9.2.06

AI DE QUEM NÃO RASGA O CORAÇÃO


"Eu francamente já não quero nem saber
de quem não vai porque tem medo de sofrer"


(Toquinho - Vinicius)

(pro Mauro)

Mas eu sou, realmente, aos 36 anos, no quesito amigos, um sujeito de sorte, e de muita sorte (tem de haver, sempre, o hiperbolismo). Eu tenho no bolso, pra expôr, um Szegeri, um Vidal, um Fefê, um Dalton, e tenho, também, um Mauro, sujeito a quem serei - já disse isso mil vezes por aqui - eternamente grato. A razão, hoje, não vou repetir.

A vida é curtíssima e são eles, os amigos, que dão a ela muito mais graça, e muito mais graça ao lado das mulheres, da bebida, da música, esses troços fundamentais na vida de um homem.

Um homem, foi o que eu disse. E um amigo tem de ser homem pra cacete pra escrever pra um outro homem e pedir, sem pudor nem meias palavras, colo. Falo de mim e do Mauro.

Raramente vê-se isso, mas ontem, meninos, eu vi.

O Mauro mandou-me comovente email pedindo colo (foi comovente por inúmeras outras razões, mas isso não interessa a nenhum de vocês). Vou repetir, e ele não há de me desmentir se por acaso for inquirido sobre a veracidade da coisa: o Mauro escreveu-me pedindo, sem meias palavras ou subterfúgios, colo.

E eu, ao ler sua mensagem, fui (estou sendo imodesto) amigo dele até a última das encarnações. Bati-lhe o telefone e fui a seu encontro.

Realmente eu não medi esforços. Soube do que o afligia e disse "estou indo".

Ele havia estado numa sala de cinema para assistir "Vinicius", o festejado documentário. Foi ele me contar isso e eu já sabia o que se passava. Também eu, quando estive com a Dani no cinema, saí de lá com uma sede de uísque e uma saudade estanhíssima de tempos não vividos que vou lhes contar!

Não era exatamente isso. O Mauro saiu do cinema com os olhos encharcados, a alma ainda mais encharcada pela beleza que o Poeta transmite até mesmo através da tela e apaixonadíssimo pelo Rio de Janeiro (isso já é de uma beleza szegeriana, apaixonar-se pela Cidade Mulher...). E pelas mulheres, pelo amor, por esse treco indizível que nos move e nos faz viver dando risada, de tudo, bobo mesmo, apaixonado de maneira olímpica. E disse-me o Mauro ao telefone, "eu não quero menos do que tudo".

Aí fui ao seu encontro (estou sendo mentiroso, eis que escrevo de sua casa, o que é inédito em termos de Buteco, enquanto ele bebe como um gambá na sala com Vinicius ao fundo cantando no toca-discos - toca no CD Player mesmo, mas é tão mais bonito dizer toca-discos...). Fomos comer pizza, e notem a doçura do Mauro... Serviu-me uísque na caneca, até a boca, muito gelo, e fomos bebendo pelo caminho. Disse-me ele, vendo-me aflito: "vá bebendo, querido...".

Tomamos um chope na volta, estamos ainda e agora bebendo, e seguimos discutindo os meandros, indiscutíveis, da paixão, suas conseqüências, seus enredos, seus desvelos, e decidimos, semi-bêbados, que não é possível alguém abrir mão da felicidade a dois, trocar sorrisos e tardes descompromissadas compromissadas apenas com o prazer da melhor companhia, por mera conveniência, por conformismo, por medo, tudo incompatível com o verbo amar, traduzido pelo Vinicius como por mais ninguém. Somos nós, os dois sozinhos, amigos e irmãos siameses, brincando de (re)viver Vinicius de Moraes. E não estou sendo pretensioso, não, ô camaradas! Estamos brincando de viver apenas para amar, para sofrer e pra ser só perdão.

Até.

5 comentários:

Szegeri disse...

Por essas e outras que eu digo que o Mauro é a VERDADEIRA beleza acachapante... Por fora e por dentro (com licença do confrade Branco, que não é meu tipo). Craque.

Lu Guerreira disse...

Que Lindo!!!
E é por essas e outras que o Mauro é meu Confrade. Beijos aos dois.

Betinha disse...

Essas são as mulheres! :-)
Beijo "pros" dois.

Cristine disse...

O Mauro eu conheço bem. O Eduardo não. Com todo respeito ao meu velho amigo, nesse dia quem me emocionou de verdade foi o autor da coluna. Que escreveu das coisas da amizade, da vida e do amor. Ergui meu copo pra você e, na quinta, levei escondido em meu carro, um Johnny Walker pro Stephanio´s, pra oferecer ao dois, pelo show de Homem que deram. Mauro disse que ia e não foi (mas por uma nobre causa). O Eduardo não me deu o prazer de conhecê-lo. Portanto, voltei pra casa com o Johnny, e adiei o brinde respeitoso. Fica pra próxima. Como diria o Poetinha (e o Mauro, e o Eduardo, e eu) amigo a gente não faz, a gente reconhece. Saudações, Cris.

marjorie madruga disse...

Edu,
Nós não conhecemos, mas certamente nos reconheceremos como seres amorosos,como pessoas que acreditam que o homem nasce para amar, para emocionar-se. E que este é o verdadeiro sentido da vida. E como de uma certa forma quem jogou a bola desta vez foi Vinicius, lembro de uma cronica dele chamada " Da Solidao", onde ele comeca contando que " O Corvo", de Poe, surgiu da conclusao deste de que a maior dor do mundo era a morte da mulher amada. Todavia, Vinicius no final conclui: " Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidao é a do ser que ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidao é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se..."

Mas tenho a sorte, o privilegio, a felicidade de conhecer Mauro. Mais. De ser amiga dele. E olha que já tem inté um bocadinho de tempo, menino! O suficiente para reconhecer o Mauro daquela noite linda. Uma noite de desnudamento que poucos têm a possibilidade e/ou a coragem de viver. E é por estas e outras, tantas outras, que sei que Mauro é este ser especial e lindíssimo.Demasiadamente lindo na sua demasiada humanidade. Um ser tecido de virilidade e doçura, inteligências e sensibilidades, mas sempre pura emoção. Um homem que é, involuntariamente, “todo sentimento” e que quer “todo o sentimento do mundo”, como cantam nossos poetas Chico e Drummond – na ordem. Um homem que não só carrega no nome duas imensidões- o mar e o amor -, mas é ele próprio UMA IMENSIDAO. Por isso sigo encantada por ele, transmudados encantamentos, mas sempre um encantamento.

Espero um dia encontrá-lo, seja no RJ ou no RN, e até lá - e provalvemente além- vou seguindo amando, sofrendo, quebrando a cara, mas vivendo, inteira e fragmentária ao mesmo tempo.

Muito bom conhece-lo!
Beijo potiguar.
Marjorie