27.3.06

EU, ESTRANGEIRO NA BARRA



"E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento"

(Caetano Veloso)


Passei, no sábado passado, por estranhíssima experiência. Já lhes disse milhares de vezes que só vou à Barra da Tijuca (cada vez menos da Tijuca, diga-se de passagem, e cada vez mais americanizada) para visitar a Magali, a irmã que eu não tive, e cia.. Nada mais me seduz naquele pedaço do Rio de Janeiro. Aliás, justiça seja feita, um pedaço belíssimo e a fotografia não me deixa mentir. Mas nada ali é Rio de Janeiro e eu sou capaz de ser mais amplo e dizer que nada ali é brasileiro. Da patética Estátua da Liberdade em frente ao (vão tomando nota!) New York City Center, passando pelo Barra Garden, Barra Mall, Barra Medical Center e por outras babaquices e você definitivamente sente-se fora da ordem. Pois bem. Fui, no sábado, deixar a Sorriso Maracanã às oito e meia da manhã no (vão tomando nota!) Barra Tower para um compromisso de trabalho que duraria até às cinco da tarde. Como eu iria buscá-la, pensei: vou ficar na praia, lendo, depois vou ver as meninas na Magali, depois venho buscá-la. E assim fiz. E eis que aí deu-se a estranhíssima experiência.

Antes, porém, breve explicação para que tudo "make sense" (isso vai em homenagem ao Szegeri, contaminado pelos arrancos em inglês que escapam da Maracanã, vez por outra, e para que fique ainda mais coerente com o cenário).

Estou com 36 anos. E há 72 anos eu vou à praia em Ipanema. É bem verdade que durante um período da minha adolescência eu ia à praia na Barra, mas isso durou pouco e por isso omito o fato. Voltando. Há 72 anos eu vou à praia em Ipanema. Em frente à Barraca do Mineiro, o bom Miguel, entre a Vinicius de Moraes e a Farme de Amoedo. Obsessivo que sou, fico no mesmo metro quadrado de areia, sei de cor os prédios às minhas costas, as ilhas à minha frente, cumprimento o Dois Irmãos à minha direita, o Arpoador à minha esquerda, e todos os freqüentadores não me são estranhos. Ir à praia na Barra, depois de 72 anos, pareceu-me que seria levemente desconfortável.

E foi.

Sabem o que é ambiente hostil? Pois é. Sei que lhes parecerá pequena doença, e reconheço que pode ser, pode ser! Começando por estacionar o carro. Encontro uma vaga. Embico o carro. E vem um guardador. Não sendo o Paulo, meu guardador de fé em Ipanema, com quem deixo sem medo a chave do carro, já fico puto. Abaixo o vidro e digo:

- Que foi?

- Quer a vaga, meu patrão?

- É tua?

- Ô, patrão... devagar, patrão...

- Não sou teu patrão, malandro. Cadê o tíquete do estacionamento?

- Não tem, chefia...

- Então não tem dinheiro também. Bom dia.

Tomei o rumo da praia. Quase fui atropelado. A largura da Avenida Sernambetiba difere da largura da Vieira Souto, razão pela qual distrai-me e por pouco não fui pra Terra do Pé Junto. Cheguei à areia. E que horror. Que horror!

Toneladas de barracas de ambulantes. Mas tomem nota. Em Ipanema há a Barraca do Mineiro, a Barraca da Dilma, a Barraca do Uruguaio. Naquele breve trecho onde eu estava (em frente ao Barramares, pedaço da praia que é uma espécie de filial desativada da Praça Saens Peña, que aquilo era assim de tijucano!) as barracas que eu avistava eram a Brother´s Dream, Barra´s Point e Unforgetable. De chorar.

Lembrei-me do Dalton, que ficaria "puzzled" junto comigo. Tudo me era estranho. Cheguei a achar que o mar era doce. E tudo culminou quando, interrompendo minha leitura, um camarada a quem nunca havia visto na vida chegou-se e disse:

- Ô, brou... Eu vi que tu tem protetor solar aê... Dá pra emprestar?

Sem tirar os olhos do livro:

- Não.

- What? - disse o cara - O que é que custa, brother?

Daí tirei os olhos do livro:

- Custa R$15,00 em qualquer farmácia.

Ele saiu e senti-me calmíssimo. Vá entender.


Mudando o rumo da prosa, de pato a ganso.

Faz anos hoje, 27 de março, a Inês, a quem já tantas vezes referi-me aqui no Buteco. Eu e Dani a conhecemos no final do ano passado, ela que esteve por uns dias no Brasil, e depois de uma noitada rápida no Trapiche Gamboa, uma clássica passada no Capela (onde cantei com sotaque lusitano, lembram?), uma feijoada deliciosa no Bar do Mineiro em Santa Teresa e uma passadinha a jato no "Nem Muda Nem Sai de Cima" estabeleceu-se um bem querer mútuo que rende frutos.

Já lhes disse, por exemplo, que a Inês, que mora nos EUA, num gesto dulcíssimo, fez a ponte entre nós (eu e Dani) e seus pais (que provam que é mesmo pela árvore que se conhece o fruto) e durante nossa viagem a Portugal, em maio/junho, ficaremos por um ou dois dias em Setúbal, onde moram Próspero e Cidália. Não lhes disse, e digo agora, que mandou-nos carinhosíssima carta, manuscrita (!!!), com um CD com, vejam isso, 46 horas de música, suas preferidas. Um carinho só.

Pois então.

Todo mundo tem suas maluquices e suas obsessões, eu que o diga. A Inês é doida pelo amarelo, e vive a repetir isso.

Então, eu e a Sorriso Maracanã, de pé no balcão imaginário do Buteco, erguemos o copo à sua saúde e embarcamos no delírio da imagem, oferecendo a ela, através do monitor (haverá um dia em que isso será possível?) tulipas amarelas pela data de hoje. Muita saúde, muitas felicidades, Inês, e todo nosso carinho.

Até.

5 comentários:

∫nês disse...

Como a emoção que senti (e ainda sinto) ao ler estas linhas é grande demais para ser expressa em palavras, digo apenas (e perceberão tudo o que quero dizer):

- 'A vossa!!! 'A vossa!!!
(como a Dani tanto gostou e fez questão de repetir o brinde no Mineiro, só para escutar de novo).

Bem hajam meus queridos!
Saudade, assim ó... transatlântica!

Sérgio Teixeira disse...

Edu,

eu adorei essa história da Barra ser cada vez menos da Tijuca! Eu também detesto aquilo que não é Rio de Janeiro nunca.

Abçs.

Margarida Maria disse...

É verdade mesmo que a Barra é de tirar a paciência da gente! Não se vê quase nada em português por aquelas bandas. Mas as barracas de praia com esses nomes é demais pra minha paciência :-)

Um beijo pra Inês, leio sempre o CasacoAmarelo.

Flávio disse...

Não tem boteco, não dá para andar a pé e parece Miami. É motivo mais que suficiente para não ir lá.

LUCIA disse...

A Barra é muito estranha mesmo!
Tô imaginando a cena do protetor solar...


Você vai a praia em frente ao Mineiro??
Conhece a Dilma e seu chapelão???
Já provou os pasteis de forno da Dayse??
Eu fico em frente a Denise!
Adoro a praia ali.

Ando quieta, mas venho sempre aqui.

Beijo para Inês.

:)