27.4.06

A ESPIRAL - PARTE III, FINAL

Dez minutos para as quatro horas dessa madrugada de 27 de abril, e se ainda hoje, a poucas horas de completar 37 anos, ainda resta essa faculdade incoercível de sonhar e de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, e essa visão ampla dos acontecimentos, e essa impressionante e desnecessária presciência, e essa memória anterior de mundos inexistentes, e esse heroísmo estático, e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança, devo isso a essa mulher que me tem no colo, minha mãe, formosa, e para quem canto pra dentro, agora mesmo, "formosa, não faz assim...".

E não faz assim, formosa, porque eu não tenho mais o coração novo e à prova de emoções fortes que eu tinha nesse longínquo 69, nem tampouco essa capacidade se sorrir puro desse jeito. Vai que eu nem chego aos 37. Eu, hein! Toc-toc-toc, que viver é bom. Aliás, formosa, eu continuo cantando e, puta merda, eu precisava levar tão a sério essa história de que "ninguém tem nada de bom sem sofrer"?

minha mãe e eu, 1969, na Quinta da Boa Vista, RJ

Formosa, estava lembrando agorinha mesmo daquela manhã de domingo.

E vejam vocês, com quem divido esse arremesso ao passado dentro dessa espiral que me tira pela terceira noite seguida o sono e conseqüentemente os sonhos, se isso é possível e se teria sido possível eu ser 100% normal.

Sexta-feira, 25 de abril de 1969, vai mamãe ao médico. Exames, exames, exames, e diz o doutor:

- Muito bem, minha filha! Tudo em ordem! O bebê chega na segunda quinzena de maio!

Êta ferro a festa que foi.

Papai trabalhava, nessa época, na REDUC, refinaria da Petrobras, em Duque de Caxias, em regime de plantão. Pegava no batente às nove horas da manhã, na Brigada de Incêndio da empresa.

Já é madrugada de domingo e o velho Isaac acorda sobressaltado.

E lá, não um corpo estendido no chão, mas um índio, parrudíssimo, de pé ao lado da cama onde dormiam. Estranhamente, sente-se calmíssimo diante da visão, que é novidade até então. Papai - é ele quem conta - vê luzes impressionantes, coloridas, riscando o quarto do bebê que chegará na segunda quinzena de maio. Ouve uns sons, não os identifica, também vindos do quarto ao lado. E o caboclo dá o aviso. O curumim nasce hoje, domingo, dá um sorriso firme, faz que sim com a cabeça diante do susto do pai de primeira viagem e como surgiu, some. E somem as luzes, volta a fazer silêncio, e cadê que o velho Isaac voltou a dormir? Tinha de tomar o ônibus às seis da manhã. Levanta-se. Banho. E vai a formosa à cozinha preparar seu café, sua marmita, e vem o velho já pronto.

Faz um carinho na barriga da formosa:

- Não vou trabalhar... Nasce hoje, o bebê.

Aliás, ô tempo que permitia a ansiedade... menino ou menina?

- Mas o que é isso? - diz a formosa - Você não ouviu, Isaac? É para o meio de maio...

E faz um cafuné na cabeça de meu pai, que por sua vez conta pra formosa sobre a visita do caboclo, as luzes e os sons vindos do quarto, e mamãe diz apenas:

- Você está impressionado...

E meu pai não sossega enquanto não convoca a sogra para passar o domingo com a filha, não desencana enquanto não telefona para o médico que confirma o prognóstico. E segue o rumo do trabalho.

Chega à Duque de Caxias.

E dá de cara com seu chefe, aflitíssimo:

- Isaac! Volta pra casa, rapaz! Teu filho nascendo!

Antes das nove da manhã, ó, pow! Estoura a bolsa da formosa.

Façam uma idéia da viagem de volta de meu pobre pai, que encontra um bilhete em casa, Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, evidentemente, dando conta de que a formosa e a mãe estão na Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca, obviamente.

E façam uma idéia do encontro dos olhos dos dois. Papai com aquele olhar "não-te-disse" e mamãe com um espantadíssimo olhar de volta no melhor estilo "que-índio-é-esse".

Que índio é esse?

Sem mais detalhes.

Mas são hilariantes as histórias do curumim, ainda começando a falar, dizendo aos pais:

- Vô pro quarto brincar de flecha com meus amiguinhos.

Ou diante do marzão, na Praia do Pepino:

- no mar conversar um bocadinho e já volto.

E contam, a formosa e meu pai, que saltavam as veias do pescoço do garoto que gesticulava desesperado em direção ao horizonte, pra depois voltar pra areia calmo e com cara de satisfeito, aquele olhar "tudo-resolvido".

É isso.

Às 15h32min eu cheguei.

Quando eu for embora - toc-toc-toc, que quero seguir vivendo tendo tudo de bom mesmo que pra isso eu tenha de sofrer ainda mais, formosa... - tem gente já instruída pra abrir o gurufim com essa canção que, sabe-se lá por quê, me faz parecer o chafariz da Praça Xavier de Brito nos seus melhores dias, na Tijuca, é evidente.

"De que calada maneira
você chega assim sorrindo.
Como se fosse a primavera...
Eu morrendo...
E de que modo sutil
me derramou na camisa
todas as flores de abril.

Quem lhe disse que eu era
riso sempre e nunca pranto.
Como se fosse a primavera...
Não sou tanto...
No entanto, que espiritual
você me dar uma rosa
de seu rosal principal

De que calada maneira
você chega assim sorrindo.
Como se fosse a primavera...
Eu morrendo...
Eu morrendo!"


Até.

PS: duas coisas já me derrubaram antes mesmo do sol aparecer. O primeiro telefonema, da mais-que-doce Robertinha Valente, de SP, longe infelizmente, e o primeiro email, empolgadíssimo, do Cristiano, da França, ainda mais longe. E, putz!, eu consigo ficar ainda mais bobo e ainda mais emotivo nesse dia.

8 comentários:

Susy disse...

Parabéns!

Lu Guerreira disse...

Parabéns Querido!!!, muita saúde, muitos textos maravilhosos pra gente, que venham outros livros, muito amor, muitas alegrias, muito tudo de bom.
E como você mesmo gosta de dizer, numa viagem ao passado me lembro do dia em que te conheci, no encontro com os alunos da Dani, lá em 99, no Hipódromo, fomos só nós 2, eu a única aluna e você no inicinho de namoro espetando palitos na calça da Dani. De lá partimos para o Severina... e vocês começaram a me apresentar ao samba, obrigada querido, beijo enorme. Amo vocês dois. Estou fazendo de tudo para conseguir ir hoje, estou no hotel e ainda não sei se vai dar. Beijos

Marcelo disse...

Parabéns, Edu! Não sei se poderei ir hoje à noite, pois viajo amanhã cedo. Portanto, deixo aqui meu abraço!

Margarida Maria disse...

Nós que somos presenteados diariamente com seus textos e sua poesia temos que presentar você com votos de muita saúde por muitos e muitos anos!

juliana amaral disse...

Querido meu,
hoje acordei de manhã cedo pensando nas palavras que colecionaria pro seu primeiro presente. Aliás, coisa linda que é a palavra, o presente. E daí lembrei desse aqui, quase tolo (como têm de ser os presentes), tão infantil (como é a delícia de ganhar o presente) e tão infinito (como quer ser o afeto que se dá de presente). Então lá vai. Abra o laço de fita vermelho, desembrulhe o papel de seda azul, e leia devagar, pra aproveitar cada pedacinho. Junto dele, meu carinho. E à noite o samba será pra você, seu outro presente.

"Mania de explicação" - de Adriana Falcão

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.
Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
Ela achava o mundo do lado de fora um pouquinho complicado. Se cada um simplificasse as coisas, o mundo podia ser mais fácil, ela pensava.
Então tentava simplificar o mundo dentro da sua cabeça.
Simplificar é quando em vez de pensar em 4/8 a pessoa pensa logo em 1/2.
Um meio, quando é escrito em números, sempre quer dizer "metade"; mas quando é escrito em letras pode também querer dizer "um jeito".
Existem vários jeitos de entender o mundo. Ela tentava explicar de um jeito que ficasse mais bonito."Essa menina pensa que é filósofa", as pessoas falavam.
Filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos.
De tanto que a menina explicava, as pessoas às vezes se irritavam
(irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito) e terminavam indo embora, deixando a menina lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o seu pensamento
reapresenta um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do seu sossego.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do seu pensamento.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo.
Apesar é uma dificuldade que não é grande o suficiente.
Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso.
Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.
Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia
querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Vaidade é um espelho em todos os lugares ao mesmo tempo.
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Ansiedade é quando faltam sempre cinco minutos para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta o seu coração.
Alegria é um bloco de carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você mesmo e se empresta para os outros.
Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas
geralmente não podia.
Perdão é quando o natal acontece em maio, por exemplo.
Exemplo é quando a explicação não vai direto ao assunto.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Beijo é um carinho que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo.
Gostar é quando acontece uma festa de aniversário em seu peito.
Amor é um gostar que não diminui de um aniversário para o outro.
Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro...
Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse
explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina...

Que Deus te abençôe e te guarde, hoje e sempre.

Lucia disse...

Então,Parabéns!!

Um tempo sem passar por aqui e mudou tudo!
Seu pai era da Brigada da Reduc?
Já ouvi do meu ex sogro, muitas histórias sobre eles.

Parabéns de novo!

Bj,

Lucia

Cesar Nascimento disse...

Então Edu, meus parabéns sinceros. Sou seu fã. E nesse texto de hoje, amigo, você se superou. Não queria estar na pele de sua mãe ao ler isso. De arrepiar de tão emocionante.

Miguel disse...

Grande Eduardo
Forte abraço pela data.
Parabéns.