4.3.06

ELIS REGINA, A PIMENTINHA


"Adeus! Adeus! Adeus!
Palavra que faz chorar
Adeus! Adeus! Adeus!
Não há quem possa suportar..."

(Noel Rosa)

Em 02 de agosto de 1997 nascia ela, Elis Regina of Royal Fashion, a quem chamamos Pimentinha. E eis que ontem, depois de meses de sofrimento e dor, recebemos o telefonema da veterinária, Renata, dando-nos a pior das notícias: ela sofre de câncer de pele, doença irreversível, incurável, e o mais correto, o mais humano, seria marcarmos para o quanto antes, seu sacrifício. Isso porque a dor da mais doce cocker-spaniel do mundo não tem (nem teria) fim. E eu vi, pela primeira vez, o Sorriso Maracanã minguar de tal forma que não saberia, sequer, dizer a vocês o que foi Dani e o que fui eu diante da notícia. Posso falar por mim, que fui um triste olímpico.

Estávamos, eu e Dani, almoçando com Manguaça e Sônia em sua casa. E deu-se o telefonema. E eu precisei ligar pra mamãe, Szegeri, Dalton, Fefê, Magali, Dona Sá, e completado o ciclo que me cobriria emocionalmente, tomamos o rumo de casa, no que nos acompanhou a Manguaça e o Dalton, meu irmão, e cada vez mais meu irmão. E bebemos, e fizemos festinha na doce cocker-spaniel, e fomos tomando cada vez mais consciência dessa barbaridade, que confunde-se com profunda sanidade, de que temos sua partida marcada para a manhã de domingo, pondo fim ao sofrimento da Pimentinha e ao nosso próprio, que preferimos, depois de uma lancinante conversa, conviver com a dor da saudade a ter de conviver com a dor física que também nos atingia.

Nesse momento escrevo sob o efeito de uísque, lágrimas incessantes, a Pimentinha dorme atrás de mim sob o efeito de mil analgésicos, Dani Sorriso Maracanã prossegue arrasada, e eu continuo ouvindo o Szegeri mandando beijos diretamente de Pouso da Cajaíba, de onde telefonou atendendo meu recado, que só os irmãos sabem mandar, ouvindo e sentindo o carinho da Iara, sua filha com a Rai, que é madrinha da nossa cadelinha (ela, Iara), as palavras doces da Magali, do Fefê, da Dona Sá, o conforto inacreditável das palavras de minha mãe e de minha avó, e o abraço reconfortante da Manguaça e do Dalton, que saíram há pouco daqui.

E que vocês me perdoem o que pode lhes parecer lugar-comum (afinal quem tem um cãozinho nutre um amor quase que impossível de ser explicado), mas desde 1997 que eu acostumei-me a chegar em casa e dar de cara com os olhos brilhantes da Pimentinha, suas lambidas-beijos de extrema fidelidade, suas demonstrações infinitas de amor por mim e pela Dani, sua felicidade evidente diante dos mares de carinho nos quais navegou, lépida, durante pouco mais de oito anos de vida.

Hoje, sábado (nesse momento é uma da manhã), que será nosso último dia na companhia da Pimentinha, faremos com ela passeios indizíveis e brincadeiras que poderão parecer bizarras, mas nada importará diante do amor que nos moverá em direção a esse troço estranhíssimo a que chamamos perpetuação.

E não me é possível fechar o Buteco por hoje sem agradecer, do fundo do coração, doído mas grato, a todos os que se envolveram profissionalmente com a Pimentinha. Todos, sem exceção, dividiram conosco todas as dores e foram verdadeiras fortalezas a nos servir de amparo: Márcia, Renata, Rita, Gonçalves e Rubinho, da Vet Clinic, na Gávea, Vanessa, colega de trabalho da Dani que vem dando uma ajuda nos últimos dias, Elsie, Luciana e Michele, da Carícios & Petiscos. A eles, todos, minha gratidão e meu carinho tornado público no balcão imaginário.

Vou tentar ser puro como a Iara, amanhã, pra crer no que me disse a doce Railídia ao telefone há pouco: a Pimentinha vai, serelepíssima, farrear no céu dos cachorros.

E quero fechar quebrando o sigilo de correspondência de mamãe, que mandou-me, há poucos minutos, um email que só mãe mesmo é capaz de escrever:

"Du querido, quero estar com vocês amanhã!!!!! Diga-me a hora, o lugar, e estarei junto. Nada a dizer, nada mesmo. Assim, quero permanecer com vocês, em silêncio, com respeito, com carinho e com a fé que não me abandona! Quero ajudar no choro sem apego que assiste a decisão de adeus com hora marcada. Quero estar com vocês por mim, por vocês e como uma forma de homenagear a Pimenta que assistiu tantas coisas nas nossas vidas e nos premiou com a sua alegria desastrada, ingênua, mansa, doce, inquieta como as almas dos donos! Haverá um lugar para essas energias que equilibram o planeta com as suas genuínas almas lotadas de manifestações de amor na sua mais simples expressão. Pimenta vai ficar virtual, coisa de alma pura que não se deleta nunca!!! Muitos beijos pra vocês e um afago na Pinta!

PS: Preciso registrar que enquanto escrevia pra você, o Estefi (1) ficou de prontidão, ao meu lado, olhando firme pra mim e miando de forma absurdamente alta como nunca fez, exceto quando a Pimenta invadiu a área, devorou toda a comida dele e bebeu toda a água ignorando, solenemente, a presença do morador da casa!! Quem não entende de alma não sabe de vibração amorosa!"

Até.

(1) Estefi é o gatinho de papai e mamãe

4 comentários:

∫nês disse...

Sei o que sentem.
Perde-se um Amigo, note-se com "A" grande.

Fico sentida com a vossa dor mas, acreditem, estão, com o vosso gesto e no vosso sofrer, a retribuir todo o carinho e companheirismo com que, tenho a certeza, a Pimenta sempre vos presenceou.

Uma festinha para a Pimenta e um abraço muito forte para vocês.

Lucia disse...

Esse mundo é mesmo muito pequeno!
Rubinho é um excelente veterinário!
Minha querida e amada gatinha Bola, passou por suas mãos para confirmar o diagnostico feito pela veterinaria e amiga, que dela cuidava. Excelente veterinária também, a Ana, e tem o Rubinho em altissíma conta.
Só quem teve essa troca com um bichinho, pode saber a dimensão do que se sente.
Todos perguntavam por ela. Era um membro da família.
Minha gata morreu com 15 anos.
Durante os 2 últimos anos de sua vida, conseguimos manter um modo de vida que ela se sentia bem.
A "jaquatirica" como era conhecida nos consultorios por onde passava, porque ficava "meio brava", nunca vai ter outra igual!
A Saudade é Eterna!
Mas o que passei de bom com ela também!

beijo com carinho prá vocês.

Roberta Cunha Valente disse...

Ai, ai, ai, Edu... chorei ao ler a cartinha de sua mãe!!!!!
Eu já tive de sacrificar um gato que eu amava muito. Não dá pra explicar, é uma dor muito grande. Desculpa mas não consegui chegar aqui antes, fiquei sabendo pela Ste ontem. Ia te ligar, mas era de madrugada. Força aí pra vcs.
beijos

Bruno Ribeiro disse...

Quando Baleia morre, sacrificada em "Vidas Secas", ela vai para o Céu dos Cachorros, como citou a Railídia. No Céu dos cachorros, criado por Graciliano, Pimentinha corre por campos verdes atrás de preás.

O texto é antigo, mas senti uma bruta tristeza por você, mano. E fiquei pensando no dia da morte do meu cachorro, o Uísque. Espero que viva muito, o meu amigo.

Beijo.