15.3.06

CONTRA O MAU-OLHADO

"Eu vou me banhar de manjericão
Vou sacudir a poeira do corpo batendo com a mão
E vou voltar lá pro meu congado
Pra pedir pro santo
Pra rezar quebranto
Cortar mau-olhado

Eu vou bater na madeira três vezes com dedo cruzado
Vou pendurar uma figa de aço no meu cordão
Em casa um galho de arruda é que corta
Um copo d'água no canto da porta
Vela acesa e uma pimenteira no portão

É com vovó Maria que tem simpatia pra corpo fechado
É com pai Benedito que benze os aflitos com um toque de mão
E pai Antônio cura desengano
E tem a reza de São Cipriano
E tem as ervas que abrem os caminhos do cristão"

(João Nogueira - Paulo Cesar Pinheiro)


Fiéis leitores, meus amigos, permitam-me o desabafo. Eis-me aí, na foto, dançando com minha bisavó, a famosíssima Bia (famosa para os que me lêem e para os que me têm por perto), provavelmente em 1980, no apartamento 203 da Rua São Francisco Xavier 90, Tijuca, obviamente. Tinha eu 11 anos de idade, e a pouca nitidez da foto deve-se ao fato de que a mesma foi tirada por minhas mãos trêmulas, com uma câmera digital, diante da imagem do slide projetado na parede da casa de papai e mamãe no domingo, quando fui, súbito, arremessado ao passado durante as mais de quatro horas de sessão de filmes. E por quê lhes conto isso? O que vocês tem a ver com minha vida? Explico.

Ontem papai deu-me sonoro esporro (ouço as palavras que leio) e reproduzo aqui o pito (eu disse "pito" porque estou embriagado de minha bisavó):

"Du, uma vez mais lamento como voce está tomando a sua decisão, que deve ser a 27ª decisão, e sempre com os Zybans da vida, com os maços na cabeceira, com os amigos te alertando, e você jurando que nunca mais. Du, quando se quer realmente tomar uma decisão, ninguém precisa saber, ninguém precisa ser testemunha, não é preciso lamentar o isqueiro novo, nada disso é preciso!!!"

Vejam vocês que eu fiquei assombrado com a mensagem. Parece que depois de 36 anos o papai ainda não me conhece. E assombrou-me, violentamente, a seguinte frase: "(...) quando se quer realmente tomar uma decisão, ninguém precisa saber, ninguém precisa ser testemunha...". Ora, ora, ora.

Desde que, meninote, fui instruído a gritar "paiê, acabei!!!!!" ou "manhê, acabei!!!!!" depois do cocô que nunca mais perdi esses impulsos de propaganda, de auto-promoção, de súbitos desejos de a tudo anunciar no outdoor. Lembro-me de, meninote, sentado no penico, pensar justamente nisso, no absurdo que era esse alardear do fim do cocô. As visitas na sala da casa de minha avó, e eu lá do banheiro:

- Manhêêêêê?

Ela tentando disfarçar:

- Já vou!

E eu de pé com o penico entre as pernas:

- Acabei!!!!!

Ficava orgulhosíssimo, ainda mais quando percebia os olhares de reprovação das amigas de minha avó, aqueles cabelos azulados reluzentes, todas em choque, velhas que, com raríssimas exceções, eu achava chatíssimas, o que me dava um prazer imenso em chocá-las. E passei a tomar gosto pela autopromoção, pela exposição permanente do que me vai na alma, do meu dia-a-dia, e não posso me arrepender, eis que daí, dessa exposição olímpica, foram aparecendo o Szegeri, a Ju Amaral, a Inês Baptista, o Vicente Melo, a Lu Matos, gente que, pelo jeito, tomou gosto por me ver e me saber. E papai está cansado de saber disso.

Volta e meia bate o telefone pra mim com o mesmo conselho:

- Filhão, diz pro papai, diz... O que interessa às pessoas a feijoada que você fez no domingo? A próxima vai azedar! Olha o olho grande! Olha o olho gordo!

E eu, confiando na tribo da qual sou íntimo, arco e flecha imaginários na mão, sigo assim, ó, escancarando as janelas, sem medo do mau agouro.

Até.

2 comentários:

Zé Sergio disse...

Gosto de gente assim, que faz merda e anuncia aos quatro ventos (puuuummmm) que fez! :>)

Coelho disse...

Seu Issac,
Fique tranqüilo, não vai azedar nada não... Por milhares de razões, mas principalmente porque o número de pessoas que torce para dar certo é muito maior do que as que colocam olho gordo!