30.6.06

ACR E UM PLÁGIO

Hoje farei a demonstração de um plágio nojento, às escâncaras. Se encaro a cruzada contra os atentados planejados pelo Jota com bom humor, se comecei há pouco a marcar em cima o Jota Éle e se até a Éle entrou na roda (todos com links à direita, no menu), agora é a vez da ACR, jornalista (risos) que assina colunas no descartável, desprezível e abjeto caderno ELA, do jornal O GLOBO, ser alvo da ferina caneta que uso no Buteco. Mas o troço agora é mais sério. Trata-se de plágio que é, como se sabe, "a apresentação feita por alguém, como de sua própria autoria, de trabalho, obra intelectual etc. produzido por outrem", na definição precisa do Dicionário Houaiss.

A ACR, que não escreve rigorosamente nada de interessante, no dia 19 de março de 2005, mantendo a linha fútil que caracteriza o caderno já citado, publicou matéria intitulada "BISTRÔS PARISIENSES". Vamos transcrevê-la:

"Entre um restaurante estrelado e outro, tem sempre lugar para um bistrô quando o destino é Paris. Aqui vai uma lista dos meus preferidos, para guardar na agenda. Além de ótima comida, você economiza na conta para depois gastar em comprinhas: os menus custam de 28 a 38 euros por pessoa. Um casal, pedindo sobremesa e vinho, gasta cerca de cem euros. Nada mal para Paris, n'est ce pas? Aqui vão eles:

Aux Lyonnais: Rue St. Marc 32 (4296-6504). É o bistrô de cozinha lionesa de Alain Ducasse com Thierry de la Bosse, do L'Amie Louis. São de ajoelhar os ovos com camarões e cogumelos.

La Régalade: Avenue Jean Moulin 49 (4545-6858). Trocou de chef mas continua superbe com seu leitão à pururuca.

Chez Michel: Rue de Belzunce 10 (4453-0620). Tem o melhor ovo mexido com creme de Paris.

L'Os à Moelle: Rue Vasco da Gama 3 (4557-2727). O filé com tutano é imbatível.

Café Moderne: Rue Notre Dame des Victoires 40 (5340-8410). Peça o dourado com beurre blanc.

Chez Denise: Rue Prouvaires 5 (4236-2182). São famosas suas batatas fritas, que escoltam quase todas as receitas. O pé de porco, supimpa, não é desmembrado: vem com todos os seus 32 ossinhos."


Que nojo!

Perdoem o desabafo acima, mas tudo vai ficar mais claro.

O que dá a entender a solteirona pernóstica? Em primeiro lugar que é íntima de Paris, o que pode até ser verdade, mas que com o tom que imprime ao texto (que não é seu!) ganha cores de nauseante informação. Em segundo lugar que 100 euros é uma pechincha. Leiam isso aqui e vejam se a moça não mente, além de tudo. Mas enfim... Vamos ao que interessa.

Tenham em mente, entretanto, que ACR lista seis de "seus" bistrôs parisienses "favoritos", certo? Excelente. Agora tomem nota.

Em 13 de março de 2005, portanto seis dias antes da publicação da imunda matéria assinada pela plagiadora, o NEW YORK TIMES publicou extensa matéria, de autoria de Mark Bittman, intitulada "Does the Affordable Paris Bistro Still Exist? Oui.". Leiam a matéria aqui (é necessário cadastro, grátis e fácil de fazer!!!!!). Mas você não está com paciência de fazê-lo? Daqui, de pé no balcão imaginário do Buteco, eu mastigo tudo pra você! Eis a matéria, não na íntegra (é enorme e posso mandá-la para quem me pedir por aqui), mas com os principais trechos (nos quais fica evidente o plágio) negritados:

"CHEZ MICHEL

Inside Chez Michel, a cozy neighborhood bistro beyond the Gare du Nord, the atmosphere is a tad nautical, the menu dotted with specialties of Brittany. My companion and I share brouillade d'oeufs, the creamy stew of scrambled eggs and cream, a stew of wild boar and a fantastic brandade de morue, the elegant and classic salt cod mousse - this one served in a little jam jar, beautifully browned on top and accompanied by broiled tomato, tapenade and salad.

The prix fixe bill: 30 euros each, or $40, at $1.35 to the euro.

L'OS À MOELLE

And it is, almost amazingly so, especially the 38-euro prix fixe menu. The seating is fairly comfortable, too, so the couple of hours you spend indulging your palate won't leave you crippled.

The table is set with good rye bread with a super crust and bulots - the large snails that are so delicious one would happily order them if they weren't being offered free - served with a parsley sauce. This was followed by a soup of Jerusalem artichokes with crunchy croutons and a shaving of black truffles. My companion opted for seared foie gras, served quite rare, with apples, beet greens and a slightly sweet dressing, while I chose a black truffle omelet. Other highlights: big scallops, served in shells, with root vegetables, lots of butter, and salt, and a huge, gorgeous marrow bone, served with a small steak.

CAFÉ MODERNE

The prix fixe for both lunch and dinner is 30 euros.

In between, the food has its highs and lows: nicely crisped dorade, served with green cabbage, tiny clams and beurre blanc, was a winner, as was risotto with langoustine. Pan-fried chicken stuffed with garlic and herbs, with about a pound of mashed potatoes and a sweet and sour brown sauce, is a bit too straightforward, which isn't to say it was not good enough to finish. A couple of other dishes were questionable, especially the lasagna with escargot.

LA RÉGALADE

When the ownership (and chef) of La Régalade changed last summer, many of its regulars feared a great thing was gone forever.

When the staff deigns to notice you, you're brought a pork terrine, along with bread and cornichons. The terrine, which is so silken one might think it contained 80 percent fat, is divine; you could easily get full on this and a glass of Beaujolais, and probably leave without anyone's noticing.

But that would not be wise. You might miss the exemplary brouillade d'oeufs (with black truffles, for a supplementary charge), and you would not be able to exclaim, as did one of my companions upon cutting into a breast of pork with glistening, crunchy skin and a fork-tender underbelly, "This is the best thing I ever ate in my life."

The fixed price for both lunch and dinner is 30 euros, and though you'll undoubtedly select a dish that carries a supplement, at 40 euros it's still a bargain.

AUX LYONNAIS

There is a 28-euro prix fixe at Aux Lyonnais, but the best offerings are à la carte.

Here, the gutsy food is prepared with great attention, and the service is better than average. (You have to figure that Mr. Ducasse's staff is reasonably well trained.) I've eaten my way through the menu and have yet to find a nondessert dish that I didn't adore. Eggs cooked in cream with mushrooms and shrimp were universally beloved (one of my companions, who ate this back in October, is still talking about it); a stew of winter vegetables (served in January) was a surefire remedy for midwinter blues, containing chestnuts, salsify, turnips, shallots, onions, potatoes, a load of butter and a bit of good stock.

CHEZ DENISE

The côte de boeuf, served with marrow bones, is theoretically for two but really suitable for a family of four. On my most recent visit I ordered pied de cochon and was served an entire foot, grilled. The waiter mocked me because it didn't come with French fries - they are really not to be missed - but my companion's calf's liver did, and since she was busy with the liver and its mound of bacon, I got my share. The crisp-tender pig's foot was work, as it always is when the kitchen doesn't disassemble it (there are 32 bones in a pig's foot), but it was a chore well worth tackling. Other choices include kidney, brains, steaks and chops, and I've yet to find a loser among them. A meal comes to about 30 euros.

The price for a meal for two, with wine and tip, at these six restaurants is about 100 euro, or $135. And though they all accept credit cards, it's safer to assume that American Express will be refused; take your Visa card or MasterCard. You can travel to all of these places effortlessly (and relatively inexpensively) by taxi, or with a little work by Mètro.

Chez Michel, 10, rue de Belzunce, 10th Arrondissement; (33-1) 44.53.06.20.

L'Os à Moelle, 3, rue Vasco de Gama, 15th; (33-1) 45.57.27.27.

Café Moderne, 40, rue Notre-Dame-des-Victoires, Second; (33-1) 53.40.84.10.

La Régalade, 49, avenue Jean-Moulin, 14th; (33-1) 45.45.68.58. Reservations essential.

Aux Lyonnais, 32, rue St.-Marc, Second; (33-1) 42.96.65.04.

Chez Denise, 5, rue Prouvaires, First; (33-1) 42.36.21.82."


E o que é que há de importante para verificar?

Os seis restaurantes que a pífia ACR lista são EXATAMENTE os mesmos seis listados pela matéria do NYT.

Os detalhes apontados pela ordinária ACR são EXATAMENTE os mesmos apontados por Mark Bittman. Vamos a eles (estão negritados na matéria do NYT):

01) No CHEZ MICHEL, ACR recomenda o melhor ovo mexido com creme de Paris; Mark Bittman fala dele.

02) No L´OS A MOELLE, ACR recomenda o filé com tutano; o mesmíssimo prato citado por Mark Bittman.

03) No CAFE MODERNE, ACR recomenda o dourado com beurre blanc; Mark Bittman, claro, idem idem idem.

04) No LA RÉGALADE, ACR, de maneira imunda (usando a palavra superbe), recomenda o leitão a pururuca; mesma dica de Mark Bittman.

05) No AUX LYONNAIS, ACR diz que são de ajoelhar os ovos... (pausa para vomitar)... Evidentemente que Mark Bittman recomenda o mesmíssimo prato.

06) No momento de comentar sobre o CHEZ DENISE, aí sim, ACR perde ainda mais as estribeiras como se fosse possível. Ela ainda poderia - sem êxito, digo desde já - dizer que tudo foi uma terrível coincidência (risos). Mas ela exalta o fato de que, nesse bistrô de merda, o "pé de porco, sumpimpa, não é desmembrado: vem com todos os seus 32 ossinhos". Atentem para o que vai negritado no comentário de Mark Bittman. É de vomitar de novo.

Pois bem, meus poucos mas fiéis leitores, fica inaugurada, assim, a série BARBARIDADES DA ACR. Uma plagiadora. Um embuste.

Ah, sim. Evidentemente que nada aconteceu diante do plágio escancarado que, também é evidente, foi descoberto por alguém. ACR é editora (risos) do abominável caderno ELA.

Até.

6 comentários:

Ana Maria disse...

Que vergonha! Você tem certeza de que isso chegou aos ouvidos de algum superior da jornalista? Sua denúncia é grave e deixa claro o nível dos que trabalham com jornalismo hoje em dia. Muito vergonhoso.

Cesar Nascimento disse...

Edu mas que vergonha mesmo, como disse a Ana Maria.

Nos EUA isso daria demissão sumária.

Anônimo disse...

Edu, parabéns!!
Vomitei um monte...pelo amor de Deus, isso é demais...não dá!!! É muito podre!!!
Indignação TOTAL!!!

Anônimo disse...

Equeci de dizer que fui eu q comentei.

Abraços!
Arthur (Favela)

Roberto Fraga Jr disse...

Pois é Edu, infelizmente essa prática tornou-se muito comum no meio jornalístico.

Algumas dessas tristes figuras não conseguem escrever um parágrafo sozinhas. São umas bestas!!!

Um forte abraço!

Bruno Ribeiro disse...

Querido, por essas e outras é que o jornalismo de redação tem me deixado cada vez mais descontente. Isso é antiético. Incrível saber que essa jornalista não foi demitida por justa causa. E não foi porque, hoje em dia, plágio deve ser considerado um "surto de preguicinha", como escutei por aí.