia com meu velho, sempre com a mão tomada por suas mãos imensas, comer cachorro-quente da Geneal na Rua Barão de Itapagipe, ver o Flamengo nas cadeiras azuis do Maracanã, cortar o cabelo no Jarbas, na Praça Afonso Pena.

Olhava pela janela, à minha esquerda, diante do monitor, e era alta madrugada. Mas fazia um sol intenso enquanto eu passeava com meu velho pelas ruas da Tijuca, outra paixão fulminante que carrego comigo. Obra dele, outra vez, arquiteto de mim.

Delírio?

Não.

Mas pus o termômetro digital que roubei monumentalmente da Betinha (nunca vou te devolver, tá?) e estava febril.

Senti um cafuné na nuca e era ela. Minha bisavó.

Sorri pra ela e mostrei-lhe a foto de meu pai. Ela sorriu de volta - eu estava com um cigarro aceso - e quando ia dar-lhe um beijo no rosto a vi transformar-se na fumaça que eu expeli depois de uma tragada olímpica.

O quarto cheirava à água de colônia.

Ainda com os olhos nos olhos dele, ouvi uma tremenda algazarra vindo do meu quarto. Levantei-me e havia cinco ou seis curumins dançando a dança da chuva em torno da cama, e chovia tremendamente no lado da cama onde dorme a Dani.

Voltei, deixei os indiozinhos brincando e papai falava comigo pela fotografia, mas a barulhada que os curumins faziam não me deixava entender nada.

Daí fui dormir, e os guris foram de um respeito comovente comigo e com meu sono.

Esqueceram seis pequenas flechas na mesinha de cabeceira. Três ficarão comigo. Três darei a meu pai.

Até.

17.11.05

O BONIFÁCIO

O Bonifácio era tido pelos amigos como um sujeito double face, como sempre anunciava a Nininha, uma das freqüentadoras daquele buteco na Praça da Bandeira, professora de inglês que era tida pelos demais como uma intelectual graças à capacidade de falar três línguas. Era o Bonifácio beber um bocadinho mais, o que acontecia quase que diariamente, e o que vinha de grossura, de inconveniência, não estava no gibi.

Foi o Tuca quem disse num comecinho de noite, finzinho de tarde, escorado no balcão, espremendo limão sobre as sardinhas da porção:

- Quase seis. Daqui a pouco o Bonifácio chega e já viu, né?

Quase profético.

Com as badaladas do sino chega o Bonifácio, atravessando a rua esbaforido, chegando do trabalho.

- Limãozinho da casa, please... - era o Facinho, como era chamado pela turma, imitando a Nininha no inglês de pronúncia detestável.

Às oito o Bonifácio já estava no sexto limãozinho, bebericando a Polar dos amigos, e neguinho, que não perdia uma, formando uma rodinha em torno do encrenqueiro.

Entra um casal jamais visto na área. Ele de terno mal passado e ela com uma barriga denunciando uma gravidez de oito meses.

O casal senta à mesa mas o cara se levanta. Vai ao balcão:

- Minha gente, é possível apagar os cigarros? Minha esposa está grávida...

Todos, sem exceção, puseram as mãos na testa. Sabiam que Facinho não deixaria aquilo sem resposta.

Ele mesmo, Bonifácio, deu um passo à frente. E lançando poderosa baforada de fumaça na cara do elemento, segurando o cara pelo braço, vai à mesa com ele.

Bonifácio faz o cara sentar.

Lança novo rolo de fumaça, agora sobre a grávida. E diz, com o indicador na altura do umbigo da moça:

- Meu brother... O que ´tá aqui dentro é teu?

Não esperou resposta.

- Se tu não tem competência nem pra isso, vai mandar apagar cigarro na puta que os pariu!

O Clélio esboçou reagir mas Edileuza fez "senta, senta, senta, meu bem... deixa pra lá...".

Bonifácio de volta ao balcão pede um charuto baiano pro Tedesco, gerente da espelunca.

- Não provoca, Bonifácio... - disse o Tedesco já estendendo o robusto em direção ao Bonifácio.

Bonifácio soltava baforadas olímpicas dando um ar de pub ao buteco.

Clélio e Edileuza saíram. E Bonifácio fez questão de ir encontrá-los na porta.

- Bom parto, minha senhora. E você, otário, vê se assume! - e gargalhou como um Zé Pelintra.

Dificilmente alguém tinha coragem de reagir.

Bonifácio tinha dois metros e dez, corpulento, parrudo, uma boca enorme, uma voz potentíssima, e exibia sempre os braços, tatuados, que desencorajavam qualquer esboço de revide.

Entra um taxista, mirrado, coitado, e vai ao balcão. Pede licença à turba junto dele, e diz ao Tedesco:

- Boa noite. O senhor sabe me informar aonde fica o motel Málaga?

Antes mesmo do Tedesco responder, Bonifácio se mete:

- Pra quê tu quer saber?

O famélico motorista passa o Bonifácio em revista, dos pés à cabeça, o que lhe tomou uns bons 20 segundos, e disse:

- Boa noite.

- Good night - respondeu Bonifácio.

- Minha esposa me aguarda.

- Puta?

- Bo-ni-fá-cio! - gritou o Tedesco abrindo os braços num apelo.

- Deixa ele. Não. Não é puta não - tremendo visivelmente.

- Vai fazer o que lá, bonitão? - isso dito quase que boca a boca.

- Te interessa?

Bonifácio segurou o Aderbal pela cintura, com as duas mãos engorduradas, o charuto pendendo da boca, e disse:

- Se eu tô perguntando, animal, é porque interessa... Vai me dizer?

- Vou namorar - disse dando tapinhas no ombro do Bonifácio, o taxista.

- Vou contigo. Tedesco, segura a conta que depois eu volto.

- Comigo? - as perninhas balançando no ar.

- Any problem?

- Heim?

- Ele perguntou se tem algum problema - traduziu a Nininha.

- Nã... nã... não.

Partiram os dois, Bonifácio levando o Aderbal no colo, assumindo a direção.

- Me esperem. Volto pra contar sobre a performance da vadia!

E partiu gargalhando, entrando na Matoso, o charuto ainda na boca, tomando a direção do Málaga.

Até.

16.11.05

MOACYR, LUZ



Eu, mais uma vez, ergo as portas de ferro do estabelecimento pra homenagear, modestamente, de pé no balcão imaginário do Buteco, um grande sujeito. E dele vou falar absolutamente à vontade, já que dividimos momentos que podem ser chamados de épicos, que incluem - vou citá-los pra dar mais cores ao troço - desde cerveja às sete da manhã de um domingo, quando o Caderno B estampava o malandro na capa e eu fui convocado pra comemorar a coisa, até porrancas com duração de 72h em Búzios, durante um verão já não tão próximo. Isso pra não falar de um aniversário, em abril, em que eu cheguei às nove na casa do malandro, na Muda, com uma cesta. Mas não de café da manhã. O mimo incluía cervejas importadas, salames italianos, queijos franceses e outros congêneres. Eu disse dividimos e uso o verbo no passado. Hoje já não dividimos o convívio e, se isso não vem ao caso, deve ser ao menos mencionado justamente para que a modestíssima homenagem - quero repetir - seja ainda mais genuína e verdadeira. Não estou puxando o saco de ninguém. Estou, isso sim, rendendo justo reconhecimento a um grande Carioca, com "c" maiúsculo.

Vejam bem.

Eu conheci o Môa antes dele me conhecer, e quero explicar. Ainda moleque, fui levado ao Caras & Bocas, na Tijuca, aonde, bebendo pouco à época, assistia Aldir Blanc, Paulo Emílio, Moacyr Luz, Helinho Delmiro, feras que deram ainda mais argamassa pro edifício que carrego dentro de mim. Até que um dia - há testemunhas - e o Caras & Bocas não existia mais, eu esbarrei com o cara no Bar da Maria. Pedi à Verinha, mulher do Lélio, sem vergonha:

- Verinha, me apresenta a ele. Sou fã do cara.

E assim foi feito.

Daí viramos amigos. Mesmo.

E eu assisti o Moacyr transitar, cheio de respeito e devoção, nos mais sagrados terreiros do samba. Primeiro com o Aldir, com quem cravou um de meus CD´s preferidos, o "Vitória da Ilusão". E depois vieram outros, outros, e de repente, quando já não mais dividíamos alma como outrora (notem a antigüidade da expressão!), eis que o Môa já tem gravado seu nome na história. Só que com um detalhe a mais, o que o torna um personagem ainda mais encantador.


O Môa não é apenas um compositor de mão cheia, um melodista daqueles de derreter o coração da gente. Não é apenas um sambista no topo da lista. É mais. E vou explicar. E vou explicar justamente porque me vi tomado de violenta emoção na segunda-feira quando foi lançado, no Renascença Clube, no Andaraí, o CD "Renascença Samba Clube", mais uma das geniais idéias do Moacyr. O Môa bolou o troço em maio desse ano. A coisa chamaria "Samba do Trabalhador" e aconteceria às segundas-feiras, às 14h. Timidamente, com 40 pessoas. Todos amigos seus.

E o que se viu na segunda passada, 14 de novembro, não por acaso véspera da Proclamação da República, foram mais de 3.000 pessoas em êxtase diante do sucesso e da beleza do lugar, lato sensu.

Essa mesma genialidade, esse mesmo tino, o Môa demonstrou quando pensou na já conhecida barraca de feira, na Garibaldi, às sextas-feiras. Nada mais carioca (como ele, aliás, é o que estou querendo dizer desde o início).

Os amigos se reúnem em torno dele e de uma barraca de feira. As comidinhas, a bebida, o samba sem compromisso, e as águas do Rio Maracanã, onde se encosta a barraca, testemunham, a cada semana, a força bruta das águas que movem o Rio de Janeiro.

Vai daí que o Moacyr faz, há anos, de sua própria casa, num aprazível apartamento térreo na Muda, um buteco, onde recebe os amigos pra reuniões antológicas pelo que escorre dali. Vai daí que o Moacyr pensou, e gravou, um CD magnífico chamado "A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro", onde virou parceiro do Drummond, do Vinícius, do Murilo Mendes. Vai daí que o Moacyr foi o mentor desse troço genial que é a barraca na feira da Garibaldi. Vai daí que o Moacyr foi o autor e mentor do "Samba do Trabalhador", um fenômeno. Em menos de seis meses a coisa virou CD, DVD, e aquele pé de carambola fazendo sombra nos músicos no quintal do Renascença faz, hoje, o papel que já foi da jaqueira, da mangueira, da tamarineira.

Eis o que pensei, lágrimas no olhos, enquanto filmava a roda na segunda-feira.

O Môa cravou, com o Aldir e o Paulinho Pinheiro, o hino que os cariocas adotaram: "Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar".

Eis a beleza da coisa.

O Môa cumpre, direitinho, e dia após dia, seu papel. Não espera, sábio que é, que o Brasil faça sua parte.

É ele mesmo quem tira, uma a uma, as flechas que castigam a cidade e seu padroeiro.

Assim, há de ser, o Rio se salva.

Até.

PS: as três fotografias são de autoria de Paulo Barbosa, o Cachorro, e podem ser vistas aqui.

14.11.05

CALOURO

O sujeito entrou no buteco falando no celular (cantando, aliás):

Se alguém perguntar por mim...
Diz que eu fui por aí...
Levando um violão debaixo do braço...

E desligou.

Ninguém o conhecia na área.

Nem seu Osório, o mais velho de todos, uma espécie de pajé etílico, nem o Bule, nem o Quincas, tampouco o Amorim. Osório ainda espichou o nariz em direção ao Vidal que fez que "não" com a cabeça. Novo na área.

Encostou no balcão e apontou pra garrafa de cerveja à frente do Amorim, cantando pro Zezinho, o garçom:

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa....

E gargalhou.

Zezinho, mau humorado como de costume, foi ao freezer e entregou ao cara a garrafa já aberta e um copo americano.

Osório puxou conversa:

- Boa tarde, amigo!

O cara não interrompeu o gole, dado de uma vez só, nem respondeu. Apenas sorriu. E emendou, afinadíssimo.

A sorrir, eu pretendo levar, a vida...
Pois chorando, eu vi a mocidade... perdida!

- Ô cara estranho! - sussurrou o Bule.

- Só canta! - disse seu Osório.

Tocou o celular do camarada. Ele atendeu. Ficou ouvindo durante quase um minuto. Encheu o peito de ar e mandou:

Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim
Nem se Deus mandar, nem mesmo assim,
as pazes contigo... eu farei...

E desligou pigarreando.

Seu Osório estava apostando que o sábado seria divertido. Aquela tremenda peça dentro do buteco era sinal de boas histórias. Remexeu a cabeça em busca de um assunto e, pronto!, sacou do assunto de praxe:

- Torces pra que time, amigo?

Flamengo joga amanhã eu vou pra lá
vai haver mais um baile no Maracanã...

E puxou da carteira lançando um santinho, São Judas Tadeu, sobre o balcão.

Ficou assim a tarde inteira, desfilando pérolas da música brasileira.

Antes de ir embora fez um aceno e Osório perguntou:

- Ô calouro! - neguinho riu. - Amanhã, pouco antes do jogo, vamos fazer um churrasco no buteco ali na outra esquina. Aparece!

Se fizer bom tempo amanhã
Se fizer bom tempo amanhã...
Eu vou...

E foi saindo de fininho.

Até.

12.11.05

ZÉ SÉRGIO, UM GRANDE CARA



O Buteco abre excepcionalmente hoje, num sábado, pra homenagear essa grande figura - eu ia dizer "grande figura humana", mas é melhor não - que é José Sérgio Rocha, nascido numa segunda-feira, 12 de novembro de 1951. Zé Sérgio, como é conhecido, é o biltre aí ao lado. O conheci por intermédio de outro biltre olímpico, Augusto Diniz, que o levou, não faz muito tempo, ao Estephanio´s, onde nos (re)conhecemos de cara. "Meu mais recente amigo de infância", disse o Zé depois da nona dose de cachaça. Nasceu no Rio de Janeiro, é botafoguense - um dentre seus incontáveis defeitos, o que só nos aproxima (os defeitos, não o time) - e portelense, jornalista, biógrafo, biriteiro, capaz de chorar ouvindo o Gonzagão, casado e apaixonado pela Dôra, a quem faz declarações descarradas mesmo quando ela está ausente, e o maior responsável pela minha estréia, à vera, como - vá lá - escritor.

Teve a pachorra e a coragem de me apresentar à Márcia Silveira que, por sua vez, foi corajosa a ponto de comprar a briga e encarar a edição de "Meu Lar é o Botequim: histórias, palpites e feitiço sem fim", que sai, tudo dando certo, agora em dezembro.

Virou, de fato, meu mais recente amigo de infância. É também - Szegeri de novo por testemunha - minha madrinha. Em recente evento no Candongueiro pediu a palavra e de pé teceu mais elogios a mim que minha mãe e minha avó juntas. O Szegeri cravou o apelido na hora: Dinda.

Hoje o Zé comemora a glória dos 54 anos no mesmo Candongueiro, pra onde me despenco com a Dani, a Betinha e o Flavinho.

Na foto ao lado, notem a alegria do Zé ao lado da Dôra.

Vejam vocês que ando, digamos, emocionado. Ontem derramei carinho pra homenagear a Maguinha, minha irmã, a Sorriso São Januário, como bem batizou o Szegeri, a quem peço, de público, um nome pro sorriso da Dôra. E hoje estou aqui pagando carinho pro Zé. Amigo tem desses troços. A gente se comove quando chega o aniversário, fica torcendo pra hora do encontro, do brinde, da comemoração.

Muito por causa do livro, a nossa relação (ui, sem viadagem pô!) foi se fortalecendo através de - é mentira, Zé? - centenas de telefonemas ao longo do dia. Emails capazes de engarrafar o trânsito na internet. E cá estou eu, nessa manhã de sábado, erguendo o copo imaginário de cerveja à saúde desse sujeito. Imaginário em razão da hora. Porque hoje à noite, minha gente, a gente vai beber quantidade suficiente pra encher o espaço que separa o Rio de Niterói.

Saúde, velho Zé (velho é cabível!).

É como você me disse dia desses, trôpego lá no Estephanio´s.

Eu gosto pra cacete de você justamente porque você não vale rigorosamente nada!

Até.

11.11.05

A IRMÃ QUE EU NÃO TIVE (AGORA TENHO)


(pra Maguinha, minha irmã)

Vejam vocês se não é o amor, latu senso, o responsável pelas melhores coisas da vida. E me permitam, desde já, deixar o Diabo de lado, mandar as zorras dos butecos pra escanteio, só pra falar disso. De amor. Vou lhes contar uma historinha.

Isaac e Mariazinha lançaram ao mundo três homens, dentre os quais me incluo. Fefê e Cris completam o time, isso pra não falar de dois malandros que ficaram pelo caminho. Homens também. Tenho, portanto, vejam a boçalidade inútil da matemática e da informação, dois irmãos.

Vai que (re)encontrei, em 1999, Dani Sorriso Maracanã, a mulher que me ensinou a sorrir, justamente quando vacas tentavam, em vão, destruir meu pasto.

E Dani tem, notem na foto (notem também o tamanho do Maracanã, nesse instântaneo, lotadíssimo), uma irmã, que atende pelo sugestivo nome de Magali Pureza. Eu ia dizer Pureza Miranda só pra agradar ao Comandante, dono original do nome, mas paremos no Pureza, que diz mais sobre o que lhe vai na alma.

A Maguinha, como a chamo de boca e coração cheios, é, de longe, a maior oftalmologista do planeta (Szegeri não me deixa mentir, mesmo jamais tendo sido atendido por ela, mas é ele, o Szegeri, capaz de atestar o quanto sou preciso do início ao fim, sem nenhum exagero). Doce de doer, é, tentem ter a capacidade de alcançar a dimensão do que vou dizer, pô, a minha médica, minha clínica geral. É a quem recorro quando qualquer dor me visita. É quem analisa meus hemogramas, é quem me acompanha quando é preciso uma ressonância magnética, quando nem é possível a companhia literal, já que eu vou pro tubo e ela a tudo assiste pela janelinha. Mas ela está lá - faz questão de estar lá - só pra dizer, "Ô Babinho... (ela me chama de Babinho, vejam isso, desde que eu era um mastodonte de gordo) ... vai dar tudo certo". E aí a mão que faz festinha em mim antes do exame me acalma de uma forma olímpica. Até o acompanhamento das análises clínicas da Pimenta, minha doce cocker spaniel, é ela quem faz.

Pequena pausa. A Dani, a mulher que me ensinou a sorrir, não é médica. Logo, e novamente o Szegeri pode me socorrer, justamente pra mim, fóbico e ligeiramente hipocondríaco, a presença de um médico nessas horas é mais-que-fundamental.

Vou apresentá-la um bocadinho mais antes de lhes contar o lance de ontem. Afinal, o texto é pra ela, a homenageada de hoje.

Maguinha não bebe. Mas é capaz de carregar o freezer de cerveja quando eu estou pra chegar. Maloca garrafas de uísque em casa só pra me fazer sorrir com o malte nas mãos e as pedrinhas de gelo fazendo timtim. E ainda me deu, supremo presente, a Ana Clara pra afilhada. E tem mais! Tem mais! Compra rúcula pra me agradar diante do prato de salada, cabala planos pra que a Maria Helena - sua outra filha - me chame também de dindo, enfim, é (ou não é?) uma irmã.

A que eu não tive. Mas que agora tenho. É necessário esse joguinho de palavras pra que tudo faça sentido.

Vai daí que a Pimenta está no auge do que as moças chamam de inferno astral. Carocinhos nas tetas. E tome mastectomia. E o troço vai pra biópsia. E pinta um abcesso na patinha da Pimenta. E a Maguinha ali, ó, no telefone, dividindo aflição com seu irmão (que sou eu, pô, não se esqueçam!).

O resultado da biópsia sairia ontem. E pela manhã nos falamos, eu com aquela voz de chororô, temendo pelo pior, embarcando nas expectativas das veterinárias que atendem a Pimenta, Dani e Márcia. A Maguinha só disse com a voz meio embargada (irmã tem desses troços de dividir dor também):

- Quando sair o resultado me avisa.

E saiu o resultado às 16h.

Tumor benigno!

Daí chorei litros, saltei em cima da Pimenta, e bati o telefone pra Dani, depois pra mamãe, pro papai, pro Dalton (outro solidário de mão cheia), pro Szegeri e pra Maguinha. Que não estava em casa. Celular fora da área. Deixei, então, recado com a Dona Sá, minha querida sogra, e sem deboche, porque apesar de sogra é querida, o que me parecia impossível depois da minha mais recente experiência quando vacas tentavam destruir meu pasto. É isso aí.

O recado não foi dado.

Soube disso quando meu celular gritou ontem por volta da meia-noite, piscando o nome da minha irmã no neon do meu velho Nokia (o mesmo modelo usado por Cabral pra avisar à Portugal da descoberta).

- Oi, Maguinha... - a voz já meio pastosa, eu bebia com Betinha e Flavinho comemorando o êxito do exame.

- E aí? - sua voz, entretanto, era de ansiedade.

- Ué! Você não sabe?

- Não! Me conta.

Contei.

E eis a frase - mais o gesto que a frase, é verdade - que me cortou o coração de felicidade. Lembram-se de que eu falei em amor lá em cima? Pois é.

A Maguinha deu de procurar ontem, na Barra, temendo pelo pior, como eu, filhotinhos de cachorro pra dar de presente a mim e à Dani, pra, sacumé, né?, suprir a dor da perda iminente.

Eu estava bem até aquele momento. Como emoção potencializa a ação do álcool, parti pra casa em poucos minutos trocando as pernas.

Até.

8.11.05

OUTRA DO DIABO

Vejam vocês a que ponto chega a maldade do ser humano.

Uma leitora, após ler o texto de ontem, "O Diabo", mandou mensagem pedindo uma foto do mesmo. Não o farei por algumas razões: sou contra a imolação pública de um ser humano como o Diabo, de bom caráter, e não quero perder os poucos mas fiéis leitores que tenho. O Diabo não é pra qualquer um, e eu não saberia dimensionar as conseqüências disso.

Mas como falei de Diabo ontem, volto a falar do Diabo hoje. Antes quero lhes dizer que meu irmão Szegeri, de São Paulo, mandou-me sucinto email no final do dia: "Estou com pena do pobre Diabo", disse-me ele.

E quero, daqui, rejeitar o fomento do sentimento da piedade. O Diabo tem em torno de 30 anos. E alguém que convive há 30 anos com aquela feiúra, com aquele rosto, com aquele shape, com a experiência torturante da imagem refletida no espelho dia após dia, está resolvido e resignado com isso. Não há razão para o sentimento da piedade. Falei em espelho e cabe breve digressão antes de entrar no tema de hoje.

O Diabo, contou-me no domingo, escova os dentes no chuveiro e por um único motivo: é uma chance a menos de dar de cara com sua própria imagem estampada no espelhinho diante da pia. E tem mais!

Eu, também um feio, sinto-me um galã de cinema, de novela, diante dele. Domingo mesmo. Estava eu no balcão com o Diabo e algumas moças que jamais me disseram um "boa noite" que seja diziam "tá diferente, heim, Edu?", "você está mais bonitinho...", e outras pérolas. Mas eu sabia que no fundo era tudo fruto da comparação. Tendo ao meu lado o Diabo eu era, de fato, um anjo do Michelangelo. Vamos em frente.

Contou-me também, o pobre Diabo (expressão perfeita pro sujeito em foco), sobre sua mais recente experiência na Vila Mimosa. Sequinho da silva, num jejum de meses, decidiu valer-se da restituição do imposto de renda para uma farra das boas na Vila Mimosa, na Rua Ceará, na Praça da Bandeira.

Eis o lance.

Atravessou a pontezinha que separa a Praça da Bandeira do inferninho.

Eu disse "inferninho" e me lembrei do nascimento do Diabo.

Consta que seus pais, revoltadíssimos, choraram horrores na maternidade. O pai chamou um delegado alegando que haviam trocado seu bebê no berçário. A mãe, católica ferverosa, mais resignada e conformada que o pai, convocou um padre exorcista para benzer o bebê feioso que vira nascer. Foi a avó, uma sábia, quem pôs pra correr o delegado e o padre, num grito:

- Saiam! Saiam! Pelo menos o monstro tem saúde!

Voltando à VM, como dizem os íntimos do local.

Aproximou-se o Diabo de uma profissa da área.

- Oi, gata...

- Oi.

- Quanto é o programa?

- Pra você?

- Arrã.

Riu, a senhora (tinha, contou-me ele, perto dos 60 anos).

- Peraí.

E entrou numa casinhola a vetusta.

Volta com mais nove colegas.

As dez cercam o menino, assustadíssimo.

Quando o Diabo sorri, meio sem graça, cinco delas choram. Uma cambaleia e cai. Outra une as mãos, em prece, e começa a rezar baixinho. As outras três tiram no "zerinho ou um" quem vai pro sacrifício. Ganha a mais idosa que toma o Diabo pela mão e segue em direção à casinha.

No final do troço, o Diabo, exausto, percebe que a Dona Mirindinha, nome de guerra da Sueli, dormira. Cutuca a velha pra pagar pelo serviço. Nada.

Miridinha está morta.

Diabo salta pela janela nos fundos, toma o caminho da Leopoldina e segue, a pé, pelo Canal do Mangue, pra casa.

Até.

7.11.05

O DIABO

Esteve ontem, no Estephanio´s, o Diabo, um amigo do Fefê dos tempos de EPCAR, em Barbacena, onde ambos estudavam. Fui um susto só quando o vi.

Por duas singelas razões.

A primeira: não o via há anos, muitos anos, provavelmente há uns 15 anos.

A segunda: o Diabo é feio pra burro. E o susto por sua feiúra superou, em muito, o susto pelo reencontro.

Vou tentar discorrer sobre sua feiúra contando um episódio real ocorrido ontem mesmo.

Apresentei o Diabo à Maria Paula. E notem o diálogo elucidativo.

- Maria Paula, deixa eu te apresentar a um amigo... Diabo, Maria Paula, Maria Paula, Diabo.

A Maria Paula gargalhando horrores.

O Diabo, acostumado às mais bizarras reações de seus convivas, abaixou a cabeça e esperou pelo que vinha.

- Querido... - disse a Maria Paula entre soluços - O Halloween foi semana passada!

Tive de explicar a ela que ele não estava de máscara.

- Arrã. Acredito. - disse a Maria Paula pondo a mão no rosto do Diabo tentando arrancar a máscara de borracha.

- Pô! Tá machucando! - foi o que disse o pobre Diabo (expressão que encaixa-se com perfeição ao feio em questão).

E chegou a Guerreira.

E a Maria Paula:

- Guerreira, vem cá!

E foi a Guerreira, aos galopes.

- Guerreira, esse é o Diabo. Diabo, Guerreira.

A Guerreira abriu a bolsa - estava bêbada, de cambalear - e estendeu um dente de alho que guarda, disse ela, para combater o mau olhado. E sorriu a Guerreira.

Ela sorriu. O Diabo chorava.

Fui ao balcão com o Diabo. E disse ao Magrão:

- Dois chopes, Magrão. Na pressão.

Veio o Magrão com os dois chopes na mão. Diante de nós, olhou-nos pela primeira vez. E deixou cair os dois chopes. Com aquele sotaque do nordeste que lhe é peculiar, gritou:

- Cruz credo! Vade retro cramulhão!

A Beth, gerente, virou-se pra ver o que acontecia.

E desmaiou.

Fefê se aproximou. Cochichou alguma coisa no ouvido do Diabo que fez que "sim" com a cabeça.

Sai o Fefê e volta em poucos minutos. Vem da dispensa com um troço na mão que a princípio não reconheci.

E enterra na cabeça do pobre Diabo um saco, daqueles vermelhos, de batata.

- Tá melhor assim. Pode ficar, então.

Ficamos ali, os três de papo, o Diabo com uma certa dificuldade para beber com aquela coisa enfiada no rosto. E eu fico assistindo o papo dos dois, discorrendo sobre os tempos da EPCAR. E eis o melhor momento, que divido com vocês.

O Diabo foi expulso da ECPAR no último semestre. Eis a razão.

Os alunos, todos, contou-me o Fefê, pulavam os muros da escola em busca de diversão na noite de Barbacena. E comiam gente que era uma beleza. As manicures, as floristas, as mocinhas do catecismo, uma festa. Menos o Diabo, coitado.

Era o Diabo apontar numa calçada e a multidão atravessava a rua vaiando o menino que, àquela altura, completava quatro anos de jejum.

Até que uma noite o Diabo teve um plano, vejam que coerência, diabólico.

Esperou a turma voltar da farra e fez um sinal, com a mão, pro Anselmo, um cadete quase tão feio quanto ele, famoso pelos porres que tomava numa birosca na pracinha da cidade. Sabia que o Anselmo, além de feio, era pobre de marré de si. Além de feio e pobre tinha um jeito assim, meio fresco. Era o que neguinho dizia: "O Anselmo bebe pra burro mas não come ninguém". "O Anselmo queima a rosca". "O Anselmo? Hummm... sei não!".

Fez a proposta.

Daria ao Anselmo, em dinheiro vivo, o correspondente a cinco meses de soldo em troca de um boquetinho.

O Anselmo, bêbado como um gambá, duro como um famélico, topou.

Fariam muito silêncio, combinaram.

Saíram do rancho e tomaram a direção da lavanderia. Diabo com uma lanterna pra iluminar o pau, foi o que ele disse.

Deu-se a coisa.

Diabo abaixou as calças.

E quando, nu, estendeu o troço pro Anselmo, viu o plano do silêncio ir pro cacete.

Anselmo ria e gania como um lobo. E gritava olimpicamente:

- Porra, camarada... além de feio como um diabo (nasceu ali o apelido) ainda tem o pau pequeno! Pau pequeno! Piruzinho!

Foram flagrados pela direção da Academia do Ar que reuniu-se no dia seguinte para o estudo das sanções cabíveis.

Anselmo, por seu histórico de órfão pobre fora perdoado, pegou 3 semanas de cadeia.

Diabo foi sumariamente expulso.

Disse o próprio Diabo, ontem rindo do lance, que o melhor foi a frase do Almirante Cochrane no portão da saída no dia de sua despedida:

- Não vou te mandar pro quinto dos infernos porque seria redundância! Vá pro Diabo que te carregue! - e gargalhou o Almirante antes de bater o portão.

Até.

4.11.05

GRANDEZA ESPIRITUAL

Notem a grandeza espiritual do Szegeri. Meu irmão foi passar sete dias em Pouso da Cajaíba com a doce Stê e com a Iara, a rainha das águas, uma de minhas afilhadas. Além da Stê e da Iara, Szegeri partiu para o paraíso com a Railídia, sua ex-mulher e mãe da Iara, e com o Robson, namorado da Rai.

Contei a façanha durante churrasco na StefHouse.

A Betinha:

- Que lindo! Que elevação espiritual!

E o Flavinho de cara amarrada:

- Não admito tamanha concessão. Não suporto fair play.

E deu dois tiros pro alto, sacando da pistola que guardava na meia (notem a indumentária do egresso do Cachambi: camisa pólo da Elle et Lui, bermuda branca de popeline, meia soquete e tênis All Star).

A Betinha foi, ali, uma condoída pelo estado do Xerife. E argumentou:

- Puxa, amor... Veja que lindo! Szegeri com sua amada, a filha e - qual o problema, poxa vida...? - a ex-mulher com o namorado. Coisa de primeiro mundo. Prova de elevação de espírito e solidez de caráter.

O Fefê meteu-se na conversa:

- Alto lá! Prova de elevação também da Stê e do tal do Robson!

- Dois babacas. - emendou o Xerife.

Dei-lhe um tapa na altura do omoplata:

- Nunca mais fale assim da doce Stê.

- Falo quando eu quiser. - disse o Flavinho com o cano da pistola na minha testa.

A Betinha tomou o Flavinho pelas mãos e o obrigou a guardar a arma.

E disse:

- Amor... veja bem... você não iria comigo passar um final de semana em Angra com o... (e cochichou-lhe no ouvido).

- Nenhuma chance.

- E com o... (outro segredinho).

- Cadê minha pistola?

- Amor... que é isso? E com o...

Flavinho pôs a mão no queixo e disse:

- Com esse até pode ser...

Betinha abriu um sorriso lindo e disse:

- Viu?

- Viu o que?

- Você não é tão rude assim...

- É porque esse eu mataria durante o final de semana!

E deu mais um tiro pro alto.

Depois de mais alguns engradados, o Flavinho toma do celular. E rosna:

- Fora da área! Fora da área!

E eu:

- Tá tentando falar com quem?

- Com o Szgeri, pô! Ele não pode ser tão frouxo!

Eu, pondo panos quentes:

- Xerifão, veja bem... O Szegeri é quase não-humano, rapaz. Ele tem uma, hummm..., sabedoria superior, elevada... Não é à toa que é meu Otto.

Flavinho já triscado:

- Otto é o cacete! Otário, isso sim! Otário!

Betinha intervém:

- Môzão... que é isso?

- Sai pra lá! Sai pra lá! Afinal de contas o cara fala que tu é musa dele, te comparou com uma pipa, tá pensando o quê? Acabo com a rabiola dele!

Eu:

- Malandro, não fala assim, pô, o cara é nosso Confrade!

- Eu votei contra! Eu votei contra! - confessou o Flavinho, denunciando o voto contrário à entrada do meu irmão na Confraria.

Daí o Fefê se meteu. O Vidal se meteu. O Zé Colméia se meteu. O Dalton meteu a colher. E o Flavinho:

- ´cês tão vendo? A Confraria inteira está aqui! Cadê o cara? Cadê o cara? Tá lá, em Pouso sei lá de quê fazendo papel de otário! Vamos expulsá-lo da Confraria!

Foi preciso que a Betinha, geralmente um furacão de fazer o Katrina parecer brisa, convencesse o Flavinho a ir embora para que tudo se acalmasse novamente.

Bateu-me o telefone cedinho o Flavinho no dia seguinte:

- Edu... desculpa por ontem...

- Deixa pra lá. Tu tava bêbado.

- Não conta nada pro Szegeri, por favor.

- Pode deixar.

Como se vê, promessa cumprida.

Até.

1.11.05

ATÉ BREVE, FUMAÇA!


E vai embora mais um talento. Por pouco tempo, eu sei, mas não deixo de me irritar com o troço. Fumaça parte na segunda-feira que vem, 07 de novembro, pra uma temporada de seis meses em Maputo, na África, a trabalho.

Competentíssima, bem nutrida e bem alimentada, embora dona de uma fome olímpica, que a fez ajoelhar-se e chorar diante do Coliseu, em Roma, de fome, Fumaça é como a Lelê Peitos: ri as 24h do dia e é companhia indispensável em velórios, uma forma carioca de amenizar a dor numa hora dessas.

Aquisição recente, Fumaça adentrou o gramado e ganhou a torcida de cara.

Na Ilha Grande, durante um feriado, Débora virou Fumaça depois de hilariante episódio. Abraçada a uma garrafa de cachaça, Débora acompanhava minha performance ao violão. E eu fumava. Triscada, interrompeu uma canção e disse, linguinha enrolada, confundindo as coisas graças à visão também embaçada:

- Edu, Edu! Toca mais devagar! Tá saindo fumaça de dentro do seu violão!

E cravou-se ali o apelido definitivo.

No domingo, durante o churrasco na StefHouse, parte da patuléia despediu-se da moça rendendo a ela comoventes homenagens.

E como pra bom entendedor meia palavra basta, finalizo desejando a ela mais do que uma boa viagem, mais do que sucesso, mais do que bons negócios. Quero mesmo é que ela volte logo:

Fumaça vale muito
e vale muito porque é doce.
Muito mais que a Vale,
que é Vale do Rio,
como se Doce fosse.

Doce é ela
que é uma doce companhia.

A Companhia nem tanto.

Já foi minha (a Companhia),
não é mais.
Deixou de ser Doce
quando foi vendida
a podres capitais.

Já a Fumaça é minha
como é da Dani
e dos meus também.

Não se vende, não se rende.
Beijo, tchau e amém.

Até breve, Fumaça. Ergo, do Buteco, com a Dani ao meu lado, o copo imaginário a você!

Até.