13.3.06

UM CASAMENTO


"Não fumo lá pra brigar,
nóis fumo lá pra comer..."


(Adoniran Barbosa)

Casaram-se no sábado, 11 de março, Celsinho e Tathiana, na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, e a G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel desfilou, na mesmíssima avenida, no mesmíssimo dia, no mesmíssimo horário, o que quase deu ao casamento o feitio de um dos delírios do Nelson Rodrigues, que espezinhando o "avançado" Dom Hélder Câmara, previa missas com chocalhos, pandeiros e tamborins. Mas eu disse "quase", eis que o desfile atrasou e o casamento transcorreu sem qualquer perturbação. E eis aqui, agora, a primeira triste constatação. O casamento transcorreu sem qualquer perturbação e quase que sem qualquer assistência. Não fôssemos eu (Dani estava em Curitiba, a trabalho), Betinha, Flavinho, Barroca, Marquinho, Dalton, Maciste e Alexandre e não haveria ninguém pra contar história, tirando os pais e os padrinhos dos noivos, evidentemente.

Vejam do que é capaz a escumalha.

Tramando desde cedo sórdidos planos, Fefê, Vidal, Cachorro, Zé Colméia, Márcio Branco, Gaby, um membro da Magistratura, policiais de folga, todos tinham um orgulho de dizer "vamos apenas para comer", e assim fizeram, numa demonstração olímpica da mais ampla, rasa, geral e inequívoca ausência absoluta de mero resquício de educação.

E a festa? Vou falar sobre a festa.

Se na igreja duas mãos davam conta dos presentes, na festa, que realizou-se na suntuosa mansão do industrial Lobarinhas, havia mais de duas centenas de famintos que não tinham nem sombra de arrependimento pelo comportamento grosseiro, rude e primitivo. Um convidado, por exemplo, e não lhe darei o nome, disse-me a certa altura:

- Você foi à igreja?

- Fui.

E o paquiderme rolou as escadas da mansão me chamando de otário. E de boca cheia.

O Zé Colméia. Vou falar do Zé Colméia. Como é sabido, o Zé tem pra lá de 2 metros, calça 50, e estava, na noite do sábado, suando aquele suor oleoso que lhe dava aparência ainda mais assustadora. O Zé bebeu, durante a festa, cerveja, espumante, vinho tinto, Dry Martini, Cuba Libre, drinks coloridos com guarda-chuva espetado em frutas variadas e dizia, entre um gole e outro (geralmente com um drink diferente em cada mão):

- É de graça! É de graça!

Notem como a coisa se passou.

Havia Black Label, e havia Black Label à vontade.

Como é de se esperar em qualquer evento, a certa altura o uísque acabou. E um convidado (também não lhe direi o nome com medo de represálias, já que o sujeito anda armado) tomou um dos garçons pela gravata borboleta e disse, aos berros:

- Ô, caralho! Não era preferível servir Red Label a noite inteira? Traga mais uísque, esparro!

E o garçom, um senhor entrado em anos:

- Mas, senhor... Recebemos ordens de parar de serv...

Tomou, coitado, um murro que deve estar doendo até essa manhã de segunda-feira.

Lembrei-me de outra do Zé Colméia.

Estávamos numa espécie de sacada onde havia quatro mesas. E vieram Celsinho e Tathi para as fotos. Um foto, duas fotos, três fotos, e o Zé, finíssimo:

- Pô, Celsinho, tá bom de foto, porra! Desde que tu chegou aqui com esses fotógrafos emperrando o caminho que garçom nenhum consegue servir porra nenhuma! - e foi empurrando, sem cerimônia, o noivo e a noiva escada abaixo.

Mais tarde, já próximo do fim da festa - que foi regiamente servida, é preciso dizer isso - os garçons pararam de servir bebida alcoólica, até mesmo porque a gentalha estava começando a perder o prumo. Pra quê?!

Havia uma "ilha" onde dois homens preparavam os drinks. E, queridos leitores, eu assisti a uma invasão brutal, violenta mesmo, que nem os mais radicais membros do MST seriam capazes de reproduzir.

O Zé Colméia arrancou a faquinha da mão de um deles, que preparava uma capirinha. E espetou-a na barriga do cara:

- Malandro, tu quer morrer?

E o cara:

- Não, não, por favor, senhor, calma...

- Calma é o cacete! Sai fora daqui!

E invadiu, o Zé, a tal ilhota, e saiu distribuindo as bebidas que encontrou pelo balcão. Arrancou, com os dentes, a coroa de um abacaxi, deu um talho no alto da fruta e despejou, inteira, uma garrafa de vodka. E saiu flanando, com um canudinho, bebendo seu drink:

- Fala que eu sou foda, Edu!

Ficamos, eu e Dani (que chegou direto de Curitiba, lembrem-se), com Celsinho e Tathi até o apagar das luzes, naquele papo de consolo, eis que a reponsável pelo bufê apresentava a conta dos objetos roubados, como copos, cinzeiros, talheres, guardanapos, pratos e travessas de louça.

Como se vê, uma vergonha.

Até.

2 comentários:

Flávio disse...

Faltou mencionar os funcionários da casa tirando a decoração e arrumando as mesas, enquanto o Colméia e uns vinte ogros tomavam os últimos drinques e quebravam mesas de vidro pela casa.

Betinha disse...

Quer dizer que o Exu Meliante atacou de novo, Edu?... :-)