10.3.06

FUTON NA TIJUCA


"Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal"


(Noel Rosa)

A foto, tirada em 30 de janeiro de 2005, mostra dois tesouros, Betinha e Dani Sorriso Maracanã, abraçadas num dos quartos do apartamento de Betinha e Flavinho, aliás, ambas, juntas, pela segunda vez na semana aqui no Buteco, embelezando demais o furdunço virtual. Mas não é delas que vou falar hoje (antes fosse, antes fosse!). É do futon. Mas não é desse futon que vou falar hoje (e de novo, antes fosse, antes fosse!).

É do nosso, meu e de Dani. E quem diria. Explico.

Quando naquele janeiro de 2005 eu adentrei o apartamento no Flamengo e vi um Flavinho (egresso do Cachambi), eufórico, gritando pra mim e pra Dani "venha ver nosso futon", deu-se um deus-nos-acuda. Olhei pra Dani e disse:

- Topas? - perguntei já afrouxando o cinto.

E ela sem entender minha pergunta:

- Topo o quê?

- Assistir ao futon deles... - pensei naquilo, pensei naquilo!

Dani, Betinha e Flavinho rolaram no chão de rir enquanto me explicavam - e me mostravam - o tal futon.

Passaram-se meses e fomos, eu e Dani, à São Paulo, e ficamos, como é praxe, hospedados na casa de meu mano Szegeri e da Stê. O Szegeri, que tem os olhos saltados e expressivos, abriu-nos a porta com um sorriso quase-Maracanã (mas bem mais feio, refiro-me ao tamanho). E disse:

- Tcharammm! Temos uma sur-pre-sa pra vocês... - e levou-nos, pé ante pé, até o quarto dos fundos, onde sempre dormimos sobre um colchão de casal posto no chão, sem estrado. Confortabilíssimo.

Abriu a porta devagarinho, acendeu a luz e gritou:

- Compramos um futon para vocês! - e ficou dando saltos ornamentais desajeitadíssimos sobre a coisa.

Eu, confesso, tive vertigens. Estava, definitivamente, disseminada a epidemia do futon.

Tive uma noite péssima. Suei horrores e senti a pele pinicada por uns troços que os fãs do futon chamam de algodão, fibras naturais e látex (todos repetem a mesmíssima coisa). E bradei aos céus cinzentos de São Paulo na manhã seguinte:

- Nunca (usei a mesma ênfase no "nunca" do Szegeri) vocês me verão embarcar nessa onda oriental modernosa! Nunca!

Pois bem.

Ontem à tardinha a Sorriso Maracanã me telefonou lânguida:

- Gugu... (não sei a origem do apelido)... você não quer vir me encontrar aqui na Barra, não?

- Aonde? (é assim: eu ouço a palavra "Barra" e tenho reações estranhíssimas)

- Ah, Gugu... vem...

Eu fui. Sacumé... Quinta-feira. Uma canícula quase que insuportável. Paguei pra ver.

No meio do caminho toca o celular.

- Gugu... me encontra aqui no Casa Shopping?

- Aonde? (é assim: eu ouço a palavra "shopping" e meus batimentos vão à lua)

- Ah, Gugu... vem...

Eu fui.

E deu-se a hedionda realidade.

Dani levou-me a uma loja para comprar o quê?

Um futon.

Diante de meus rodopios diante da entrada do estabelecimento, a vendedora me abanando com um leque com motivos japoneses, Dani disse:

- Calma, Gugu... É pro Szegeri, tadinho... Pra Stê... Eles nunca têm conforto lá em casa...

- Pra quem?

- E além do mais, a Guerreira tem futon, a Fumaça tem futon...

- E daí, porra?!

E vendedora, tadinha, tentando ajudar, fez merda:

- É... e o Ed Motta esteve aqui na semana passada e também comprou um...

- Quem?

Nem fui respondido e partiram as duas de mãos dadas pro interior da loja.

Meus queridos leitores, não resumiu-se a um futon. Eu assisti, impávido e impotente, a vendedora (dona de uma lábia capaz de fazer o Brizola no auge parecer um petiz no Jardim de Infância) convencendo a Dani.

Não bastava comprar o futon. Era preciso uma sobrecapa, dois zabuton e duas almofadas fofas. E a Dani:

- Gugu... gostou?

Como eu apenas chorava, borrando os quatro cheques pré-datados, não respondi.

Vou explicar resumidamente a coisa.

Um colchão custa "x". Um futon, muito mais desconfortável, "5x".

Uma almofada comum custa "y". Uma almofada fofa, "10y".

E se uma almofada fofa custa "z", um zabuton custa "15z".

Porra! Um zabuton!!!!! Ia me esquecendo de lhes dizer o que é um zabuton (e o faço com uma vergonha olímpica...). Zabuton é uma almofada idêntica a uma almofada comum, mas segundo a vendedora muito, muito, mas muito mais fofa que a almofada fofa.

Como é que eu vou explicar aos meus antepassados, aos meus contemporâneos, ao próprio Szegeri, cacete, que eu terei, em trinta dias, dois - eu disse dois! - zabuton em casa?????

Até.

5 comentários:

Zé Sergio disse...

O Guia Rio Botequim há muito já deu o que tinha que dar. R.I.P.

Cesar Nascimento disse...

Grande quadro Edu! De volta aos quadros de muito humor. Muito bom dá um filme na cabeça da gente. Abraços.

Roberta Cunha Valente disse...

Nossa, morri de rir só de imaginar sua cara! ahaahahahah

Renato Machado disse...

Esse é o Edu do livro! O Edu publicado! Gosto mais!

Flávio disse...

Se até eu me adaptei, você pode. Acho que vai até gostar.