30.3.06

A XÊNIA E O SZEGERI


"Eu vou voltar aos velhos tempos de mim
vestir de novo o meu casaco marrom"


(Danilo Caymmi - Renato Corrêa - Guarabyra)


Escrevo ainda em estado de choque e explico.

Cheguei ontem do trabalho por volta das 19h, depois de um dia inteiro tomado por compromissos, cansado, a fim de um bom descanso. E fui, depois do banho, ao computador para ler uma coisa ou outra em busca de distração (Dani não estava, ainda, em casa). E foi o início de meu drama. Não. Drama, não. Foi o início do meu choque. Isso! Isso! Choque parece-me perfeito. O mesmo choque que você, meu fiel leitor, sofreu no instante em que deparou-se com essa senhora grisalha com esses olhos de "tô te vendo, hein...", bem lânguida.

Fui ao blog do meu irmão Szegeri. E - sinto o mesmíssimo choque agora, escrevendo sobre o troço - deparei-me com um arremesso ao passado protagonizado por ele. Num texto que ele chamou "Xênia e você". E quando eu li "Xênia e você", ou melhor, quando eu li apenas o nome "Xênia" (feio pra burro, diga-se de passagem), tive uma série de arrancos travados no peito. Vou explicando, vou explicando.

Meu primeiro choque foi sonoro. Eu fiquei repetindo (lembrem-se que sofro de TOC) o nome "Xênia" como se fosse um mantra (a empregada confessou-me, horas depois, que pensou seriamente em pedir demissão ao me ver andando em círculos na sala repetindo o nome feio) sem ligar o nome à pessoa.

Daí deu-se a luz. Sim! Xênia! Aquela apresentadora da TV Bandeirantes, programa que fazia um tremendo sucesso no ano de 1977!

Segundo e, talvez, maior choque. Foi quando eu li a seguinte frase escrita por ele, Fernando José Szegeri (escrevo seu nome inteiro para que tudo cresça em dramaticidade): "Quando eu era criança, morávamos numa casa de bairro onde eu, (...)".

Não sei se vocês já captaram a razão do meu choque praticamente anafilático e quase fatal. Fernando José Szegeri já foi criança.

Vejam bem uma coisa. Para mim, que o conheço já há uns 10 anos, o Szegeri nasceu da forma como é hoje.

Barbado. Peludo. Gordo. Já funcionário público e já sonhando com a aposentadoria. O Szegeri, para mim, foi contemporâneo do Borba Gato, o bandeirante paulista. Foi, conta a lenda (que repete-se até hoje), o que mais chorou quando enterrou o amigo, a quem chamava de Borbinha, em 1718. Em 9 de janeiro de 1822, foi Fernando José Szegeri quem deu uma força a D. Pedro I para que ele se mantivesse no Brasil contrariando as ordens das Cortes Portuguesas. Daí meu choque, absoluto, diante dessa confissão.

Mas há mais! Há ainda mais!

Novo choque ao ler a frase com que Fernando José Szegeri fecha o texto: "Mas hoje, imobilizado no trânsito, sapatos encharcados, deu uma tremenda vontade de ouvir a voz da Xênia embaixo de um túnel de almofadas e esperar minha mãe trazer uma bandeja bem cheirosa com misto quente e nescau batido no leite."

Vejam bem! Foram confissões demais, e ao mesmo tempo, para que meu combalido coração a tudo absorvesse.

Depois de confessar-se criança um dia (ainda acho que ele mente nesse trecho), ele teve, ontem, debaixo de um temporal paulista, a nostalgia do túnel de almofadas e da bandejinha com misto quente e Nescau batido no leite.

Não sei se vocês hão de concordar comigo. Mas eis aí um quadro impossível de ser composto.

O funcionário público exemplar, Fernando José Szegeri, escondido debaixo de um monte de almofadas esperando dona Cecília chegar com seu lanchinho.

Impossível. Um quadro inverossímel.

Só creio - e está lançado o desafio - com farta prova documental.

Até.

Um comentário:

Renato Machado disse...

Leio o Buteco diariamente. Na minha opinião esse texto é de longe o melhor dos últimos tempos.