16.3.06

VATICÍNIO


"Confesso, querido diário...
Garanto, querido diário...
Constato, querido diário..."


(João Bosco - Aldir Blanc)

Olha... Não me bastava o pito do papai. Agora foi o Szegeri, justo ele, meu Otto particular, quem me esculhambou ontem através de um email que reli umas cem vezes e do qual não entendi patavinas (ainda estou bêbado de minha bisavó). Tem só um troço que fica claro na truncada mensagem de meu irmão paulista: ele anda odiando o Buteco, e isso me dá, creiam, cólicas que nem Ponstan cura, nem doses cavalares de ácido mefenâmico aliviam.

Falei em cólica e lembrei que ontem meu intestino não funcionou, graças à ausência do cigarro no organismo. Uma amiga, pesquisadora e ampla conhecedora da matéria, me garante que há uma substância no cigarro que vicia, também, o intestino, que passa a precisar da coisa pra funcionar. Mas hoje, mesmo sem cigarro, já deu tudo certo. E gritei "paiê, acabei!!!!!" apenas para me lembrar do som do grito, embora o interfone tenha tocado logo depois. Era o porteiro, preocupado.

De volta ao Szegeri (que deve ter a-d-o-r-a-d-o, assim como o papai, a confissão semi-escatológica de hoje, não bastasse a de ontem).

O Szegeri foi o primeiro a pousar aqueles olhos enormes e saltados, expressivíssimos, no Buteco, quando nem Buteco ainda era. Era "Opinião do Edu". E o Szegeri é mais antigo, é mais antigo! Vem dos tempos de "Sentando o Cacete", e isso, ó, faz muito tempo. E sempre foi, o Szegeri, um entusiasta. Emails elogiosos, telefonemas de rompante, comentários seguidos, dia após dia, lá estava ele, o Impronunciável, como o chamava o saudoso Toledo, lendo e lendo e lendo o que eu escrevia.

Hoje ainda lê, por certo.

Mas lê desanimadíssimo. Quando manifesta-se, o faz com um "Olá, Edu", "Bom dia, Edu", até que na terça-feira tascou lá, nos comentários, um triste, pesaroso, profundo (não estou a debochar de meu irmão, em absoluto) e definitivo "Tá vendo, Edu...", assim mesmo, com as reticências e sem a interrogação.

Li e fui, da leitura em diante, um deprimido.

Aumentei para 450mg a dosagem de Zyban pra ver se ajudava. Não resolveu e voltei à dosagem recomendada pela bula. Comprei "Serenus", um remedinho que faz propaganda na TV e mostra gente calmíssima depois de um comprimido com um copo d´água. Nada. Aquele "Tá vendo, Edu..." me soou como um vaticínio, um aruspício gravíssimo e vencendo a vergonha de parecer ignorante mandei um email para meu irmão, curto como seu comentário, dizendo apenas "Tá vendo o quê, Guru?", e é preciso dizer que o chamo de Guru desde o dia em que o exemplar funcionário público, diante de um prognóstico nebuloso envolvendo uma pessoa muito querida (não quero falar disso hoje), gargalhou como o Seu Tiriri e disse:

- Edu. Não é nada. Confie em mim.

Assim. Simples. E deu, depois, mais uma meia dúzia de provas de que aqueles olhos escondem algo que ainda não conheço.

Pois bem. Mandei o email. E o que veio de volta foi a tal resposta mais nebulosa que o prognóstico. Não entendi nada, e ainda agora - notem como estou perdido - me dói a verdade contida na mensagem cifrada.

Até.

3 comentários:

Szegeri disse...

Edu, meu mano:

Nossa geração não pode se dar ao luxo de ficar sem a força das tuas palavras. Você sabe disso (outros, maiores, já o disseram).

O bastão está contigo. Leve em frente. A porta larga leva a nenhures.

Beijo

Marcão disse...

Edu,

Gostei da informação que seu intestino só funciona depois de uma tragadinha. Perguntei a um médico o motivo do fenômeno e ele teve um feroz ataque de riso, sem me explicar.

Cesar Nascimento disse...

Não te achei perdido Edu. Reconheci seu velho estilo e mais uma pintura!