9.6.06

1986 - 2006

(pro Marcelo Vidal)

Anteontem, quarta-feira, depois de longo e tenebroso inverno, abri o Buteco do Edu, o real, evidentemente. Vidal bateu-me o telefone à tarde, assim como quem não quer nada perguntou-me sobre a viagem (o curioso é que já o tinha feito na véspera), disse que estava sozinho em casa, Gláucia viajando a trabalho, e tascou a pergunta de voleio:

- Vamos beber um chope hoje?

E eu de primeira:

- Apareça lá em casa às oito e meia. Bebemos um uísque e depois esticamos no Rio-Brasília.

E assim foi.

Acontece que as coisas comigo, ainda bem!, ainda bem!, sempre ganham tintas que tornam a paisagem mais bonita. Vejam só.

Toca o telefone em casa. Atendo:

- Oi, querido. - é a voz inconfundível do Pompa.

O Szegeri fez (e recebeu de volta, uma a uma) olímpicas declarações de saudade e ficamos uns dez minutos num daqueles papos que, eu costumo dizer sem modéstia, deveriam ser gravados, catalogados e guardados. É bem verdade que ele interrompeu abruptamente uma de minhas histórias - eu falo pelos cotovelos quando tenho saudade:

- Eduzinho, estou com uma lentilha no fogo, falamos depois, beijo, tchau.

Fui salvo da depressão (ser trocado por lentilha é dose) pelo interfone:

- Edu, está subindo o seu irmão.

Notem um troço, e por favor, acompanhem meu raciocínio. O Vidal, embora meu irmão há séculos, é tímido e retraído como um pau-de-arara de chinelo em Lichtenstein. Seu telefonema à tarde, o tom da convocação para o chope, e esse "está subindo o seu irmão" - é evidente que ele anunciou-se assim para o porteiro - gerou em mim um certeza definitiva: a noite seria, no mínimo, emocionante.

Bebemos, cada um, duas doses caprichadas de RedLabel, mostrei-lhe algumas fotos da viagem, mostrei-lhe alguns exemplares da coleção d´"O Pasquim" e descemos rumo ao Rio-Brasília, extensão da minha casa, para bebermos cerveja e comermos alguma coisa. Se a Gláucia estava fora do Rio a trabalho, Dani estava jantando com a Banana (de quem tenho aguda saudade) e estávamos, portanto, os dois, naquele clima beber-sem-culpa que facilita a fluência da conversa.

Uma Brahma, duas Brahmas, três Brahmas, pedimos carne assada com batatas coradas, quatro Brahmas, uma dose de maracujazinho, e o Vidal, a Lenda (mais lendário que nunca nessa noite), de olhos semi-marejados (eu vi!, eu vi!):

- Edu... ´cê tá lembrando que depois de amanhã começa a Copa e que há exatos vinte anos assistimos ao primeiro jogo do Brasil juntos, na casa do Marquinho, na Grajaú?

Pra quê ele foi fazer essa pergunta?!?!?!?!?!

Em questão de segundos eu estava com dezessete anos, arremessado que fui ao passado por aquela pergunta que encerrava uma certeza temporal bíblica. Em questão de segundos estávamos todos numa grande laje no Grajaú, eu, ele, Vaninha, Marcinha, Lula, Marquinho, Denise, Nêga, Telmo, Patrícia, Viana, Claudinha Lyra, Janine, todos bebendo industrialmente (já, diga-se) diante de uma pequena TV a cores, olhos grudados no Estádio Jalisco, em Guadalajara, primeiro de junho de 86, acompanhando os passos de Carlos, Edson, Julio Cesar, Edinho, Branco, Elzo, Alemão, Junior, Sócrates, Casa Grande, Careca, Falcão e Müller, vibrando como loucos com o gol do Sócrates no segundo-tempo.

Vidal e eu, diversas fotos, diversas épocas


Mais uma Brahma, mais duas Brahmas, e ficamos fazendo dos anos cartas e montando canastras à mesa, comprando e recomprando os mortos, chamei o Marco Aurélio pro jogo, convoquei o Toledo, o Fabinho, batemos várias vezes, contamos e recontamos os pontos, e daí lembramos de 90, de 94, de 98, de 2002, falamos sobre a épica Copa de 1998, porrancas homéricas na cobertura da Conde de Bonfim onde morava o Vidal, eu, ele próprio, Fefê, Mauro, Lélio e Valmir, e já era tarde, bastante tarde, o que comprova que quando amigos estão à mesa o relógio não marca as horas. Eu disse da cobertura onde morava o Vidal. Mas lá ainda mora o Valmir, seu pai. E ficamos de tentar combinar - vejam a indispensável e impressionante necessidade do homem viver as alegorias que rasgam a alma - um uísque, qualquer dia desses, de preferência num dia de jogo do Brasil, bem antes da hora do pontapé inicial, o mesmo time, os mesmos jogadores, a mesma tática, a mesma mágica, o mesmo sonho.

Eis aí outra verdade: você percebe o quanto é fundamental um amigo na sua vida quando vai remexer velhos álbuns de fotografia. O cara tá sempre lá. Na alta e na baixa. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Troço muito mais bonito que o nhém-nhém-nhém dos padrecos que, inclusive, suprimiram o último binômio, se é que me entendem.

Até.

5 comentários:

Gabriela disse...

Nossa Edu! Eu invejo (numa boa e sem desejar nada de mal) suas relações com seus amigos. Sempre que vc fala deles eu me emociono. Bj e bom dia.

Cesar Nascimento disse...

Para variar, um quadro. Torço para que nossos craques joguem tanto nas quatro linhas quanto você no Buteco.

Szegeri disse...

Hmmmmmmm..... na canela, não!!!

Roberto Romualdo disse...

BRASIL! BRASIL! BRASIL! Grande Edu, puta texto cara, boa sorte pra nós durante a Copa!

Anônimo disse...

Fantástico! Eu estava nesse dia também
Parabéns pela lembrança de época tão saudosa