10.2.06

OLHAR


"Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar"

(Ana Carolina)


Impressionante como eu ando determinado a não deixar de a tudo olhar, ainda mais atento. Acho que aos 36 anos olho como nunca, fixando em mim as imagens, e os sons, as palavras e os momentos que registro. Impressionante como sinto-me mais inteiro depois que aprendi - e ainda há muito a aprender - a ter esse olhar mais apurado, e é o olhar que me equilibra, já que tenho a alma mais-que-desequilibrada a cada dia. Explico. Acho que o olhar anda mesmo é cansado (os oftalmologistas, Magali em especial, me garantem isso), e essa aparente leseira, essa presumível preguiça é que me tem feito ter tempo para guardar tudo com mais cuidado em mim. A alma, essa sim uma turbulenta senhora que sofre com as torrentes que não cessam, parece mais renovada a cada dia. E desse absurdo abismo que separam o olhar e a alma é que vai brotando um sujeito mais - como direi? - tranqüilo diante do cotidiano, o que tem irritado sobremaneira meu irmão querido, o Szegeri, que me cobra a mesma virulência de sempre. Como ele já usa óculos, talvez resida, aí, sua incompreensão.

Não é possível dizer isso sem apontar, quase que como um exercício pessoal (daí o texto lhes parecer chatíssimo), aquilo que o olhar e a alma têm registrado ultimamente, fazendo-me um sujeito cheio de felicidade por ter o que a vida tem me dado. Pausa brevíssima pra dizer que o Coelho, a quem dediquei a receita da feijoada ontem, mandou novo email e deixou novo recado no celular. No email dizia que se eu fosse um sujeito normal (vão tomando nota!) mandaria a receita pedida por email mesmo, por carta, até mesmo pelo telefone. Mas que por não ser normal - "ainda bem", disse ele! - mandei em forma de homenagem pelo Buteco. E no recado do celular, hoje cedo, ouvindo ao fundo a gravação de "Feijoada Completa" na voz do Zeca Pagodinho, o Coelho agradecia, de novo, comovido, a receita e dizia estar preparando uma feijoada para os amigos em Campinas, e queria saber se tudo desandaria por não ser o Chico Buarque a cantar, como eu recomendei. Vejam se eu posso ser normal.

Eu não posso - continuo o exercício íntimo - dizer do email do Coelho, sem mencionar outros tantos emails - não os emails em si, mas seus remetentes - que me têm chegado, recheados de um carinho intenso que me faz mais feliz. O olhar que lê a tudo absorve e eu vou melhorando devagarinho. Desde que publiquei o livro, expondo-me, como é óbvio, novidades vêm aparecendo, e essas aquisições carinhosas que vou amealhando me fazem mais contente. Daí surgem a alegria quase que infantil do dever cumprido que eu mesmo me impus e a certeza de que sim, o livro sou eu. O Fausto Wolff um dia me disse que um livro só presta se o autor estiver ali, materializado, e que isso só é possível havendo extrema franqueza no que vai escrito. E eu percebo, por isso disso falo, franqueza no que me tem chegado.

São muitas as novidades. Lúcia, por exemplo. Não sei quem é. Sei que é fotógrafa - a internet nos permite vasculhar a vida alheia! - e que passou a freqüentar o Buteco depois do livro. Vira e mexe deixa um recado, como o recado que deixou no texto "Feijoada, a receita", ou como o recado que deixou no texto "O Meu Vizinho do Lado". São sinais, penso eu. Um "olá" vindo de fora, e é importante dizer que eu e meu irmão Szegeri fomos construindo, aos poucos, o edifício onde residimos hoje, justamente através de mensagens trocadas pela grande rede.

A Luciana, irmão do Fabinho, amigo querido que não está mais aqui, é outra que me chegou de repente, quando leu, sem que eu soubesse - eu não a conhecia - o que escrevi em homenagem ao meu irmão. Foi ao lançamento do livro, emocionou-se, meu olhar registrou o abraço e alma chorou junto com a dela no instante do encontro, e amanhã, vejam como são as coisas, vou a seu casamento lavando o Fábio comigo.

Mas tem também a Maria Rezende. Poeta, essa fui eu a procurar. Fui parar no seu blog e encantei-me com o que li. Agora foi Maria quem comprou meu livro e escreveu-me um email tão bonito, tão cheio de franqueza, que deixou-me numa alegria absurda. Estamos, eu e Dani, pra marcar um encontro com Maria e seu Rodrigo, para que possamos pôr, na mesa de um bar qualquer da zona norte - o pedido expresso foi ela quem fez - tudo o que tem escorrido pelas mensagens que vêm sendo trocadas.

Aí entra também a Inês, amiga querida, que foi apresentada a nós, eu e Dani, pelo Mauro, mais um irmão que ganhei. Inês é de um carinho conosco, comigo, comovente, e, mais ou menos à minha moda, faz questão de escancarar o que sente, sem pudor. Vejam que não é mentira! Empatia imediata, eis a questão!

Daí vai ficando tudo muito mais bonito. Nós que aprendemos, desde cedo, com os pais geralmente, que a vida não é só dinheiro, posição que se ocupa, não é só ferro e fogo, temos a tendência a desconfiar da verdade disso aí. Mas vamos percebendo, se tivermos olhos de ver e ouvidos de ouvir, que é nesse troço intangível, imaterial, que reside a graça de estar vivo. Percebam, meus poucos mas fiéis leitores do Buteco, que acordei nesta sexta-feira emocionadíssimo. Talvez porque Dani esteja chegando hoje de viagem. Talvez porque eu tenha escutado tantas canções lindas ontem à noite, sozinho em casa, na companhia de um RedLabel inseperável. Talvez porque amanhã eu vá ao casamento da irmã do Fabinho. Talvez porque eu tenha estado em permanente estado de bem-querer, de paixão, de amor pelo que me cerca. Uma belíssima trilogia, essa.

Até.

PS: todo o meu amor ao Vidal e Gláucia, na certeza de que para tudo há seu tempo.

6 comentários:

Renato Machado disse...

Muito bonito Eduardo.

Não foi nada "chatíssimo" ler suas reflexões.

Você parece merecer cada uma das emoções que diz viver. Afinal de contas dá a nós que lemos o Edu a mesma coisa.

Um abraço.

Juliana Amaral disse...

Edu querido, dia desses falava com Augusto, eu tenho tanta saudade ("eu sinto muita saudade, você é contemporânea", como pode o Aldir ser dono de todas as palavras?), e tenho saudade do Edu, eu o vi três vezes na vida e sinto sua falta, que coisa.

É que esse negócio da palavra escrita desanda mesmo o coração da gente - o meu, que gosta das palavras como gosta das pessoas, fica atrapalhadinho ao te ler, e daí acho essa saudade, essa proximidade, ou talvez mais propriamente a vontade dela.

Talvez também porque ando muito emocionada, estive em trabalho-de-parto: gravei finalmente as vozes do disco novo na semana passada, um caminhão de emoção concentrada, uma responsabilidade enorme (os registros e a sua eternidade mexem com a gente...), muito carinho, muita dedicação e muito risco, tudo misturado e bagunçado, e aquele frio na barriga que suspende o corpo na beira do parapeito não deixando o corpo cair; o medo e a tristeza, a tristeza. É, esses tempos vão superlativos.

Ando lendo as tuas, como de costume, na repartição, e os olhos grandes vão marejando, chorandinho escondidos e sorridentes. Hoje não foi diferente. E na hora me lembrei de um poema que caiu debaixo dos meus olhos (digo caiu porque tem coisas que parecem que despencam na nossa frente, sem muito porquê, como um presente) e que podia ter sido feito, na justeza, pra mim; mas que tem, ao mesmo tempo, algo parecido com teu texto, e essa concomitância estapafúrdia de coisas faz pra mim tcharan!: a mágica de juntar tudo e dar aquela alegria boa, aquela certeza, a felicidade.

Mando o poema pra ti, achando que você vai entender.

Um beijo grande, na gratidão - acho que sou melhor porque tenho gente como você aqui por dentro.

Juliana

"O que há em mim é sobretudo cansaço
- Não disto nem daquilo,
nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
- Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
- Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
porque eu amo infinitamente o finito,
porque eu desejo impossivelmente o possível,
porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
para eles o sonho sonhado ou vivido,
para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço..."

Álvaro de Campos

Betinha disse...

Sem palavras, Edu. Mas com muito carinho! :-) E sempre aqui.

Juliana, não sabia que você escrevia com tanta graça. Parabéns sinceros.

∫nês disse...

E é tao bom quando nos "vêem"!

Obrigada Edu, pelas palavras meigas, por me "veres".
Felizmente, todos nós, que te lemos, também te conseguimos "ver". Vemos a beleza, o carinho e a genuidade que são tão tuas e deliciamo-nos.

Bem haja!

Um abraço apertado de Saudade para ti e para a Dani e um beijo... assim, lindo como o sorriso dela!

maria rezende disse...

Edu, obrigada pelo carinho e pela publicidade! :) Eu ando doida pra cultivar amizades boas, firmar laços com gente que tem talento, que me interessa. Logo logo esse nosso buteco conjunto sai pra gente passar do virtual pro ao vivo! Um beijo, Maria

Lucia disse...

Essa Lucia ai sou eu!
:)

Caramba, que surpresa seu comentário no meu flog!
Bacana mesmo!
A feijoada será feita no carnaval!
Pode deixar, que sua feitura será devidamente fotografada e o resultado será contado em detalhes!
O pessoal está animadissímo!
Discutiremos detalhes amanhã, entre comes e bebes num boteco.

Edu, não sou fotografa, quem me dera! Mas sou apaixonada por fotografia, e prá onde vou, normalmente minha câmera está comigo.
É engraçado como a visão muda depois que a foto entra na vida da gente.
Parece que eu olho as coisas "enquadrando" ou procurando a foto. Mas isso acontece de uma forma natural.
Putz, acho que já me alonguei demais.
Apareça sempre lá pelo flog, e convido os seus amigos a darem uma passadinha por lá também.
Aquele lá é o meu Boteco!

:)

Valeu Edu!

Bj