17.3.06

RESENHA (por Juliana Amaral)


"Quando a maré vazar
Vou ver Juliana
Vou ver Juliana
Vou ver Juliana..."


(Dorival Caymmi)

Ói eu com a Juliana Amaral (esse site está desatualizado, eis que não menciona o disco novíssimo que a Ju está pra lançar, mas dá pra ouvir trecho de duas canções de seu primeiro disco e conhecer um cadinho de seu trabalho) na manhã do domingo de Carnaval! No Rio-Brasília, extensão da minha casa, um dos melhores e mais honestos butecos da Tijuca, onde sentamos pra beber e jogar conversa fora. Pois bem. Eu tenho, vira e mexe, falado da Ju procês (mas que raio de mineirice é essa?). A Ju, com quem venho trocando, há meses, emails que vão pra lá, emails que vêm pra cá, a Ju, que canta (e escreve) bem pra burro e que lança disco novo ainda este ano (depois aviso, depois aviso!), diz que leu meu livro e gostou. Escreve pra burro mesmo. A Betinha, por exemplo, leitora fidelíssima do Buteco, já disse isso até de público! Daí fiquei bobo. A Ju sabe das coisas, cês vão ver (chega, porra!). E não tô falando das minhas coisas, não! Ela sabe das coisas do mundo, minha nêga.

Pausa. Eu tô falando sério. Por que escrevo com esse sotaque? Abstinência? Szegeri, ajude-me.

Mas vamos lá.

A Ju mandou-me, há exatamente uma semana, um email lindo de morrer. Começa o email dizendo não se tratar de uma resenha. Mas é. Leiam (e vejam) vocês mesmos.

"Não é uma resenha.

T
ive dois professores que me ensinaram a ler.

A primeira, ainda no colegial, apresentou-me o Bispo do Rosário e seus bordados divinizados e malditos em lençóis do hospício, linhas tingidas de sangue e urina tecendo palavras ordenadas de modo carnavalesco, falando de Deus e dos homens em parangolés coloridos e tristes, rôtos e sagrados, ex-votos de sua maldição, de sua baixeza, de sua sacralidade. Lembro-me do assombro no coração de menina ainda quando entendi que não importa só a palavra, mas sim o seu movimento, seu contorno no mundo, seu espaço, sua espessura.

O outro, já na faculdade, (re)apresentou-me Manuel Bandeira e Machado de Assis e depois me desvirginou definitivamente para o maior de todos, Guimarães Rosa. A morte e a humildade do Manuel, a crueza e a precisão cirúrgica do Machado, e a violência, a bruteza e a imensidão do sertão do Guimarães, e suas infinitas belezas, forjaram em mim (pretensiosamente) um jeito de ler vertical, fizeram-me querer procurar com teimosia por entre as fibras do tecido (o manto do Bispo) os fios escondidos, as filigranas, aquilo que não se vê talvez, mas que está lá, e que faz o corpo da palavra, seu desenho, sua carnatura; aquilo que eu fecho os olhos e quase consigo pegar, morder, cravar minhas unhas. Ao mesmo tempo, pra desafiar minha natureza cartesiana (sou como o Riobaldo, quero o preto longe do branco, o feio apartado do bonito, cada coisa em seu lugar), com essa minha fôrma vou aprendendo, me forçando a aprender, a cada dia, a entender as coisas que são e não são ao mesmo tempo, no revés, pelos avessos, e isso é coisa que me dá um conforto e um desespero, mas que alimenta meu espírito e me dá oxigênio pra andar pra frente com o umbigo longe do chão, pés firmes, olhos erguidos.

Falo tudo isso porque não faria uma resenha do teu livro, não sei mais fazer isso, embora me dê sempre um aperto no peito em pensar que minha vocação primeira seria essa. O que posso, consigo e quero fazer é falar de duas coisinhas talvez meio escondidas, mas que tomam pra mim a dimensão das grandes felicidades, fruto disso aí que sou.

Gosto dos caminhos que vão paralelos às histórias, dois em especial: a tijucanice e o anacronismo. Como é próprio do discurso pessoal (e você faz muito bom uso da primeira pessoa, tanto na liberdade das digressões quanto no empréstimo da palavra a outro narrador), ele não prende o foco num só lugar, ele é redondo; as repetidas voltas a esses dois "assuntos", e a sua precisão em fazer isso de modo sempre variado - gradiente construído do pequeno ao grande, do tom esmaecido ao colorido intenso - avolumam o texto, costuram uma linha que transpassa os contos, refletindo sobre ele mesmo e dimensionando pra quem lê aquele que escreve e aquilo que se escreve no tempo e no espaço. Esses caminhos vão adjetivando e modulando o texto, e me dão aquela sensação de espessura, de corporeidade, de materialidade.

E gosto dos lirismos que vão tímidos em um ou outro lugar, palavras pequenas que revelam um olhar tão masculino (é preciso um parêntesis: as feministas de plantão virão certamente me bater com seus sutiãs queimados em riste; morram todas elas que não sabem ser amadas nem comidas nem nada...): a moça que limpa a boca com as costas das mãos, que deseja o cunhado no quarto ao lado; o amor do senhor pela mulher morta, seu delírio; a saudade da bisavó. O seu discurso me encanta justamente por sua masculinidade, pois que daí aparece a devoção - devoção essa que faz parte mais da natureza dos homens, assim como a amizade masculina cuja grandeza invejo. Há quem diga que é "o lado feminino" do escritor; eu, ao contrário, acredito ser esta a parte masculina, que não está dissociada de todas as outras (a força, o pragmatismo, a bruteza, a rigidez), e que só pode existir por causa dessas outras. É que eu definitivamente sou pela distinção dos gêneros, homem é homem, mulher é mulher, graças a Deus, são as diferenças que fazem a beleza dos amores, que só assim podem ser intransitivos e generosos.

Como nos mantos do Bispo, como nos detalhes preciosos do Machado, como na paixão bruta de Guimarães, como nos móveis do quarto do Manuel, (e sem comparar diretamente que não teria essa coragem, vou usando só de propícia metonímia) teu texto fala do pequeno pra dizer do grande, sai da esquina pra dizer dos cantos do meu peito, do peito de todos nós. E tem a tristeza, a tristeza. E traz depois o silêncio que sucede os grandes encontros.

Falei mais de mim do que do livro, que vergonha. Mas mesmo assim, lá vai.

Beijo grande,

Juliana

PS: porque sou apaixonada por ele, lá vai um pós-fácio: "Amigo, para mim, é só isso: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, ou quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é." (João Guimarães Rosa, in Grande Sertão: Veredas)"

E aí? É ou não é de me deixar bobo?

Até.

5 comentários:

Cesar Nascimento disse...

Edu diga a Juliana Amaral que se ela não sabe mais fazer resenha ninguém mais sabe. Lindíssimo texto.

Patricia Moreira disse...

Edu,
A única forma de expressão que consigo colocar em palavras é "ESPETACULAR"!

Szegeri disse...

O panóptico é a morte da sociedade. Ouça os mestres, ouça Orwell. Ouça papai. Acabei.

Marcelo disse...

Belo texto, belo texto...

(Edu, ainda não li seu livro. Não poderia fazê-lo, como vc sugeriu, durante a convalescência de uma hepatite. Por motivos óbvios!)

Anônimo disse...

Estava passando por acaso ontem em São José do Rio Preto quando ao lado da rodoviária estava acontecendo a virada cultural pauslista, fui surpreendido com uma vós suave fantástica foi a primeira vez que ouvi e virei fã da Juliana Amaral ja estou pedindo pra tocar na radio que mais ouço a eldorado fm .