27.2.06

CORDÃO DO BOITATÁ II

Outro video, ainda no Cordão do Boitatá, na segunda-feira de Carnaval.



Até.

CORDÃO DO BOITATÁ I

Video feito na Praça VX, durante o Cordão do Boitatá, na manhã da segunda-feira de Carnaval.



Até.

26.2.06

ANIVERSÁRIO DO MELLO MENEZES

Dani, Patrícia, Marcinha do Edu Gordo, e mais gente, dançando com as burrinhas feitas, uma a uma, pelo grande Mello Menezes, que comemorou com roda de samba no Boqueirão, atrás do Aeroporto Santos Dumont, no domingo de Carnaval.



Até.

25.2.06

AINDA NO CORDÃO DA BOLA PRETA

Comovente depoimento da Fumaça, após pergunta da Dani, no retorno do desfile do Cordão da Bola Preta, aqui transcrito:

- Você achando esquisito esse bando de gente aqui? - pergunta a Dani.

E manda de voleio a Fumaça:

- Cara, muito maneiro, mó muvuca e nenhum fedorzinho... A gente é muito cheiroso, cara!... Carioca é muito chei-ro-so! - e tome de gargalhar...



Até.

CORDÃO DA BOLA PRETA

Dani, Celsinho e Tathiana, ao som de um dos sambas do Salgueiro, na Avenida Rio Branco.

"Explode coração, na maior felicidade...
É lindo o meu Salgueiro
contagiando e sacudindo essa cidade!
Lá vou eu,
me leva nesse mar de sedução... (sedução)
Sou mais um aventureiro
rumo ao Rio de Janeiro... (adeus! adeus!)
Adeus, Belém do Pará..."




Até.

BAITA AULA DE CARIOQUICE

(publicado no Jornal do Brasil em 25 de fevereiro de 2006)

As crônicas de 'Meu lar é o botequim', de Eduardo Goldenberg, ao tratar dos botecos e seus personagens, falam na verdade do bairro e da cidade do autor

Rodrigo Ferrari

Editor e livreiro da Folha Seca

"De uns tempos para cá falar em botequim ficou complicado. É só o assunto aparecer na mesa que todo mundo puxa logo seu manual e destila conhecimento. O papo já tem até bibliografia! No meio dessa profusão de lançamentos surgiu Meu lar é o botequim, de Eduardo Goldenberg, e seu aparecimento causou-me certo desconforto: afinal já estava meio de ressaca de tanta literatura sobre o assunto. Mas crônicas são crônicas, e não resisti. E acabei colocando-o em minha biblioteca afetiva junto aos do Aldir, do Jaguar e do Moacyr Luz.

O livro, ao falar do botequim e seus personagens, fala verdadeiramente de seu bairro e sua cidade, a nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e um bairro que junta Tijuca e Vila Isabel, uma região mítica como a Aldeia Campista dos livros do Nelson Rodrigues. Nas palavras do autor: ''(...) em mim, ainda que num delírio, esses dois bairros se fundem num só, nas águas do rio Joana, que nasce no Grajaú, e que vai desaguar no rio Maracanã, na Tijuca, depois de atravessar o bairro de Vila Isabel''.

Antes que os mais apressados acusem o autor do livro de bairrista - e conseqüentemente a mim também, que sou de lá -, devo dizer que o Eduardo entende do assunto e não bebe só em casa. Conhece, portanto, os botecos de toda a cidade. Mas é forçoso dizer que, embora determinados personagens sejam universais, têm mais facilidade de se criar nesse ambiente. Por exemplo: vai procurar o ''seu'' Osório no Belmonte. Não vai achar... ''Seu'' Osório é da região, torcedor do América, não vai ao botequim apenas para encher a cara, é lá que ele se serve toda manhã de um pingado com pão e manteiga, e é lá também que acumula as histórias do dia-a-dia que acabam fazendo do livro uma baita aula de carioquice.

Porque esse botequim não é aquele em que você vai para ser bem-atendido, ou para experimentar determinado acepipe inventado por um mestre-cuca premiado em Paris. Esse é daqueles onde o grande atrativo são as pessoas, onde todo mundo fala e sabe da vida de todo mundo, o cenário dos bons e maus momentos de cada um. Onde todos são personagens de um Rio que aparentemente não existe mais, um Rio meio romântico, onde ainda há espaço para a camaradagem e o bom humor, com umas pancadarias no meio que ninguém é de ferro. Talvez um Rio que seja mais facilmente encontrado na Zona Norte, que mescla o cosmopolitismo da cidade com um provincianismo característico desses bairros.

O Edu se acha um antigo. Tem vezes que pede até desculpas por determinadas expressões, digamos, do tempo do Onça. Mas quem desvenda o mistério é Fausto Wolff no texto da contracapa do livro: ''Edu e seus belos paus d'água vivem num mundo paralelo absolutamente carioca, um mundo culto e sofisticado em sua nobreza popular''. Vale lembrar o desenho da capa feito pelo Lan e também os que ilustram a saideira do livro, feitos por Pedro Toledo.

O boteco em questão fica na rua dos Artistas, o que por si só parece invenção de romancista. Parece também citação das coisas do Aldir Blanc, e a parecença não é ocasional. Os personagens daquelas crônicas do Aldir no Pasquim também passeiam por aqui, a toda hora aparece um Penteado e um Waldir Iapetec para um aperitivo. E também passam por aqui o marido traído, a santinha que no calar da noite revela-se a mais insaciável das amantes, o fanático torcedor de futebol... Gente que o Edu conheceu num botequim. Gente do povo da cidade do Rio de Janeiro."

24.2.06

BOLA PRETA

(Aldir Blanc - Jacob do Bandolim)

Bela foto! Bela foto! Eu e três de meus irmãos (Dalton, Vidal e Fefê), no Bola Preta em 2005! E deixo com vocês a monumental letra do Aldir, contando a história do Cordão do Bola Preta, encerrando, mesmo, as atividades do Buteco até a próxima quinta-feira! E vamos que vamos!

"Miudinho da Penha a Xerém
eu sei onde tem...
Um balanço de vem-ou-não-vem
no bonde ou no trem.
Socialaite beijou Zé-Ninguém:
nenhum nhém-nhém-nhém.
Chupeta, meu bem, pro neném...

I – B
Um inglês que trocou por Roskoff
o tal Big Bem,
o glamour de João Valentão
no Rio:
olha o cabra-da-peste,
deixa estar,
pintando o 7,
beliscou a Elisete
e foi beber no Tangará!

II
Malícia e Inocência moram lá.
São gêmeas e só querem namorar.
A Banda do Sodré
desabrocha e faz lembrar
o flamboaiã em flor de Paquetá.
- mas, ai, meu Deus que saudade que dá...

Já são 10 horas da manhã
de sábado e o Bola vai passar.
Passou e não passou,
foi pra Lapa mas ficou.
O Bola preta sabe eternizar.
- Eu sou de lá...

I – C
Mas tem um risco Brasil de mulhé
com a tal cana-caiana e café
e bota fé que o Bola chegou
não tem Zé-Mané!
Colombina dá bola pra mim
que ando assim-assim
- Sou meio Pierrô e Arlequim.

I – D
Tô na máquina do velho Wells
descida dos Céus,
um Balzac soltando no mundo
traque bom de pelica.
Tô no Bola,
a dica é de cuíca,
tão feliz a gente fica,
paquerei Carminha Rica
e fui beber no Bar Luiz.

III
Demorô,
oi, Iaiá, ai, Ioiô,
eu tô que tô
ou tu fica ou não fica...
A mulher ideal
é a Neuma, a Zica, a Surica
- ai, cumé qui eu vô fazê? Hein?

Duvidô,
de-ó-dó,
chororô, ô,
se encrencou,
o segredo é viver.
Pro Bola Preta
eu vou de muleta
e sinto a caceta
rejuvenescer.

IV (variações)
Vem Caymmi,
Noel, Lamartine, Ari, Bororó,
Ademilde também, o Orestes,
Sinhô, Donga, Jota Efegê
- Ai, o Tatu subiu no Pau!
Da Saúde, da Vila, do Estácio e de Madureira,
na uca, a Tijuca também quis comparecer,
pagou pra ver porque

eu vou sambar
no Bola, meu cordão,
o sangue e o coração
com Pato Rebolão, Porrete
e outros bambas sem par...
o Bola Preta, preta, é meu segundo lar
e é lá que eu quero
me curar.

(Final)

Os Democráticos e os Fenianos
são pau-a-pau.
A vizinha mamava na minha:
ensaio geral.
Trinca-Espinha virou K-veirinha
- Hoje é Carnaval!
Não chora, meu bem:
é norrrmal! Uau!

Preto e Branco, as cores do time:
feijão bom de sal.
Na moral, a moçada não quer
o teste da farinha.
Quem apaga e perde a linha
- amor com amor se paga –
liga pra Zezé Gonzaga
e vai beber no Nacional.

(breques)

Vou pro Bola, já.
Tô ainda lá...
Eu vou me esbaldar
pra eternizar,
pra eternizar,
pra eternizar..."

Até. Evoé. Bom Carnaval pra todos.

QUEM NÃO CHORA NÃO MAMA

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23.2.06

A FUMAÇA E O TERREMOTO

"Vai lá pra ver
a tribo se balançar
e o chão da terra tremer
Mãe Preta de lá mandou chamar..."

(Anderson Cunha)


Vejam que beleza de foto, em 05 de fevereiro de 2005, mostrando, no meio do furdunço do Cordão do Bola Preta, por volta das nove da manhã, Maria Paula, Guerreira, Fumaça e Dani Sorriso Maracanã (o Buteco prossegue festejando a chegada da Fumaça). Falei na Fumaça novamente e vejam o que ela escreveu, comentando o texto de ontem. Vou transcrever:

"Edu, estou fechando a mala. A Globo aqui noticia as chuvas, os Rolling Stones e as vinhetas do carnaval. Estou quicando de ansiedade. Muita saudade. Beijos!"

Vejam que eu não minto! Foi ela escrever, eu ler e deparei-me com a notícia no Globo Online: "Terremoto sem maiores proporções atinge Moçambique". Eis o que se passou.

A princípio tomei um susto tão intenso quanto o desfile do Bola Preta. Pouco tempo depois deu-se a luz... A Fumaça estava quicando de felicidade... E quando a Fumaça quica, e quica com a mesma tenacidade com que ri, é capaz de fazer mexer os ponteiros da Escala Ritcher. Desfeito o mistério, acalmei-me.

Vamos em frente.

Amanhã, sexta-feira, véspera do primeiro dia do Carnaval, o Buteco entra em recesso momesco e só retorna na quinta-feira (mas sobre o Carnaval falarei amanhã).

Fechando o texto de hoje, um filme de apenas 14 segundos, feito no ano passado, no dia 16 de agosto, no Bar Getúlio, no Catete, durante a primeira etapa da comemoração do aniversário da Fumacinha (vejam que gostei da novidade).

No filme, Aldir Blanc está cantando "O Bêbado e a Equilibrista", dele e de João Bosco, e no filme vocês poderão ver, além do próprio Aldir, é claro, Paulo César Pinheiro do seu lado à mesa, o imperiano Wilson das Neves no tamborim, eu e Dani bem à frente, Zé Luiz do Império à minha frente e também à mesa marcando nas palmas, Mari Blanc (de vermelho e empolgadíssima!), mais ao fundo o João de Aquino no violão, Mariozinho Lago (de camisa azul, ao lado do João de Aquino), Wanderley Monteiro também à mesa, e, na nossa mesa (foi Fumaça quem fez o filme), Cacau (a mulher-Listerine), Ângela, Incêndio e Bombeiro no desfecho do mais-que-curta.

Divirtam-se.





Até.


22.2.06

ELA VEM CHEGANDO...

"Ela vem chegando
e feliz vou esperando..."


(Jorge Benjor)


Chega amanhã, quinta-feira, ao Brasil, esse portento de bom humor que aparece na foto ao lado da Dani Sorriso Maracanã, a Fumaça, egressa de Maputo, na África do Sul, onde está trabalhando já há um bom número de meses, fazendo uma tremenda falta nas mesas, nas festas, nos furdunços, e divido com a Incêndio, com o Bombeiro, com o Brasa, a alegria por sua chegada em busca do Carnaval.

Pausa para dizer que a foto foi tirada no dia 07 de agosto de 2005 durante a festa de aniversário do Augusto, biltre paulista, que anda sumidíssimo, mudo, numa ausência que me angustia.

A Fumaça (peço perdão antecipadamente pelo que pode lhes soar repetitivo) é ao lado da Lelê Peitos uma mulher capaz de fazer gargalhar a viúva diante do caixão do falecido marido para espanto da assistência (a princípio, eis que em questão de minutos a assistência fará o esquife tremer diante da gargalhada coletiva). Ri, e ri não só pelos cotovelos, mas por todas as juntas. E o tempo inteiro (penso que nisso puxou à mãe, a doce Incêndio).

Quando de sua última estada no Brasil, a Fumaça contou, a mim e à Dani, que oferecemos a ela um lauto jantar em nossa casa, algo que a fizera rir ainda mais (como se isso fosse possível) nas primeiras semanas em Maputo. Cidade paupérrima, Maputo oferecia algumas promessas (eu disse promessas) de, por exemplo, poucos mas bons restaurantes. E lá foi a Fumaça a um deles.

Deslumbra-se com o cardápio. Daí chama o garçom:

- Boa noite. Eu gostaria de uma entrada... hum... (aponta o cardápio)... essa aqui!

- Senhora, tem mas não há.

Fumacinha leva um tempo até processar a informação.

E passa a noite ouvindo "tem, senhora, mas não há", e enquanto nos contava isso rolava pelo chão da sala, rindo, rindo, rindo, rilhando os próprios dentes na tábua corrida (não é tábua corrida, mas parece).

A Fumaça fez olímpica falta no furdunço dos Rolling Stones, no sábado passado. Fez agudíssima falta na rabada que ofereci na casa de Isaac e Mariazinha há poucas semanas e graças a esse triste festival de ausências é que é sempre lembrada, o que a glorifica como personagem que é.

Chega amanhã, como eu disse.

E amanhã, para saudar sua chegada, sendo tecnologicamente possível (hoje não foi...), disponibilizo video de 14 segundos, curtíssimo, mas bem capaz de dar a dimensão da festa que acontece quando a Fumaça está presente.

Até.

21.2.06

VENTOS EM MEU CORAÇÃO

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20.2.06

SUPERBACANA




"... estilhaços sobre Copacabana
o mundo em Copacabana
tudo em Copacabana, Copacabana...
O mundo explode

longe muito longe
o sol responde
o tempo esconde
o vento espalha
e as migalhas caem todas sobre
Copacabana..."

(Caetano Veloso)


Alguém há de me perguntar:

- E aí? Foi bom o show dos Rolling Stones?

E eu responderei orgulhosíssimo:

- Não tenho a menor idéia.

Eis aí a verdade um tanto quanto frustrante para o meu interlocutor imaginário. Não saberia dizer nada, rigorosamente nada, sobre o que se passou durante o show que os jornais do mundo inteiro anunciaram como o maior show de rock de todos os tempos. Tudo o que posso fazer, então, já que o assunto é praticamente inevitável, é dar meu testemunho preciso, como sempre faço.

Chegamos, como dois bons tijucanos, eu e Dani, às onze da manhã no apartamento do Dr. Bulhões, pai da Maria Paula que, como de costume também (foi assim no reveillon), ainda não havia chegado. Ficamos, então, de papo com a Santa na cozinha. Mentira. Fiquei pouco tempo na cozinha. Dediquei-me mais a babar, literalmente (pendiam babas olímpicas de minha boca), diante da impressionante, portentosa, gigantesca e preciosa biblioteca do Dr. Bulhões. Tomei coragem para folhear algumas páginas do livro "Notas Sobre o Rio de Janeiro (e partes meridionais do Brasil)" - para me humilhar, havia dois exemplares... - de John Luccock, edição antiqüíssima, e não saberia lhes contar da emoção que vivi naqueles momentos. Um dia desses debruço-me sobre o tema.

Como um bom tijucano, ainda (fui, durante todo o sábado, um tijucano fanático, nos gestos, nas falas e no comportamento), fotografei parte das 50 pulseiras que dariam livre acesso ao edifício, bem diante do palco, para 50 afortunados amigos da Maria Paula (eu fui o mais afortunado, eis que pude estacionar meu Brizolamóvel na garagem do Chopin).



Fomos à praia assim que a Maria Paula chegou. Isso por volta do meio-dia. Lá encontramos o Mauro (que assistiria ao show noutro lugar) e preciso lhes dizer que a Sorriso Maracanã estava emocionada de forma aguda. Fica sempre assim, já lhes contei, quando há grandes eventos, grande concentração de pessoas, e isso assume proporções gigantescas quando o furdunço é no Rio de Janeiro. Bebemos uma boa dúzia de latinhas de cerveja a R$2,00 cada. Hilária era a abordagem dos vendedores:

- Vocês são do Rio?

- Somos.

- Ah, tá. Então é dois real. Pros gringo é quatro real!

Despedimo-nos do Mauro por volta das três horas e tomamos o rumo do apartamento, eis que a festa estava marcada para começar às quatro da tarde. Banhinho, almoço caprichado feito pelas mãos santas da Santa, e foram chegando os convidados, sendo desnecessário dizer que os tijucanos, é claro, foram os primeiros: Manguaça, Fernanda, Lelê Peitos, Vidal, Gláucia, Fefê, Brinco, Zé Colméia, Vinagre, Guerreira, Zé, e mais Miguel, Juliana, Denise com o marido (esqueci o nome, e minha precisão não me permite correr atrás da informação, eis que até os lapsos eu mantenho intactos), Magali, Ricardo, Ju, Dan, e quero lhes contar algo comovente.

Para comer, a Maria Paula encomendou toneladas de salgados árabes. E para beber, apenas cerveja. Mas a Denise e o Vidalzinho chegaram com garrafas de uísque e disseram, ambos, o seguinte:

- Edu... trouxe um uísque para nós!

Daí fui tijucano de novo. Levei-os à cozinha e escondi as garrafas. Apenas nós sabíamos a localização dos tesouros e bebemos demais. As pedras de gelo rolaram a noite inteira em meu copo, onde eu servia doses VM, à Vinicius de Moraes, até o topo, para desespero da Dani...

Essa foto aí foi tirada às 16h50min e dá bem a dimensão da beleza que foi a multidão de gente nas areias e nas ruas e de barcos no mar. O espaço vazio diante do palco foi ocupado pelos chamados VIP´s, uns escrotos em sua maioria. Mas vamos em frente.

O show começou por volta das sete, com a apresentação do AfroReggae e depois dos Titãs, e no instante em que os Titãs pisaram o palco a sala do apartamento transformou-se numa pândega absoluta. As pessoas quicavam, disputavam espaço na janela e dois aparelhos de som, no máximo volume, transmitiam ao vivo o show, o que transformou aquele apartamento num troço perfeito. Longe da muvuca da rua (não se via um mínimo pedaço de chão, de areia, nada), estávamos confortavelmente instalados e com uma visão mais que privilegiada.

Às oito e quinze a multidão era ainda mais impressionante (e lamentavelmente a bateria de minha câmera acabou, o que impossibilitou que eu fizesse mais fotos durante o show dos Stones).

Começou o show dos Rolling Stones e de nada me lembro.

Em primeiro lugar porque as duas garrafas de uísque (e mais uma terceira gentilmente cedida pela Maria Paula) estavam devidamente mortas.

Em segundo lugar porque foi emocionante demais ver a Praia de Copacabana, maiúscula, literalmente tomada de gente que, pisoteando Rosinha e César Maia, dois que lutam, diuturnamente, para achatar o astral dos cariocas, deu uma aula de civilidade, de alto astral e de bom humor.

Acordei às oito da manhã de domingo sem a mínima noção do que se passou no fim da noite.

Mas com a mesma sede dos domingos. Às dez já estávamos na casa de Isaac e Mariazinha para um café da manhã com o Cris, meu irmão que mora na França, e que veio ao Brasil para passar o Carnaval.

Resultado de tudo isso: eu e Dani vamos, muito provavelmente, em junho, para o Rock in Rio em Lisboa. Mais detalhes depois.

Até.

17.2.06

PAJELANÇA


"Coração independente,
coração que eu não comando...
Vives perdido entre a gente
teimosamente sangrando,
coração independente..."


(Amália Rodrigues - Alfredo Duarte)


Na foto, tirada por mim, Mauro, Inês e Dani, minha Sorriso Maracanã, no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, 03 de dezembro de 2005. Eu disse 03 de dezembro e preciso lhes contar que no dia 02 de dezembro estivemos os quatro no Trapiche Gamboa até bem depois da meia-noite, quando aportamos no Capela, na Mem de Sá, na Lapa. Estávamos, Mauro, eu e Dani, empenhados em mostrar à Inês, portuguesa de quatro costados morando atualmente em Boston, o Rio de Janeiro e seus encantos (mesmo quando chove).

E por que Pajelança como título?, sou capaz de ouvir daqui as perguntas. E vou explicar.

Há semanas que o Buteco anda carregadíssimo. Emoções em demasia, à flor da pele, um tanto de tristeza que vem dessa beleza das descobertas que os encontros e os desencontros proporcionam, e eu achei que seria bom fechar a semana com uma certa dose de humor. Assim o farei, portanto (vocês não perdem por esperar...).

Vamos à pajelança, eis que tenho uma certa intimidade com os índios. Vamos evocar coisas boas, pôr a maré pra cima, varrer a angústia que me assolava (ainda assola, penso, mas hoje quero espantá-la) e rir. Porque vocês hão de rir com o que virá (vocês não perdem por esperar, quero repetir).

Como eu disse fomos ao Trapiche Gamboa na noite de sexta-feira. E Mauro apresentou Inês a mim e a Dani. E a Inês foi de uma doçura imensa, tremenda, e nunca é demais repetir que, como eu tenho feito, fez questão de expor a todos seu bem-querer, vejam aqui (cliquem sem medo no link, abrirá noutra janela, tenho aprendido truques para lidar com blogs). Vai daí que ficamos no Trapiche até bem tarde. E bebemos consideravelmente. E a fome nos disse "olá!" a certa altura. Eu e Mauro, com sede de mostrar o Rio à moça dissemos em côro:

- Cabrito no Capela!

E lá fomos nós.

Daí vejam vocês do que é (e do que foi) capaz um tijucano olímpico como eu.

Constrangendo nitidamente a pobrezinha da Inês, exigi que ela fizesse um filminho:

- Quero cantar para homenageá-la! - disse com um copo de chope na pressão na mão.

Notei, segundos após o meu pedido, um olhar da Inês em direção ao Mauro e à Dani pedindo aprovação. Ambos, amplos conhecedores de meus hábitos, disseram que sim com a cabeça como quem diz "não o contrarie, faça o filme". E Inês fez.

E vejam, meus amigos, o que se deu.

Notem bem, ao ver o vídeo, eis a surpresa (como anda muderno o Buteco!), algumas coisas bastante patéticas.

Para homenagear a Inês não escolhi um samba, o que seria óbvio já que estávamos na Lapa, no coração do Rio de Janeiro. Escolhi um fado tristíssimo, e que diz muito do que me vai na alma nesses tempos superlativos.

Notem como soa ridículo o sotaque que imito! E minha grossura olímpica, lá pela altura dos 25 segundos de filme, quando a Inês apenas solfeja me acompanhando e eu, mão à frente, digo "Vira a câmera! Você tá cantando!" (mamãe não perdoará essa escassez de educação...).

Notem o talento (pigarros) do Mauro batucando (eu disse b-a-t-u-c-a-n-d-o) sem nenhum ritmo no acompanhamento mais bisonho para um fado.

E notem, mais, o diálogo patético no finalzinho...

Digo eu, orgulhoso (de quê?):

- É isso?

E ela:

- É! Lindo! Super aprovado! - num carregado sotaque lusitaníssimo.

E eu, bem cavalo, sem nenhuma classe, devolvo:

- Super o quê?!

Notem que o filme acaba ali, num corte feito pelo susto com a minha, digamos, tijucanice.



Até.

16.2.06

GASTRONOMIA


(ou "as impressões de dois tijucanos diante da ´alta gastronomia´")

"Caviar é comida de rico,
curioso fico, só sei que se come.
Na mesa de pouco fartura adoidado
mas se olhar pro lado depara com a fome!
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
pois na minha casa é o que se mais se consome...
Por isso se alguém vier me perguntar:
O que é caviar?
Só conheço de nome!"

(Luiz Grande - Barbeirinho do Jacarezinho - Marcos Diniz)

Vou dar uma breve espanada na espiral emocional que andava rondando o balcão do Buteco, até mesmo porque, ontem, eu, Szegeri e Isaac, nosso pai (!), estivemos a um passo do cambaleio. Razão pela qual - meu cotidiano costuma sempre oferecer essas alternativas - passo a lhes contar sobre meu almoço, corrido, é verdade, em razão de muito trabalho, ontem à tarde com o Dalton, meu irmão, e cada vez mais meu irmão, num restaurante no centro da cidade cujo nome não me lembro.

Sentamos e fomos logo atendidos por uma japonesa gorda. Pausa. Pensei que não existissem japonesas gordas. E ficamos os dois, aparvalhados, diante daquela imagem surreal que nos estendia os cardápios e as toalhinhas quentes. O Dalton, que dá um banho no Nei Lopes quando o assunto é africanismo (com sua licença, Mestre, para o deboche inevitável), o Dalton que faz o Montenegro, do IBOPE, parecer um iniciante nos meandros das estatíticas, o Dalton que sabe mais sobre o Candomblé do que a Mãe Menininha do Gantois, o Dalton também entende mais de comida japonesa do que toda a população nipônica incluindo as baixas de Hiroshima e Nagasaki.

Foi por isso que dispensei o meu cardápio e fiquei aguardando a escolha do sabe-tudo. Ele, gentil, perguntou-me:

- Você tem alguma preferência?

E a japonesa balofa estacada ao lado da mesa.

E eu:

- Se tiver guiozá, para a entrada, eu gostaria.

E ele, naquele tom professoral que é uma de suas marcas (além das de acne, na pele):

- GUIÔZA, Eduardo... sem esse acento inexistente...

A japonesa muda.

Dalton coçou o queixo, cheirou o cardápio (não me perguntem o por quê), e fez a pergunta que me pareceu definitiva à baleia de olhos rasgados:

- Aqui os senhores usam Gohan?

Ela apenas fez que sim com a cabeça.

Ele então fez o pedido e não saberia lhes repetir o nome do prato, dificílimo. Mas explicou-me ele que, após a entrada (guioza), comeríamos sushis e sashimis sobre um mar de arroz tipo Gohan. E de fato veio tudo à mesa e comemos bem. Muito bem. Mas o que nos perturbou ao longo do almoço foi o almoço dos três rapazes (três moças, se me entendem) na mesa ao lado. O cardápio oferecia um troço chamado "menu degustação", algo perto dos R$100,00 per capita, composto por seis pratos preparados pelo chef. E foi a escolha dos rapazes.

E, meus fiéis leitores... O que era aquilo?

Aproxima-se o garçom. Serve os primeiros três pratos aos três. O Dalton riu tanto que manchou meu terno de molho shoyo. Unam, nesse momento, o polegar direito ao indicador direito. Uniram? Eis o tamanho do primeiro prato. E disse o garçom:

- Eis a primeira obra-prima do chef. Pequena lasca de atum crocante com gergelim tostado sobre um futon de foies-gras.

Os três pratos foram devastados em aproximadamente cinco segundos. E vem o segundo:

- Senhores, eis a segunda criação de nosso chef. Uma pérola de salmão escorada numa espécie de emulsão vitrificada de algas marinadas...

E assim foi até o sexto prato. Um menor que o outro, sendo que o último era composto por uma pequena colher de louça sobre a qual vinha um mínimo de comida (não reconhecemos o que era) e mais nada. E os três gemendo, fazendo "uis" e "ais". É preciso dizer que comemos, pagamos a conta, mas ficamos ali, acompanhando aquele espetáculo patético.

Levantamos para não vomitar quando um dos rapazes disse, após pedir a sobremesa:

- Ai... Meu sorvete preferido é o de manjericão fresco com aceto balsamico...

Francamente. Essa é a dita "alta gastronomia". Os babacas de plantão que gostam disso chamam de "baixa gastronomia" (ó o preconceito na área!) o que nós, eu e Dalton, nós tijucanos, Szegeri, Marcão, Augusto (cadê você, homem?), gostamos: rabada, feijoada, dobradinha, galinhada, e por aí vai. Não dá nem pra saída.

Eis, então, uma verdade incontestável.

À mesa, também, pelo que se come, se conhece um homem. E tenho dito.

Até.

15.2.06

O PAI ME DISSE


“O pai me disse que a tradição é lanterna,
vem do ancestral, é moderna,
bem mais que o modernoso..."

(Moacyr Luz - Aldir Blanc - Luiz Carlos da Vila)


Vejam vocês que ter um pai bobo, na mais bonita acepção que possa ter a palavra, é um troço delicioso. Isaac, meu pai, na foto, é ciumentíssimo. Não o fosse e não teria feito o comentário que fez, ontem, aqui no Buteco. Foi o seguinte o comentário de meu velho: "Du, faltou dizer que a Panificação Estudantil, a FENÔMENO, quem te ensinou a ´fazer uso dela´ fui eu!!!!!". E como eu sou preciso do início ao fim, e talvez também por vício de profissão, sempre carreando robustas provas para dar solidez ao que eu digo, grito de pé: "Foi, pai!".

Notem que meu pai está, suponho, com agudos ciúmes do Szegeri, que ocupa o balcão do Buteco há dias. E pretendeu, disso não tenho dúvidas, dizer que muito do que me vai por dentro foi e é obra dele. Verdade. Razão pela qual dedico o texto de hoje a ele. Não. Vou tentar ser ainda mais preciso. Dedico o texto de hoje ao exercício, dificílimo (tenho de lhes dizer), de tentar enumerar as tradições que me foram passadas por meu velho. Bastou dizer "dificílimo" e estou, por isso, graças à dificuldade que se anuncia, diante de uma xícara enorme de café e um Carlton já aceso crepitando do meu lado direito.

Vamos partir da padaria, a Fenômeno. Se foi, de fato, meu pai quem me fez fazer "uso dela", pra usar a expressão que ele usou (sei da repetição do verbo usar, e é de propósito), foi meu avô Oizer, pai de meu pai, quem fez papai abrir os olhos pra Panificação Estudantil. Notem a beleza da espiral. Eu moro hoje, com Dani, no apartamento onde moravam meus avós paternos, Oizer e Elisa, a poucos metros da tal padaria (façam uma idéia da idade do estabelecimento). E o velho Oizer, um homem de olhos azuis e cabelos brancos esvoaçantes, não dispensava, jamais, os produtos comprados na "melhor padaria do mundo" (meu avô Oizer sempre se valia dessa expressão), e virá daí, desse hiperbolismo ancestral, o meu próprio hiperbolismo do qual não abro mão? Diga, Szegeri. Penso que sim.

Mas é óbvio que não a isso se resume a influência de meu pai. Comecei a fumar, não tenho dúvidas, por causa dele. Aquele troço de filho idolatrar o pai e buscar a semelhança até nos piores gestos.

Já disse isso mas é preciso repetir. Papai, carnaval atrás de carnaval, me tomava pelas mãos e íamos à Avenida Presidente Vargas só pra ver os carros alegóricos do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça. Papai me punha no alto dos carros e eu posava para as fotografias quase sempre ao lado de mulatas estonteantes que fixaram, em mim, uma paixão avassaladora por aquelas cores e aquelas curvas (delas, mulatas). Papai me levava ao Maracanã, cravando em mim outro sacerdócio, tendo havido, aí, nesse quesito, pequeno desvio de conduta (na visão dele!), eis que deixei pelo caminho a Cruz de Malta e virei Flamengo até morrer. Papai me levava à praia, me apresentou ao mar, com quem eu já tinha uma intimidade de quatrocentas encarnações, e sempre foi o chefe da tribo dos Tupinambás, desde o tempo em que eu era um curumim distraído no quarto com amigos invisíveis.

Em casa, ainda hoje, ouço Dani dizer a todo o tempo, "Igualzinho a seu pai...", e eu sorrio, apenas. Ainda que eu queira, e quero às vezes, é verdade, me é quase-impossível sair de dentro do molde que não se vê mas que está permanentemente aqui.

Daí me deu vontade de lhes contar sobre a frase que talvez eu mais tenha ouvido de sua boca desde que eu entendo a voz do homem, sempre com aquele jeito orgulhoso.

"Meu filho, pouco importa o caminho que escolheres... (detalhe, detalhe!... Papai, quando está falando sério, fala na segunda pessoa, sempre!) ... Sejas sempre o melhor. O melhor gari. O melhor empregado. O melhor aluno. O melhor amigo. O melhor. O melhor. Sempre o melhor."

E daí me bate, agora (fumo olimpicamente nessa manhã), aquela sensação de na verdade não ter sido nem metade daquilo que ele sonhou. Mas fiz, meu pai, o que pude. O melhor que pude.

Até (antes que eu enfarte).

14.2.06

SZEGERI, O BRIGÃO (dessa vez, com razão)


"O escurinho era um escuro direitinho,
agora está com a mania de brigão..."

(Geraldo Pereira)


A foto, genial, é de autoria de Paulo Barbosa, o Cachorro pros íntimos. Satisfeitos os créditos, vamos em frente.

Ontem, quando escrevi sobre a saga que se anuncia para sábado, durante o show dos Rolling Stones, a Patrícia Moreira, freqüentadora assídua do Buteco, escreveu:

"... No final só me pediram para levá-los, no domingo, a um tour pela cidade! Nisto vou com prazer, afinal, se tiver um dia de sol, nosso Rio merece ser mostrado!"

E respondeu o Szegeri:

"Patrícia, querida: se não estiver sol, o TEU Rio não merece ser mostrado? Abraço, S."

Vejam bem. Eu conheço o Szegeri como conheço meu dedão do pé. Com uma intimidade e uma intensidade de 36 anos somados aos nove meses da gestação. O "querida" foi dito com os dentes rilhados, puro deboche. E esse "TEU" maiúsculo foi outro olímpico deboche, eis que se o Rio não é antes dele, de mais ninguém o Rio é. Notem que o Szegeri, ao contrário do que anunciou no comentário que teceu no texto "Meu Caro Amigo", está cada vez mais irritado, cada vez mais propenso ao liltígio, cada vez mais brigão. Mas dessa vez quero anunciar bem alto: com toda a razão do mundo. E vou explicar.

Antes de explicar, brevíssima digressão. Gosto, como ele bem disse na orelha que valoriza meu humilde livre, de defender os amigos quando eles não têm razão. Há, nesse gesto, um prazer indizível. Você sabe, no íntimo, que seu amigo está ali, órfão de qualquer sentido de razão, perdendo de nocaute uma discussão qualquer. E você incorpora o árbitro que conta, não até dez, mas até cem, até que seu amigo levante da lona e possa ser declarado, imerecidamente, o vencedor da contenda. Isso é muito bom. Mas sigamos.

Quando o Szegeri diz à Patrícia o que disse, está tão cheio de razão quanto a foto do Cristo Redentor, que ilustra este texto, de beleza. Quis dizer a moça que o Rio, em dia de chuva, não merece ser mostrado? Parece-me que sim (e mesmo que não parecesse, apenas para dar cores de verdade à virulenta resposta szegeriana, eu diria que sim). Ora, o Rio de Janeiro é uma cidade que dispensa o sol como maquiagem. Se nos dias de céu azul o Rio é uma festa, não deixa de ser uma festa quando chove, ainda que torrencialmente.

Ponho-me, então, a imaginar um dia chuvoso no Rio com meu irmão hospedado em meu chatô na Tijuca.

Acordamos às nove, vá lá. E chove cântaros.

Vamos até a esquina para o café da manhã na Panificação Estudantil, padaria mais conhecida como Fenômeno, onde pedimos ao Assis dois cafés pretos, duas canoas frias com manteiga e uma omelete preparada na hora. Em seguida, não sendo necessários mais do que vinte passos, estacamos diante do balcão do Rio-Brasília, onde nos recebem Joaquim e Teresinha. Pedimos uma Brahma (só bebo Brahma quando meu irmão está aqui) e uma porção de iscas de fígado acebolado. Chove muito, mas nada nos abala. Tomamos o ônibus, uma hora e meia depois, e saltamos, pulando as poças de chuva, na Rua do Riachuelo, na altura da Lavradio.

Sentamos à mesa no Bar Brasil, na mesmíssima mesa cativa do Toledão. Muitos schinit e salsichões com salada de batata. O tempo passa, a chuva grassa, o Rio mostra sua graça e nada, nada, nos abala.

Meu irmão sorri e diz que está com saudades de Vila Isabel. Tomamos o rumo da 28 de Setembro e vamos ao Bar do Costa, onde chove ainda mais. Pedimos mais garrafas de casco-escuro, meias porções de bolinho de vagem e lombinho fatiado com limão. Bate, agora, saudade do Buba. E vamos ao Morro dos Macacos. Meu compadre desce, vai à tendinha, compra mais cerveja e ficamos ali, os três, na janela, bebendo e vendo o Rio sem sinal de sol (mas faz, em nós, um sol de 40 graus).

Descemos a pé. Passamos na casa do Dalton, encharcados de chuva e de vontade de ver o malandro. Tomamos um táxi, pequeno luxo que nos é permitido vez por outra, e vamos à Adega do Peixoto. Carne de sol, cachacinha, muito papo, está anoitecendo mas nem percebemos. O Szegeri, como sempre, diz que quer ir ao Estephanio´s. E vamos. Encontramos Fefê (esqueci de dizer que estamos numa sexta-feira). Ficamos ali, naquela esquina, e encontramos Vidal, a Lenda, seu Osório em dia inspirado, Márcio Branco e sua beleza acachapante, e às quatro da manhã a feira começa a ser armada, as frutas chegando encaixotadas, o caminhão de peixe estaciona e o Szegeri compra quatro quilos de camarão propondo um almoço na casa do Fê.

Bate sete horas e faz sol.

Dispensamos a praia, residindo aí, nessa dispensa, a prova inabalável de que o Rio não precisa do astro-rei.

O almoço vai ser às quatro, cinco da tarde. Faremos novos planos, novos gols pela linha de fundo, dando um destino ao mundo que nem sei dizer.

Até.

PS: como ando em tempos de intensa interatividade - no que colido de frente com o Szegeri, um Borba Gato em termos de facilidades tecnólogicas - eis meu email, que jamais forneci, para quem quiser trocar umas idéias, e meu username no MSN, uma praga que tem se mostrado útil: edugoldenberg@terra.com.br

13.2.06

ROLLING STONES


"Nunca,
nem que o mundo caia sobre mim,
nem se Deus mandar,
nem mesmo assim..."

(Lupicínio Rodrigues)

Eu vivia cantando isso quando alguém me perguntava, "E aí, Edu, quando você vai assistir a um show dos Rolling Stones?". Nunca. Nunca. Era o que eu dizia como um autômato. Mas a vida está aí mesmo pra nos provar que nossas convicções, às vezes, duram menos que o tempo de um cigarro aceso. Ainda mais quando uma moça nos faz beicinho e pede alguma coisa. A Dani, obviamente. Pediu-me, ontem, durante o almoço:

- Vamos ver os Rolling Stones no sábado? - disse alisando meu joelho esquerdo.

- Of course! - gritei em inglês, contaminado pela presença do Comandante à mesa, um poliglota.

Aliás, brevíssima pausa. O almoço de ontem foi um verdadeiro furdunço. Eu, Dani, papai, mamãe, vovó, Dona Sá, Comandante, Marcelo, Moniquinha, Bia, Luana, Darker, Maria Clara, Lucas e sua mulher cujo nome me escapa e que, por ser preciso do início ao fim, prefiro omitir a sair telefonando atrás da informação. Fomos ao Salete, templo de boa comida e boa bebida na minha mui amada Tijuca. Não havia razão aparente para aquele encontro, mas acho que mamãe estava tão feliz com o América disputando uma final depois de mais de vinte anos que as coisas foram convergindo para um grande encontro e ali, naquela imensa mesa, celebrou-se mais que a conquista americana, celebrou-se a arte do encontro e a graça do convívio. Mas vamos voltar ao assunto.

O show será no sábado, dia 18, e em Copacabana, e em frente ao Copacabana Palace. E a Maria Paula, uma anfitriã de mão cheia, uma festeira permanente, vai repetir a clássica festa de reveillón. Vai receber, nos domínios de seu pai, doutor Bulhões, americano como mamãe, a escumalha tijucana ávida, há anos, de um show do Rolling Stones. E pra lá vou eu, sem nenhuma vontade de assitir ao concerto.

(um dia hei de saber pôr, aqui no Buteco, um link qualquer para que vocês possam ouvir, nitidamente, a palavra nenhuma na voz do Szegeri, o homem que faz do "u" a sílaba mais tônica que jamais ouvi, fazendo da palavra nenhuma a perfeita tradução do que quer, de fato, dizer, com a intensidade que sempre cabe à palavra)

Vai daí que então vamos ao show. Já cancelamos a presença em um casamento na mesma data. Mas eu tenho outros planos que quero dividir com vocês. Antes preciso dizer que a Maria Paula, querida amiga, já deixou reservada para meu carro, o Brizolamóvel, uma vaga no portentoso edifício na Avenida Atlântica. Diante do que se prevê, uma zorra comparável à zorra do 31 de dezembro, ela bem sabe que essa promessa, essa reserva, é quase que condição sine qua non para que eu diga "Sim, eu vou".

Eu não pretendo sequer chegar à janela. Faço planos de fica lá, sentado, - e muito provavelmente desfrutando da sempre agradável companhia do doutor Bulhões, um homem com um peso de conhecimento capaz de me esmagar impiedosamente - bebendo, comendo, jogando conversa fora, enquanto as pedras rolam pelas areias da Princesinha do Mar. Dani, não. Antevejo a Dani gritando, pulando, cantando junto, sabe-se lá, meu Deus, se descendo para ver mais de perto o conjunto que tem, pela aparência de seus integrantes, mais de 2.000 anos de atividade (creio que tocaram no batizado de Jesus para desespero de seus humildes pais naquela ilha de paz que era o entorno da manjedoura).

Falei da euforia da minha Sorriso Maracanã e quero lhes contar hilariante episódio.

Estamos em 2001. E é dia de "Rock in Rio", lá nos cafundós da Barra da Tijuca. Dani me convoca para o show do Sting. Eu, no frescor da paixão, saltito junto (fingindo demais) e Dani me prepara (a expressão é dela) para o evento. Mete em minha cabeça uma bandana, grita "urrús" ensurdecedores, e entramos num ônibus lotado de adolescentes alucinados fumando maconha (eu, quietão, com meu Carlton, assustadíssimo com aquilo tudo).

Chegando no que eles chamam de "Cidade do Rock" (onde fui obrigado a beber chope da Schincariol a noite inteira) ela me pede:

- Me leva pra bem pertinho do palco?

E eu:

- Of course! - contaminado pelo ambiente.

Fomos, eu e ela, eu à frente, empurrando daqui, dali, girando pra um lado, pro outro, buscando brechas, abrindo picadas entre a multidão, e pronto. Mãos na grade, a pouquíssimos metros do palco, eu suadíssimo, digo a ela:

- Chegamos, amada!

Faltam poucos poucos minutos.

Daí o locutor:

- Senhoras e senhores! Com vocês, no "Rock in Rio"... Stiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiing!!!!!

Dani desmaia.

Lá vou eu, Dani no colo, fazendo o caminho de volta. Empurra daqui, dali, gritando "dá licença, por favor... ela está grávida (mentindo) e desmaiou...", e foi, é verdade, surpreendente testemunhar a solidariedade daquela juventude alucinada.

Quando estávamos a quilômetros de distância, e o Sting era apenas uma vírgula no que se via de palco, Dani acorda. Acorda e se levanta. E diz:

- Ué... o que aconteceu? A gente não estava lá?

- Estava...

- E quem é aquele cantando?

- O Sting.

Desmaiou de novo. E não assistiu nada do espetáculo. Mas amou, disse-me depois. Dani diz ficar comovidíssima nesses eventos, nesses concertos de rock, nesses mega-concertos. Eu não faço idéia da graça que seja isso, mas amor tem desses troços. E lá vamos nós, dia 18, assisitr Rolling Stones, eu quebrando um juramento que fiz no trajeto de volta naquele 2001, de ônibus de novo, no maior programa de índio que já enfrentei. Mais à frente, semana que vem, conto-lhes sobre a festança.

Até.

12.2.06

PAI E FILHO


"Eu sei que lá no céu
o velho tem vaidade
e orgulho de seu filho
ser igual seu pai"

(João Nogueira - Paulo Cesar Pinheiro)

Conforme anunciei ao longo da semana estive ontem, com Dani, no casamento da Luciana, doce irmã do meu irmão Fabinho, e mais à frente contarei - lembrem-se que ando em tempos de escancaro - a torrente emocional que vivi. Mas não posso deixar de lhes contar sobre o que foi, talvez (eu disse "talvez", depois me aprofundo sobre a tal torrente), a maior das emoções. Ver o Fabinho, no colo do Fabinho na foto, fazendo muita, mas muita, muita mesmo, merda durante a festa. Correndo pra lá e pra cá, derrubando cadeira, esbarrando em gente, um fogo nas ventas que, se me deixou feliz, seguramente deu tremendo orgulho no malandro de quem senti, ontem, agudas saudades. O espelho. Foi o que eu vi.

Até.

11.2.06

MEU CARO AMIGO (carta aberta pro Szegeri)

"Meu caro amigo me perdoe,
por favor,
se eu não lhe faço uma visita..."

(Chico Buarque)


Meu irmão: bem sei que você me notou, ontem, ao telefone, um tanto quanto angustiado, e eu tenho como certo que não fui capaz de lhe dizer nada assim de muito concreto. Uma rotina, isso. Abro a boca e as palavras ficam aqui, à minha volta, implorando para serem transformadas em verbo e nada acontece. Não as domino, fico indo e vindo, e só mesmo quando conjugo o verbo que agora conjugo - escrever - é que faço delas minhas fiéis intérpretes. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Não é por falta de vontade. É falta de tempo mesmo.

Mas preciso lhe dizer que as coisas ao menos serenaram quando a Sorriso Maracanã chegou na noite de ontem, pouco depois do temporal, assombroso, que castigou o Rio que você tanto ama. Tive medos olímpicos. Choveu demais, o céu com cores cujo nomes desconheço, raios cortavam o que de céu eu via de minha janela, na Tijuca que você tanto ama, e, veja você o que fez Dani. Bateu o telefone pra mim:

- Meu amor... estou ainda no avião... e isso é proibido! Mas sei que você deve estar morrendo de medo. Acabei de pousar. Tá tudo bem. Te amo.

Ah, mano querido, vesti-me e fui, destemido, buscá-la no Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, e fui chovendo dentro do carro ansiando pelo encontro. Foi quase que cena de cinema. Freei o carro bruscamente, saltei, dei-lhe um abraço que esperava há quase uma semana e fomos jantar no Fiorino - você não conhece, né? - onde fui minguando e você há de entender. Pelo caminho do aeroporto ao restaurante pusemos os assuntos banais em dia. Mas quando sentamos eu lhe pedi atenção. Eis um dos papéis, dentre tantos, que a Sorriso Maracanã tão bem desempenha. Minha ouvinte. E veja você... Eu que bebi durante a semana inteira de maneira intensa, em casa, pedi, assim de cara, uma dose caprichadíssima de Jack Daniels, um bourbon que me tira do sério.

E fui dizendo a ela o quanto tenho precisado de uma pausa de mil compassos. O quanto foi difícil minha semana devido ao absurdo número de novidades que me têm caído na cabeça, na alma, nos ombros. Uma semana lindíssima, diga-se de passagem, mais detalhes depois. Intensa demais, bonita demais, emocionante ao extremo. Quase que me fez ficar a ponto de não suportar o peso de tanta beleza. Acho mesmo que não estou, ainda - estarei um dia? - pronto pra tudo isso. E ela ali, aquela mulher que me ensinou a sorrir - nunca foi tão perfeita essa imagem como agora - a me ouvir, a dar pequenos sorriso de vez em quando, a afagar a minha mão trêmula que não dava conta do copo cheio de gelo. Dividimos uma garrafa de vinho tinto argentino e uma pizza. E a alma, de novo e como sempre.

De lá saí tão melhor, meu irmão, mas tão melhor, que, não fosse a prudência, eu teria lhe telefonado de novo só para lhe contar o diagnóstico da Maracanã. Disse a Dani que eu andava muito self-centered, acredita? Mais uma expressão pro seu dicionário! Saí melhor, é verdade, mas ainda com os ombros pesadíssimos, com os olhos vermelhos, com as mãos menos tremidas, é verdade, e com mais vontade ainda de lhe fazer uma visita. Me perdoe por não fazê-la, ao menos por agora.

Você está vindo ao Rio, como sempre, para o Carnaval. E me anunciou, ontem, que fará uma quaresma abstêmia. Vou tentar acompanhá-lo nesse sacrifício espartano. E na Páscoa, ou pouco depois, vamos ver isso, irei a São Paulo, espero que mais leve e menos angustiado para que bebamos o que deixaremos de beber nos tais quarenta dias.

Eu deveria lhe dizer isso tudo por email, certo? Certo. Mas é que ando, lhe disse isso ontem e tenho dito isso por aqui, muito disposto a abrir as janelas, mesmo quando chove demais e corre-se o risco da inundação. Beijo.

Até.

10.2.06

OLHAR


"Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar"

(Ana Carolina)


Impressionante como eu ando determinado a não deixar de a tudo olhar, ainda mais atento. Acho que aos 36 anos olho como nunca, fixando em mim as imagens, e os sons, as palavras e os momentos que registro. Impressionante como sinto-me mais inteiro depois que aprendi - e ainda há muito a aprender - a ter esse olhar mais apurado, e é o olhar que me equilibra, já que tenho a alma mais-que-desequilibrada a cada dia. Explico. Acho que o olhar anda mesmo é cansado (os oftalmologistas, Magali em especial, me garantem isso), e essa aparente leseira, essa presumível preguiça é que me tem feito ter tempo para guardar tudo com mais cuidado em mim. A alma, essa sim uma turbulenta senhora que sofre com as torrentes que não cessam, parece mais renovada a cada dia. E desse absurdo abismo que separam o olhar e a alma é que vai brotando um sujeito mais - como direi? - tranqüilo diante do cotidiano, o que tem irritado sobremaneira meu irmão querido, o Szegeri, que me cobra a mesma virulência de sempre. Como ele já usa óculos, talvez resida, aí, sua incompreensão.

Não é possível dizer isso sem apontar, quase que como um exercício pessoal (daí o texto lhes parecer chatíssimo), aquilo que o olhar e a alma têm registrado ultimamente, fazendo-me um sujeito cheio de felicidade por ter o que a vida tem me dado. Pausa brevíssima pra dizer que o Coelho, a quem dediquei a receita da feijoada ontem, mandou novo email e deixou novo recado no celular. No email dizia que se eu fosse um sujeito normal (vão tomando nota!) mandaria a receita pedida por email mesmo, por carta, até mesmo pelo telefone. Mas que por não ser normal - "ainda bem", disse ele! - mandei em forma de homenagem pelo Buteco. E no recado do celular, hoje cedo, ouvindo ao fundo a gravação de "Feijoada Completa" na voz do Zeca Pagodinho, o Coelho agradecia, de novo, comovido, a receita e dizia estar preparando uma feijoada para os amigos em Campinas, e queria saber se tudo desandaria por não ser o Chico Buarque a cantar, como eu recomendei. Vejam se eu posso ser normal.

Eu não posso - continuo o exercício íntimo - dizer do email do Coelho, sem mencionar outros tantos emails - não os emails em si, mas seus remetentes - que me têm chegado, recheados de um carinho intenso que me faz mais feliz. O olhar que lê a tudo absorve e eu vou melhorando devagarinho. Desde que publiquei o livro, expondo-me, como é óbvio, novidades vêm aparecendo, e essas aquisições carinhosas que vou amealhando me fazem mais contente. Daí surgem a alegria quase que infantil do dever cumprido que eu mesmo me impus e a certeza de que sim, o livro sou eu. O Fausto Wolff um dia me disse que um livro só presta se o autor estiver ali, materializado, e que isso só é possível havendo extrema franqueza no que vai escrito. E eu percebo, por isso disso falo, franqueza no que me tem chegado.

São muitas as novidades. Lúcia, por exemplo. Não sei quem é. Sei que é fotógrafa - a internet nos permite vasculhar a vida alheia! - e que passou a freqüentar o Buteco depois do livro. Vira e mexe deixa um recado, como o recado que deixou no texto "Feijoada, a receita", ou como o recado que deixou no texto "O Meu Vizinho do Lado". São sinais, penso eu. Um "olá" vindo de fora, e é importante dizer que eu e meu irmão Szegeri fomos construindo, aos poucos, o edifício onde residimos hoje, justamente através de mensagens trocadas pela grande rede.

A Luciana, irmão do Fabinho, amigo querido que não está mais aqui, é outra que me chegou de repente, quando leu, sem que eu soubesse - eu não a conhecia - o que escrevi em homenagem ao meu irmão. Foi ao lançamento do livro, emocionou-se, meu olhar registrou o abraço e alma chorou junto com a dela no instante do encontro, e amanhã, vejam como são as coisas, vou a seu casamento lavando o Fábio comigo.

Mas tem também a Maria Rezende. Poeta, essa fui eu a procurar. Fui parar no seu blog e encantei-me com o que li. Agora foi Maria quem comprou meu livro e escreveu-me um email tão bonito, tão cheio de franqueza, que deixou-me numa alegria absurda. Estamos, eu e Dani, pra marcar um encontro com Maria e seu Rodrigo, para que possamos pôr, na mesa de um bar qualquer da zona norte - o pedido expresso foi ela quem fez - tudo o que tem escorrido pelas mensagens que vêm sendo trocadas.

Aí entra também a Inês, amiga querida, que foi apresentada a nós, eu e Dani, pelo Mauro, mais um irmão que ganhei. Inês é de um carinho conosco, comigo, comovente, e, mais ou menos à minha moda, faz questão de escancarar o que sente, sem pudor. Vejam que não é mentira! Empatia imediata, eis a questão!

Daí vai ficando tudo muito mais bonito. Nós que aprendemos, desde cedo, com os pais geralmente, que a vida não é só dinheiro, posição que se ocupa, não é só ferro e fogo, temos a tendência a desconfiar da verdade disso aí. Mas vamos percebendo, se tivermos olhos de ver e ouvidos de ouvir, que é nesse troço intangível, imaterial, que reside a graça de estar vivo. Percebam, meus poucos mas fiéis leitores do Buteco, que acordei nesta sexta-feira emocionadíssimo. Talvez porque Dani esteja chegando hoje de viagem. Talvez porque eu tenha escutado tantas canções lindas ontem à noite, sozinho em casa, na companhia de um RedLabel inseperável. Talvez porque amanhã eu vá ao casamento da irmã do Fabinho. Talvez porque eu tenha estado em permanente estado de bem-querer, de paixão, de amor pelo que me cerca. Uma belíssima trilogia, essa.

Até.

PS: todo o meu amor ao Vidal e Gláucia, na certeza de que para tudo há seu tempo.

9.2.06

FEIJOADA, A RECEITA

ESTA RECEITA AGORA PODE SER LIDA AQUI.

AI DE QUEM NÃO RASGA O CORAÇÃO


"Eu francamente já não quero nem saber
de quem não vai porque tem medo de sofrer"


(Toquinho - Vinicius)

(pro Mauro)

Mas eu sou, realmente, aos 36 anos, no quesito amigos, um sujeito de sorte, e de muita sorte (tem de haver, sempre, o hiperbolismo). Eu tenho no bolso, pra expôr, um Szegeri, um Vidal, um Fefê, um Dalton, e tenho, também, um Mauro, sujeito a quem serei - já disse isso mil vezes por aqui - eternamente grato. A razão, hoje, não vou repetir.

A vida é curtíssima e são eles, os amigos, que dão a ela muito mais graça, e muito mais graça ao lado das mulheres, da bebida, da música, esses troços fundamentais na vida de um homem.

Um homem, foi o que eu disse. E um amigo tem de ser homem pra cacete pra escrever pra um outro homem e pedir, sem pudor nem meias palavras, colo. Falo de mim e do Mauro.

Raramente vê-se isso, mas ontem, meninos, eu vi.

O Mauro mandou-me comovente email pedindo colo (foi comovente por inúmeras outras razões, mas isso não interessa a nenhum de vocês). Vou repetir, e ele não há de me desmentir se por acaso for inquirido sobre a veracidade da coisa: o Mauro escreveu-me pedindo, sem meias palavras ou subterfúgios, colo.

E eu, ao ler sua mensagem, fui (estou sendo imodesto) amigo dele até a última das encarnações. Bati-lhe o telefone e fui a seu encontro.

Realmente eu não medi esforços. Soube do que o afligia e disse "estou indo".

Ele havia estado numa sala de cinema para assistir "Vinicius", o festejado documentário. Foi ele me contar isso e eu já sabia o que se passava. Também eu, quando estive com a Dani no cinema, saí de lá com uma sede de uísque e uma saudade estanhíssima de tempos não vividos que vou lhes contar!

Não era exatamente isso. O Mauro saiu do cinema com os olhos encharcados, a alma ainda mais encharcada pela beleza que o Poeta transmite até mesmo através da tela e apaixonadíssimo pelo Rio de Janeiro (isso já é de uma beleza szegeriana, apaixonar-se pela Cidade Mulher...). E pelas mulheres, pelo amor, por esse treco indizível que nos move e nos faz viver dando risada, de tudo, bobo mesmo, apaixonado de maneira olímpica. E disse-me o Mauro ao telefone, "eu não quero menos do que tudo".

Aí fui ao seu encontro (estou sendo mentiroso, eis que escrevo de sua casa, o que é inédito em termos de Buteco, enquanto ele bebe como um gambá na sala com Vinicius ao fundo cantando no toca-discos - toca no CD Player mesmo, mas é tão mais bonito dizer toca-discos...). Fomos comer pizza, e notem a doçura do Mauro... Serviu-me uísque na caneca, até a boca, muito gelo, e fomos bebendo pelo caminho. Disse-me ele, vendo-me aflito: "vá bebendo, querido...".

Tomamos um chope na volta, estamos ainda e agora bebendo, e seguimos discutindo os meandros, indiscutíveis, da paixão, suas conseqüências, seus enredos, seus desvelos, e decidimos, semi-bêbados, que não é possível alguém abrir mão da felicidade a dois, trocar sorrisos e tardes descompromissadas compromissadas apenas com o prazer da melhor companhia, por mera conveniência, por conformismo, por medo, tudo incompatível com o verbo amar, traduzido pelo Vinicius como por mais ninguém. Somos nós, os dois sozinhos, amigos e irmãos siameses, brincando de (re)viver Vinicius de Moraes. E não estou sendo pretensioso, não, ô camaradas! Estamos brincando de viver apenas para amar, para sofrer e pra ser só perdão.

Até.

8.2.06

O AMÉRICA É O DIABO!



"Hei de torcer, torcer, torcer,
hei de torcer até morrer, morrer, morrer..."


(Lamartine Babo)




Antes de mais nada: mamãe, não leia esse texto. Por duas razões: estou torcendo contra o América (não a favor do Botafogo, mas contra o América) e agressivo como o diabo. E Szegeri, solte os morteiros, meu caro, que por hoje, pelo menos, eu escrevo à "Sentando o Cacete", saudosa revista eletrônica. Falei "Sentando o Cacete", que dividia com Aldir Blanc, Fernando Toledo, Mauro Rebelo e Mariana Blanc, e é preciso dar, de público, os parabéns a ela, minha comadre Mariana, que faz anos hoje. Beijo, Márimári.

Eu tive vontade de vomitar assistindo, ontem, na TV, as entrevistas dadas pelo treinador do América, o Jorginho, ex-jogador do meu Flamengo. Aliás, mais "ex" que nunca. De hoje em diante o Jorginho nunca terá sido jogador do Flamengo.

Depois da partida de anteontem, quando venceu o Cabofriense, nos pênaltis, garantindo uma vaga na final da Taça Guanabara, o América foi representado, nas entrevistas, pelo Jorginho. Algumas pérolas: os jogadores, que se esfalfaram para vencer a partida, não foram citados pelo imbecil, que agradeceu apenas a Deus. Depois disse que não vai admitir (ai, santa!) qualquer palavrão durante o jogo, que ele respeita demais (ai, santa!) a palavra de Jesus (que expulsou os vendilhões do templo xingando para caralho os calhordas e, posso apostar, sem nenhuma delicadeza). Eu espero que a torcida americana, que é mesmo assim, a começar por mim (eu vou domingo apenas para xingar o Jorginho até perder a voz), faça sua parte. Leiam como é maior que Deus o tamanho das bostas que fala o sujeito.

Eu espero que a diretoria do América esfregue na fuça desse rebotalho (eu assisti "Escrava Isaura" ontem à noite) uma imagem do diabo, símbolo do aguerrido clube tijucano, pelo qual torcem mamãe e Dr. Bulhões, os dois únicos alvirubros que conheço pessoalmente e aos quais peço desculpas desde já.

Eu espero que o Botafogo destrua o América.

Eu espero que cada jogador do Botafogo vá ao túnel, durante o jogo, o tempo inteiro, e agrida de maneira torpe esse estúpido, que fica a valer-se da imprensa para divulgar esse cancro que vem, aos poucos, destruindo o Brasil, sua cultura, sua gente mais humilde, que dá o pouco que tem para o proveito de pastores falsos, bispos mentirosos, políticos de merda (como Garotinho, Rosinha, Crivela e outros bostas da mesma laia).

Eu espero que a torcida do Botafogo (Zé Colméia, conto contigo!) faça um puta barulho e ensurdeça esse parvo ex-jogador do Flamengo.

E fica combinado assim.

O Botafogo venceu? Foi a vitória dos alvinegros sobre o evangélico Jorginho.

O América venceu? Foi a vitória do diabo.

Até.



7.2.06

E QUE VENHA A LENDINHA


"É preciso, antes de mais nada,
que você, Gláucia, me entenda.
O filho é de vocês, mas é ele que é a Lenda.
E como disse meu irmão paulista,
como sempre genial,
craque como um Pelé
(um artista):
filho de Lenda, Lendinha é!!!"


Na foto, tirada em Búzios, no dia do aniversário da Sorriso Maracanã, no ano passado, nos domínios da Fumaça (saudade sua, querida!), três pessoas bastante especiais. À esquerda ela, a razão dos meus sorrisos, Dani. À direita, Gláucia, que deu cores novas à vida do meu irmão que está no meio, bendito fruto entre as mulheres, Marcelo Alves Vidal, Vidalzinho, a Lenda!

Como eu sou (juntamente com outro irmão, o Szegeri) cada vez mais adepto do escancarar da alma, cada vez mais partidário da falta de pudor para dizer em alto e bom som o quanto amamos os que nos cercam, afinal a Morte está sempre por perto e sabe-se lá se pronta para o convite fatal, vou hoje, de público, de pé no banquinho imaginário, copo de chope com bastante pressão numa das mãos, falar sobre essa alegria estupenda que invadiu-me ontem quando o Vidal, como um Dom Pedro na sacada do Paço Imperial, disse depois de pedir silêncio: "Eu e Gláucia vamos ter um filho.".

Fiquei grávido também.

Amigo de mais de vinte anos, parceiro de copo, cúmplice, confidente, o Vidal é daqueles homens comoventes. Quietão, na dele, muitas vezes, eufórico noutras tantas, é dotado de um humor particular, tímido que só, e eu digo, sem medo de errar, que pouca gente sabe tanto do que lhe vai na alma quanto eu. O vi chorar poucas vezes (ao contrário dele, coitado, que já me viu chorar oceanos) e sei, sempre, quando o malandro se segura pra manter secos aqueles olhões verdes que ontem, durante o anúncio, marejaram de leve.

Pequena pausa, que eu acabei de me lembrar de curioso episódio. Eu estava há poucos dias com a Dani. E disse a ela, numa madrugada:

- Quero que você conheça o Vidal. Agora. Vamos até a casa dele.

- Agora? - disse a Dani apontando o relógio, quase uma da manhã.

- Agora! - e bati o telefone pra ele.

E lá fomos nós, e Vidalzinho de pijama, cerveja já servida, potinhos de amendoim na área, nos esperando na sala. Era o Vidal cioso da minha alegria depois de um período de dor, quando vacas tentaram, sem êxito, destruir meu pasto. Recebeu a Dani com um abraço tão bonito que eu terei de nascer e renascer quinhentas vezes para lhe retribuir esse específico gesto (talvez somente agora ele saiba o que representou, pra mim, aquela cerveja naquela noite de setembro de 1999).

Mas eu tentei.

Foi o Vidal encontrar a Gláucia e eu fui, sempre (ou tentei ser, estamos sempre sujeitos ao equívoco), um homem determinado a ser doce, gentil, generoso, nos gestos e nas palavras, com ela, uma mulher que mudou, de guinada, a vida do malandro. Notem bem que não faço qualquer juízo de valor pelo que passou. Mas pelo que se passou na vida do meu mano depois da Gláucia.

Ontem, quando os dois, carinhas de bocó, anunciaram a chegada da Lendinha, engoli em seco (mentira, engoli litros de puro malte naquele átimo de segundo) e não fui capaz, por pura inabilidade, de lhes dizer de minha alegria, de meu orgulho, de minha intensa felicidade. Tentei, mas acho que em vão, dizer-lhes isso chamando Valmir e Heloísa para o brinde coletivo. Tentei dizer-lhes isso quando bati o telefone, eufórico, pro Szegeri. E fui patético quando os constrangi com a frase bisonha, "o padrinho sou eu e pronto!".

Esqueçam, esqueçam isso.

Já sou, desde já, o mais apaixonado dos tios da criança que vem por aí.

Isso me basta.

Com todo o meu amor, meus queridos Vidal e Gláucia, a mais forte torcida por nove meses serenos, tranqüilos, e que a Lendinha venha com saúde, com muita saúde. Vai ser bonito demais poder dizer "eu vi nascer essa Lenda"!!!!!

Eu disse "com todo o meu amor", daí a Dani, na foto, com vocês.

Até.

6.2.06

A RABADA DE DOMINGO




"É comum a gente sonhar, eu sei,
quando vem o entardecer.
Pois eu também dei de sonhar
um sonho lindo de morrer."

(Toquinho - Vinicius)



Foi com essa vista, escancarada, que aconteceu a rabada que desde quinta-feira descansava na vinha d´alhos, no Alto da Boa Vista, na casa de papai e mamãe (e é preciso dizer que quem tem um pai, uma mãe, como Isaac & Mariazinha, não tem do que reclamar). O domingo prometia e às oito da manhã estava eu, de pé, já na feira, para comprar agrião, alho, cebola, coentro, manjericão e tomate. Tomei o rumo da casa de meus pais e contei com o auxílio luxuoso da Marina, que trabalha lá e deu expediente extra ontem, e de mamãe.

Papai recebeu-me com um abraço de tamanduá (estava feliz como pinto no lixo) e mostrou-me, orgulhosíssimo, a mesa que havia preparado com as bebidas, avisado que foi do potencial dos convidados.

Um portento. Uísque à vontade, rum, gim, cachaça, vodka, limões e todos os apetrechos possíveis e imaginários para que a calibragem de todos fosse garantida durante todo o tempo.

Saquem só o capricho!

Eu disse que o papai recebeu-me com um abraço de tamanduá mas mamãe não fez por menos. Estava visivelmente feliz com o furdunço e topou, no ato, quando propus que fossem buscar, às onze, a Sônia, que a Sônia ama os movimentos pré-almoço, a preparação de tudo, os cheiros, fica ali preparando suas caipirinhas e é um papo indispensável.

Quando Sônia chegou não decepcionou.

Abriu a bolsa de onde sacou um rocambole de chocolate, limões e muita lima-da-pérsia, e começou a bebericar (não parou mais).

(Sônia, Isaac e Mariazinha)

Eis o trio, e notem o tamanho do copo das duas!

Foram chegando, pela ordem, Vidal e Gláucia (que chegaram trazendo a Tijuca em estado bruto dentro de uma bolsinha térmica).

- O que é isso? - eu perguntei.

- O que sobrou de uma festinha lá em casa ontem à noite - disse a Gláucia sorrindo e exibindo azeitonas, pãezinhos, biscoitos, patês, pastinhas, um troço.

Depois chegaram Fefê e Brinco, Yayá e Zé Colméia (o Zé Colméia, quase dois metros e calçando 50, chegou suando de maneira olímpica bebendo uma casco escuro no gargalo!).

Dani e Maria Paula. Dalton e Manguaça. E estava completo o time.

Bebeu-se como nunca dantes. E eis o ápice da tarde.

Vidal pede silêncio em determinado momento.

Ergue o copo e anuncia, como um Dom Pedro na sacada do Paço Imperial:

- Queridos... (mareja os olhos)... eu e Gláucia vamos ter um filho!

Pronto. Instalou-se o caos emocional na casa.

Dalton chorou, eu chorei, Vidal chorou (acho que de pena de mim, tanto que eu o beijava), e lá fomos os três bater o telefone pro Szegeri a fim de dar a notícia ao meu irmão paulista.

Fiz mais, fiz mais!

Liguei emocionado pro Valmir, pai da Lenda, e o convoquei, às pressas, pra beber conosco. E foram ao nosso encontro os avós, Valmir e Heloísa (a certa altura tive pena dos dois, que chegaram sóbrios naquele bunker de bêbados).

A rabada foi quase-esquecida diante da alegria de todos. Eu disse "quase". Porque quando mamãe gritou "a rabada está servida" houve o ataque bárbaro. Arroz, rabada e polenta evaporaram em poucos minutos.

E ficamos ali, até umas dez da noite, bebendo e brindando à vida, ao encontro, à amizade, à saúde do bebê que está por vir, e confesso a vocês que ainda agora estou comovidíssimo com a notícia. Não é sempre que se tem um irmão esperando um filho.

Ergo o copo aos dois, Vidal e Gláucia, ela a mulher que efetivamente faz meu irmão, a Lenda, feliz ao extremo.

Mais fotos da rabada você pode ver aqui!

Até.


4.2.06

E FOI ASSIM, Ó...


"Chorei, chorei,
até ficar com dó de mim..."

(Chico Buarque)

Como não me incomoda a pecha de exagerado com que me carimbam, vamos ao relato da noite de ontem (é preciso não esquecer, nunca, que sou sempre preciso do início ao fim).

Chegamos, eu e Dani, ao Canecão, às dez da noite, em ponto. Esse luxo, de chegar em cima da hora, foi possível graças ao Neco, a quem faço absoluta questão de agradecer, mais uma vez, pelos convites. Aliás, nota hilária da noite. Como dois deslumbrados com a localização da mesa, cara a cara com o palco, ficamos assim: "Olha! Nossa mesa é bem melhor que a mesa do Paulinho Moska!", "Ih! Olha a Marina, ali! Bem mais longe do que nós!", e outras baboseiras do mesmo gênero. Uma tiração de onda à Tijuca.

A mesa era de rico. Mas o pedido foi de pobre. Bem que eu fiquei tentado a pedir uísque (desisti, na última hora, de levar, como sempre, o uísque de casa). Mas a dose do RedLabel estava R$15,00 e achamos mais prudente ficar na cerveja. Baldinho com seis latas de Skol e muito gelo.

Minhas pernas inquietas por baixo da mesa denunciavam meu estado. E Dani, "calma, calma, já vai começar". E começou.

Vou tentar definir o show numa palavra: assombroso.

E vamos aos efeitos colaterais do assombro.

Fui ao banheiro algumas muitas vezes. Era terminantemente proibido fumar e nem cinzeiro havia. Fumei? Muito. E Dani, linda, dizendo "fuma, meu amor, fuma...". Daí quando Vanessa mandou "Ainda bem que você vive comigo, porque se não, como seria essa vida? Sei lá..." eu comecei, sem pudor, a sessão esguicho. Mais um pouco e ela anuncia que vai cantar uma canção gravada pela Bethânia, e eu anuncio no ouvido da minha amada "A Força que Nunca Seca". Mais esguichos e ainda mais intensos, sob a melodia tristíssima e lindíssima do Chico César com letra da própria Vanessa. Eu estava longe.

Outro momento incrível, e carioca é danado pra ter orgulho da origem, foi quando ela disse, nitidamente nervosa e emocionada, que era quase inacreditável estar naquele palco, no Rio de Janeiro, cidade que lhe parecia inatingível pelo que tem de fascínio.

Nascida em Alto Garças, cidade com 8 mil habitantes, no Mato Grosso, o nome "da Mata" não é mero acaso. Senhora dos ventos, dos raios e das tempestades (dentro de mim), soltando fogo pela boca, Vanessa me derrubou, é preciso dizer.

Saímos do Canecão, eu e Dani, extasiados. Tentamos uma parada no Bar Getúlio. O chope estava péssimo. Viemos pra casa, mesmo. E, ô.

E de público, sendo mais tijucano que nunca, um pedido pro Neco.

Sempre, querido, mas sempre mesmo, que essa moça estiver no Rio de Janeiro, eu quero estar junto.

PS: eu tive um grave princípio de enfarte. Foi quando ela cantou com uma cara indizível "...mas agora o meu dia-a-dia é no meio da gataria, pela rua virando lata, eu sou mais eu, mais gata, numa louca serenata...". E outro grande sufoco foi quando - olhando pra mim, eu juro, eu juro... - gemeu "não chore homem, não chore homem, não chore homem...".

Até.

3.2.06

É SEMPRE ASSIM, Ó...


"Neste mundo de tantos anos
Entre tantos outros
Que sorte a nossa hein?
Entre tantas paixões
Este encontro
Nós dois, este amor"

(Liminha - Vanessa da Mata)

(pra Dani, de novo, e pro Neco)

É sempre assim às vésperas de um grande evento. Cigarros, meu Zippo vermelho, e um copo grande de uísque, muito suor e gelo (pra lembrar um bocadinho do que disse o Aldir no prefácio do meu livro). Vou explicar.

No ano passado, durante uma das viagens da Dani, assistindo TV numa noite insossa, dei de cara com uma mulher alucinante, cantando de forma lancinante, dançando de forma alucinante, deixando-me paralisado. Paralisado e bêbado (bebi durante o programa). Quando Dani voltou de viagem eu disse brincando: "Estou apaixonado".

Eu tinha visto Vanessa da Mata cantar. Comprei os discos. E fiquei ainda mais apaixonado (pra minha sorte, Dani dividiu a paixão comigo). E fiquei esperando, esperando, esperando ela vir ao Rio apresentar-se.

Semana passada eu soube. Dia três de fevereiro. Canecão.

Fui aos ingressos.

Esgotados.

Daí valhi-me de um expediente que não gosto: bati o telefone pro Neco (já falei dele uma vez, aqui no Buteco). O Neco manda. Sem mais detalhes. Mas manda.

E fui, hoje à tarde, buscar os dois ingressos, setor A (o melhor! o melhor!), mesa 110, e estamos a menos de uma hora do começo do espetáculo.

Antevendo taquicardias, falta de ar, muito chôro (sou sempre assim, fui assim com a Maria Rita), recorri a eles: o cigarro, o Zippo e o uísque. Agora é banho e Canecão.

Vou cantar junto, lembrar de gente que está longe, nem-quero-ver. Dani levando meu uísque na bolsa, dotada de paciência pra aturar meus descompassos, e finalmente verei, ao vivo, essa força nascida em Mato Grosso, pantaneira, aqueles cabelos ao vento, aqueles pés descalços (ai, ai, ai), e seja o que for.

Até.

PS: ah, sim. É dedicado à Dani por causa da sorte que foi nosso (re)encontro. E ao Neco, pelos ingressos.

RABADA, PASSO A PASSO



"Mamãe, você vai gostar
tô levando uns amigos pra conversar...
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem..."

(Chico Buarque - adaptado para domingo)


Fui ontem ao centro da cidade comprar uma panela de primeiríssima e um pote grande, desses de plástico, para preparar a vinha d´alhos para a rabada que acontece domingo na casa de Isaac e Mariazinha, meus pais, que prontamente aceitaram ceder a casa para palco do furdunço que vai fazer tremer o Alto da Boa Vista (Buba cancelou o almoço, que seria em sua casa). Dona Aída atendeu-me com seu sotaque lusitano e uma simpatia comovente, e pensei na hora: bom sinal!

Vão acompanhando aí o preparo do prato (o almoço é domingo e começou a ser feito ontem à noite). Nessa primeira foto, os quatro quilos de rabada já nadando nas quatro garrafas de vinho tinto, um litro e meio de água, cebolas cortadas em quatro e muitas folhas de louro.


Daí entraram dez dentes de alho, inteiros, um maço de salsinha e um maço de cebolinha.

O aroma da cozinha estava inebriante e Dani é testemunha da minha excitação diante do quadro verde, das cebolas já pegando a cor, eu já bicando um uísque me preparando fisicamente pra domingo (o papai, coitado, ficou de oferecer o malte à gentalha e vai se arrepender).

Escolhi com paciência grãos de pimenta do reino preta e os lancei na alucinante paisagem.

Ah, sim! Vamos aos eleitos (escolhidos pela notória adoração ao prato): além de mim, da Dani, de papai e mamãe, obviamente, desfrutarão da rabada o Fefê e a Brinco, o Vidal e a Gláucia, a Manguaça e a Sônia, o Dalton, a Maria Paula e o Zé Colméia.

E eis aí a maravilha a segundos de entrar na geladeira, onde descansará até a tarde de sábado, sendo mexida três vez por dia pra remexer os ingredientes e tornar mais agressiva a absorção dos temperos. A vinha d´alhos passará, então, por uma peneira, o caldo vai ser reservado para o preparo da polenta, a rabada terá de ficar sequinha para entrar na tal panela de ferro fundido que comprei e na segunda-feira lhes conto tudo, timtim por timtim.

Para os aficcionados na arte de cozinhar (e eu cada vez mais gostando de cozinhar pra batalhões de pessoas, daí o investimento de hoje), vale a visita à lojinha onde trabalha Dona Aída, na Rua Buenos Aires, quase na esquina da Rua Uruguaina.

Até.

2.2.06

TRÊS POR ACASO


"Quando três por acaso amigos se encontram
Começam a cantar a paixão
São línguas de fogo, promessas e jogo
Vícios do coração

São horas perdidas que o relógio não marca
Segue o curso a serpente, segue o rio o seu caminho
Enquanto eu, de repente, sigo somente o que sou
Quase sempre sozinho, quase sempre sozinho

Diletos amigos consigo comigo
Consigo evitar o perigo falando de amor
Falando de um gol já quase perdido
São cores do mundo, perfumes e flores
Os gols mais bonitos pela linha de fundo

Quando três por acaso amigos se encontram
Ninguém sabe o destino que darão ao mundo"

(Gereba - Capinam)

Eis aí, na foto, a prova inequívoca, irrefutável, definitiva e implacável: ontem, véspera do dia de Iemanjá, bateu no meu irmão paulista, Fernando Szegeri, uma saudade olímpica e devastadora. Saudade que o cutucou, ainda no escritório onde trabalha, e o arremessou ao site da GOL para adquirir uma passagem ida e volta, Rio-São Paulo-Rio, embarcando às 21h e retornando no vôo das 5h30min da madrugada de hoje. Gastou algo em torno de R$300,00 e foi um sujeito feliz nas parcas seis horas que passou em solo carioca.

Mas não tenham dúvidas. Foram as espetadas e as provocações que vinha lhe fazendo, desde a semana passada aqui no Buteco, as responsáveis por mais esse gesto insano do meu Otto na íntegra. Mandou-me, ontem pela manhã, o Szegeri, um email pedindo-me desculpas pela ausência, pela distância, pela frieza das últimas semanas. E eu lhe disse um não rotundo. Não aceitava as tais desculpas por email. E foi então que lhe baixou a centelha alucinada: "Vou ao Rio!". E veio.

Veio e vivemos seis horas que o relógio não marcou.

Às dez da noite estávamos, eu e Dalton (mais meu irmão a cada minuto que passa), no saguão do Aeroporto Antônio Carlos Jobim, à espera do Szegeri. De lá viemos aqui pra casa onde nos esperava a Sorriso Maracanã em dia de arquibancadas lotadas. Muito uísque, vinho, uma carne grelhada no sal grosso, palmitos, e os vícios do coração falaram mais alto.

Rumamos perto da meia-noite pro Estephanio´s, extensão da minha casa.

Éramos três e fomos quatro, Fefê à mesa, e estava eu, num passe de mágica, bebendo com três irmãos (quatro se formos contar o Toledo, voando sobre nós).

Evitamos o perigo, falamos de amor, falamos dos gols perdidos, dos feitos pela linha de fundo, demos cores ao mundo, perfumamos a esquina, e ninguém saberá, por mais que eu conte, o destino que demos, ali, como reis, ao mundo mesquinho que nos cerca.

Ergo, comovidíssimo, nessa manhã enevoada de quinta-feira, de pé no banquinho imaginário, o copo à graça e à glória do convívio com esse portentoso homem que me faz feliz e orgulhoso quando enche a boca pra dizer que me tem como irmão. E se falo do Szegeri posso falar o mesmo do Dalton e do Fefê.

Mas eis o que diferencia o Szegeri e o torna único. Não é a primeira nem a segunda e muito menos a terceira vez que ele faz isso.

Heróico, gigante na arte de criar e manter as lendas, parte de São Paulo e atravessa os mais de quatrocentos quilômetros que nos separam para passar aqui pouquíssimas e intensas horas.

E estendo o brinde à Dani e à Stê, mulheres sábias que compreendem que quando três por acaso amigos se encontram ninguém sabe o destino que darão ao mundo, ninguém sabe o destino que darão ao mundo. Mas sabem que o destino, seja ele qual for, conta com elas fazendo festinha na cabeça da gente quando o relógio voltar a marcar as horas.

Até.

1.2.06

O BATISTA DE VOLTA


"Si arrastré por este mundo
la verguenza de haber sido
y el dolor de ya no ser,
bajo el ala del sombrero
cuantas veces embozada
una lágrima asomada
yo no pude contener"

(Alfredo Le Pera)

Meu telefone tocou cedíssimo hoje. Eu disse "cedíssimo" e vocês poderão pensar em seis, sete da manhã. Nada disso. Às cinco e quinze da madrugada acordei com os gritos desesperados do telefone e lembrei-me, juro, naquele instante, dos braços do Batista agitados chamando minha atenção, como ele sempre faz. Os toques insistentes do aparelho telefônico eram os braços do meu saudoso amigo. E eis a surpresa impressionante.

Era o Batista.

Eu disse "alô" (bocejando) e o pulha teve a pachorra de perguntar-me:

- Te acordei?

Não respondi. Bocejei de novo. E disse-me, o Batista, que estava de volta ao Brasil. Tive vontade de mandá-lo à merda naquele instante, mas me contive. Batista, repetindo um de seus gestos cíclicos, disse-me que estava bebendo cerveja com anéis de cebola à milanesa numa birosca na CADEG.

- Venha pra cá, Edu, preciso de ti.

Ah, os amigos. Entrei no chuveiro, tomei um bom banho quente, pus um terno e parti, de táxi, ao encontro do Batista.

Tudo igual. Aportei na CADEG e lá estava o náufrago em terra firme, balançando os braços, urrando meu nome e apontando como um siderado a cadeira vazia à sua frente. Deu-me um abraço de urso panda, tapinhas nas costas, sentou-se esbaforido, pediu mais um copo ao garçom e depois de vasculhar uma bolsa de papel amassadíssima dela retirou uma caixa de Alfajores Havana e disse:

- É a cara de Buenos Aires. Uma lembrancinha.

O Batista, se vocês não lembram, estava há meses em Buenos Aires, com Dirce e Linda, com quem se casou numa estranhíssima seita portenha. Casou-se com as duas, recordem-se disso. Daí o "estranhíssima seita" que permite, incentiva e sacraliza a união de três.

- Mas e aí, Batistão? Quais as novidades?

Parece que o "Batistão", uma novidade vocativa, chocou meu amigo.

Batista chorou com as duas mãos sobre meus ombros, soluçou, babou um bocado e disse:

- Péssimas. Nos separamos.

E contou-me o drama.

Dirce e Linda continuaram, em Buenos Aires, os exercícios eróticos que tanto encantaram meu amigo. Até que um dia, disse-me ele, as duas o convocaram para um jantar em Puerto Madero. E ali, sobre nacos de chorizo e taças reluzentes de vinho tinto, lhe deram o bilhete azul.

- Nós nos bastamos, Batista. Não estamos mais a fim, sabe?, de triangular a relação. Tudo acabado, hombre - foi o que disse Linda a um Batista atônito.

- Pensei em me jogar no mar, Edu... - chorava de novo o meu amigo.

E disse-me mais, o Batista. Ele ficou bastante chocado com a diminuição que sofrera com aquela figura geométrica do triângulo. Ele era apenas uma ponta de um triângulo, e isso provocara nele uma depressão agudíssima.

Fez as malas e embarcou para o Brasil no dia seguinte. Estava bebendo demais. As duas, Linda e Dirce, estavam empregadas clandestinamente numa casa de shows para turistas voltada para o público GLS. Dançavam tango, as duas, e eram a sensação da cidade, contou-me ele aos prantos.

Não estava dizendo coisa com coisa. Pediu-me guarida até arranjar um quartinho para alugar. Topei, mas dei a ele três meses, no máximo.

Quando eu disse "três meses" ele ficou repetindo "três, três, três...", como um autista.

A figura viva do triângulo, de novo, a atormentar aquela pobre alma.

Pagamos a conta (eu paguei, que o Batista voltou ainda mais pão-duro) e tomamos um táxi. Deixei o Batista em casa, o alojei no quartinho de hóspedes e fui ao trabalho.

Chegando em casa a secretária eletrônica piscava. Apertei o botãozinho vermelho "message":

- Edu, é Linda. O Batista deve te procurar. Ajude a ele, Edu.

Ele disse apenas "filha da puta" e pôs-se a chorar.

Ao longo das próximas semanas prossigo com a saga batistiana.

Até.