17.11.05

O BONIFÁCIO

O Bonifácio era tido pelos amigos como um sujeito double face, como sempre anunciava a Nininha, uma das freqüentadoras daquele buteco na Praça da Bandeira, professora de inglês que era tida pelos demais como uma intelectual graças à capacidade de falar três línguas. Era o Bonifácio beber um bocadinho mais, o que acontecia quase que diariamente, e o que vinha de grossura, de inconveniência, não estava no gibi.

Foi o Tuca quem disse num comecinho de noite, finzinho de tarde, escorado no balcão, espremendo limão sobre as sardinhas da porção:

- Quase seis. Daqui a pouco o Bonifácio chega e já viu, né?

Quase profético.

Com as badaladas do sino chega o Bonifácio, atravessando a rua esbaforido, chegando do trabalho.

- Limãozinho da casa, please... - era o Facinho, como era chamado pela turma, imitando a Nininha no inglês de pronúncia detestável.

Às oito o Bonifácio já estava no sexto limãozinho, bebericando a Polar dos amigos, e neguinho, que não perdia uma, formando uma rodinha em torno do encrenqueiro.

Entra um casal jamais visto na área. Ele de terno mal passado e ela com uma barriga denunciando uma gravidez de oito meses.

O casal senta à mesa mas o cara se levanta. Vai ao balcão:

- Minha gente, é possível apagar os cigarros? Minha esposa está grávida...

Todos, sem exceção, puseram as mãos na testa. Sabiam que Facinho não deixaria aquilo sem resposta.

Ele mesmo, Bonifácio, deu um passo à frente. E lançando poderosa baforada de fumaça na cara do elemento, segurando o cara pelo braço, vai à mesa com ele.

Bonifácio faz o cara sentar.

Lança novo rolo de fumaça, agora sobre a grávida. E diz, com o indicador na altura do umbigo da moça:

- Meu brother... O que ´tá aqui dentro é teu?

Não esperou resposta.

- Se tu não tem competência nem pra isso, vai mandar apagar cigarro na puta que os pariu!

O Clélio esboçou reagir mas Edileuza fez "senta, senta, senta, meu bem... deixa pra lá...".

Bonifácio de volta ao balcão pede um charuto baiano pro Tedesco, gerente da espelunca.

- Não provoca, Bonifácio... - disse o Tedesco já estendendo o robusto em direção ao Bonifácio.

Bonifácio soltava baforadas olímpicas dando um ar de pub ao buteco.

Clélio e Edileuza saíram. E Bonifácio fez questão de ir encontrá-los na porta.

- Bom parto, minha senhora. E você, otário, vê se assume! - e gargalhou como um Zé Pelintra.

Dificilmente alguém tinha coragem de reagir.

Bonifácio tinha dois metros e dez, corpulento, parrudo, uma boca enorme, uma voz potentíssima, e exibia sempre os braços, tatuados, que desencorajavam qualquer esboço de revide.

Entra um taxista, mirrado, coitado, e vai ao balcão. Pede licença à turba junto dele, e diz ao Tedesco:

- Boa noite. O senhor sabe me informar aonde fica o motel Málaga?

Antes mesmo do Tedesco responder, Bonifácio se mete:

- Pra quê tu quer saber?

O famélico motorista passa o Bonifácio em revista, dos pés à cabeça, o que lhe tomou uns bons 20 segundos, e disse:

- Boa noite.

- Good night - respondeu Bonifácio.

- Minha esposa me aguarda.

- Puta?

- Bo-ni-fá-cio! - gritou o Tedesco abrindo os braços num apelo.

- Deixa ele. Não. Não é puta não - tremendo visivelmente.

- Vai fazer o que lá, bonitão? - isso dito quase que boca a boca.

- Te interessa?

Bonifácio segurou o Aderbal pela cintura, com as duas mãos engorduradas, o charuto pendendo da boca, e disse:

- Se eu tô perguntando, animal, é porque interessa... Vai me dizer?

- Vou namorar - disse dando tapinhas no ombro do Bonifácio, o taxista.

- Vou contigo. Tedesco, segura a conta que depois eu volto.

- Comigo? - as perninhas balançando no ar.

- Any problem?

- Heim?

- Ele perguntou se tem algum problema - traduziu a Nininha.

- Nã... nã... não.

Partiram os dois, Bonifácio levando o Aderbal no colo, assumindo a direção.

- Me esperem. Volto pra contar sobre a performance da vadia!

E partiu gargalhando, entrando na Matoso, o charuto ainda na boca, tomando a direção do Málaga.

Até.

Um comentário:

cesar nascimento disse...

Dááááááááááááááááááá-lhe garoto! Pintando como nunca!