14.8.06

MOTORÁDIO

Antes de entrar no assunto de hoje, alguns esclarecimentos.

O Buteco manteve-se sem textos novos desde 09 de agosto de propósito. Agradeço a todos que me escreveram preocupadíssimos - e como são curiosas as relações que gera um blog. Quis apenas deixar, por cinco dias, a longa entrevista com o Fausto Wolff como página inicial do blog para que todos pudessem lê-la com calma e para que perdurasse, por um bocadinho mais de tempo, minha homenagem ao Fernando Toledo.

Feitos os esclarecimentos, e antes ainda de entrar no assunto de hoje, um brinde de pé diante do balcão do Buteco a esse grande sujeito que faz anos hoje, Wlader Dutra Miranda, meu sogro, meu amigo, o legendário Comandante.

Comandante em Volta Redonda, 30 de julho de 2005

Vamos, então, em frente.

Vocês sabem que eu estive no Maracanã há umas semanas, como contei aqui, e vivi, na rampa de subida do estádio, emoções violentíssimas que me fizeram chorar como criança.

O que não lhes contei é que senti-me um aleijado durante a partida.

Faltava-me o radinho de pilha.

E eis, então, o assunto de hoje, o palpitante assunto de hoje.

Um homem como eu, com 37 anos de idade, com mais de 25 anos de futebol nas costas, não concebe a arquibancada sem o rádio colado ao ouvido. Confesso que a ida ao Maracanã naquele sábado, decidida de última hora, me fez nem lembrar do radinho de pilha. Mas fui, durante os 90 minutos de jogo, um homem com urticária na orelha esquerda. A mão esquerda na orelha esquerda, aquele vazio, aquela angústia sem o radinho e decidi já descendo a rampa, em voz alta:

- Sábado que vem eu venho com meu radinho.

E aí está o drama.

Não havia radinho.

O último, um Motoradio preto, pequeno, lembro-me que perdeu-se há anos. Teria, então, que comprar um novo radinho de pilha.

Senti-me - mais ainda, se isso é possível - matusalêmico, velho, caquético, encarquilhado diante do balcão das lojas no centro da cidade perguntando às mocinhas de piercing:

- Eu gostaria de ver radinhos de pilha.

As reações variaram.

Umas puseram a mãozinha em concha diante da boca e gargalharam sem nenhum pudor, o único resquício de pudor era a mão impedindo o arremesso dos perdigotos. Outras balançaram a cabecinha em direção ao ombro esquerdo, depois ao direito, fizeram beicinho e devolveram:

- Um pendrive, senhor? Ou um MP3?

Eu tentava, em vão, explicar o que eu queria.

Algumas até entenderam. Uma fez um "ahhhhhmmmmm, sei..." e veio ao balcão com um rádio-relógio digital de cabeceira. Como eu devo ter feito uma cara estranha, ela disse:

- Pode funcionar com pilha, tio.

Nem tentei explicar nada. Agradeci e fui embora com aquele "tio" cravado na minha testa enrugada.

Já sem ânimo entrei numa filial das Casas Bahia.

Com os olhos embaçados - eu já chorava decepcionado - eu disse à moça:

- A senhora tem radinho de pilha? Dos antigos... um Motoradio...

Gentilíssima, penso que com pena do idosão à sua frente, explicou-me que a Motoradio fora processada por uma empresa americana, que agora a empresa chamava-se Motobrás e que, sim, ela tinha um radinho de pilha.

É rigorosamente impossível descrever a emoção diante daquela caixa, depois de tantas negativas e de incontáveis recusas para adquirir rádios vagabundos coreanos, chineses, esses lixos que nascem do chão na Rua Uruguaiana.

Uma caixa cafona, como eu, de papelão, azul e branca, com apenas uma bola de futebol desenhada na frente, a marca MOTOBRÁS em destaque, com aquele "O" característico - e somente os jurássicos como eu saberão do que falo - e fui um feliz com minha compra, como fui um feliz no sábado, durante o sonolento Flamengo x Ponte Preta, com meu radinho de pilha novo colado ao ouvido durante todo o tempo.

Volto ao tema - esses saudosismos, esse massacre da modernidade - amanhã mesmo.

Até.

5 comentários:

Caio Vinícius disse...

Edu,

Bota uma foto da relíquia aí.
Da caixa e do radinho tb.

Vc despertou a curiosidade dos mais novos, como eu (28 anos!!!rs).

Caio

Palhaço da Casas Bahia disse...

Legal essa do radinho!
Muito bem sacada!
Felicidades!

Anônimo disse...

Excelente Edu,
Sou um colecionador de radios e tenho um radinho desse, chama-se Dunga IV, ele é prateado e tem uma recepção de áudio maravilhosa em AM.
Está à venda na Motobrás.
www.motobras.com.br, lá tem toda a linha de rádios jurássicos tupiniquins.
Confesso que fiquei emocionado com seu texto.

Abração,

Eduardo
eduardo@technetit.com.br

Leandro disse...

Eduardo, essa semana também passei por isso: ir comprar um simples rádio a pilha, numa loja cheia de Mp3, Blu-ray, Telas full HD, etc...
Já tive um Dunga II, que durou uns 10 anos acho, acabou-se de tanto usar. Depois veio o Dunga III, que também se acabou de tanto usar e ir nos estádios.
Depois de um tempão comprando essas #$%#$@ de xing ling , resolvi procurar um outro Motoradio (ou Motobras) e acabei achando o Dunga IV.
Desde que comprei, o meu Sony ICF-SW7600GR todo digital ficou lá guardadinho no canto morrendo de ciúmes... ehehehe

Um abraço.

Leandro
Tubarão/SC

josebet disse...

Lembro-me muito bem da marca MOTORÁDIO, afinal, já tive um! E quem não teve? Receptores de rádio de excelênte qualidade, do tempo em que se podia ouvir rádio em AM. Maravilhava-me, na década de 80, em ouvir emissoras como a Gaúcha, Guaíba, Globo, Super Rádio Tupi, Excelsior, Nacional, Bandeirantes, etc. Quem nunca ouviu o programa "Gaúcha na Madrugada"? E o programa humorístico "A Turma da Maré-Mansa" na Rádio Tupi do Rio?

Bons tempos aqueles em que você colocava o rádio fora de sintonia e ouvia somente o chiado de "rádio fora de estação". Hoje, mesmo com o rádio sintonizado numa emissora, ouve-se tudo que é tipo de ruído de interferência. É antena de celular por todo lado, internet sem fio, modem de internet, rêde elétrica "poluída" de RF e outras interferências. Até teclado de computador e mouse sem fio já existe!

Infelizmente a recepção em AM, Ondas Médias e Ondas Curtas, está morrendo aos poucos. Maldita inclusão digital!