17.8.06

AS COISAS SIMPLES - PARTE II

Vou retomar hoje o tema "AS COISAS SIMPLES".

Já falei da dificuldade que foi encontrar meu radinho de pilha, já falei da dificuldade que é encontrar, hoje, os mais simples sabores de sorvete, mercado também invadido por pernosticismo. E hoje vou falar, um de meus assuntos preferidos, de buteco.

Antes, brevíssima digressão.

O pernosticismo grassa numa velocidade assustadora, e explico.

Aqui na Tijuca o arroz acompanha o feijão. No Leblon o feijão é escoltado pelo arroz.

Aqui na Tijuca a gente serve massa com queijo ralado. No Leblon a massa vem salpicada com lascas de parmesão.

Evidentemente que não só no Leblon, mas o Leblon é o bairro de "Páginas da Vida", obsessão dos apedeutas d´O GLOBO, e personifica esse status pernóstico que vem destruindo, aos poucos, a delícia das coisas mais simples.

Antes, ainda, de falar sobre os butecos, e dando um tom szegeriano ao Buteco, vamos a trechos retirados do livro "Tecnologia, Guerra e Fascismo - Coletânea de artigos de Herbert Marcuse", editora UNESP. O que tem isso a ver?, ouço daqui a pergunta. Os trechos são auto-explicativos:

"A tecnologia (...) é (...) uma forma de organizar e perpetuar (...) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação.

(...)

Para compreender toda sua importância, é necessário examinar rapidamente a racionalidade tradicional e os padrões de individualidade que estão se dissolvendo no presente estágio da era da máquina.

(...)

O indivíduo humano (...) apoiava valores que contradizem flagrantemente os que predominam na sociedade de hoje.

(...)

Todo protesto é insensato e o indivíduo que persiste em sua liberdade de ação seria considerado excêntrico.

(...)

A mecânica da submissão se propaga da ordem tecnológica para a ordem social; ela governa o desempenho não apenas nas fábricas e lojas, mas também nos escritórios, escolas, juntas legislativas e, finalmente, na esfera do descanso e lazer."


Bem. Por isso eu sou considerado um excêntrico quando fico dando murro em ponto de faca gritando contra essas mentiras imundas que são os bares-mentira que a patuléia freqüenta deslumbrada acreditando estar, ó, no que há de melhor.

Confraria do Bode Cheiroso, na Rua General Canabarro, na Tijuca

Os butecos autênticos, primitivos, originais, estão sumindo justamente por que vêm sendo destruídos pela força econômica das franquias (Belmonte, Devassa, Informal, Conversa Fiada, Manoel e Joaquim, Pirajá, Original dentre tantos outros) e, o que é pior, gente da melhor qualidade passa a achar natural, sem perceber que é manipulada pelo grande aparato (que tem no Jota, por exemplo, um propagador), beber caipirinha - só pra citar um exemplo - com um palito feito de cenoura crua enterrado no copo, coisa nojenta que acontece no Belmonte, foi a Fumaça que me contou. Daí eu preciso citar outro trecho de autoria do Marcuse:

"Mas o homem não sente esta perda da liberdade como o trabalho de uma força hostil e externa: ele renuncia à sua liberdade sob os ditames da própria razão. A questão é que, atualmente, o aparato ao qual o indivíduo deve ajustar-se e adaptar-se é tão racional que o protesto e a libertação individual parecem, além de inúteis, absolutamente irracionais. O sistema de vida criado pela indústria moderna é da mais alta eficácia, conveniência e eficiência. A razão, uma vez definida nestes termos, torna-se equivalente a uma atividade que perpetua este mundo. O comportamento racional se torna idêntico à factualidade que prega uma submissão razoável e assim garante um convívio pacífico com a ordem dominante."

O que eu quero demonstrar, e peço perdão desde já pelo tom mais sério do que de costume - ou nem mais sério, mas mais formal - é que as pessoas, e há várias queridas minhas entre elas, não entendem a razão que me leva a não entrar, em nenhuma hipótese, num lixo desses como os que já citei, por uma questão de coerência, de protesto, de manifestar um não rotundo (ave, Brizola!) à imposição de comportamento que o aparato, incessantemente, imputa à sociedade.

É preciso estar atento e forte, permanentemente, para que nossas convicções mais arraigadas não sejam diluídas, aos poucos, ao ponto de passarmos a achar natural os troços mais artificiais e mentirosos.

Fechando, então, deixo com vocês um filminho que fiz, no sábado passado, num buteco na Tijuca, minha gloriosa Tijuca, para onde levei meu sobrinho, Henrique, 13 anos de idade, com a intenção de injetar carioquice nas veias do menino, em quem aposto minhas fichas. A cerimônia do lava-pés, que vocês nunca - esse "nunca" dito com a ênfase szegeriana - verão nessas bostas exaltadas pelo Jota.


Até.

7 comentários:

Renato Machado disse...

Edu! Você está construindo mesmo que sem querer uma grande tese sobre o assunto! Eu tenho impressos os textos do Jota e eles são realmente um painel que demonstra claramente o que você defende. Meus parabéns. Se o Rio contasse com defensores tão aguerridos e apaixonados como você nós não teríamos perdido já tantas coisas tradicionais na cidade. Pode contar com meu apoio sempre. Um abraço.

Caio Vinícius disse...

Edu, quantas vezes já vi essa cena, em algumas delas só restava a mesa aonde eu estava no chão e as outras todas viradas pra cima..rsrsrs..e a espuma negra escorrendo pra porta, tudo pra no dia seguinte o butecão re-abrir lindo e maravilhoso....
Uma cerimônia realmente...rs

Abraço!!
Caio

Adriano disse...

É a primeira vez que escrevo aqui no Buteco, que leio todos os dias entusiasmado. Essa sua briga é minha também. E parabéns pelo texto de hoje, muito bem escrito, centrado, muito bom. Já espalhei o link entre meus amigos. Valeu e viva o pé-sujo!

Maria Paula disse...

Edu, hoje vi um absurdo. Sabe aquele "butequim" que abriu em frente ao Galito's? O Justa Causa? Pois é. Vi um adesivo promocional do bar: Justa Causa: butequim e sushiquim. Sushiquim???

Dá para acreditar?

Szegeri disse...

Edu, Edu...
Caio, Caio...
Renato, Renato (és o enófilo?)...

Há que se defender essa causa nobre até a morte, mesmo. Outros já defenderam outras causas, aguerridos e apaixonados. Mesmo assim, perdemos as escolas de samba, perdemos o futebol. Quase perdemos o carnaval, o samba, o culto dos orixás. Mas resistimos. E resistiremos. Até a morte. Nossa ou deles.

Lembra do O botequim é um botequim... do nosso impagável irmão que há um ano fez aquele forfait imperdoável? Eu já tinha atacado de A carnavalização dos butiquins, em resposta ao seu texto sobre o bar da Dona Maria
Que saudade daquela Conexão...

Marcuse poderia ser citado, sobre o tema, em muitas outras passagens. Bem como Adorno, Derrida, Boudrillard, Horkheimer, Benjamin, tantos outros. Fico com Bandeira, meu irmão, que você semi-citou de soslaio: "Quero é a delícia de poder sentir as coisas mais simples"

Eduardo Goldenberg disse...

Renato: eu sozinho não salvo nada, nem a mim mesmo. Juntos, sim, juntos nós podemos, pelo menos, fazer barulho, o que já é bastante divertido. Valeu!

Caio (com quem venho costurando belíssima tabelinha por email: mas quando eu escrevi cerimônia eu não estava brincando, não! É, mesmo, uma cerimônia, feito uma reza, um ritual, sabe? Que nem a Portela na avenida (essa foi pra agradar o Szegeri). Valeu!

Adriano: seja bem chegado. E vamos à luta! Valeu!

Maria Paula: é claro que dá pra acreditar, MP, é claro! Desses lugares nojentos, que eu não freqüento em nenhuma hipótese, só se pode esperar daí pra pior!

Szegeri: que saudade da Conexão mesmo! E que saudade do Toledão, mano! Que bom brigador seria ele, hein, nessa causa? Mas você deve lembrar do que eu escrevi na fita branca que seguiu dentro do barco que levou as cinzas do malandro pelo Rio Maracanã, não lembra? A gente briga por ele, pô! Beijo! Ah, sim, e um detalhe: a citação do Bandeira foi sem querer, viu?

Anônimo disse...

Edu, meu cumpadre. Antes de tudo, perdoe-me por estar em falta com o Buteco. Estou com dificuldades em ter acesso ao mais elementar da tecnologia, mas isso explico outro dia.

Passei aqui apenas para registrar um elemento para seu raciocício e posterior comentário.

Outro dia estávamos eu e o Júlio divagando sobre o ridículo das pessoas que, em tempos de bastante frio - o que graças a Deus não é o caso desse inverno -, migram do frio para os locais de frio incomensurável. Tudo, evidentemente, em busca do requinte e em detrimento do mais simples.

Claro que pode-se ser autêntico nas quatro estações do ano. Mas parece-me antinatural, ao menos para os brasileiros, essa busca desenfreada pelo que possa haver de chique, garboso e elegante no frio. Aí as pessoas vão a Campos do Jordão, para ficar aqui no meu triste estado de São Paulo. E se encapotam de casacos e peles e cachicóis e toucas e luvas e etc. E eu pergunto: pra que, meu Deus, se até as andorinhas já descobriram que passar frio é uma merda e é antinatural, de maneira que migram para o continente - isso, elas atravessam continentes atrás do calor - mais quente.

Se o homem conservasse a simplicidade da andorinha, nesse caso, sairia de Campos de Jordão em desabalada carreira, largaria os vinhos e os chocolates, e buscaria o aconchego de um sol e um butequim. Tudo muito simples, claro e até óbvio.

Um abraço e espero que até breve.

Borgonovi