6.1.06

FUMAÇA VERSÃO 2006

Na foto aí ao lado, Dani Sorriso Maracanã, eu, Fumaça e meu copo de uísque numa dose à VM, ou à Vinicius de Moraes, na noite do reveillon.

Citei a Fumaça e sou obrigado a reparar um erro grosseiro que cometi quando lhes contei sobre a noite de lançamento do livro no Estephanio´s. Disse eu, à certa altura, que a Incêndio comprara algo entre 4 e 5 livros. Errei. E de pé no banquinho imaginário corrijo-me entre chibatadas de autoflagelo nas costas: a Incêndio comprou quase 20 livros. Feita a correção, vamos em frente.

A Fumaça, já lhes disse, ri como quem respira. Mais-que-ri. Gargalha.

Veio de Maputo, onde está a trabalho, para passar o 31 de dezembro entre os amigos. E eis que à meia-noite, depois dos fogos, chega à festa toda a família inflamável. À Fumaça juntaram-se Incêndio, Bombeiro, Brasa e Ventarola. Ou, como queiram, à Débora juntaram-se Terezinha, Oswaldo, Paulo e Duda. "Ventarola?", ouço daqui a Fumaça perguntar. E eu respondo que sim. É a Duda, que mantém o Brasa aceso. Vamos seguir.

A Fumaça, com quem encontrei-me no 31 pela manhã, fazia juras as mais pífias.

- Não ponho uma gota de espumante na boca hoje.

- Vou ficar na Coca Light.

- No máximo uma cervejinha.

E eu rolava de rir no chão de mármore da mansão à beira-mar (rolava no chão de mármore eis que tal sensação, para um tijucano de quatro costados, é de uma delícia indizível).

Duvidava de suas juras bizarras, feitas com os indicadores cruzados sobre os lábios, dando beijinhos na própria mão.

E veio a festa e a Fumaça bebeu Mumm no gargalo, socou o garçom que lhe ofereceu uma Coca Light e bebia um copo de cerveja a cada cinco taças de espumante, fora as bicadinhas esporádicas no meu uísque.

Como também já contei, o dia primeiro foi todo ele passado na casa da Maria Paula no Leblon, onde o piso também é de mármore e onde eu também rolava pelas mesmíssimas tijucanas razões.

Bebemos e comemos aquilo que nós, da zona norte, chamamos de "enterro dos ossos", nome esdrúxulo pro troço já que há de tudo, menos osso no farnel.

Mas houve um destaque no tal pequenique.

Não sei se vocês hão de se lembrar, e tal história está, inclusive, contada no "Meu Lar é o Botequim" (comprem, comprem, comprem!), mas a Fumaça sofre de fome crônica, e foi capaz de ignorar solenemente a beleza imponente do Coliseu, em Roma, perturbada que estava pela vontade incontrolável de comer.

Dezoito horas do primeiro dia do ano.

E na sala eu, Dani, Maria Paula, Guerreira, Zé, Giulia e Fumaça.

E a Fumaça, que sempre sorri, deu de chorar dando socos nos braços da poltrona em que se encontrava.

Maria Paula preocupada:

- O que foi Debs?

Dani fazendo festinha:

- Ô, meu amor, aissipitu... (palavrinha de seu dicionário)... o que foi? É a viagem de volta pra Maputo, né?

E a Fumaça, entre soluços que espumavam salivinha pra fora da boca misturada às lágrimas:

- Não... Tô com fome!

Maria Paula, Dani e Guerreira se entreolharam e apontaram, as três, pras bandejas na mesa do centro. Frios, pães, patês, uma tonelada de comida. E a Fumaça, determinada:

- Não, não e não! Tô com fome de rabanada!

Maria Paula acionou a padaria de fé e em 20 minutos chegaram dois pães daqueles gigantescos de rabanada, leite, ovos, açucar, canela e óleo. Fui à cozinha preparar as rabanadas.

E diante do fogão eu ouvia os guinchos da faminta.

Chego à sala com a bandeja onde estão dispostas 40 rabanadas.

E assistimos, perplexos, àquele espetáculo estrelado pela Fumaça que, percebemos, incorporara de vez o espírito africano. Devorou, em coisa de 10 minutos, 30 das 40 rabanadas.

Riu. Dormiu. E roncou. Felicíssima. Com o vestido salpicado de açucar e canela.

Até.

4 comentários:

Fumaça disse...

Edu querido, adorei! Coincidentemente estava escrevendo para um amigo sobre as minhas certezas. Além da promessa que não cumpri, precisamente como descrito, até domingo jurava não gostar de rabanada. Beijos!

Maria Paula disse...

Edu, vc esqueceu de mencionar que a Débora ficou te vigiando na cozinha, num ato de ansiedade incontrolável...

Cacau disse...

Ri muito.... Edu realmente sabe descrever a Fumaça com uma perfeição ímpar!!!

Rosana disse...

Edu, estou aqui do lado da Fumaça devorando um muffin delicioso com coca light e AMEI a descrição feita. Claro que fiquei cheia de saudades e lamentei não estar lá. Próximo ano, com certeza, eu e Fumaça choraremos juntas pelas rabanadas. Bjos