16.2.06

GASTRONOMIA


(ou "as impressões de dois tijucanos diante da ´alta gastronomia´")

"Caviar é comida de rico,
curioso fico, só sei que se come.
Na mesa de pouco fartura adoidado
mas se olhar pro lado depara com a fome!
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
pois na minha casa é o que se mais se consome...
Por isso se alguém vier me perguntar:
O que é caviar?
Só conheço de nome!"

(Luiz Grande - Barbeirinho do Jacarezinho - Marcos Diniz)

Vou dar uma breve espanada na espiral emocional que andava rondando o balcão do Buteco, até mesmo porque, ontem, eu, Szegeri e Isaac, nosso pai (!), estivemos a um passo do cambaleio. Razão pela qual - meu cotidiano costuma sempre oferecer essas alternativas - passo a lhes contar sobre meu almoço, corrido, é verdade, em razão de muito trabalho, ontem à tarde com o Dalton, meu irmão, e cada vez mais meu irmão, num restaurante no centro da cidade cujo nome não me lembro.

Sentamos e fomos logo atendidos por uma japonesa gorda. Pausa. Pensei que não existissem japonesas gordas. E ficamos os dois, aparvalhados, diante daquela imagem surreal que nos estendia os cardápios e as toalhinhas quentes. O Dalton, que dá um banho no Nei Lopes quando o assunto é africanismo (com sua licença, Mestre, para o deboche inevitável), o Dalton que faz o Montenegro, do IBOPE, parecer um iniciante nos meandros das estatíticas, o Dalton que sabe mais sobre o Candomblé do que a Mãe Menininha do Gantois, o Dalton também entende mais de comida japonesa do que toda a população nipônica incluindo as baixas de Hiroshima e Nagasaki.

Foi por isso que dispensei o meu cardápio e fiquei aguardando a escolha do sabe-tudo. Ele, gentil, perguntou-me:

- Você tem alguma preferência?

E a japonesa balofa estacada ao lado da mesa.

E eu:

- Se tiver guiozá, para a entrada, eu gostaria.

E ele, naquele tom professoral que é uma de suas marcas (além das de acne, na pele):

- GUIÔZA, Eduardo... sem esse acento inexistente...

A japonesa muda.

Dalton coçou o queixo, cheirou o cardápio (não me perguntem o por quê), e fez a pergunta que me pareceu definitiva à baleia de olhos rasgados:

- Aqui os senhores usam Gohan?

Ela apenas fez que sim com a cabeça.

Ele então fez o pedido e não saberia lhes repetir o nome do prato, dificílimo. Mas explicou-me ele que, após a entrada (guioza), comeríamos sushis e sashimis sobre um mar de arroz tipo Gohan. E de fato veio tudo à mesa e comemos bem. Muito bem. Mas o que nos perturbou ao longo do almoço foi o almoço dos três rapazes (três moças, se me entendem) na mesa ao lado. O cardápio oferecia um troço chamado "menu degustação", algo perto dos R$100,00 per capita, composto por seis pratos preparados pelo chef. E foi a escolha dos rapazes.

E, meus fiéis leitores... O que era aquilo?

Aproxima-se o garçom. Serve os primeiros três pratos aos três. O Dalton riu tanto que manchou meu terno de molho shoyo. Unam, nesse momento, o polegar direito ao indicador direito. Uniram? Eis o tamanho do primeiro prato. E disse o garçom:

- Eis a primeira obra-prima do chef. Pequena lasca de atum crocante com gergelim tostado sobre um futon de foies-gras.

Os três pratos foram devastados em aproximadamente cinco segundos. E vem o segundo:

- Senhores, eis a segunda criação de nosso chef. Uma pérola de salmão escorada numa espécie de emulsão vitrificada de algas marinadas...

E assim foi até o sexto prato. Um menor que o outro, sendo que o último era composto por uma pequena colher de louça sobre a qual vinha um mínimo de comida (não reconhecemos o que era) e mais nada. E os três gemendo, fazendo "uis" e "ais". É preciso dizer que comemos, pagamos a conta, mas ficamos ali, acompanhando aquele espetáculo patético.

Levantamos para não vomitar quando um dos rapazes disse, após pedir a sobremesa:

- Ai... Meu sorvete preferido é o de manjericão fresco com aceto balsamico...

Francamente. Essa é a dita "alta gastronomia". Os babacas de plantão que gostam disso chamam de "baixa gastronomia" (ó o preconceito na área!) o que nós, eu e Dalton, nós tijucanos, Szegeri, Marcão, Augusto (cadê você, homem?), gostamos: rabada, feijoada, dobradinha, galinhada, e por aí vai. Não dá nem pra saída.

Eis, então, uma verdade incontestável.

À mesa, também, pelo que se come, se conhece um homem. E tenho dito.

Até.

2 comentários:

Marcão disse...

Diria até que somos adeptos da "lúpem-gastronomia"

Lucia disse...

Se conhece também uma mulher!
:)
Já estou acostumada a ser taxada de "A Lucia come igual homem".
Deus me livre de ter que viver de saladinha, e pequenos pedaços de grelhados!
Até porque, até um ano atras não comia nada verde. Hoje, numa evolução absurda, como rúcula e alface!Obviamente, acompanhados de bastante sustança!!!

:)