8.6.06

PORTUGAL, A SAGA - PARTE IV

Porto, 29/05/06, segunda-feira

Acordamos cedíssimo já que temos ônibus marcado para às 9h. Nossos anfitriões, não é demais repetir, craques ao extremo na arte de receber bem, foram nos levar à Lisboa para a rodoviária. Chegamos faltando 15min mas... A rodoviária não é mais onde era! E tome de correr! Descobrimos o endereço da nova estação, Lisboa estava parada num trânsito de São Paulo, saímos do carro, e fomos três loucos - eu, Dani e Cidália - a correr entre os carros na tentativa de alcançarmos o ônibus (autocarro), em vão. Chegamos às 9h01min. Perdemos a viagem... Cidália conseguiu trocar os bilhetes, sem ônus, para às 10h30min. Encontramos o Próspero, que rolava de rir lembrando da cena, que ele assistiu de dentro do carro, de nós três esbaforidos correndo em fila indiana. Aproveitamos o tempo para conhecer a região próxima à estação, por sorte muito pertinho do hotel reservado para Lisboa, o Ibis José Malhoa, a Praça de Espanha, onde há o metrô e ônibus para diversos pontos da cidade, e finalmente embarcamos às 10h30min, com toda a ansiedade gerada pelos comentários efusivos dos dois, amantes da cidade do Porto. Chegamos às 13h45min, dormi quase que o trajeto todo. E preciso fazer pequena confissão. Alguma coisa aconteceu em meu coração quando pisei naquela cidade.

A estação fica na Rua Alexandre de Herculano, a poucos metros do Largo da Batalha, onde há a Igreja de Santo Ildefonso, e lembramos de cara da Inês, que ali perto nasceu, e para ela compramos um postal, encaminhado a Boston logo em seguida. Descemos a pé a Rua 31 de Janeiro e eis o primeiro grande assombro, diante da grandiosidade da Estação São Bento, de onde saem os trens (comboios) para diversas partes de Portugal, inaugurada em 1916 e construída no local de um antigo convento, cujo interior é um festival de azulejos de Jorge Colaço, retratando os transportes do passado, as festas rurais e cenas históricas.

Dani na Estação São Bento, com painel de azulejos ao fundo


Daí estávamos a um passo da Praça da Liberdade e da Avenida dos Aliados, onde ficava o hotel que reservamos, o Residencial dos Aliados, com entrada pela Rua Elísio de Melo 27, com diária do casal a 55 euros com café-da-manhã incluído. O quarto era bastante cofortável, atapetado, com ar-condicionado (fazia 37 graus!!!!!), deixamos as mochilas (as malas ficaram em Setúbal) e tomamos as ruas a fim de descobrir a alma dos tripeiros, tão afamada. Ah, sim. Atendeu-nos a Ana, na recepção, um poço de simpatia. É a malta do Porto, como nos disseram!!!!!

Subimos a Avenida dos Aliados em direção à Câmara Municipal, um edifício gigantesco, no final da avenida, imponente, ainda mais bonito com aquele tapete azul que era o céu, uma constante desde nossa chegada a Portugal.

Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados


Chegamos à Trindade, que fica atrás da Câmara Municipal e subimos a Rua Formosa, onde fui cantando "Formosa... não faz assim... carinho não é ruim...", eu sentia-me em casa, impressionantemente à vontade, mãos dadas com minha garota, flanando pelo Porto e captando, ou tentando fazê-lo, a tal alma das ruas. Dobramos à esquerda (subam conosco!) a Rua Santa Catarina, onde paramos para fotografias diante da belíssima Capela das Almas de Santa Catarina, dos princípios do século XVIII, com restauros e ampliação de 1801. Em 1929, as fachadas exteriores foram revestidas de azulejos de autoria de Eduardo Leite, representando a vida de São Francisco de Assis e de Santa Catarina. Ali mesmo, na Rua Santa Catarina, chegamos ao Mercado Bolhão, que... como direi?, é uma espécie de CADEG. Fiquei feito pinto no lixo. Frutas, legumes, verduras, embutidos (enchidos), peixes, carnes, flores, uma tremenda confusão, uma barulheira que me soava como música, compramos cerejas dulcíssimas (lembrei-me do Mauro nesse instante, eis que comprávamos cerejas sempre pela manhã quando estivemos na Itália) a 2 euros o quilo (baratíssimo, vim saber depois comparando preços) e sentamos no Restaurante da Gina, a nossa cara!

Um pé-sujo, muito simples, e sentamos no balcão, atendidos pela Patrícia. Pedimos uma garrafa de vinho verde geladíssima (fresquinha!), pães (sempre quentes e por que não há pães como esse no Brasil?!), e um farto prato de costelas de porco fritas com arroz, salada e batata frita, típico PF do Porto. Satisfeitos, tornamos à rua. E danamos de andar. Na Rua Santa Catarina mesmo passamos em frente ao Café Majestic, belíssimo, mas a preços proibitivos. Vimos a Igreja dos Clérigos, a Igreja dos Carmelitas, a Igreja do Carmo, entramos em padarias, em casas onde queijos e vinhos escorrem das paredes, e compramos uma bela peça de queijo da Serra da Estrela, depois de muito pesquisar para não comprarmos errado, na Casa Lourenço, na Rua do Bonjardim número 417, com uma garrafa de vinho tinto recomendada pela dona da casa, tudo por 23 euros e meio. Já eram quase oito da noite quando tomamos o rumo do hotel, passamos antes numa padaria para comprar pães para nosso piquenique no quarto (dá-lhe, Tijuca!), tomamos banho, abrimos o vinho, provamos do queijo, deixamos tudo fechadinho para continuarmos na volta (dá-lhe, Tijuca!) e tomamos a direção da Ribeira, e tudo a pé.

Dani no quarto com o Serra da Estrela, o vinho, os pães, no nosso primeiro piquenique (dá-lhe, Tijuca!!!!!)


E, meus poucos mas fiéis leitores, permitam-me o derramamento emocionado. Mas quem vem e atravessa o rio junto à serra do Pilar, vê um velho casario que se estende até ao mar, quem vê o Porto ao vir da ponte vê cascata são-joanina dirigida sobre um monte no meio da neblina. Por ruelas e calçadas, da Ribeira até à Foz, por pedras sujas e gastas, lampiões tristes e sós. Quem vê o ar grave e sério da cidade que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria, quem vê a cidade abandonada nesse timbre pardacento, em seu jeito fechado de quem mói um sentimento, sempre como a primeira vez em cada regresso à casa, (re)vê o Porto nessa altivez de milhafre ferido na asa... Eu parecia ouvir a voz do Rui Veloso, cantor que me foi apresentado pelo Próspero na véspera, cantando essa espécie de hino do Porto, cidade que senti, creiam em mim, como se minha também fosse.


visão da Ponte Luís I a partir da Ribeira


"O Porto é uma cachaça", escreveu-me pouco antes da viagem o Oswaldo Bombeiro. E é, de fato é.

Caminhar pela Ribeira emocionou a mim e à Dani, aquele sorriso aberto em dia de festa, os olhos mais lindos de certo modo marejados às margens do Rio Douro, um peso de séculos nos meus ombros sem qualquer explicação lógica, e ficamos ali, os dois, sentados no cais, e a mesma emoção que agora me balança me assaltou diante da grandiosa Ponte Luís I, inaugurada em 1886, ligando a Ribeira à Vila Nova de Gaia, e a noite fresca, o céu claro, tudo contribuía para que fosse ainda mais intenso e denso o impacto causado por aquelas pedras, por aquele chão, por aquelas margens, e foi instintivo pegarmos o telefone para agradecer aos queridos amigos de Setúbal, que têm o Porto no coração, cada dica, cada palavra, cada gesto.

visão da Ribeira com Dani à direita, de costas


Não havia muito o que fazer.

Ficamos os dois de namorico, embevecidos com cada instante de céu, com cada nova luz que surgia, com os cheiros, com os sons, com as palavras, tripeiros até a alma, foi o que dissemos um pro outro. Tomamos o rumo do hotel com a promessa feita:

- Três dias em Porto, três noites na Ribeira.

Ponte Luís I vista da Ribeira


Voltamos a pé e paramos na Cervejaria Sá Reis, na Praça da Liberdade, atendidos pelo Sr. Bessa, comemos 3 bolinhos de bacalhau (divinos, com menos de 1% de batata!), vinho tinto e vinho verde, tudo por míseros 5 euros e meio. Ainda tivemos ânimo para pararmos no Café Guarany, no mesmo edifício do hotel. Pedimos e dividimos uma Francesinha, típico do Porto. Uma típica Francesinha (deliciosa!) tem por base duas fatias de pão entre as quais se dispõe diversos ingredientes (bife, carne assada, fiambre, salsicha fresca, mortadela, lingüiça e camarão), sendo tudo coberto com queijo amarelo que vai derreter no calor do forno e formar uma espécie de capa transformando o sanduíche numa caixa, e que vem num prato cercado de molho. O molho, eis o segredo. Pelo que descobri é feito com a gordura do presunto, tomate, cebola, alho, louro, vinho branco, manteiga, molho inglês, farinha, o molho do assado das carnes e piri-piri, aquele mix de pimentas com azeite, vinagre e sal. Outra promessa:

- Francesinha sempre que possível!

Pedimos a conta. Estamos com sono e meia garrafa de vinho tinto nos espera no quarto!

Todas as 41 fotos do quarto dia de viagem estão aqui.

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Como amanhã começa a Copa do Mundo, preferi pôr, hoje, dois textos sobre a viagem, já que pelo menos amanhã, definitivamente, o tema será o futebol.

Até.

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